Capítulo 20

1472 Words
Antes que ele respondesse, um Uber parou e Thomás desceu. Deu boa noite pros dois, abriu o portão e Kaori falou: — Oi, Thomás, deixa aberto por favor, eu só vou ali na calçada um minutinho, saí sem as chaves. Ele respondeu sorrindo pra ela, levantando as sobrancelhas e de costas pra Daniel: — Quer que eu te espere? Kaori viu a oportunidade perfeita de provocar Daniel mais um pouco. — Sim, por favor, só me dá um minuto. — Ela respondeu rindo. Thomás ficou mexendo no celular. Kaori saiu pra fora e falou que estava cansada, com sono. Daniel pegou a carteira, entregou o dinheiro e falou irritado: — Não te devo mais nada. Vou viajar no fim de semana, por isso queria falar com você hoje. Tchau. Kaori respondeu no mesmo tom: — Tchau. Sem beijo e nem abraço. Entrou, fechou o portão e Thomás foi caminhando ao lado dela, falou brincando: — Ninguém ia ver se eu te roubasse esse dinheiro. Kaori riu, respondeu. — Não mesmo. Cadê o porteiro daqui? Que lugar estranho. Ele respondeu olhando dos pés à cabeça dela: — Estranho mesmo. Os moradores andam vestidos como se estivessem em casa. Kaori falou rindo: — Vai me denunciar ao síndico? E você tá vindo de onde essa hora? Fica andando de noite? O porteiro é você? Zelador? Thomás riu e disse que estava trabalhando. Quando chegaram no elevador, ele falou: — Vou de escada, mas é melhor você não ir junto, você não é a única que se esconde lá. Kaori ficou sem entender. Ele sorriu, mostrou um isqueiro e foi para as escadas. Ela sorriu, balançando a cabeça, meio confusa. Ele perguntou: — Você não curte fumar um? Aí ela entendeu. Não era cigarro comum. O elevador chegou, mas Kaori foi pelas escadas com ele. Começaram a conversar. Ela perguntou se ele sempre fazia aquilo ali e se não tinha risco de alguém ver. Ele respondeu que não tinha câmera e que ninguém além dos dois andava por ali. Kaori tragou o cigarro e começou a tossir. Pararam de subir. Thomás riu e perguntou: — Você já fez isso antes? Me diz que não tem quinze anos, porque agora que parei pra pensar isso é B.O. demais, hein? Kaori soltou a fumaça na cara dele, sorriu e respondeu: — Dezesseis pode ser? É menos B.O. daí? Ele perguntou se ela estava falando sério, tomou o cigarro da mão dela ela respondeu: — Nunca iremos saber. E você? Tem quantos anos? Trabalha com o quê à noite? Sentaram nas escadas. Ele respondeu: — Acho que você não pode me denunciar ao síndico, senão eu espalho fotos suas de pijama por aí. Tenho vinte e sete, sou músico. Ela pediu pra ele cantar uma música pra acreditar. Ele ficou sem jeito, disse que não queria e perguntou se Daniel era namorado dela. Os dois estavam lado a lado, no mesmo degrau. Kaori já esperava que ele se aproximasse. Ela respondeu olhando nos olhos dele, pegando o cigarro: — Não. É só um amigo. Se eu tenho dezesseis, ele é meio velho pra mim, você não acha? Os dois riram. Thomás disse que sim, que então ele mesmo era onze anos mais velho. Kaori se aproximou, soltou a fumaça perto da boca dele e respondeu: — Eu gosto de homens mais velhos. Pegou ele de surpresa e o beijou devagar, Thomás correspondeu, foram aumentando a intensidade. Trocaram selinhos, ela levantou sorrindo e falou enquanto subia as escadas: — Tenho dezenove, não dezesseis. Ele ficou sentado, pensativo. Kaori foi pra casa rindo sozinha. Fazia um tempinho que não fumava e também que não roubava um beijo de ninguém. E o melhor tinha sido deixar Daniel com a pulga atrás da orelha. Logo ele mandou mensagem perguntando quem era aquele cara, dizendo que estava m*l porque ela nem quis falar com ele direito. Ela respondeu que era um vizinho e que sem as chaves não podia ficar pra fora. Ele perguntou por que ela demorou tanto pra responder. Ela o ignorou, não falou mais nada e foi dormir. No dia seguinte, depois do trabalho, foi na casa de Bibi. Ela ainda estava de atestado. Ficaram deitadas no sofá da sala. Bibi comentou que Enzo ia mudar de estado com a namorada. Kaori ficou brava porque ele não tinha contado. Bibi respondeu: — Amiga, ele tentou falar com você aquele dia. Por que você não manda uma mensagem ou liga? Pra se despedir só. Kaori disse que não ia fazer nada daquilo. Se ele não contou, foi porque não quis. E também não queria a outra brigando com ele por causa dela. Decidiu deixar aquilo pra lá. Ela foi pra casa se arrumar para ir ao curso. Quando estava saindo do quarto, Joyce chegou dizendo que iria levá-la, porque o pai dela tinha tido um compromisso de última hora. No caminho até a autoescola, Joyce foi conversando normalmente com ela, perguntando como estavam as coisas e tentando ser agradável. Quando chegaram, Joyce perguntou se Kaori iria fazer alguma coisa depois dali e se tinha dinheiro para pegar um Uber caso precisasse. Kaori respondeu que iria direto pra casa mesmo e que tinha dinheiro. Joyce então pegou cinquenta reais na bolsa e estendeu para ela. — Seu pai e eu vamos sair, então não dá pra te buscar. Toma esse dinheiro... cinquenta dá? Pra você ir pra casa e comprar algo pra comer? Kaori disse que dava, agradeceu e entrou na autoescola. Na hora do intervalo, o pessoal começou a combinar de sair depois da aula. Era sexta-feira e estavam animados para ir a um barzinho beber e conversar. Kaori acabou aceitando. Fazia tempo que não saía com gente nova e aquilo pareceu uma boa distração. Enquanto estavam organizando tudo, o celular dela vibrou. Era Daniel perguntando onde ela estava. Kaori ignorou. Pouco depois ele começou a ligar insistentemente. Ela saiu da sala para atender. Daniel disse que não tinha viajado e que agora tinha o fim de semana inteiro livre para os dois ficarem juntos. Inventou uma grande mentira e conseguiu mandar a noiva viajar sozinha para a casa dos familiares dela. Disse aquilo como se fosse uma vitória. Kaori, apesar de ainda estar tentando bancar a durona, sentiu a saudade apertar e acabou cedendo. Passou o endereço da autoescola e disse o horário em que sairia. Logo mandou uma mensagem para o pai avisando que iria sair com o pessoal do cursinho. Ele respondeu pedindo apenas que avisasse quando chegasse em casa e disse que também chegaria tarde. Quando contou para o pessoal que não iria mais, a menina que sentava atrás dela perguntou o motivo. Kaori respondeu que iria sair com um cara. Ainda teve que inventar desculpas porque a menina também não iria e queria carona. Kaori foi uma das últimas a sair. Daniel parou o carro virando a esquina. Ela foi até ele, entrou e os dois se beijaram. Daniel disse que não sabia exatamente o que fariam, mas tinha certeza de que aproveitariam muito aquele fim de semana juntos. Ela pediu que ele a levasse até em casa primeiro. Queria pegar o uniforme e a mochila com as coisas dela. Daniel concordou. Quando chegaram, ele ficou esperando no carro. Kaori subiu sozinha e demorou um pouco. Aproveitou para tomar banho e colocou uma lingerie bonita preta de renda. Depois saíram para comprar comida e foram para a casa dele e da noiva. Daniel já tinha pensado em tudo. Pegou lençol e cobertor para os dois ficarem mais à vontade ali. Guardou o carro na garagem e trancou tudo. Kaori olhou em volta, sentindo um leve desconforto. Perguntou: — Você não acha que estamos abusando demais ficando justamente aqui? Daniel riu enquanto organizava as coisas. — É melhor do que motel. Aqui não tem risco de ver ninguém conhecido. Aqui é só você e eu, sempre. Mesmo ouvindo aquilo, Kaori ainda estava mais fria e distante, principalmente pelas últimas atitudes dele. Daniel começou a arrumar a cama, passou por ela e deu um beijo demorado em seu pescoço. Ela foi para o quintal, sentou e abriu uma cerveja. Daniel apareceu na porta e perguntou: — Já quer comer? Ela respondeu: — Daqui a pouco. Enquanto isso, Kaori começou a conversar com Bibi pelo celular. Daniel foi até ela, impaciente, ansioso para levá-la logo para cama. Puxou Kaori pela mão e a levou até o quarto. Começou a tirar a roupa dela com pressa. Kaori sorriu de forma cínica e provocou: — A gente pode só dormir... já que temos o fim de semana todo. Daniel tirou os tênis dela e respondeu, olhando nos olhos dela: — Não consigo acreditar que você não está com saudades de mim. Todos os dias eu fiquei pensando em você e no que a gente ia fazer quando estivesse junto de novo.
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