Capítulo 3

1190 Words
Ele respondeu, colocando o cinto e se preparando pra sair do estacionamento: — Por que eu te sequestraria se você tá vindo comigo por vontade própria? Olha… eu tô começando a ficar arrependido. Ela disse, colocando o cinto: — Ah, com certeza. Um dia você vai se arrepender disso. Disso eu não tenho dúvidas. Ele perguntou, sem entender: — Por quê? Ela respondeu: — Porque eu sou problemática. Você ainda não percebeu, seu bobo? Você é tão bonzinho, né? Esforçado, estudioso… você tem uma cara de CDF, nerd, filhinho da mamãe. E esse seu cabelinho? Ai… é tão fofo. Ele começou a rir, falou curioso: — Fofo? Você tá me ofendendo ou me elogiando? Eu tô ficando realmente na dúvida. Ela respondeu com um sorriso debochado. — Os dois passivo-agressivos, sabe? Eu sou assim. Você nunca sabe se eu tô brincando, se eu tô falando sério, se eu já fiquei maluca. Ele sorriu, foi dirigindo e disse: — Ah, entendi. Então ser nerd, todo certinho, é uma coisa boa, é isso? Porque isso eu realmente sou. Sempre fui muito estudioso. Gosto de vídeo game, mangá. Ela respondeu, sensitiva: — É… você é gatinho. Ele perguntou: — Então, aonde você mora? Porque você entrou no carro e não disse nada. Aí eu vou ter que dar um jeito… vou te levar pra minha casa. Ela perguntou se ele morava sozinho. Ele disse que morava com os pais. Ela falou: — Você é casado? Você tem namorada? Porque aliança você não usa. Ele respondeu sério: — Tenho noiva. E tenho aliança, sim, mas ela estragou e eu tô esperando outra. Vou trocar de aliança em breve. Ela ficou olhando com cinismo, surpresa, com aquele olhar de julgamento. — Ah… entendi. Noiva. Tinha que ser. É difícil mesmo um bom partido ser solteiro. Ela fez uma pausa e completou: — E a sua noiva não ficaria brava se visse você me dando carona? Ele respondeu com deboche: — Ah, talvez ela até ficaria… mas ela não vai saber, porque eu não vou contar. Você vai contar? Ela disse que nem saberia como, porque não conhecia a noiva dele. Ele falou: — Vocês mulheres são tão problemáticas. Qual é o problema de dar carona pra uma aluna, uma colega? Vocês veem maldade em tudo. Ele falou isso com muito deboche, rindo, o que fez ela sacar na hora que ele queria. Ela respondeu: — Depende. Você tá com maldade? Ela teria motivo pra ter ciúmes de mim com você? Da minha parte, eu posso dizer que sim… agora da sua eu já não sei. Ele disse, estacionando o carro em uma rua mais afastada: — Eu acho que eu posso dizer que sim. Tem vinte mesmo? Você é de maior, né? Porque você é tão pequenininha, miudinha… fiquei meio curioso. Isso sim seria um problema. Ela sorriu, percebendo que ele estava encostando o carro em uma rua vazia, embaixo de uma árvore bem escura. — É sério, já passei dos dezoito. Por que você parou aqui? Ele respondeu desconcertado se sentindo ansioso: — Pra gente conversar. Pra eu fazer as perguntas. Ela começou a rir, flertando, jogou o cabelo e disse: — Ah, perguntas? Então pode começar. O que você quer saber, professor? Daniel respondeu, tirando o cinto, olhando ao redor, reparando no movimento da rua: — Por que você estava chorando? É isso que eu quero saber. Só pra começar. Você tava com uma carinha triste. A verdade é que ela realmente estava muito triste, frustrada. Uma bomba-relógio prestes a explodir bem no colo do seu lindo professor, que não deveria estar numa situação daquela com ela, afinal, ele era comprometido. Kaori suspirou e respondeu, exultante: — Problemas, problemas… Pessoas bonitas também sofrem, sabia? Pessoas bonitas também têm problemas. E muitos. E, se você quer saber, eu acho até que têm mais. — Me diz você, que é tão bonito… você também não tem uns probleminhas pra ficar triste? Ele sorriu, reparando no quanto ela era irônica, o que o deixava bastante atraído pela personalidade forte dela. E respondeu: — Ah, de vez em quando, né? Tem que ter… senão o que seria da vida? — A vida não é um morango — ela disse. E logo completou, com ironia: — Talvez seja, já que a maioria dos morangos são azedos. E você, professor… vai me responder perguntas também? Posso perguntar o que eu quiser? Daniel respondeu: — Sim. Qualquer coisa. Pergunte. Serei sincero, eu prometo. Então ela se virou sutilmente para o lado dele, cerrou os olhos e falou, intrigada: — Você gosta de… estar com alunas? Você sempre da carona? Fica flertando, jogando esse seu charme de nerd mais velho, careta? Ele colocou uma música de rock pra tocar, Metálica. Uma música romântica, bem antiga. E respondeu, mais sério: — Não. Não pra todas as suas perguntas, não. Não é do meu feitio. É que eu realmente fiquei intrigado com você. Pra não dizer atraído, porque a aparência atrai… mas a essência mantém. Ele respirou fundo e continuou: — Olha, eu sei que eu não devia estar aqui. Eu sei que eu tô fazendo algo errado só de estar conversando com você. Mas é que me deu vontade. E eu não sou uma pessoa impulsiva, nem influenciável, pra ser sincero. Ela franziu a testa e respondeu, confusa: — Entendi… mas por quê eu? É muito difícil acreditar que você não é esse tipo de homem, porque o curso começou só há alguns dias e eu já tô no seu carro, com você, a sós, no escuro. O que é bem confuso de digerir, digamos assim. Ele sorriu sutilmente e disse: — Eu queria que você se visse com os meus olhos. Que soubesse os efeitos que você causou em mim em tão pouco tempo. Aí você entenderia por que você. Ele a deixou sem graça. Ela abaixou o olhar, ficou com o rosto corado, as bochechas vermelhas, e respondeu baixinho: — Sei… sei. E ficou quieta, olhando as próprias mãos. Ele começou a achar que ela não estava a fim, apesar de estar dando muitos sinais de flerte. Então perguntou se ela queria ir embora e disse que não queria deixá-la com uma má impressão, nem forçar situação nenhuma. Falou que achava que eles poderiam conversar em outra oportunidade, fora da escola, porque lá dentro eles não poderiam se expor. Pediu desculpas, foi colocando o cinto e ligando o carro. Ela ficou quieta, pensativa, e respondeu: — É que hoje não é um bom dia, mas… Outro dia você me dá carona, se quiser, né? Vai que você não quer. Ele ligou o carro e disse, colocando a marcha: — Eu quero. Ele a levou embora e, durante o trajeto, conversaram sobre preferências musicais. Ele comentou que gostava muito de ir a shows quando era mais novo e que, desde que começou a namorar, foi proibido de ir, porque a namorada dele era muito religiosa, não gostava de shows e não deixava ele ir sozinho nem com os amigos. Kaori disse que adorava sair, ir a todo tipo de festa, e que adoraria levar ele a um show de rock… escondido.
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