Capítulo 39

1684 Words
Kaori disse que Rafaela era uma pessoa muito legal e que realmente não merecia passar por aquilo. Thomás respondeu que tudo era muito complicado e pediu que ela não comentasse com Rafaela nada do que ele havia falado sobre ela. — Pode ficar tranquilo, seus segredos estão seguros comigo. Gosto muito dela. — Ela disse. Os dois seguiram conversando durante todo o trajeto. Thomás perguntou por que ela havia bebido daquele jeito. Kaori respondeu que só queria se distrair e esquecer algumas coisas. Ele disse que ela não deveria fazer aquilo, porque, quando chegasse em casa, acabaria tendo apenas mais problemas. Comentou também que ele e Rafaela eram muito cúmplices e costumavam contar praticamente tudo um para o outro, mas que ele filtrava algumas coisas porque ela era depressiva. Os dois realmente pareciam um casal muito unido, daqueles que despertavam inveja em muita gente, mas Kaori apenas os admirava. Thomás desceu primeiro do ônibus. Kaori foi trabalhar completamente desanimada, pensando nos pais. Levou uma advertência pelo atraso, e o trabalho já não era mais o mesmo sem Bibi por perto para conversar durante o expediente. Na hora do almoço, pegou um celular emprestado para ligar para a mãe. Chorando, pediu que ela fosse buscá-la. Lisa respondeu que o pai iria sentar para conversar com ela naquela noite, fazer as pazes e entregar o celular. Kaori falou irritada. — Acho que você não me quer. É isso. No fundo vocês só estão jogando a obrigação de um para o outro. Lisa respondeu que não era aquilo e pediu que Kaori pensasse com calma antes de tomar qualquer decisão, porque o pai faria de tudo para dificultar a vida delas caso ela resolvesse morar com a mãe. Pediu apenas alguns dias de paciência e disse que, se mesmo assim Kaori estivesse decidida, ela a levaria para morar com ela. Aquela semana foi horrível. Ela não ganhou celular nenhum, o pai passou a ignorá-la completamente, tratando-a com total indiferença. A única coisa boa era encontrar Daniel todos os dias. Na terça-feira, ele lhe deu uma rosa e a pediu em namoro. Kaori ficou receosa, porque tudo parecia estar acontecendo rápido demais. Ela chegou a ver uma conversa entre Daniel e a ex-noiva. Cíntia dizia que não queria mais nada com ele, fazia perguntas sobre a outra mulher, perguntava se eles estavam tra.nsando na cama dela, usando os lençóis que ela havia comprado durante anos enquanto montava o enxoval. Estava extremamente magoada e com muita raiva. Daniel permanecia calmo o tempo todo, pedia desculpas, dizia que tudo tinha sido um erro e que ela não merecia passar por aquilo. Também conversavam sobre vender tudo e dividir o que haviam comprado juntos, já que estavam tendo um enorme prejuízo com a festa cancelada. Kaori teve a ousadia de levar Daniel várias vezes para sua casa. Como o pai não estava falando com ela, chegava à noite e ia direto para o quarto. Ela aproveitou as tardes livres para transformar o próprio quarto em um verdadeiro motel improvisado. Tudo corria bem até que, na sexta-feira, ela chegou do trabalho e logo depois recebeu Daniel. Ele tinha apenas uma hora para ficar com ela. Foram para a cama como de costume. Kaori nem se preocupava em trancar a porta, porque naquele horário não existia a menor possibilidade de o pai chegar. Mas justamente naquele dia ele chegou. Assim que ouviu vozes na sala, levantou correndo e trancou a porta do quarto. O pai bateu na porta. — Kaori, podemos conversar? Abre a porta, por favor, filha. Ela respondeu que já iria. Entrou em desespero, porque tinha certeza de que o pai a faria passar vergonha. Ele respondeu do outro lado: — Vou tomar banho. Depois sai do quarto pra gente conversar. Kaori saiu para tentar colocar Daniel para fora. Ouviu o chuveiro ligado no quarto do pai, olhou rapidamente pela casa e deduziu que Joyce estava com ele. Voltou ao quarto, colocou Daniel para fora e, já na porta, ele riu e disse que ela poderia aproveitar a oportunidade para conversar com o pai. Os dois trocaram um beijo rápido. Ela fechou a porta sorrindo sozinha, sentindo-se esperta. Foi então que ouviu uma voz atrás dela: — Eu tô com tanto enjoo hoje... só quero ficar deitada, sabe? Joyce estava deitada no sofá e Kaori simplesmente não a tinha visto. Ela ficou completamente pálida. Joyce sentou e começou a rir. — Você não me viu aqui, né, querida? Kaori revirou os olhos. — Não. Sentou no sofá. Joyce então falou: — Vamos fazer um trato? Seu pai vai te chamar pra ir no médico com a gente. Se você for, eu não conto nada do que vi aqui. Kaori levantou imediatamente. — Pode contar, porque eu não dou a mínima. Eu odeio chantagens. Joyce foi atrás dela e parou na porta do quarto. — Eu quero te convidar pra ir no médico comigo ver meu ultrassom. Pra você isso pode não significar nada, e tudo bem, mas pro seu pai é importante. Eu não quero ficar no meio dessa briga de vocês. Será que dá pra você agir de forma mais gentil comigo? — Eu realmente estou tentando. Vamos morar juntas. Eu não quero viver em guerra com uma menina mimada que sente ciúmes do irmão mais novo. Kaori respondeu com toda a calma: — Quando era você no meio do casamento dos meus pais, você não ligava de ficar lá atrapalhando, né? Você acha que é ciúmes o problema? Tá muito enganada! Joyce ficou com os olhos cheios de lágrimas e voltou para a sala. Kaori começou a arrumar a cama. Pouco depois, o pai entrou no quarto. Convidou-a para ir à consulta médica e disse que depois poderiam fazer qualquer programa que ela escolhesse, desde que fosse com os três juntos. Ela respondeu: — Não quero ir. Obrigada pelo convite. Não tô me sentindo bem. Depois vocês me mostram tudo. Ele se irritou e disse que estava disposto a passar por cima de tudo o que havia acontecido nos últimos dias, mas que daquele jeito seria impossível a convivência entre eles. Quando Kaori voltou a dizer que não permaneceria morando ali, ele se revoltou, afirmando que a mãe havia colocado ideias na cabeça dela. Disse também que a mãe não era uma pessoa confiável. Kaori não aguentou mais. Disse que já sabia de tudo, porque havia lido todas as mensagens horríveis que ele mandava para a mãe havia meses. Joyce apareceu na porta e perguntou o que estava acontecendo. Kaori respondeu: — Ele não vai me ajudar em nada se eu for morar com a minha mãe. A obrigação dele como pai só dura se eu morar aqui, submissa a ele. Ah... e ele trata minha mãe como lixo. Nem parece que dividiu a cama e a vida com ela por mais de vinte anos. Pra mim chega. Eu não vou participar disso. Eu vou embora! O pai respondeu que aquilo não era verdade, insistiu que a mãe estava manipulando a situação e pediu que ela largasse aquelas ideias e continuasse morando ali, porque seria melhor para ela. Kaori respondeu que não aceitaria mais nada vindo dele, nem dinheiro, nem cursos, nem ajuda de qualquer tipo. Disse que trabalharia para pagar tudo sozinha e que jamais dependeria de homem algum, como a mãe havia feito durante tantos anos. A discussão não continuou porque eles precisavam sair para a consulta. Kaori saiu de casa antes que eles voltassem. Encontrou Rafaela. As duas foram até o trabalho de Thomás, onde ele lhe vendeu um celular simples apenas para que ela não ficasse incomunicável. Depois seguiram para a casa de Rafaela. Durante a conversa, Rafaela começou a falar sobre Daniel como se soubesse praticamente toda a história. Pelas poucas informações que tinha, tirou suas próprias conclusões, e Kaori acabou confirmando algumas suspeitas. Rafaela disse que sentia muito por ela, mas que não iria julgá-la. Em seguida, para mudar de assunto, contou que havia comprado alguns produtos eróticos para comemorar o aniversário de namoro, porque estava completamente sem libido. As duas acabaram entrando no assunto sexo. Rafaela perguntou se Kaori era mais reservada ou mais ousada quando estava com alguém. Ela respondeu que ainda estava aprendendo muita coisa e que nunca tinha usado aqueles produtos. Rafaela começou a mostrar tudo, explicou para que servia cada item e comentou que gostava muito da ideia e dos beijos, mas que, na hora H, tudo ficava sem sentido e frio para ela. Kaori contou como havia sido com Enzo, dizendo que não gostava tanto quanto gostava quando estava com Daniel. Rafaela respondeu que fazia esforço porque tinha muito medo de Thomás dizer apenas da boca para fora que não ligava de ficar sem se.xo, quando, na verdade, o risco era acabar sendo traída. Kaori fez de tudo para animá-la, dizendo várias coisas positivas, porque realmente acreditava que Thomás era extremamente sincero. Quando saiu da casa de Rafaela, já levou todas as suas coisas para dormir fora. Foi para a casa de Daniel naquela noite. Conversaram durante horas. Ele sugeriu que os dois fossem morar juntos, porque a própria mãe estava sem falar com ele e ele também teria que sair daquela casa. Para Kaori, aquilo pareceu a maior loucura e, ao mesmo tempo, a melhor de toda a sua vida. Ela mesma queria se afastar dos pais e conquistar mais independência. Perguntou se ele estava falando sério. Daniel respondeu que sim, que o pior de viver escondido eles já tinham superado. Começou então a listar todos os pontos positivos e negativos daquela decisão. Os dois resolveram pensar melhor antes de tomar qualquer atitude. No sábado, Kaori avisou os pais que já tinha um celular. Os dois ficaram surpresos. Ela explicou que havia comprado sozinha. O pai estava furioso porque ela tinha dormido fora sem avisar. Já a mãe demonstrou apenas preocupação. Ele a ameaçou, dizendo que era melhor ela voltar para casa, caso não quisesse ver moradores de rua usando todas as suas roupas e seus tênis de marca. Kaori respondeu friamente: — É lá que eu moro... ainda. Depois do trabalho eu vou, com certeza.
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