Capítulo 23

1321 Words
Kaori ficou sozinha no hospital e demoraram mais de uma hora para atender ela. Como a bateria do celular já estava no fim, deixou ele desligado para economizar. Quando finalmente foi atendida, descobriu que tinha sofrido uma luxação no dedo, além dos ralados feios na mão e no cotovelo. Saiu de lá cansada, dolorida e acabou indo embora de ônibus, o que demorou muito mais do que imaginava. Quando chegou em casa já estava quase anoitecendo, o corpo inteiro parecia pesado e a mão latejava. Não tinha ninguém lá. Assim que ligou o celular começaram a chegar mensagens da mãe. Kaori ligou de volta e contou tudo o que tinha acontecido, mas ao invés de acolhimento acabou recebendo bronca. A mãe ficou irritada, dizendo que ela só fazia besteira, e as duas acabaram discutindo de novo. Kaori não quis prolongar aquilo, desligou, tomou banho e foi deitar. Quando o pai chegou, foi direto no quarto falar com ela. Disse que ela devia ter ligado pra ele ir até o hospital, que não precisava ter ficado sozinha. Foi até carinhoso, ligou na farmácia rapidinho, pediu remédios, ficou levando água, olhando os machucados e criticando a mãe dela, dizendo que ela só sabia brigar e apontar defeito em tudo. Na segunda-feira, Kaori foi trabalhar junto com Bibi. As duas viraram motivo de piada o dia inteiro, porque estavam machucadas ao mesmo tempo e o pessoal ficou zoando, falando que tinham se metido em alguma briga juntas. Bibi já não aguentava mais ficar em casa de molho e tinha voltado mesmo ainda dolorida. Depois do trabalho foram para a casa de Kaori e ficaram um tempo juntas, conversando, até Bibi ir embora quando Kaori precisou sair pra fazer curso da auto escola. O curso já estava acabando, faltavam poucos dias. No intervalo, Kaori respondeu uma mensagem de Daniel. Mandou uma foto da mão machucada e ele perguntou na hora o que tinha acontecido. Os dois começaram a conversar bastante. Kaori se afastou do pessoal e foi sentar mais longe, mas na hora que ofereceram salgadinho ela acabou largando o celular de lado para comer. A menina sentada ao lado perguntou de repente se ela tinha namorado, e Kaori tomou um susto tão grande que respondeu rápido que não, pegando o celular e bloqueando na hora. A garota pediu pra adicionarem uma à outra nas redes sociais. Quase todo mundo do curso já tinha feito isso, então Kaori ficou tranquila, mas o susto inicial foi grande. Daniel sempre falava que, se alguém suspeitasse de alguma coisa entre eles, tudo acabava. Ele morria de medo de perder a noiva, e Kaori não entendia por quê, porque era nítido que ele nem gostava dela de verdade. No dia seguinte, Kaori disse que ia embora sozinha depois do curso, mas era mentira, porque o pai ia buscá-la. Daniel disse que ia tentar ir vê-la, e ela respondeu: — Não precisa, eu me viro aqui. Não quero ficar te enchendo o saco, sei que você tem seus compromissos aí. Ele respondeu que amava o jeito compreensivo dela. Kaori era extremamente calculista com Daniel, vivia pensando em tudo o que devia falar ou não, no jeito certo de agir, tudo para ter ele só pra ela. Sabia que estava envolvida demais, mas não ligava. No fim, Daniel acabou indo buscá-la. Ficaram dentro do carro por quase meia hora, só se beijando. Ele disse que podiam fazer aquilo até o curso acabar, encontrarem-se depois da aula, ficarem ali escondidos. Kaori fez parecer que a ideia tinha sido dele, mas na verdade ela ia empurrando tudo pouco a pouco, fazendo ele chegar exatamente onde ela queria. Aceitou a proposta se fazendo de desinteressada e, ao mesmo tempo, já inventou uma história pro pai, que acreditou fácil. Na quarta-feira, foi ao salão de Cíntia, a noiva de Daniel. Tinha marcado na segunda e foi sozinha depois do trabalho. Cíntia recebeu Kaori com toda simpatia, como sempre. Kaori disse que queria lavar e hidratar o cabelo porque com a mão daquele jeito estava difícil fazer sozinha em casa. Enquanto mexia no cabelo dela, Cíntia foi puxando assunto, conversando sobre estudo, trabalho e rotina. Kaori falou dos cursos e, naturalmente, acabaram chegando no assunto Daniel. Cíntia ficou feliz ao saber que estava atendendo uma aluna dele. Kaori ainda fingiu que m*l lembrava dele, trocando até o nome por descuido proposital. Falou da aliança de Cíntia, perguntando se eram noivos. Cíntia abriu um sorriso enorme e disse que faltava muito pouco pro casamento, que estava tudo pronto. Kaori fez perguntas, incentivando ela a contar tudo. Cíntia falou da casa que tinham comprado juntos, dos móveis, dos planos. Kaori comentou que sonhava em casar com festa um dia, só pra incentivar ainda mais a conversa. Cíntia fez o cabelo dela, e as duas conversaram bastante. Antes de sair, Kaori marcou pra sexta de novo, unha e cabelo, e Cíntia ainda ofereceu um pacote de quatro semanas de lavagem e escova. Kaori perguntou os valores, mas fingiu não ter muito interesse. Naquela noite, no intervalo do curso, Kaori ficou conversando com os meninos. Sempre teve facilidade em fazer amizade com homens. Descobriu que um deles estava interessado na menina que sentava atrás dela e ele ficou pedindo ajuda, igual um adolescente bobo. Kaori aceitou ajudar e começou a conversar mais com a garota. Ela tinha ido sem jantar e a menina sempre levava comida porque saía do trabalho direto pro curso. As duas foram comprar alguma coisa pra comer juntas e estavam falando do trabalho dela quando Daniel ligou perguntando se ia conseguir buscá-la. Kaori começou a contar o que estava fazendo. Daniel sempre puxava a orelha dela por comer m*l, aquilo era um jeito dele demonstrar carinho. Nessa altura ele já a chamava por apelidos carinhosos e ela fazia o mesmo. Ele disse que ia levar alguma coisa gostosa pra ela comer, mas logo começou a falar besteira, dizendo que queria comer ela também. Perguntou se ela não estava com saudade, já que desde domingo cedo não tinham feito nada. Kaori respondeu: — Para de falar essas coisas, preciso voltar. Você não tá me deixando comer. Aham, tá bom. Beijos... A menina estava ouvindo tudo, então Kaori precisou ser contida. Assim que desligou, a garota riu e falou. — Você disse que não namora, né? Kaori respondeu que era um rolo complicado. A menina disse que tinha saído de um recentemente, perguntou se Kaori costumava sair sozinha ou com o ficante. Kaori respondeu que, às vezes, saía sozinha. Elas falaram sobre marcar algo juntas qualquer dia, e Kaori aproveitou pra comentar do menino interessado nela. A garota disse que achava ele bonito. No fim do curso, Kaori fez o de sempre. Esperou o pessoal ir embora, desceu e virou a esquina onde Daniel já estava esperando. Ele tinha levado um lanche do Subway pra ela. Ficaram uns vinte minutos ali, parados, já bem tarde. Daniel disse que ia levá-la pra uma rua mais vazia e começou a falar de se.xo, passando a mão nela enquanto ela comia. Kaori afastou a mão dele. Falou sem paciência. — Para com isso, eu tô comendo. Daniel respondeu m*l, chamando ela de fresca, dizendo que ela não queria nem deixar ele encostar enquanto comia, que era m*l agradecida pelo lanche. Kaori se irritou na hora. Respondeu. — Não vou fazer nada com você, beleza. m*l agradecida? Sério isso? Nem terminei de comer pra te agradecer e eu não tô passando fome pra tra.nsar em troca de um lanche. Ela parou de comer e guardou o lanche, visivelmente irritada. Daniel se desculpou, disse que estava com saudade de ficar com ela. Kaori respondeu que as coisas não funcionavam daquele jeito e que ele tinha sido grosso sem motivo. Ele se aproximou e começou a dar beijinhos nela. — Não foi minha intenção. Kaori suspirou. — Tá bom. Me leva pra casa. Hoje tenho que ir rápido porque meu pai quer conversar comigo.
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