Ela o olhou por apenas alguns segundos, depois baixou o olhar, desconcertada.
— Sim… desculpa.
Daniel sorriu de forma sutil e voltou para a frente da sala. Iniciou a aula e, enquanto falava, percebeu que Kaori rabiscava qualquer coisa no caderno, sem atenção alguma ao conteúdo. Aquilo o deixou inquieto.
Quando a aula já estava chegando ao fim, começaram a conversar para preencher o tempo restante. A chuva não dava trégua, caía forte do lado de fora. Enquanto os alunos conversavam entre si, Daniel se aproximou novamente de Kaori.
— Você mora longe daqui? — perguntou.
— Não — respondeu ela.
Então ele perguntou a idade dela, como se não já soubesse desde o primeiro dia.
— Tenho vinte anos.
Ela, por sua vez, perguntou:
— E você? Quantos anos tem?
— Sou um pouco mais velho.
Ela o olhou intrigada.
— Nossa… mas você dá aula? Então deve ser muito esforçado, inteligente e estudioso.
Daniel riu, quase exultante.
— É… estudioso. Esforçado, mais ou menos. Poderia ser mais.
Ele fez uma pausa e continuou:
— Tipo assim… quando eu saí do ensino médio, já fui direto pra faculdade. Sempre gostei dessas coisas de tecnologia, computador. Fiz Ciência da computação e adm, gostava de estar sempre por dentro. Meus pais investiram em mim.
Ele respirou fundo e completou, um pouco constrangido:
— Não quero me gabar, nem parecer nerd, mas preciso te contar uma coisa. Meus pais são donos da escola, são sócios. Então eu meio que ganhei o emprego. Não que eu não mereça… mas, se eu não merecesse, talvez ganhasse do mesmo jeito, entende?
Kaori começou a rir. Pela primeira vez naquele dia, percebeu que aquela conversa poderia ser mais interessante do que imaginava antes de começar o curso.
— É… entendo. Faz algum sentido, ainda mais você sendo tão novo.
Ela olhou diretamente para ele. Daniel estava sentado, encostado na mesa ao lado da carteira dela. Kaori manteve o olhar firme e perguntou:
— Não é estranho dar aula pra gente, tendo quase a mesma idade? Ou você dá aula pra pessoas mais velhas também?
Ela fez uma breve pausa e completou:
— Sabe que tinha uma colega minha que teve um professor só alguns anos mais velho. E adivinha o que aconteceu?
Ela disse aquilo séria, olhando diretamente nos olhos dele.
Daniel cerrou levemente os olhos e respondeu com um sorriso debochado:
— O que aconteceu? Preciso saber pra me precaver, né? Vai que acontece o mesmo comigo.
Ainda séria, Kaori respondeu:
— Ela se apaixonou por ele. Pelo professor. Mais velho… e bonito.
Daniel percebeu que aquilo era um flerte e, apesar de ser noivo e um cara bastante certinho, com boa criação e, além de tudo, criado dentro da igreja evangélica, ele gostou. Algo na personalidade forte dela mexeu profundamente com ele.
A verdade é que ele não estava apenas atraído; estava mais do que interessado em alguma coisa, mesmo sem saber exatamente no quê. Não fazia parte do seu feitio flertar com alunas, muito menos trair a namorada, que agora era noiva. Nada daquilo fazia sentido, mas estava acontecendo e o que ele poderia fazer, afinal?
Então ficou sério e respondeu como quem diz qualquer outra coisa:
— Olha, isso é realmente perigoso. Mas eu não sou tão velho nem bonito. Os jovens hoje em dia têm umas preferências bem diferenciadas.
Kaori sorriu, arqueou as sobrancelhas com ironia e perguntou:
— Como você sabe se é bonito?
Ele piscou, fazendo charme, e respondeu enquanto se levantava:
— Eu não sei. Só suponho que não, já que isso nunca aconteceu comigo.
Daniel se levantou, foi conversar com outros alunos e a aula foi encerrada. Todos começaram a ir embora, saindo aos poucos. Kaori ficou esperando pela mãe, que iria buscá-la. A mãe trabalhava em um restaurante como gerente e costumava sair tarde, apenas quando o local fechava.
Havia outras pessoas na recepção, alunos saindo de outras salas, e Daniel também saiu. Quando ele a viu sozinha, parada perto da porta, observando a chuva, aproximou-se como quem não queria nada e falou, mexendo no celular:
— Você está esperando carona ou vai pedir um Uber?
Kaori o olhou por alguns instantes, virou o rosto e respondeu, já tentando sentir as intenções dele:
— É carona. Estou esperando a minha mãe, ela ainda está no trabalho.
Daniel se encostou ao lado dela, guardou o celular e ficou olhando a chuva cair.
— Hum, entendi… — disse.
— E ela vai demorar? Posso fazer companhia pra você, se quiser. Já está tarde, né?
Kaori sorriu, respondeu, olhando fixamente para o professor:
— Eu acho que ela vai demorar, sim… mas não tem problema, porque eu moro meio longe, fazer o quê? Tenho que esperar. Se não tivesse chovendo, eu podia pelo menos ir andando.
Então ele perguntou, olhando fixamente nos olhos dela, reparando no quanto ela era expressiva:
— Eu fico aqui com você. Mas não quer uma carona? Tem certeza? Eu já estou indo embora mesmo e vou direto pra casa.
Ela olhou a hora e respondeu, pensativa:
— Ah, eu não sei… não vai te atrapalhar? Você nem sabe onde eu moro pra estar oferecendo carona. Que eu saiba, carona a gente oferece quando a pessoa vai pro mesmo lado que a gente.
Ele respondeu rindo:
— Ah, não importa. Eu não posso deixar uma moça como você desamparada no meio da noite, embaixo da chuva. E tem mais, daqui a pouco a escola vai fechar e aqui não é um lugar legal pra ficar sozinha. Ficar sozinha é perigoso.
Ela disse então:
— Tá… então eu aceito a carona. Se não for nenhum problema pra você.
Ele respondeu:
— Não, imagina. Não vai ser problema, não. Bora lá? Meu carro tá ali no estacionamento.
E completou, enquanto eles se preparavam pra sair:
— Eu percebi que hoje você não prestou muita atenção na aula. Você tá com uma carinha meio triste, e você não é assim.
— Aconteceu alguma coisa? Tá tudo bem? Brigou com o namorado?
Eles começaram a correr pra atravessar a rua e entrar no carro. Kaori disse, percebendo que ele tinha segundas intenções:
— Você quer saber se eu tenho namorado, professor? Então pergunta. Pode perguntar.
Ele respondeu rindo:
— No carro eu pergunto tudo o que eu quiser saber.
Os dois correram na chuva e entraram no carro. Kaori ficou rindo, pensativa, se secando das gotas que molharam o cabelo e o rosto.
Ela disse:
— Você não vai me sequestrar, não, né? Por favor, eu sou nova demais pra ir parar no Cidade Alerta.