Capítulo 22

1603 Words
Kaori estava irritada, com dor e já sem paciência, quando Rui falou: — Vem aqui pegar, princesa. Se sair andando eu não vou atrás de você não, hein. Quase chorando, respirou fundo e continuou andando, fingindo que não ouviu. Pouco depois escutou o barulho alto da moto se afastando. Caminhou duas quadras até encontrar um barzinho cheio de homens, foi o único comércio que achou aberto. Entrou, pediu uma água e perguntou ao senhor no balcão se ali tinha horário de ônibus ou contato de Uber. O senhor respondeu que podia chamar um moto táxi, mas que iria demorar uns vinte minutos porque era domingo e o rapaz morava longe. Kaori tentou abrir a garrafa de água, mas viu que realmente tinha machucado feio a mão. O senhor foi atender outra pessoa e depois perguntou de longe: — E aí, moça, posso chamar o moto táxi? Ela estava encostada no balcão, de cabeça baixa, quando ouviu atrás de si, bem perto: — E aí, seu Zé, não precisa não. Ela tá comigo. Era Rui. Ele encostou ao lado dela dizendo que a mãe dele ficaria p.uta da vida se soubesse que ele tinha deixado ela sozinha na rua. Kaori, tentando pegar dinheiro na mochila, respondeu: — Não vou contar, pode ficar de boa. Pega dinheiro aqui no bolsinho de fora, por favor. Ela virou de costas para ele e para o balcão. Rui mexeu na bolsa, ouviu-se o zíper abrindo, e logo ele falou: — Ô, seu Zé, põe na minha conta fazendo o favor. Valeu. Vamos, princesa, sua carruagem chegou. Kaori perguntou se ele ia emprestar o celular. Foram saindo do bar e Rui parou para conversar com alguns rapazes que estavam ali fora. Ela ficou quieta, parada perto dele. Os caras perguntaram se ele não ia apresentá-la. Rui fez algum sinal que Kaori não conseguiu ver e eles começaram a rir. Ele apenas disse que precisava ir embora. Quando chegaram na calçada, Kaori perguntou: — O que você disse pra eles? Me empresta seu celular logo. Rui colocou o capacete nela, pegou outro para ele e respondeu: — Não falei nada. E meu celular tá lá em casa. A gente pode ir até lá, ou posso te levar no hospital, ou te deixar em casa... deixa eu ver sua mão. Kaori estendeu a mão, mas respondeu na mesma hora: — Não vou subir nessa moto nem fu.dendo. Rui sorriu e falou: — Eu não gosto de fazer isso em cima da moto, prefiro na cama. Dói? Ele mexeu na mão dela e doeu. Kaori reclamou. Rui então falou que a levaria até a casa dele, que era pertinho da casa da mãe dela, prometeu que não correria e que ela não precisava entrar em pânico. Kaori acabou aceitando. Ele a ajudou a colocar o capacete e ela subiu na moto morrendo de medo. Rui perguntou: — Posso ir? Ela respondeu: — Pode. Foram até a casa dele, realmente era perto da casa da mãe dela. Quando desceu da moto, Rui perguntou: — Foi tão r**m assim? Kaori respondeu: — Sim, com certeza. Sua mãe tá aí? Entraram, Rui respondeu que ela não estava. No quintal havia duas motos além da dele e um carro, Kaori ficou pensando quantas pessoas moravam ali. Rui entrou na frente e falou com alguém na sala. Kaori ficou parada, com vergonha. Então ele olhou pra trás e falou: — Pode entrar, ninguém aqui vai morder você, princesa. Na sala tinha um rapaz parecido com Rui, só que mais novo. Ele se levantou, foi até ela e se apresentou como Maicon, irmão de Rui. Kaori disse seu nome. Ficou parada no canto, sem jeito. Maicon pediu para ela sentar e perguntou o que tinha acontecido com a mão. Enquanto isso, Rui foi até outro cômodo chamando alguém. Kaori ouviu ele dizer: — Vem aqui, preciso de ajuda... para, vai... vem logo. Kaori explicou para Maicon: — Nossas mães trabalham juntas. Eu vim ver minha mãe, mas ela não tava lá. Pulei o muro e tá aí o resultado. Logo Rui voltou com uma moça linda, séria, de cropped e shortinho curto. Kaori reparou na hora no estilo. Rui apontou para ela: — Ela vai limpar sua mão. A moça sentou ao lado dela, falou um “oi” e pegou a mão para olhar. Kaori respondeu e gemeu de dor quando ela tocou. A moça falou: — Vamos lavar, mas acho que você machucou o dedo. É melhor ir no hospital. Rui abaixou na frente das duas e falou: — Eu já falei isso pra ela. Toda vez que eu caí de moto quem cuidou de mim foi a Daia. Ela não tem dó, faz o que tem que fazer. Daia respondeu levantando: — É pra ver se serve de lição e tomar mais cuidado. Vem, vamos lavar isso. Como é seu nome mesmo? Kaori respondeu: — Kaori. Rui abraçou Daia e beijou seu rosto. Ela foi andando pelo corredor e falou: — Já avisei que da próxima vou jogar álcool em vocês. Pode ser qualquer um dos três, viu Gustavo. Do quarto, um homem respondeu: — Que isso, amor? Eu nunca caí fazendo zueira, sempre foi andando de boa. Maicon gritou da sala: — É o que todo malandro fala, né? Você acha que minha irmã não sabe o mala que você é? Todos começaram a rir, menos a visita. Entraram no banheiro e Kaori ficou quieta. Rui ficou parado na porta. Daia abriu a torneira e falou: — Molha de uma vez. Tem que tirar a terra. Só vai arder na hora. Kaori colocou a mão na água. Daia reclamou: — Aii, Rui, sai de cima, dá licença. Ele pediu que ela não judiassse de Kaori. Daia respondeu: — Não mandei você trazer ela aqui. Vai pra lá. Rui saiu rindo. Daia olhou pra Kaori e disse: — Tô brincando, relaxa. Não tenho ciúmes dos meus irmãos. Kaori respondeu: — A gente acabou de se conhecer, não temos nada. Ele só tá me ajudando porque nossas mães trabalham juntas. Daia perguntou quem era a mãe dela, onde morava, e conversaram um pouco. Ela não era muito comunicativa. Depois de limpar a mão, Kaori voltou para a sala. Rui perguntou: — Tá doendo? Ela respondeu: — Só quando mexe. Rui então falou: — Tô de bobeira hoje. Se você quiser, te levo no hospital e depois te deixo em casa, ou onde você quiser, sei lá. Kaori respondeu que não precisava, que só queria carregar o celular um pouco para fazer uma ligação. Rui chamou ela para o quarto. Era o quarto dele e de Maicon. Ele apontou em qual cama ela podia sentar, ligou a televisão e colocou o celular dela para carregar. Kaori ficou quieta, ainda meio irritada com ele. Rui sentou de frente pra ela e ofereceu água e refrigerante. Ela recusou. Então ele perguntou: — Posso te fazer uma pergunta? Coisa séria. Kaori deu de ombros, como quem dizia tanto faz. Rui falou sério: — Você tem cara de ser nojenta pra comer. Fala aí, o que você não come de jeito nenhum? Kaori respondeu encarando ele: — Não tenho frescura. Meu flango até late, se é que você me entende. Ela falou de forma irônica, porque ele vivia implicando com a cara dela e ela sempre ouvia piadinhas sobre comer "flango e cachorro" por ser mestiça. Rui entendeu na hora e começou a rir. — Tá com fome? Eu ia te oferecer alguma coisa. Kaori balançou a cabeça dizendo que não. Ligou o celular e mandou um áudio para Joyce perguntando onde o pai estava. Joyce respondeu que ele estava pescando, longe do celular, e que se fosse importante ela poderia ir até ele avisar. Kaori respondeu que não era nada. Rui ouviu tudo. Ela então falou: — Vou esperar carregar mais um pouco e pedir um Uber. Rui insistiu: — Posso te levar no hospital pra você não ir sozinha. E também pra não gastar duas vezes com Uber. Kaori falou que tinha medo de moto. Rui perguntou: — Você tem medo mesmo ou tá falando isso pra eu não te levar? Porque eu posso te levar de carro também. Kaori sorriu: — Tenho medo real. Já notou que você tá me chamando de mentirosa desde que a gente se conheceu? Rui começou rir e disse que ela levava tudo a sério demais. Saiu do quarto e logo voltou com dois pães recheados, tipo um lanche natural. Entregou um pra ela. — Come. Não vou gastar meu precioso tempo na cozinha pra você fazer desfeita. Kaori estava com fome mesmo. Só tinha tomado café da manhã no motel. Os dois comeram. Depois ela agradeceu e disse que era melhor irem logo, porque com certeza demoraria no hospital. Rui chamou Daia para se despedirem. Daia acompanhou Kaori até o portão, conversaram um pouco enquanto Rui tirava o carro. Kaori agradeceu pela ajuda. Daia disse que não tinha sido nada. Kaori entrou no carro e Rui perguntou de onde vinha aquele medo de moto. Ela respondeu que não confiava em qualquer um para arriscar a própria vida. Rui respondeu: — Eu não confio nem na minha sombra. Estamos empatados. Conversaram pouco no caminho. Apesar das besteiras que falava, Rui era meio calado. Quando chegaram no hospital, Kaori disse que podia ficar sozinha. Agradeceu e mentiu dizendo que o pai estava indo pra lá. Rui foi gentil e disse que queria até pedir o número dela pra saber como ficaria o dedo. Kaori respondeu irritada com o flerte: — Me passa o seu contato. Ele passou, ela salvou. E os dois se despediram.
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