A primeira semana de férias da faculdade poderia ter sido tranquila… Se não fosse pelo meu azar constante.
Depois do que rolou no domingo, Rone pediu demissão, sem aviso prévio ou treinando um novo funcionário, só ligou dizendo que não voltaria mais e me deixou na mão.
Ótimo, simplesmente perfeito.
Tive que trabalhar dobrado durante toda a primeira semana, pois era o único funcionário do turno da tarde, pelo menos ganhei uma grana extra nesse período.
Aliás, algo muito estranho: descobri que o tal “evento de sábado” que Rone tinha me falado era mentira, Márcia não fazia nem ideia do que estava falando.
— Se tivesse algum evento te mandaria mensagem pessoalmente. — Disse por fim.
Devia ser algum tipo de pegadinha, no pior Rone definitivamente tem problemas mentais sérios.
Vou apenas deixar pra lá…
Achei que minha sorte tinha mudado quando Márcia me avisou que havia contratado alguém para trabalhar no mesmo turno que eu… No final das contas minha sorte mudou mesmo.
Pra pior.
— Jackeline, esse é Cláudio, ele vai te ensinar tudo o que precisa para trabalhar aqui. — Márcia disse com um sorriso enorme e ingênuo no rosto.
Jackeline me lançou um olhar inexpressivo e frio, nem me dei ao trabalho de me surpreender com a coincidência, apenas aceitei meu destino, pois meu anjo da guarda ama me sacanear.
A “garota veneno” se revelou um fardo desde o primeiro dia, continuei trabalhando dobrado, mas dessa vez sem ganhar a mais por isso. Trabalhava no caixa, pegava as bebidas, organizava a despensa, limpava as mesas e esfregava o chão, enquanto Jackeline mexia no celular e nem levantava o olhar na minha direção quando pedia para fazer algo.
Apenas desisti depois do processo de treinamento, no qual ela não levantou os olhos do celular em nenhum momento.
— E por que caralhos ela tá trabalhando aqui? — Roberta perguntou quando veio no café presenciar a “garota veneno” ao vivo e a cores.
Jackeline estava num canto distante, mexendo no seu celular, ignorando nossa existência.
— Tenho cara de quem perguntou? — Dei de ombros e suspirei. — Não importa…
Quarta à noite, Márcia me mandou uma mensagem dizendo para organizar a mercadoria antes de fechar, como faltava meia hora para o fim do turno, pensei que deixar Jackeline no caixa não seria um problema.
Estava errado.
Não fiquei na despensa nem dez minutos e ouvi uma voz gritando, quando fui averiguar, vi uma senhora esbravejando com Jackeline, que por sua vez apertava todos os botões do caixa em desespero.
— Não pode ser tão difícil assim fazer um simples pedido! Pelo amor de Deus! — Gritava, deixando Jackeline ainda mais nervosa. — Como alguém incompetente pode…?
— Chega!
Jackeline estremeceu ao som da minha voz e olhou para mim com medo, mas quando percebeu que meu grito não era direcionado a ela, mas a senhora, pareceu confusa o que me deixou confuso, mas estava ocupado demais lidando com uma cliente b****a para prestar atenção nisso naquele momento.
— Quem você pensa que é para gritar comigo! Tenho idade para ser sua mãe! — A senhora gritou na minha direção.
Olhei para ela de cima a baixo e contive uma risada.
— Você tem idade para ter presenciado a Santa Ceia… Agora para de gritar! Está incomodando os clientes! — Disse, olhei para Jackeline, que tinha os olhos arregalados. — Licença. — Pedi calmamente.
Ela piscou, como se assimilando o meu pedido e se afastou.
— Vamos tentar de novo. — Falei com meu melhor sorriso para a senhora inconformada à minha frente. — Boa noite, senhora, o que vai pedir?
A senhora pareceu desconcertada, abriu a boca, provavelmente para gritar comigo, mas os poucos clientes presentes lançavam olhares em desaprovação contra ela, que apenas pigarreou e pediu um café.
— Seu pedido ficará pronto logo. — Disse, e me virei para Jackeline, que observava a situação em silêncio. — Quando o pedido sair, entregue o café na mesa dela, por favor.
Jackeline confirmou com a cabeça sem me olhar, o rosto vermelho.
Voltei a despensa, respirei fundo, pedi a Deus paciência porque se me desse força não responderia mais por mim e continuei a organização dos produtos nas prateleiras. Ainda estava na metade quando o turno acabou, voltei para o balcão e avisei a Jackeline que podia ir embora.
Fui à porta, virei a plaquinha de “aberto” para “fechado”, esperei os últimos clientes saírem, quando ia trancar a porta da frente, percebi que minha colega de trabalho indesejada continuava no mesmo lugar.
— Você não ouviu? Eu disse que pode ir.
— Hum… E quanto a você? — Perguntou, inquieta.
Ergui as sobrancelhas.
— Por que se importa? — Murmurei. — Tenho que terminar de arrumar a despensa.
— Quer ajuda? — Moça? Bateu a cabeça?
— Hum… É seu quarto dia, melhor não. — Respondi, estranhando a boa vontade. — Nos vemos amanhã… Eu acho.
Jackeline tirou o avental, foi até os fundos, voltou com suas coisas, veio até a porta onde eu esperava para poder trancar. Abri a porta para ela, seu olhar surpreso foi direcionado a mim por um momento, então abaixou a cabeça, sussurrou um “obrigada” e foi embora.
*
Cheguei ao meu andar e vi Nilo saindo do seu apartamento, quando seus olhos encontraram os meus, sorriu.
Um sorriso que aqueceu meu coração, me deixando desconcertado.
— Voltou agora? — Pergunta, numa voz cansada.
Desde o início das férias, eu e Nilo temos nos visto bem pouco por conta de trabalho, mas nas poucas vezes que nos víamos era quando ou ele batia na minha porta para vermos um filme, ou eu batia na porta dele e saíamos com a Rô, a Vane e o Tom.
Ele se tornou uma constante.
— Pois é, desde que Rone se demitiu ando trabalhando muito. — Respondo irritado, noto que ele carrega seu capacete na mão. — Turno extra?
— Ah, não, vou visitar o Buzz e meu tio.
Buzz?
— Tipo “Buzz Lightyear”? — Pergunto, sentindo um sorriso se formar no meu rosto.
O sorriso de Nilo se abre mais, pega seu celular, abre a galeria e mostra a foto de um Bull Terriê com círculos pretos nos olhos.
Com sua proximidade, percebo aquele cheiro de lavanda característico dele.
— Que fofo! Tem um “Woody” também? — Pergunto, sua risada bate no meu rosto, me fazendo perceber o quão perto estava.
— Quem sabe no futuro? — Diz, depois parece pensar por um momento, coça nuca e me lança um olhar nervoso. — Você… Gostaria de conhecê-lo?
O olhei sem compreender.
— Conhecer o Buzz? — Acho graça do convite. — Ah, tá bom, adoro cachorro.
Nilo faz sua típica expressão surpresa.
— Sério? Você parece do tipo que curte só gato…
— Gosto dos dois, eu tive um cachorro quando eu era criança. — Imediatamente me arrependo de ter dito isso.
— E como ele era? — Nilo pergunta apoiando o ombro na parede do lado da minha porta, ainda perto demais.
— Ah… — Apoio as costas contra a minha porta e dou um suspiro. — Era do tipo vira-lata, o nome dele era Zedd…
— “Zedd”? O vilão do “Power Rangers”? — Nilo pergunta rindo.
— Eu amava “Power Rangers!” — Respondi na defensiva, fazendo Nilo me lançar um olhar doce, que me atordoou e limpei a garganta. — Enfim, era um cachorro preto e peludo, não faço ideia de qual raça era, eu e minha irmã amávamos ele.
Não me pergunte o que aconteceu com ele.
Não me pergunte o que aconteceu com ele.
Por favor…
— E o que aconteceu com ele?
Engulo em seco.
— Bom… Ele morreu. — Digo, desconfortável.
— Nossa. — Nilo murmurou com uma cara triste. — Como ele morreu?
— É… Meu pai e minha mãe estavam brigando, então meu pai decidiu sair com o carro, não viu Zedd dormindo atrás da roda… — Respirei fundo, odeio essa lembrança. — Foi h******l, acho que nunca chorei tanto… Minha mãe fez meu pai dormir no carro naquela noite enquanto tentava consolar a mim e minha irmã…
— Ah, Gris, sinto muito… — Sua voz era suave e preocupada.
— Não, tá tudo bem, isso já faz… — Semicerrei os olhos fazendo as contas de cabeça. — Doze anos.
Ainda ficava melancólico ao me lembrar disso, amei demais aquele cachorro, a morte dele pareceu dar início a vários eventos ruins, um atrás do outro durante a minha infância…
Eu não quero pensar nisso.
Acho que não disfarcei bem o quanto aquela lembrança realmente me afetava, pois Nilo continuava com aquele olhar doce e preocupada.
— Não precisa se fazer de forte… — Ele se afastou da parede, ficou de frente para mim e me puxou para um abraço. — Sinto muito.
Fiquei surpreso com seu gesto, ergui minhas mãos nervosamente para suas costas, o abraçando de volta. Além de lavanda, tinha um aroma de limão e menta, respirei fundo, permitindo minha mente gravar seu cheiro na minha memória.
Isso é… Bom.
— Quer me falar mais sobre isso? — Pergunta baixinho contra o meu ouvido.
Meu ar parece ter sido roubado com essa pequena demonstração de afeição, um sorriso involuntário se formou no meu rosto.
— Acho melhor… Não… — Comecei, sentindo minha voz falhar, engulo em seco.
— Tudo bem. — Me abraçou com mais força. — Qualquer coisa, eu tô aqui
Ficamos assim por algum tempo, meu corpo quente, sentia o calor no meu rosto, deixo me levar um pouco pela sensação, mesmo sabendo que era só gentileza, não consigo deixar de querer continuar ali nos seus braços só mais um pouquinho…
Se controla!
Respiro fundo e me afasto, por um momento ele não parece querer me soltar, mas logo seus braços ficam frouxos, aos poucos me soltando, evito olhar seu rosto, sentindo meu coração dar vários mortais para trás.
— To-tome cuidado e me avise quando chegar no seu tio. — Murmuro sem jeito.
Ele não me responde, levanto os olhos e noto Nilo ter uma expressão enigmática.
— Não tenho seu número. — Nilo diz e recolhe os lábios.
Pisco algumas vezes.
A gente é amigo, nos vemos o tempo todo e eu nunca passei meu número para ele… Como isso é possível?
— Ah! c*****o… — Pego meu celular e passo para ele meio desajeitado. — Aqui, põe seu número.
Um sorriso enorme surge no seu rosto, ele pega meu celular, digita seu número e um ar travesso domina seu sorriso ao devolver meu telefone.
— Salvei como “Adônis”.
Ergo as sobrancelhas surpreso.
Esse era o apelido que secretamente dei para o Nilo antes de saber seu nome, mas eu nunca disse em voz alta, para ninguém…
— Por quê? — Pergunto, estranhando a coincidência.
Ainda com seu sorriso travesso, se inclina na minha direção, ficando bem perto do meu rosto, fazendo meu coração parar.
— Quando a gente se conheceu, você me chamou de Adônis. — Uma entonação presunçosa.
Engulo em seco.
Me mate agora.
— Ah… Ok. — Respondo, levando a mão ao rosto, tentando disfarçar o calor que espalhava pelas bochechas.
Nilo ri e se afasta.
— Volto domingo, te levo para conhecer o Buzz semana que vem. — Se despede indo em direção à escada. — Até, Gris!
— Até, Adônis. — Respondo sem pensar, travo.
Pelo amor de Deus, qual a p***a do meu problema?
Nilo para no fim do corredor e me olha surpreso, me arrependo instantaneamente do que disse, morrendo de vergonha.
— Gostei disso. — Sorri, um sorriso que quase me derrete.
Quase.
Logo some através da porta corta-fogo da escada, entrei no meu apartamento, quase derrubando as chaves, fecho a porta com um pouco de força demais, apoiei a testa nela e dou um grunhido humilhado.
Senhor, por que continuo com os apelidos idiotas?
Por que ainda repito o mesmo comportamento constrangedor do ensino médio? Se Gael me visse agora, riria de mim com certeza.
A lembrança de quando conheci Gael me vem à mente, foi no meu segundo mês de aula do primeiro ano, estava na biblioteca, ainda me lembro o que estava lendo — “Percy Jackson: O último Olimpiano” — quando ele passou pela porta.
Meus olhos foram capturados pela sua aparência: era mais baixo que eu, mas era forte, parecia ser mais novo também, sem um vestígio de barba, traços delicados, lindo demais. Pele n***a, cabelo encaracolado que batia na altura do queixo, olhos castanhos claros, quase dourados e um sorriso lindo…
Imediatamente me veio a imagem das estátuas de Apolo das aulas de arte.
Quando seus olhos vieram a mim, desviei e enterrei meu rosto no livro, sentindo meu coração querer sair do peito.
Alguns dias depois, ele sentou do meu lado no refeitório, de início tentei ignorar sua presença, mas quando percebi que estava com os braços na mesa, apoiando o queixo neles enquanto me fitava intensamente, foi impossível ignorar.
— Hum… Olá?
Ele sorriu, como se tivesse ganhado algo, fazendo aquele calor subir pelo meu rosto.
— Oi, meu nome é Gael e estou apaixonado por você. — Diz, sem mais nem menos.
Foi a primeira vez que alguém disse isso tão diretamente para mim, ele começou a rir da minha reação.
— Tô brincando, mas de verdade, te achei bem fofo. — Sua voz travessa faz meu coração bater acelerado.
— Ah… Ok. — Respondo, sem saber muito bem o que dizer.
Ele ri novamente.
— Então você é do tipo tímido… Gosto assim…
Ele só pode tá me zoando, só assim pra um cara bonito desses falar comigo.
Me levantei irritado e fui embora.
— Ei! Espera! — Me chamou, mas não olhei para trás.
Não foi a última vez que ele tentou falar comigo… Quem dera tivesse sido a última vez.
Faltava uma semana para reencontrá-lo e eu ainda agia como um adolescente apaixonado.
Talvez seja pelo fato de você tá apaixonado… Pelo Nilo dessa vez.
Ah, não, de novo não…
*
A “garota veneno” começou a ser mais prestativa na cafeteria, não foi nada da noite para o dia, mas sim um processo longo e um pouco incômodo.
Tive que reensinar para ela como o caixa funcionava, mostrar onde devia colocar a bandeja para entregar bebidas, pois Jackeline sempre colocava no lugar errado, mostrei onde cada coisa ficava no depósito, essa pareceu a parte que menos entendeu.
— Mas por que o leite fica do lado do queijo? — Perguntou, pela quarta vez.
— Márcia gosta de separar por tipo, então aqui ficam os laticínios. — Respondo, pela quarta vez.
— Ok… Mas e o iogurte? — Procura na prateleira.
— Geladeira.
— Por que não deixar o leite e o queijo na geladeira?
— Porque esse tipo de leite e esse tipo de queijo não é pra geladeira. — Respondo, o mais calmo possível.
Jackeline assente.
— Ok. — Ela diz por fim.
Deixei Jackeline no caixa enquanto limpava o chão da loja, uma criança havia derrubado um bolo inteiro num canto, melando tudo com pedaços de morango e chantilly, poderia ter posto a “garota veneno” para limpar, mas sabia que não limparia com muito empenho e a última coisa que preciso é uma infestação de formigas.
Ouvi o sininho da porta, quando olhei, vi o antigo grupo de amigos da Jackeline entrar, que por sua vez parecia bem desconfortável vendo todos ali. Pablo está no meio deles, o seu braço ao redor de uma garota que, estranhamente, lembrava a própria Jackeline.
Jackeline 2.0.
Pablo “cara-de-rato”, seu apelido era por conta dos olhos pretos esbugalhados e orelhas de abano, em compensação seus dentes eram certinhos, mas um pouco grandes para a sua boca, seu cabelo e barba eram bem aparado, num tom loiro avermelhado.
O cara tinha dinheiro, dava para ver isso nas suas roupas de marca, fazia curso de medicina na faculdade, vivia ocupado no outro bloco, então quase não se via muito dele no bloco que eu estudava. Pelo que soube, ele e Jackeline se conheceram numa festa, também ouvi que ela trabalhava como secretária na clínica particular que os pais do Pablo são donos, obviamente perdeu o emprego depois do término.
— Boa tarde, O que vai pedir? — Jackeline diz sua frase ensaiada.
Suas antigas amigas cochicham a encarando com desdém, Pablo e a Jackeline 2.0 parecem se divertir com a situação, Ricardo tem um sorriso de lado, o único que não parece achar graça da situação é Felipe, que nem olhava para a Jackeline, olhava para mim.
Aceno educadamente, que retribui com um sorriso.
Fofinho.
— Tô a fim de um café gelado, você entende muito bem de café gelado, né, j**k? — Pergunta Pablo, fazendo seus amigos rirem.
Jackeline parece irritada, mas não se deixa levar pela provocação.
— Deseja mais alguma coisa? — Pergunta num tom seco.
— Você devia sorrir mais. — Pablo abraça com mais força a garota do seu lado, a exibindo. — Não acha Julia?
Julia e Jackeline.
Aqui vemos um padrão descarado.
— Não vai mudar muita coisa. — Responde Julia com nojo.
Consigo sentir no ar que Pablo veio apenas para humilhar, seu ego é incapaz de encerrar um assunto de forma madura. Não vou negar que ela com certeza merece um pouco disso, estive do outro lado daquilo não muito tempo atrás, traição é algo imperdoável… Mas as risadas fazem Jackeline tremer, seus olhos estão focados no caixa a sua frente, escondendo sua vontade de chorar.
Sim, eu tenho que sentir pena dela, por quê? Porque sou trouxa.
Deixo o esfregão de lado e vou para trás do balcão, a coloco delicadamente atrás de mim, assumindo o caixa.
— Tá no seu intervalo. — Sussurro para ela.
Jackeline não me responde, apenas se afasta e vai para os fundos da loja.
— Seu pedido logo vai ficar pronto. — Digo com meu melhor sorriso profissional.
— Ah, valeu… — Pablo me entrega seu cartão Black, se inclina para a frente e lê meu nome no crachá. — Cláudio… Você é o Cláudio?
— É o que tá escrito no meu crachá. — Respondo, passando seu cartão na maquininha.
Pablo ri da minha resposta, como se eu tivesse dito uma piada.
— Pô, cara, te agradecer! Cê é o cara! — Fala, devolvo seu cartão de playboy mimado e continua a falar. — Se não fosse por você, nunca saberia que a j**k é uma p**a!
Não que você tenha feito muito diferente dela.
Jackeline traiu Pablo? Sim, mas não esquecemos que ele flertou com a Vanessa quando ainda namorava, e há boatos de que Pablo traiu também, mas ele parece ter um poder maior na hierarquia da faculdade, pois todos parecem passar pano na sua atitude.
— Como consegue trabalhar com ela? — Uma garota, acho que Laís, pergunta. — Ela é insuportável!
— É! — A garota magricela do lado dela, Marta, eu acho, complementa. — Não sei como aguenta.
Continuam tecendo comentários, esperando que eu concorde, na expectativa que eu fale todas as coisas horríveis que Jackeline é ou fez no período que trabalha aqui.
Respiro fundo, sentindo que iria me arrepender do que estava prestes a dizer.
— Engraçado como a relação de vocês é volúvel. — Me olham confusos. — Ah, vocês são burros… É tipo, varia muito, sabe? Todos falam m*l pelas costas um do outro… Eu seria incapaz de ter uma amizade falsa como a de vocês, admiro o esforço.
Todos parecem abismados com o que falei, menos Felipe, que me olha com certa admiração.
— Cê tá do lado dela? — Pablo me acusa.
— Eu não tô do lado de ninguém, tô do meu lado. — Digo, sem esforço, um sorriso involuntário surgindo no canto dos lábios. — Apenas me impressiona que vocês, até algumas semanas atrás, agiam como “melhores amigos para sempre”, agora falam que ela é insuportável sem dificuldade nenhuma… Sinceramente, a dinâmica de vocês é muito frágil. — Márcia me entrega o café gelado, coloco no balcão na frente dele. — Não dou dois semestres para a relação linda de vocês acabarem.
Com o canto do olho vejo Márcia sorrir, ela se afasta não querendo interromper meu momento de “verdades difíceis de engolir”, algo que minha chefe adora quando acontece.
É tipo um show particular.
Pablo pega o café e o segura com firmeza.
— E o que você sabe? Quem você pensa que é pra dizer isso? — Pergunta na defensiva.
Não tava me agradecendo agora a pouco? Me dizendo que eu era “o” cara?
— Sei que você está tentando fazer a Jackeline ficar com ciúme com uma garota menos bonita que ela. — Dou de ombros. — Mas, você tem razão. — Digo com meu melhor sorriso. — Quem sou eu para dizer qualquer coisa?
Num movimento rápido, Pablo joga o café gelado na minha cara, surpreendendo a todos.
— Cala a boca, seu viadinho! — Pablo diz batendo o copo vazio no balcão.
Ouço seus amigos rirem com incredulidade, Márcia aparece e me olha surpresa, talvez percebendo que as coisas escalaram para algo que não esperava, passo a mão pelo rosto, devagar, tirando o café dos meus olhos e dou um suspiro irritado.
— Pansexual. — Me esforço para enxergar.
Todos ficam em silêncio.
— Quê? — Pablo solta, sem entender.
— Sou pansexual. — Respondo enquanto procuro as cegas uma toalha embaixo do balcão. — Não que sua mente limitada seja capaz de entender isso…
Márcia dá uma risada contida, vai até onde deixei o esfregão e o traz para onde estou.
— Licença, meu amor…
— Claro… — Murmuro, dando espaço para ela.
Começo secar meu rosto enquanto, ouço Pablo rir incrédulo, provavelmente esperando uma reação irritada minha, talvez que eu explodisse.
Tô tão acostumado com as merdas que a vida me envia que nem ligo mais.
— Qual é a p***a do seu problema?
Me pergunto isso todos os dias.
— No momento, um bebê chorão e mimado. — Márcia dá uma risada bem menos contida da minha resposta. — Quando vai perceber que está sendo infantil usando essa garota? Acha o quê? Que Jackeline voltará rastejando pra você?
Pablo me olha perplexo e sem palavras, a garota do seu lado, Julia, se vira para ele indignada.
— Tá me usando pra fazer ela voltar pra você? — Julia pergunta, quando Pablo a olha como se pego no flagra, os olhos dela começam a lacrimejar. — b****a!
Julia sai correndo, as meninas vão atrás dela chamando seu nome, Ricardo olha com desaprovação para Pablo.
— Pô, véi… Apresentei vocês dois, ela é minha prima. — Então se afasta e sai da loja.
Pablo fica algum tempo parado, parecendo não entender como a situação se voltou contra ele, depois se vira para mim e aponta o dedo na minha cara.
— Eu ia te chamar pra sair com a gente, mas pode esquecer!
— Ah, não! Não sentarei na mesa dos legais! — Murmuro, levando a mão ao peito, revirando os olhos.
Ele saiu da loja sem dizer mais nada.
— Pelo menos ele pagou pelo café…
— Você tá bem? — Felipe perguntou, me fazendo perceber que ainda está ali.
O encaro surpreso.
— Não vai com seus amigos?
— Digamos que… Eles são volúveis demais. — Responde com sagacidade.
— Ah, com certeza… — Outro sorriso de canto surge nos meus lábios, me viro para Márcia — Vou me limpar, já volto… — Falo indo rapidamente para os fundos.
Devia ter ficado de boca fechada.
Vou até o tanque, tiro o avental e a camisa branca que usava, ficou com uma mancha enorme de café nela, comecei a lavar ela, mesmo sabendo que provavelmente não daria para usar mais.
— O que aconteceu? — Jackeline pergunta atrás de mim.
— Pablo não gostou do café gelado e me devolveu.
Penso que j**k se afastou, tudo fica em silêncio, mas sua voz surge de repente.
— Márcia disse que você me defendeu.
— Não te defendi… — Corrijo, irritado. — Eu apenas dei minha opinião não solicitada… Como sempre.
Bufo de mau-humor e levanto a camisa molhada.
— Isso que ganho por ter uma boca grande… — Murmuro.
Deixo a camisa de molho num balde, me viro e noto Jackeline fitando minha barriga, seus olhos sobem para o meu rosto, logo desvia o olhar e comprime os lábios.
— Vou… Voltar pro caixa. — Então se afasta rapidamente.
Ok… Isso foi estranho.
Vou até a sala dos funcionários, pego meu casaco, aproveito a oportunidade para pegar meu cigarro e isqueiro, visto o casaco e saio pelos fundos.
Acendo um cigarro, o permitindo me acalmar.
Eu não defendi a Jackeline, apenas apontei como eles agem como alunos de ensino médio.
Não faria nem sentido, eu? A defender? Ainda mais depois dos boatos contra a Vane, as coisas que disse na minha cara, todas as suas atitudes eram ótimos motivos para NÃO defendê-la.
Mas foi só ela ameaçar chorar que você se meteu no meio.
Às vezes eu realmente odeio ser trouxa.