Capítulo 5: Convite.

2419 Words
Acordei com o barulho do meu despertador do celular, estou no sofá com um baita torcicolo, levantei grunhindo de dor e vi que tinha uma coberta sobre mim. — Bom dia, flor do dia. — Ouço a voz de Nilo na cozinha. Olho perplexo e bocejo. — Você dormiu aqui? — Sim. — Respondeu de costas para mim. Quando me aproximo, vejo ele fritando dois ovos na frigideira, a misteira estava ligada e o liquidificador estava com leite e morango dentro, ergo as sobrancelhas e começo a rir. — Eu sei que falei pra ficar a vontade, mas dormir aqui e fazer seu café da manhã aqui é um pouco demais… — Comento indo pegar uma banana. — Queria ser capaz de comer tanto de manhã. — Você… Não é de comer de manhã? — Pergunta, me olhando estranho. Descasco a banana e dou outro bocejo. — Só quando vou trabalhar, no máximo isso aqui e um “Ovomaltine”. — Falo, termino de comer a banana e depois pego um copo do armário, tem leite em cima da pia, aproveito e coloco no copo, noto que Nilo desligou o fogo da frigideira e está com um olhar aborrecido. — Ah, mas pode terminar o que cê tá fazendo já, não tem problema… Ele dá uma risada e liga a frigideira de novo. — Ok… — Murmura. Olho as horas no meu celular. — Tenho uma hora ainda… — Coloco duas colheres de “Ovomaltine” no copo e mexo. — Vai fazer o que hoje? — Nilo pergunta, abrindo a misteira e tirando dois mistos quentes. Nossa, ele come muito de manhã… — Trabalhar, mas saio na hora do almoço e posso curtir o restinho do meu fim de semana no meu maravilhoso sofá… — Respondo sonhadoramente. Nilo põe os dois ovos ao lado dos dois mistos num prato, depois liga o liquidificador, observo o interior do copo transparente ficar rosa, logo ele desliga, despeja o conteúdo num copo de vidro e noto que ainda sobrou bastante no liquidificador. — Não vai sair nem nada depois? — Pergunta. — Hum… Não gosto de sair domingo, mas depende muito… — Meu celular toca, é o Rone me ligando. — Alô? — Bom dia, desculpa incomodar… — Rone começa timidamente. — Mas a Márcia pediu pra te avisar que vai ter um evento no próximo sábado na cafeteria, de tarde. — Evento? — Pergunto sem entender. — Que evento? Sábado é meu dia de folga. — Han… — Ouço uma voz abafada no fundo. — Alguma coisa que vai rolar na faculdade e terá muita gente… Então você tem que vir, no turno das duas horas. — Ah, ok, né? Não tenho muita escolha… — Respondo levemente irritado. — Mais alguma coisa? — Não, não, só isso… A gente se vê no trabalho. — Rone diz sem jeito. — Ok, até daqui a uns quarenta minutos… — Me despeço e noto o olhar de Nilo. — Tudo bem? — Pergunta, terminando de comer o segundo misto. — Tudo ótimo, só vou trabalhar na minha folga. — Respondo com sarcasmo. — Bom, pelo menos vou receber uma grana extra… — Murmuro e termino de beber meu achocolatado. — Enfim, vou tomar banho e me arrumar, aí você termina de comer e saímos. — Ok. — Ele diz dando uma garfada num ovo. Durante o banho, não consigo deixar de refletir. Nilo Garcia está tomando café da manhã no meu apartamento… Ninguém acreditaria se eu contasse… * Faltando vinte minutos para o fim do meu turno, sou surpreendido com uma pessoa sorridente que não via a meses. — Cláudio?! — Bruno entoa alegre. Sorrio de volta. Bruno, com seu cabelo castanho-claro, poderia ser facilmente um personagem de anime com seus grandes olhos também castanhos, tinha o nariz pequeno e uma pintinha marrom entre as sobrancelhas. Óculos-escuros que mantém seu cabelo curto para trás, com uma mecha de cabelo escapando por baixo, trocou de brincos, agora usa pequenas argolas azuis; dá para notar efeitos de academia, pois seus ombros e braços estão maiores, mas continua, na minha visão, sendo o carinha tímido e adorável que beijei no cinema. Pegaria no colo facilmente. Está usando uma camisa azul-clara folgada, uma bermuda branca e chinelo preto, diferente do seu estilo jeans, bota e moletom largo, está bem casual. Eu e Bruno tivemos um encontro bem desastroso e o seu melhor amigo, Henrique, não ficou nada feliz. Acabei me afastando meio que já sabendo que os dois ficariam juntos, porque é assim que minha sorte funciona: conheço um cara muito legal e ele fica com alguém melhor que eu. É sempre assim. Voltamos a nos falar pouco tempo depois dele começar a namorar, nos víamos raramente, seu namorado sempre lançando olhares tensos na minha direção quando falava com o Bruno. Henrique age como se eu fosse roubar o Bruno dele, mas eu sei o meu lugar nessa história e respeito a escolha do Bruno… — c*****o, é aqui que você trabalha? — Pergunta e eu não resisto a resposta sarcástica que lhe dou. — Não, não, só fiquei com vontade de vir aqui hoje, num domingo, fazer o café dos outros… — Vai se fuder! — Responde rindo. — O que faz por aqui na Gávea? — Pergunto curioso. Brenda aparece do lado dele, parece irritada e triste, mas sendo a Brenda isso seria seu estado de espírito normal. Brenda tem os olhos verdes um pouco inchados, como se tivesse chorado há pouco tempo, também tem olheiras profundas, seus cabelos loiros e cacheados estão num coque bagunçado, usava um moletom verde-água, um jeans folgado e tênis adidas. Um estilo pouco diferente do que costuma usar, já que geralmente se vestia de forma bem arrumada e feminina. Nem maquiagem estava usando. — Ah, oi, Cláudio. — Ela fala sem muita animação, se sentando numa mesa. Bruno vem até o caixa. — Ela e o Caio brigaram f**o. — Diz, parecendo acostumado com a situação. — Então a gente meio que queria uma mudança de ares… — Meio longe, né? — Bom, ela falou que a tia morava por aqui, decidiu passar uns dias e me chamou. — Bruno fala dando de ombros. — E Henrique? — Pergunto, olhando em volta, o esperando pular de algum lugar e puxar o Bruno para ele como sempre fazia quando me via. — Tá doente, de cama com febre. — Bruno comenta, preocupado. — Mas ele disse pra eu vir com a Brenda, pois ela raramente se abre quando tá… — Ele olha por cima do ombro na direção dela. — Assim. Observo Brenda, assistindo T.V. da cafeteria sem muito interesse, parece estar com a cabeça em outro lugar, drama de ensino médio. — Bom… Qual é o plano pra animá-la? — Pergunto. — Nada melhor que um filme. — Ele responde como se fosse óbvio, me olha por um instante e sorri. — Quer vir com a gente? — Meu turno acaba em… Quinze minutos. — Falo olhando as horas. — Podem esperar? — Claro, na verdade paramos aqui pra pedir algo pra beber. — Diz olhando as opções no cardápio pendurado acima de mim. — Smoothie! Adoro smoothie! — Bruno olha por cima do ombro. — Vai querer um smoothie, dementadora? — Só virgens falam de “Harry Potter”… — Ela murmurou irritada. — Quero banana com amora. — Quero frutas vermelhas. — Bruno pede. Efetuo o pedido, digo minha frase habitual e ele senta com a Brenda, pouco tempo depois o sininho da porta toca, olho e vejo Nilo, com o cabelo tingido de vermelho, sorrindo na minha direção. Ele estava com uma camiseta branca e justa do “Guns N' Roses”, que deixava escapar uma pontinha da tatuagem de lírio do seu ombro, usava uma calça jeans clara e botas pretas. Quando se aproximou, senti seu cheiro suave mas penetrante de lavanda, que acelerou um pouco meu coração, me lembrando do dia que acordei na sua cama. Não pense nisso! — Bom dia, o que vai pedir? — Falo minha frase ensaiada, rapidamente ignorando o efeito que sua proximidade me causou. Ele abriu a boca para falar, mas antes que pudesse pronunciar qualquer coisa, Bruno surge do lado dele com o celular na mão. — Você prefere “Jurassic World” ou “Doutor Estranho”? — Pergunta olhando para o celular, sem notar Nilo ali do lado. — Tem nada melhor? — Pergunto de volta, desanimado. — Bom, eu quero ver “Chamas da vingança”. — Ele revira os olhos. — Mas a Brenda disse “ain, outro filme do Stephen King não!” — Bruno fala, fazendo uma imitação muito fiel da voz enjoada da Brenda, então nota Nilo o olhando e fica vermelho instantaneamente. — Ah, desculpa… Nilo se vira para mim com a testa franzida. — Você não falou que não ia sair hoje? — Aquilo soa como uma bronca. — Eu não ia mesmo, mas não dispenso convite pra cinema. — Respondo, me sentindo estranho por me justificar. — Muito menos do “Hobbit” aqui. Bruno ficou ainda mais vermelho. — Vai se fuder, seu fumante desgraçado! — Grita irritado, me fazendo rir. — Bruno, entenda: posso parar de fumar, mas você não pode mais crescer. — Respondo, ele me dá um t**a no braço. — Aí! Prefiro na cara… Bruno arregala os olhos e leva a mão à boca, segurando a risada. — Meu Deus! Cala a boca seu p********o! — Bruno pede no meio da risada. — Você age como se não tivesse ouvido atrocidades piores saírem da minha boca. — Digo e noto o olhar de Nilo, parece incomodado. — Desculpa, seu pedido? — Cappuccino… Com chocolate. — Murmura. — Desculpa cara. — Bruno fala timidamente para Nilo. — Cláu aqui nasceu com uma condição rara em que ele fala as coisas sem pensar. — Você reclama, mas me ama! — Protesto, enquanto efetuo o pedido. — Vai ficar pronto logo. — Valeu… — Nilo murmura e se senta numa cadeira do balcão a minha frente. — Enfim… — Me viro para o Bruno. — Vamo de “Doutor Estranho”, porque “Marvel” não decepciona. — Discordo. — Nilo diz, chamando nossa atenção. — “Eternos” foi uma m***a. — Diria que teve uma ótima produção. — Comento, contrariado. — O filme é bem bonito… — O roteiro foi bem fraco. — Bruno concorda, olha para o Nilo e aponta para mim. — Você conhece ele? Ele olha para mim, como se estivesse esperando que eu falasse algo ou que desse algum tipo de permissão. Como não fiz nada, Nilo voltou para o Bruno e sorriu. — Sim, estudamos na mesma faculdade. — Responde, pensa um pouco e continua. — Diria que somos… — Bruno. — Rone diz atrás de mim, interrompendo o Nilo. — Opa, valeu. — Bruno pega os dois smoothies e se vira para o Nilo, esperando ele terminar de falar. Nilo parece hesitante, mas logo sorri da sua forma arrogante de sempre. — Próximos, somos próximos. — Responde por fim. Próximos? — Ah, legal. — Diz Bruno com cara de quem não entendeu nada, então se vira para mim. — “Doutor Estranho”? — Sim, voto em “Doutor Estranho”. — Falo. Bruno começa a se afastar, mas para e olha Nilo novamente. — Quer vir com a gente? — Pergunta, educadamente. Novamente, Nilo me olha, esperando alguma reação minha. — Seria legal se você fosse. — Falo, fazendo Nilo arregalar os olhos surpreso. Ele sorri de canto, parecendo satisfeito. — Tá, eu vou. — Nilo fala na direção do Bruno. — Legal, vou avisar a Brenda! — Bruno diz animado e vai na mesa onde ela estava sentada. O olhar intenso de Nilo cai sobre mim, parece querer me falar algo, suspira, abre a boca para falar, mas Rone volta colocando seu cappuccino na sua frente. — Aqui. — Rone diz para Nilo. — Obrigado. — Ele se limita a dizer, parecendo meio desanimado. Rone vira para mim. — Você vai ao cinema? Num domingo? Você odeia sair no domingo. — Rone diz, como se eu tivesse fazendo algo contra a natureza… Bom eu estava, mas era contra a minha natureza. — Bom, é uma oportunidade rara. — Falo dando de ombros. — Não vejo ele com muita frequência. — Ah… Ele é seu… Amigo? — Rone pergunta cauteloso. — Não que isso seja da minha conta… Só estou curioso. — Sim, ele é meu amigo. — Respondo, paro um momento e um pensamento vem a minha mente. — Quer ir com a gente? Ver o filme? Rone ergue as sobrancelhas e fica vermelho. — Que-quero sim. — Gagueja, envergonhado. Ele deve ficar desconfortável com pessoas estranhas. — Não se preocupe, ele é legal… Mas recomendo ficar distante da Brenda. — Falo essa última parte com um sussurro. — Se ficar muito perto, ela suga sua felicidade. Rone dá uma risada leve, corado. — Obrigado pelo aviso. Bruno volta com os dois copos de smoothie vazios, me poupando o trabalho de pegá-los da mesa, apoia os braços no balcão e sorri. — Então, vamos eu, você, a dementadora e o… — Ele aponta para Nilo e percebe que não sabe o nome dele. — Nilo. — Digo, percebo Rone do meu lado me olhando surpreso. — Rone aqui vai também. — Ok. — Bruno diz e se vira para o Rone. — Prazer, Bruno. — Rone. — Ele ajeita o óculos sem jeito. Nosso turno acaba, eu e Rone tiramos o avental e pegamos nossas coisas. — Você disse que não conhecia o Nilo. — Rone solta de repente. Me viro para ele, um pouco surpreso, geralmente o cara não é muito direto, quase se engasga numa pergunta, mas Rone me olha, esperando uma resposta. Não posso mais dizer que não nos conhecemos… Eu e Nilo passamos a noite juntos, não me lembro de nada daquela noite, tentei o evitar como se fosse a peste-n***a, mas não deu muito certo, a gente se beijou, mas claramente se decepcionou e nunca tocou no assunto. Anteontem Nilo descobriu que somos vizinhos, ontem me fez uma janta, assistiu filme na minha casa, dormiu lá e hoje usou minha cozinha para fazer seu café da manhã. Então nós… — Somos próximos. — Digo, apenas. Rone assente, assimilando minhas palavras misteriosas. Saindo do café, nosso estranho grupo iniciou uma jornada inesperada.
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