— Nós realmente temos que ir? — Perguntei pela terceira vez.
— Você já confirmou. — Vanessa respondeu m*l-humorada. — Agora não tem mais volta.
Engoli em seco e olhei pela janela do Uber.
Isso foi uma péssima ideia.
Estou sofrendo um pequeno surto de pânico, ignorando os outros colegas que iria rever, minha mente estava repleta de Gael. A última vez, ele vestia um terno, no corredor da igreja, as portas para o seu futuro estavam ali atrás dele, a única coisa que o segurava era eu.
Um garoto de quase 18 anos, sem fôlego, vestindo o uniforme da escola e chorando desesperadamente.
Gael me olhava como se eu fosse uma aparição.
— Você correu até aqui? — Me lembro claramente de sua voz surpresa. — Meu Deus, Cláu…
— Por quê?! — Estava desesperado. — Por que… Você vai fazer isso? — Perguntei sem ar e em lágrimas. — Não tenho notícias suas a mais de uma ano… E agora… Você vai se casar?
— Olha… — Ele olhou em direção as portas, nervoso. — Eu me apaixonei por outra pessoa…
Peguei o isqueiro do meu bolso e mostrei a ele.
— Isso não significa nada pra você?! — Inconformado, levo a mão ao peito. — Eu não significo nada pra você?! “O amor supera tudo, até o tempo”! — Grito.
Não conseguia acreditar, depois de tantas promessas, momentos felizes, depois de tanta insistência da parte dele de se aproximar de mim…
— Você veio até mim, você disse que me amava! — Falo e pego sua mão. — Eu me declarei naquele lago, prometemos amor eterno! A p***a do lago se chama “amor eterno”!
Ele suspirou com irritação, afastou a minha mão e finalmente me estilhaçou por completo.
— Eu não quero mais você.
Minhas lágrimas pararam na hora.
Ele nunca me amou, nunca se importou, me quis e depois não queria mais.
Me usou e me descartou.
Meu coração, que batia tão desesperado há poucos segundos, agora m*l parecia presente em meu peito. Todas as minhas dúvidas, anseios e angústias foram respondidas nessa frase.
Eu não quero mais você.
Enfiei o isqueiro no bolso, Gael me olhou com inquietação.
— Você prometeu que voltaria pra mim. — Disse, sequei o rosto e continuei. — E eu esperei você.
Gael não demonstrava culpa, nem tristeza ou qualquer sentimento humano, apenas se afastou, abriu as portas que o separava de seu novo futuro e me deixou para trás.
Eu segui o meu caminho para casa, como se nada tivesse acontecido.
— Se arrependeu? — Roberta me pergunta me tirando dos meus devaneios.
Seus olhos maquiados com sombra roxa e delineador preto me encaram do retrovisor.
Roberta acompanhou todo o meu relacionamento secreto com Gael, que não podia sair do armário para os pais reacionários. Ela esteve lá quando ele me fez feliz, esteve lá quando me fez chorar, viu o que aquilo me tornou.
Alguém que aprendeu que amar não era para todo mundo.
— Bastante. — Respondo, sentindo que ela sabia que arrependimento estou falando.
Roberta se volta para frente, pega seu celular da bolsa, provavelmente irá trocar mensagens com Mateus, que está em outro carro com Tom e Jackeline.
Tom e Jackeline vieram como convidados da Vanessa, Mateus como convidado da Roberta, e eu convidei o Nilo porque… Eu quis. Simples assim, o queria por perto; pensar em motivos do porquê o queria por perto me deixava nervoso.
Não preciso justificar todas as minhas ações…
Não entendi muito bem porque essa divisão entre os dois carros, Rô podia muito bem ir com o Mateus, mas não queria ficar perto da Jackeline de jeito nenhum, preferia ficar longe do namorado só para não ter que lidar com a “garota veneno”. Sugeri trocar com o Mateus ou Tom, mas Nilo negou imediatamente… Não disse o porquê, só disse que não queria. Vanessa o olhou de forma estranha nessa hora, mas não disse nada.
Vane queria ter ido no carro com o Tom, mas Roberta a queria por perto para fofocarem sobre a vida dos ex-alunos da escola, algo que fizeram boa parte da viagem e não prestei o mínimo de atenção.
— Ainda não acredito que você convidou a j**k. — Roberta comenta de repente para Vanessa. — Pelo visto ela e Tom estão se dando muito bem…
Vanessa não respondeu, apenas deu de ombros e se voltou para a janela.
Desde minha conversa com a Jackeline, as coisas entre nós se tornaram bem melhores no trabalho, claro não nos tornamos melhores amigos ou almas gêmeas, mas a convivência se tornou… Agradável, as conversas também, comecei até a me animar mais para chegar na cafeteria na hora.
Não sei explicar, nem quero sinceramente… Talvez eu ache a Jackeline… Interessante?
Percebo Nilo me encarar preocupado, parece saber que não estou bem, que estou divagando mais que o normal, mas não quer me deixar desconfortável perguntando o que estou pensando, então sorri e começa a falar de seu cachorro, Buzz.
Distração, preciso disso…
— Animado para conhecê-lo? — Pergunta com um sorriso enorme.
— Claro, temos tanto em comum.
Nilo ri, mesmo que meu comentário nem tenha sido tão engraçado.
— Vocês têm as mesmas olheiras.
Adivinha quem mais vivia falando das minhas olheiras?
— Qual é a raça do seu cachorro? — Vane pergunta, querendo entrar na conversa.
— Bull Terriê. — Nilo responde e mostra uma foto.
— Ah, que lindinho! — Vanessa diz radiante, depois se vira para mim. — Você vai conhecê-lo?
— Sim, amanhã. — Respondi com um sorriso contido.
Ela franze o cenho.
— Por que você vai conhecer o cachorro dele? — Pergunta com estranheza.
Dou de ombros, Nilo cora um pouco.
— Ele conhece o Gezora. — Respondi simplesmente.
— É estranho convidar alguém pra conhecer o cachorro? — Nilo pergunta no meio de nós, dando uma risada constrangida.
— Não… — Vanessa murmura sem jeito. — Mas é que…
— Chegamos. — O motorista do Uber avisa.
Saio do carro e respiro fundo, apesar de odiar insetos, o cheiro da natureza era agradável, o céu estava laranja, rosa e vermelho, faltava pouco para ficar completamente escuro e ter um vislumbre das estrelas. O barulho das cigarras era um pouco chato, a sensação é estranha da grama e terra contra a sola do meu sapato, o ar gelado me deu calafrios e eu, como sempre, era o único incomodado com toda aquela natureza linda.
Enfiei a mão no bolso e senti o metal gelado do isqueiro queimando minha pele.
Só preciso suportar isso por quatro horas, faça isso pela Vane e pela Rô.
Vanessa usava um vestido verde-claro reto que ia até os joelhos, desenhava bem seu corpo, tinha um laço atrás, mostrava as costas e realçava a cintura. Usava uma bolsa de mão vermelha, salto baixo, também vermelho, o cabelo solto com vários cachos vermelhos, maquiagem leve com um batom vermelho e brincos de flor.
Como sempre, chamativa, mas nada exagerado.
Roberta usava o mesmo vestido preto que usou na formatura do ensino médio, com renda na saia e a área do b***o em couro com um decote cavado, as mangas também eram de renda. Maquiagem forte, como sempre, seu cabelo com uma franja colorida em rosa e tênis all star, o mesmo da época do ensino médio.
Como sempre, chamativa e exagerada.
Eu estava simples, usava uma calça preta e sapato social e um suéter cinza por cima de uma camisa social branca.
Como sempre, nada chamativo nem exagerado.
Nilo mudou seu cabelo antes de vir, estava num tom pêssego, até agora minha cor de cabelo favorita dele. Usava uma camisa social roxa, calça de couro e botas, uma combinação que ficava estranhamente bem nele.
Como sempre, chamativo e exagerado de um jeito só dele.
Ele ficou do meu lado enquanto esperávamos as garotas pagarem o carro e ajeitarem seus vestidos amassados pelo banco do carro, seu cheiro característico de lavanda reforçava sua presença e me deixava um pouco mais relaxado.
— Você poderia fingir que tá passando m*l para podermos ir embora mais cedo? — Pergunto cúmplice para Nilo, que me olha com uma sobrancelha erguida questionadora. — Não agora, mas daqui a umas três horas? Talvez menos…
— Por que você tá tão incomodado de estar aqui? — Nilo pergunta, abro a boca para responder que é por conta dos insetos, mas ele continua. — Não diga que é pelos insetos.
Suspiro e puxo a gola do suéter, comecei a me sentir sufocado.
— Tenho… Lembranças com… Um cara. — Respondi, incerto. — Achei que vindo aqui, vê-lo, provaria para mim mesmo que não me afetava mais… — Passo a mão na nuca envergonhado. — Mas, agora que tô realmente aqui, percebo que fiz isso por impulso, não preciso provar nada, tô desconfortável pra c*****o!
— Você não superou? — Nilo pergunta com cautela.
— Superei, claro, mas foi difícil… Eu só… — Jogo a cabeça para trás em frustração. — Ele é complicado de lidar, me marcou muito, eu sei que vai falar alguma coisa só para me deixar envergonhado ou me provocar… Gael se diverte assim.
Respiro fundo e ergo os braços para me espreguiçar, tentando aliviar a tensão, sinto o olhar intenso de Nilo em mim, logo abaixo os braços e enfio as mãos nos bolsos constrangido.
Devia ter trazido meu cigarro…
— Não importa, vou conseguir lidar, sou um homem adulto, não um adolescente de 18 anos… — Digo mais para mim mesmo do que para Nilo.
— Qualquer coisa, tô aqui. — Nilo diz, um sorriso protetor nos lábios.
— Isso, na verdade, seria ótimo. — Falei rindo. — Você é o dobro do tamanho dele, seria engraçado…
— O que seria engraçado? — Jackeline surge perto de nós.
— Nada. — Olho para ela com atenção. — Vestido bonito.
Jackeline usava um vestido rosa, sapatilhas e um arco branco no cabelo. Sua maquiagem era leve, mas usava uma sombra rosa que destacava seus grandes olhos escuros.
— Obrigada, mas você disse isso antes de entrarmos nos carros. — Ela responde corando um pouco. — Duas vezes.
— Ah… É verdade… — Murmuro constrangido, desviando o olhar.
Jackeline vai na frente, Nilo coloca o braço nos meus ombros, o olho e me surpreendo com a proximidade do seu rosto.
— E eu? Estou bonito? — Pergunta num tom de flerte.
Ergo as sobrancelhas e passei os olhos por ele.
— Precisa mesmo que eu diga? — Pergunto rindo. — Claro que sim, você é bonito.
Seu rosto cora, ele recolhe os lábios e sorri de leve.
— Você também. — Me encara com intensidade. — Tá muito bonito. — Seu olhar desceu para a minha boca.
Meu coração para. Limpo a garganta, desvio o olhar e brinco com meu alargador, tentando disfarçar meu embaraço. Sua boca se aproxima da minha orelha, sinto sua respiração contra o meu pescoço, me arrepiando todo.
— Quer dormir no meu apartamento hoje? — Seu tom é sugestivo.
Meu coração para novamente. Mordo o meu lábio inferior, viro meu rosto para ele, que está bem próximo, sou capaz de ver o cinza ao redor do castanho de sua pupila.
Ele não tá falando sério, tá?
— Se eu passar a noite no seu apartamento, não vamos dormir. — Respondo, brincando.
Nilo me mostra uma expressão bem surpresa, por um segundo penso que exagerei, mas antes que pudesse dizer algo, Vane, Rô, Mateus e Tom se aproximam de nós.
— Vamos? — Vanessa perguntou animada de braço dado ao Tom.
Sorrio em resposta.
— Bora! — Finjo animação.
Começamos a seguir o caminho de terra até Jackeline, que nos espera na entrada do sítio.
— Por que o nome do sítio é “amor eterno”? — Jackeline pergunta.
— Alguma lenda sobre se declarar no lago à meia-noite. — Rô responde, dando de ombros.
— Funciona? — Mateus pergunta, a abraçando por trás.
— Não sei, nunca tentei. — Roberta responde rindo e olha para mim. — Mas o Cláudio sabe, ele já…
Ela imediatamente para de falar ao perceber o que disse, lanço um olhar homicida para ela, que ri sem jeito.
— Como assim? — Vanessa pergunta se virando para mim. — Você não se declarou pra mim no lago.
Não, mas me declarei pro Gael no ano que ele se formou…
— Sei lá do que ela tá falando. — Minto descaradamente.
Sinto o braço do Nilo ao redor dos meus ombros pesar, Jackeline olha para mim com curiosidade, mas não tenho coragem de olhar para ninguém.
Deus, sou eu de novo…
*
O interior da casa grande estava exatamente como me lembrava, madeira velha e várias fotos de casais felizes. Estava decorada para o evento, tinha música tocando e vários ex-colegas meus dançando.
Notei uma das fotos na parede, era do Bruno e do Henrique no ano anterior, quando eles começaram a namorar no acampamento.
Sorrio e cutuco a Roberta.
— Ah! Lá, Rô! — Aponto para a foto. — Bruno e Henrique!
— Ai meu Deus! Que gracinha! — Diz e me balança. — Tira uma foto e manda pra eles!
Pego meu celular e noto Nilo com um olhar perplexo para a foto.
— Tudo bem? — Pergunto, ele olha para mim sem jeito.
— Sim, sim… Aquele… É seu amigo Bruno, né? — Pergunta de um jeito estranho.
— É!
Tiro uma foto da foto, mando para o Bruno e olho para Nilo novamente, que parece ter visto um fantasma. Considero perguntar novamente se está mesmo tudo bem, mas logo alguém chama minha atenção.
— Sofia!
Ela se virou me dando um sorriso, seu cabelo loiro estava preso num coque alto, seus olhos castanhos estavam destacados com uma maquiagem forte, mas chique. Usava um vestido vermelho justo, que desenhava seu corpo cheio de curvas.
Pode não parecer, mas Sofia é mais velha do que aparenta.
Ela é uma grande amiga da Letícia, se conheceram quando minha irmã estava no primeiro ano do ensino médio e Sofia estava terminando o supletivo, na época eu estava no sexto ano, então só a conheci quando veio ajudar a gente. Sofia deu suporte financeiro quando minha irmã engravidou: pagou enxoval, fez chá de bebê, chá revelação, até ofereceu um lugar para ficar quando nossa mãe nos expulsou de casa, mas nossa tia acabou nos acolhendo.
Na verdade, nossa mãe expulsou apenas a Letícia, eu apenas aproveitei a oportunidade para fugir da minha mãe.
— Claudiano! — Sofia veio até mim e me abraçou. — Você tá ótimo. — Colocou suas mãos em meus ombros. — Trouxe um cara pra você conhecer.
Apesar de trabalhar como acompanhante de luxo há muito tempo, Sofia é uma pessoa bem romântica. Irônico, não?
Sua atividade favorita é juntar casais.
Revirei os olhos.
— Você sempre quer bancar a casamenteira. — Murmuro, entediado. — Dá última vez…
— Esqueça a última vez, esse cara é legal. — Antes que pudesse continuar, percebeu o grupo atrás de mim. — Ah, olá…
Meus amigos a olhavam com um misto de curiosidade e admiração.
— Sofia. — Falo apontando para ela. — Amiga da minha irmã.
Apresentações feitas, Sofia pede licença a todos e me leva com ela.
— O nome dele é Felipe, ele é o amigo gay de um cliente meu. — Diz animada. — Ele é meio tímido, mas acho que isso não será problema…
Sofia se aproxima de um cara que está de costas para nós, alguns centímetros mais baixo que eu, forte, mas não rasgado como Nilo, cabelo loiro num corte militar e vestia uma roupa social.
— Felipe! — Chama, ele se vira para nós e meu queixo quase cai.
Quem diria que o Felipe que ela quer apresentar é o mesmo Felipe do antigo grupo de amigos do Nilo? Seus olhos castanhos cor de mel estavam arregalados.
— Esse é o Claudiano. — Sofia diz rindo. — Bom, o nome dele é Cláudio…
Ele não disse nada, parecia surpreso demais para falar qualquer coisa.
— Vou deixar vocês se conhecerem melhor… — A loira diz, se afastando com um sorriso travesso.
O silêncio nunca foi tão ensurdecedor, limpei a garganta e dei um sorriso constrangido.
— Então… Coincidência, né? — Tento quebrar o gelo.
Felipe coça nuca.
— Ah, pois é… — Ele desviou o olhar sem jeito.
Silêncio novamente.
— Eu não sabia que você era gay. — Digo sem pudor algum.
Seu rosto fica vermelho, ele recolhe os lábios e por fim dá uma risada constrangida.
— Não é realmente um segredo, só não saio falando disso. — Responde na defensiva.
Tentei segurar uma risada, mas acabou escapando por entre os lábios.
— Você não é obrigado a anunciar isso, só estou dizendo que não sabia, tô surpreso.
Ele sorriu parecendo mais relaxado.
— Não pareço gay? — Felipe pergunta.
— Não, de forma nenhuma. — Falo, ignorando seu olhar surpreso. — Você tem que deixar mais óbvio, com mais purpurina e Madonna… Seja um gay melhor.
Felipe leva a mão à boca tentando segurar sua risada, logo desistiu, revelando um sorriso lindo.
— Sofia falou que você é engraçado, mas isso eu já sabia. — Comenta com as mãos enfiadas nos bolsos da calça social. — Sabe… É difícil conversar aqui, vamos para um lugar mais calmo?
Um sorriso malicioso surgiu nos meus lábios.
— Conheço um lugar. — Digo dando uma rápida olhada por cima do ombro.
Meus amigos estão numa certa distância, Vanessa e Tom estão dançando, Roberta está comendo com Mateus, Jackeline conversa com um cara com quem acho que já estudei, Nilo está me observando, parece curioso e confuso. Faço um sinal dizendo que vou dar uma saída e voltava depois, Nilo ergue as sobrancelhas surpreso.
— Vamos. — Digo, me voltando para Felipe e pegando em sua mão.
Seu rosto fica mais corado, mas não afasta minha mão enquanto o guio para fora da casa grande.
*
O pequeno píer no lago estava vazio, o céu estava estrelado, a lua cheia, iluminando o ambiente à nossa volta, tinha vagalumes voando ao nosso redor, dando um ar romântico na paisagem.
— Nossa, esse lugar é lindo. — Felipe comenta do meu lado.
Me sento no píer e dou batidinhas no lugar do meu lado, Felipe rapidamente senta perto de mim, com os olhos passeando por todo o lago.
— Definitivamente um lugar calmo. — Digo olhando para ele.
— É um dos lugares calmos já feitos. — Responde rindo e olha para mim.
Seu rosto está bem próximo do meu, corado com a proximidade, noto os detalhes dos seus olhos castanhos-claros, que me observam com expectativa. Felipe morde o lábio nervosamente, sorrio com sua reação tímida, chega a ser fofo um cara tão bonito ficar tão envergonhado com tão pouco.
— Tenho um fraco por caras tímidos. — Sussurro e olho para os seus lábios.
Felipe não responde, apenas ergue a mão até meu rosto, acariciando minha bochecha. Me aproximo e o beijo delicadamente, sentindo sua respiração nervosa contra o meu rosto. Intensifiquei o beijo, abrindo com a minha boca a sua devagar, permitindo que minha língua conheça seu interior, ele gemeu de leve contra meus lábios, causando um arrepio pelo meu corpo.
Levo minhas mãos até sua cintura, o puxando contra meu corpo, sua outra mão vai até minha nuca, passando os dedos pelo meu cabelo, o senti relaxar nos meus braços, se deixando levar pelo meu toque. O abracei com força, passei meus lábios para o seu rosto, beijando sua bochecha, depois sua orelha, descendo pelo seu pescoço, enquanto ele suspirava no meu ouvido.
As mãos dele seguravam meu cabelo com força, como se implorando para eu não me afastar, dei leves mordidas no seu pescoço, sentindo seu corpo arrepiar e leves gemidos escaparem da sua boca.
— Você é sensível… — Sussurrei no seu ouvido. — E tem um gemido gostoso…
Ele encolheu contra os meus braços.
— Não fala isso… — Pede envergonhado.
Sorrio contra sua orelha, me afasto e olho para o seu rosto, que está bem vermelho.
— Não é só o seu gemido que é gostoso. — Digo.
Felipe sorri.
— Você é diferente do que imaginei…
Ergo uma sobrancelha.
— Como me imaginou? — Pergunto levando a mão ao seu rosto.
Ele inclinou o rosto contra minha mão, apreciando o carinho.
— Achei que você seria mais… — Felipe morde o lábio pensativo. — Contido.
— O que acha de mim agora? — Pergunto.
Felipe ficou em silêncio, parecia pensar no que dizer.
— Você com certeza não é contido.
Comecei a rir e volto a beijá-lo.
Fazia um bom tempo que eu não ficava com alguém, fiquei distraído demais com a faculdade para lembrar que tinha uma vida amorosa. Acho que nunca fiquei tanto tempo sem beijar ninguém, quem foi a última pessoa que beijei mesmo?
Nilo.
Imediatamente paro de beijar Felipe.
— O que foi? — Pergunta.
Não é como se isso importasse, ficar com o Nilo não é algo que acontecerá de novo, afinal de contas somos amigos agora e ele continua sendo um cara popular demais, chamativo demais e…
Demais pra mim.
— Nada. — Falo com um leve sorriso. — Tava pensando… Quer ir embora?
Seu rosto ficou bem corado, talvez não tenha ficado confortável com a ideia.
— Se não quiser a gente continua… — Comecei a falar.
— Quero. — Ele diz, me cortando. — Quero… Ir embora, com você…
Ergo as sobrancelhas.
— Tem certeza? — Pergunto me levantando.
— Sim. — Ele responde.
— Absoluta? — Pego sua mão, o ajudando a levantar.
— Sim. — Ele responde com um sorriso constrangido.
— Mesmo?
— Vamos logo! — Felipe pede impaciente.
— Ok, só vamos avisar o pessoal que estamos indo.
E começamos a andar rapidamente de volta para a casa grande, Felipe segurava minha mão com firmeza, me lançava olhares e às vezes, durante o caminho, roubava selinhos de mim, às vezes errava e beijava o meu rosto ou o canto da minha boca, o que rendia algumas risadas.
Quando entramos, fui direto no meu grupo de amigos, avistei Roberta conversando com alguém. Mesmo de costas o reconheci, o seu cabelo encaracolado estava um pouco mais curto, mas sua pele n***a e sua altura eram únicos. Um frio desconfortável percorreu meu corpo, mas consegui me manter calmo apesar disso.
— Tudo bem? — Felipe me perguntou. — Sua mão tá suando…
Talvez não tão calmo.
Solto sua mão.
— Ah, desculpa. — Peço sem jeito, secando a mão na lateral da calça.
— Tudo bem. — Ele leva sua mão a minha novamente e a segura firme. — Você parece nervoso…
— Ah, eu vi alguém que não vejo há muito tempo. — Dou de ombros. — Vou só dar um oi e dizer que vou embora.
Ele balança a cabeça confirmando, continuamos em direção ao meu grupo de amigos. Roberta olha para mim, seus olhos mostram surpresa ao me ver de mãos dadas com o Felipe, Vanessa e Tom também. j**k parecia decepcionada, o que me deixou confuso, Mateus olhava para mim, completamente alheio a situação e Nilo tem um misto de confusão e raiva.
Raiva?
Gael provavelmente notou os olhares em algo atrás dele, pois se virou e ergueu as sobrancelhas ao me ver. Continuava irritantemente lindo, mas seus olhos castanhos…
Estranho, eu podia jurar que seus olhos eram um pouco mais claros…
Sua beleza estava como lembrava, mas não me afetava mais como antes, na verdade era quase decepcionante o quão calmo estava agora diante dele, não tinha mais todo aquele esplendor de dois anos atrás.
Era como se todo o seu brilho tivesse sido sugado, ou nunca tivesse existido. O olhando agora, na minha frente, acho que nunca teve qualquer brilho.
Acho que foi tudo coisa da minha cabeça adolescente cheia de hormônios.
— Oi, Cláudio. — Ele diz com um leve sorriso. — Já faz um tempo…