Quando esbarrei no Gris na escada do prédio onde moro, fiquei em choque. Claro, tinha muitos alunos da faculdade morando aqui, mas realmente não esperava que ele morasse aqui também.
Há quanto tempo ele mora aqui?
Como nunca o vi antes?
Talvez não more aqui, talvez tenha vindo visitar alguém?
Mas descartei essa última pergunta quando comecei a usar só as escadas, para ver se o encontraria mais vezes, deu certo, ele usava as escadas o tempo todo, sempre. Nessas vezes seguintes, me cumprimentou, tímido, mas educadamente e se afastou rapidamente, impedindo qualquer possibilidade de interação.
— Pretende perguntar o número do apartamento dele? — Nando questionou depois que contei ter esbarrado no Gris na escadaria do prédio algumas vezes.
— Eu nem tenho número dele… — Respondi levando as mãos ao rosto, frustrado.
— Depois fala de mim… — Meu amigo murmura, debochado.
Bufei inconformado, ele tinha razão, estava dificultando algo simples, ou talvez Gris que estivesse, porque claramente não estava interessado e continuava pondo esse espaço entre nós. Tinha também aquele receio dele apenas dizer “não”, ainda mais agora que parecia estar ocorrendo algum tipo de avanço entre nós, mesmo que quase imperceptível. Mas um dia minha sorte mudou, nunca fiquei tão grato por trabalhar como motoboy no restaurante do meu tio.
— Aqui Nilo! — Meu tio me entrega uma embalagem com um hambúrguer num saco amarrado. — É no prédio que cê mora. — Ele olha para o relógio. — Sua última entrega do dia.
— Valeu! — Pego e vou em direção à saída.
— Não esquece de devolver a maquininha amanhã! — Ouço sua voz atrás de mim.
— Tá bom! — Respondo antes de passar pela porta.
O restaurante ficava ao lado da casa do meu tio, onde morei por boa parte da minha vida, passei na frente do portão e Buzz, meu cachorro, me cumprimentou pulando e latindo.
— E aí, garotão! — Cumprimento de volta, faço carinho entre suas orelhas. — Lindão!
Pena que meu prédio não aceita cachorro grande…
Meu Bull Terriê parece ler meu pensamento e lambe minhas mãos, me fazendo cócegas, enquanto ria observei as manchas pretas ao redor de seus olhos e imediatamente lembrei do Gris.
— Conheço alguém com olheiras iguais às suas. — Murmuro.
Me afasto, subo na moto e vou em direção a meu prédio, sendo uns seis quarteirões de distância.
Quando chego e olho o número do apartamento do pedido, vejo ser no mesmo andar que o meu. Subo pelo elevador, já pensando nas músicas que ouviria deitado na minha cama logo depois dessa entrega.
Acho que “Good Boy Daisy” lançou uma música nova…
Talvez ir nos clássicos, ouvir “Titãs”….
As portas do elevador se abrem, vou em direção ao apartamento, toco a campainha e ouço um miado, passos, a voz do Gris chega aos meus ouvidos antes de vê-lo pela porta.
— Boa noite… — Ele paralisa ao me ver.
Está com seus óculos, seu cabelo está um pouco amassado do lado, usa uma camisa preta com alguns pelos de gato grudado nela e uma calça de moletom cinza. Era estranhamente reconfortante vê-lo de forma tão casual, mas naquele momento não consegui refletir muito sobre isso, meu único pensamento era:
Ele é meu vizinho?
Quando estava prestes a perguntar há quanto tempo morava ali, ou se ele sabia que eramos vizinhos, ou até fazer uma piadinha dizendo que ele estava me seguindo, vejo fumaça atrás dele, aviso Gris que logo corre até o fogão, desliga o fogo e olha dentro da panela com uma cara irritada.
— Ah, adoro frango queimado… — Murmura ranzinza, fazendo uma careta.
Seguro a risada, ele se vira para mim mas seus olhos vão para o chão e ficam assustados.
— NÃO! — Ele me empurra para o lado, não com muita força, e vai até o corredor. — GEZORA! p**a QUE ME PARIU! GATO i****a!
O vejo correr em direção ao elevador, as portas se fecham e ele fica agitado, quase pulando no lugar, olhando o número do andar em que vai cair.
— Gris! Mas o que… ? — Tento perguntar, mas ele me corta.
— Meu gato entrou no elevador! — Grita, desesperado, sem olhar para mim.
Percebo que está descalço, mas antes que eu possa avisar a ele, o doido saí correndo pelas escadas.
Pra um cara indiferente, ele consegue ficar bem nervosinho.
Deixo o hambúrguer na mesa da cozinha do apartamento dele, pego um par de chinelos pretos perto da porta, as chaves penduradas na fechadura, tranco o apartamento e vou ao início do corredor, vejo que o elevador parou no andar do Nando, desço as escadas rapidamente atrás do Gris.
Aqui vou eu, correndo atrás dele…
Quando abro a porta do andar, j**k está na frente do elevador olhando com cara de nojo para algo no fim do corredor. Olho na mesma direção, Gris está de costas para nós, abaixando no chão, com uma coisa cinza e peluda nos braços.
— Não me assuste assim… — Sua voz preocupada é doce.
Ele se ergue e vira para mim, franze o cenho, seus olhos descem até minha mão, ficando surpreso ao me ver segurar seus chinelos.
— Você saiu correndo descalço. — Me aproximo e os jogo na frente dos seus pés. — Aqui.
Seus olhos descem para os próprios pés, parecendo surpreso por não notar que estava descalço.
— Valeu. — Gris agradece, ficando corado, ajeita os seus óculos, cobrindo metade do seu rosto com a mão.
Fofo.
Vejo que a coisa cinza em seus braços é um gato bem gordinho com enormes olhos amarelos, levo a mão até ele e começo a fazer um carinho entre suas orelhas.
— E aí, gatinho… — O gato fecha os olhinhos, parecendo gostar do carinho. — Qual o nome dele?
— Gezora.
Um jogo antigo me vem a mente.
— Gezora… Tipo o vilão Godzilla? — Pergunto olhando para ele.
Ele abre um sorriso enorme, que me deixa desconcertado.
Gris tem um sorriso bonito.
— É! — Gris dá uma risada.
Foi uma risada diferente de quando comprei aquela torta de limão, não era constrangida ou surpresa, essa era mais solta, confortável e aquecedora. Senti bem no fundo da minha alma que seria impossível me cansar daquele som, uma certeza começou a crescer dentro de mim que eu queria fazê-lo rir todos os dias só para ouvir sua risada.
Emocionado, eu? Imagina…
Ouço um barulho de uma porta se abrindo, me viro e vejo Nando sair sem camisa do seu apartamento, ele segura uma jaqueta rosa. Quando me vê, me cumprimenta estranhando eu ali no meio do corredor, nota o Gris segurando um gato no colo do meu lado, ele sorri, como se eu tivesse finalmente escutado o conselho dele.
Quando j**k pega a jaqueta dela, faço a conexão imediatamente. Nando não parava de falar dessa garota linda, maravilhosa, super fofa que estava ficando… Mas não podia contar quem era ainda, porque, nas palavras dele, “o que ninguém sabe ninguém estraga”.
Que m***a.
Já começo a planejar como destruirei a ilusão amorosa que ele criou sobre ela, avisar que, além de ter namorado, é uma baita…
— Não sabia que tinha terminado com o Pablo. — Gris fala do nada ao meu lado.
Olho para ele e recolho os lábios, segurando uma risada.
Meu Deus… Ele fez isso de propósito?
O observando com atenção, pareceu uma atitude genuína de pura curiosidade, ele parecia confuso com a situação que via, como se a possibilidade de j**k estar traindo Pablo não existisse. Nando olha para j**k sem entender, ela tenta se justificar, mas Gris mais uma vez abre a boca.
— Mas você tava de mãos dadas com ele hoje de… — Ele para de falar quando j**k lança um olhar de fúria para ele.
Nando e j**k começam a discutir, eu e Gris trocamos um olhar, comunicando um para o outro para irmos embora dali. No elevado, a gente caí na risada.
— Não, jogar café na cara dela não foi o bastante! Eu tinha que melar o esquema dela e fazê-la me odiar! — Gris diz rindo, aquela risada solta e reconfortante.
Realmente quero ouvir mais vezes essa risada.
— Sinceramente, isso foi ótimo! Nando se livrou de uma boa! — Graças a você.
Na frente do seu apartamento, entrego suas chaves, ele agradece ficando vermelho de novo, o encaro por um momento, lembrando quando beijei ele pela primeira vez e ele estava vermelho, bem mais vermelho que agora…
Você bem que podia lembrar disso, é uma lembrança muito boa.
Ele entra no apartamento, coloca seu gato no chão, que corre para longe, pego a maquininha do bolso e ele pega sua carteira com seu nome impresso nela, tira o cartão e paga pelo hambúrguer.
— Aproveite. — Começo a guardar a maquininha no bolso.
— Obrigado, tome cuidado no trabalho. — Ele diz, me surpreendendo.
Normalmente ele é tão indiferente e sucinto.
Fico tão aéreo com isso que acabo indo na direção do elevador no automático, entro, apoio as costas no fundo do elevador, que fecha e fico ali por algum tempo, sem apertar nenhum botão.
O sorriso dele, a risada, o jeito que ficou vermelho e ajeitou os óculos, seu breve ato de afeição, nunca havia visto esse lado dele, um lado que quero muito ver mais. Respiro fundo, começo a rir um pouco dessa situação: houve uma evolução entre nós dois, mas está sendo bem devagar, hoje foi a primeira vez que senti que dei um passo e ele não recuou.
Enfim, progresso.
*
No dia seguinte, estava de saída para o meu trabalho, quando abri a porta e me deparei com Gris abraçando uma mulher no corredor, imediatamente fechei a porta, ouvi as vozes deles no corredor, mas não consegui identificar o que diziam.
Quem era ela?
Coloquei o ouvido contra a porta mas não ouvi nada, pensei um pouco na breve imagem que tive daquela mulher: tinha certeza que usava um vestido branco, cabelo preto ou castanho escuro cacheado e era um pouquinho mais baixa que o Gris.
Esperei alguns minutos, abri a porta novamente e o corredor estava vazio, fui em direção ao elevador, quando passei em frente ao apartamento dele senti um calafrio percorrer meu corpo.
Ela foi embora ou tá ali dentro com ele?
Acabei tendo uma tarde de m***a no trabalho, completamente distraído, pensando no Cláudio estando com outra pessoa. Eu não devia estar incomodado, nem temos nada, não era da minha conta, mas meu cérebro não focava em mais nada.
Será que é a namorada dele? Mas nunca o vi com ela antes… Será que é uma relação complicada?
Talvez seja por causa dela que ele não está interessado em mim…
*
No elevador, indo até o meu andar, penso sobre como agir agora com Cláudio. No começo estava curioso sobre ele, considerei desistir e deixar de lado, porque o cara nitidamente não quer nada comigo, mas ontem, depois de esbarrar com ele daquele jeito, senti algo muito forte dentro de mim, uma necessidade de estar próximo, então hoje o vejo abraçado com alguém.
Parece que quanto mais me aproximo, menos conheço sobre ele.
Saio do elevador com a cabeça confusa, passo na frente do seu apartamento e ouço um barulho de algo batendo, me tirando dos meus pensamentos.
— Aí! m***a! Cadeira i*****l do c*****o… — Ouço a voz dele reclamando de dor.
Sem pensar, bato na porta.
— Quem é? — Ele pergunta numa voz incerta.
— Sou eu, o Nilo. — Respondo sem jeito.
Ele abre a porta, está com o óculos torto no rosto, seu cabelo está um pouco arrepiado do lado, suas olheiras parecem mais profundas que o normal, seu rosto tem um ar cansado e um pouco pálido. Usa uma regata cinza amassada, uma bermuda tactel preta com linhas brancas, noto que está apoiando o peso do corpo apenas num pé.
— Tá tudo bem? — Pergunto. — Tava passando e ouvi um barulho.
— Ah, a cadeira me atacou. — Responde, sarcástico como sempre e dando de ombros — Ela tá p**a comigo porque fiquei sentada nela por quase sete horas seguidas fazendo um trabalho…
Sete horas?!
Gezora começa a miar atrás dele, o fazendo parar de falar, ele se afasta da porta e vai para a cozinha botar comida para o gato. Mesmo não sendo convidado para entrar, tiro as botas e a jaqueta, vou até o meio da sala, dando uma olhada ao redor.
Cortinas cinzas, sofá cinza, almofadas pretas e brancas, alguns porta-retratos metálicos, um abajur na mesa de canto cinza…
— Eu amo cinza… Cinza é uma cor linda… Lembra o céu nublado… Dias de chuva… Seus olhos. — A voz bêbada de Gris surge na minha mente.
— Você realmente gosta de cinza… — Falo, pensando alto.
Gris se senta na pequena mesa da sala, seu computador está aberto no Word a sua frente, parece escrever um roteiro.
— É uma cor bonita, me lembra o céu nublado, dias de chuva… — Ele para de falar de repente.
O olho surpreso com suas palavras, as quais são quase as mesmas daquela noite… Meus olhos? Ele ia falar dos meus olhos?
Gris parece lembrar de algo, mas muda de assunto, dizendo que não poderá me dar atenção naquele momento, não me mandou ir embora, o que me deixou ridiculamente feliz. Seus olhos azuis atrás dos óculos parecem bem cansados e digita furiosamente no computador, me sento na cadeira do seu lado, está focado demais para olhar para mim. Pergunto se comeu, pois ele está com a mesma aparência que o vi na semana de provas, me responde friamente que apenas almoçou, me deixando tenso.
— Atitudes vão além de contato físico, tem que saber demonstrar. — Meu tio surge intrusivamente na minha mente.
Me levanto sem falar nada e saio, nem me dou o trabalho de calçar as botas, e vou em direção ao meu apartamento. Abro minha despensa, pego alguns ingredientes, ponho numa sacola e volto para o apartamento dele.
Quando entro, ele levanta os olhos para mim, surpreso, parecia não esperar pela minha volta.
— Você gosta de massa? — Pergunto passando por ele e indo até a cozinha.
— Han… Miojo serve?
Ele tá falando sério?
Não devo ter dado minha melhor expressão.
— Sei lá, gosto? — Responde incerto, olhando para mim, tenso.
Pergunto se tem alergia a alguma coisa enquanto pego uma panela do armário, Gris pergunta se vou cozinhar para ele, respondo que sim e começo a me organizar.
— Você não precisa cozinhar pra mim, eu tenho feijão pronto, arroz, só preciso esquentar o frango… Ou até pedir comida! — Tem um sorriso estranho no rosto, provavelmente nervoso ou sem saber como reagir.
— Cala a boca e termina o que cê tá fazendo. — Digo firme, enchendo a panela de água.
Ele me olha por mais alguns segundo, mas não protesta, se volta para o computador e continua seu trabalho. A cada alguns momentos, olho em sua direção enquanto escrevia, pegando pequenos vislumbres de tensão entre as sobrancelhas, breves sorrisos de satisfação, às vezes levava a mão a boca pensativamente…
Expressivo.
Não era uma palavra que o definia muito bem diariamente, pois sempre tinha um semblante contido, sério, irritado ou entediado, mas ali no seu mundinho imaginário, se tornava outra pessoa e me pego apreciando essa sua versão.
Depois de um tempo, ele para de digitar com um olhar contente no rosto, se espreguiçar e observo sua regata revelar brevemente sua barriga chapada, uma linha de pelos castanhos entre o umbigo que descia até o interior da bermuda preta.
— Cabou? — Pergunto apoiado no balcão, olhando descaradamente por mais alguns segundos aquele pouco de pele morena exposta.
— Cabei… — Responde com a voz cansada, logo abaixa os braços e sua regata volta ao lugar, tampando a visão que apreciava.
Coloco o macarrão que fiz em dois pratos, depois o molho branco que fervi em outra panela que estava disponível no fogão, coloco orégano, uma pitada de pimenta, pego um pacote de queijo ralado e levo até a mesa.
Gris encara o prato que ponho na sua frente, me agradece timidamente, dá uma garfada incerta, mastiga e ergue as sobrancelhas. Depois pega o queijo ralado, põe no macarrão e o devora.
Pelo visto fiz um bom trabalho.
— Tá gostoso? — Pergunto, querendo ouvir um elogio.
— É o melhor macarrão que já comi. — Diz de boca cheia, me fazendo rir. — Minha irmã nunca me ensinou a fazer nada além do básico… Bom, não que eu seja bom em fazer o básico.
Gris tem uma irmã.
— E… Como é sua irmã? — Pergunto, querendo saber mais.
Ele aponta para uma foto no balcão que não notei antes, observo por um momento.
Tem uma menina alta, sorridente com uma camisa dos “Power Rangers” vermelha, ela fazia uma pose do seriado, tinha um cabelo castanho escuro cacheado enorme, olhos azuis e olheiras iguais do Gris e sua pele era um pouco mais escura que a dele. Do lado dela, um menino magrelo usava a mesma camisa, só que branca, também fazia uma pose do seriado, apesar do aspecto doente, o menino sorria.
Engoli em seco.
— Nossa, você era bem magro… — Comento.
— Pois é, meus pais não gostavam muito de cozinhar. — Uma risada irônica e dolorida escapou dos lábios.
Gris tem uma relação r**m com os pais.
Ele termina de comer, seus olhos por trás dos óculos vão no meu prato e parece esperar que eu termine de comer. Quando acabei, ele pegou os pratos, os levou para a cozinha e o observo parar ao se deparar com a louça enorme que deixei.
Sem dizer uma palavra, ele começa a lavar a louça, me levando e vou atrás dele.
— Eu lavo. — Digo numa voz culpada.
Mas ele insiste, fico o observando de costas para mim, não sabendo o que fazer.
Jantamos… O que vem agora?
Gris olha para mim por cima do ombro.
— Pode ficar a vontade, ligar a T.V. ou sei lá. — Diz rapidamente, voltando sua atenção para a louça.
Vou até o sofá, Gezora me olha assustado, sento um pouco longe dele, o dando espaço e desejando que viesse deitar no meu colo. Ligo a televisão, ponho na Netflix, me deparo com recomendação de filmes de drama e infantis, curioso, vou nos “assistir novamente”, os filmes variam de “Orgulho e preconceito” para “Galinha pintadinha”.
Quando comento sobre isso, ele ri e fala sobre a sobrinha dele.
Gris tem uma sobrinha.
— Como é sua sobrinha?
Novamente, ele aponta para uma foto, a pego e olho com atenção uma menininha, talvez com seis anos, sorrindo enormemente para a câmera, Gris de um lado e uma mulher do outro…
Não é a mulher que o vi abraçando hoje?
No fim das contas, fiquei distraído o dia todo, criando altas teorias sobre Gris estar num relacionamento, sendo que era apenas a irmã dele que veio o visitar.
— Caramba… — Murmuro, me sentindo um completo i****a.
Gris saí da cozinha, senta do meu lado, pega o Gezora e põe no seu colo.
— Obrigado pelo jantar. — Agradece, me deixando sem jeito e muito feliz.
Por um momento, penso em me inclinar para ele e…
— De nada. — Respondo apenas, me contendo. — Então, o que vamos ver?
— “Meia-noite em Paris”. — Gris diz se ajeitando no sofá.
Digito o nome com o controle com uma mão, com a outra faço um carinho no pescoço do gato, que fecha os olhinhos de forma adorável e se apoia na minha mão.
O filme parecia ser algo super intelectual, algo que me deixou inquieto, pois geralmente assisto filme de guerra, documentários e às vezes um ou outro filme de ação, porque geralmente não entendo muito esse tipo de filme mais “cabeça”.
— É bom? — Indago, meio aflito.
Ele começa a falar de forma técnica, me fazendo sentir mais burro do que já me sentia, não entendia nada do que falava.
— Só me diz se é bom. — Peço desesperado. — Por favor.
— É bom sim. — Responde, ajeitando os óculos no rosto, percebo que o cortei e o deixei constrangido.
Merda…
Fiquei pensando num jeito de pedir desculpas, mas acabei me distraindo com o filme, achei divertido como usava pessoas famosas de outras épocas para conversar com o protagonista de forma tão casual. Quando Salvador Dalí apareceu no meio do filme, noto Gris de olhos fechados do meu lado.
— Tá com sono? — Pergunto baixinho, ele abre os olhos imediatamente.
— Só tô piscando devagar… — Responde manhoso, mudando de posição no sofá.
Não demorou muito e ele novamente fechou os olhos, recolhi os lábios contendo uma risada. O observei por um tempo: seus lábios estavam entreabertos, os olhos tremiam por baixo das pálpebras, sua cabeça pendia um pouco para a frente, seu óculos estavam na ponta do nariz, quase caindo do seu rosto, seu peito subia e descia suavemente.
Levei minha mão até seus óculos, os tiro delicadamente e coloco na mesa de centro, depois toco no seu ombro, puxando ele para deitar em mim, o senti estremecer, depois se acomodar e sua respiração, enfim, ficar pesada. O envolvi com meu braço, sentindo seu corpo quente contra o meu, observei sua boca se mover.
— É aconchegante… — Murmurou, quase não ouvi.
Um sorriso se forma involuntariamente no meu rosto.
Abaixo o volume da televisão, algo quente sobe no meu colo, olho para baixo, vejo Gezora se acomodando em mim, não demorou muito e ele também adormeceu.
Pelo visto sou um travesseiro.
Quando o filme acabou, desliguei a televisão, peguei Gezora e o pus no chão, ele miou em protesto, me fazendo rir e fiz um carinho nele. Ajeitei o Gris para dormir no sofá, o deitando delicadamente, ele estremece e vejo sua pele se arrepiar.
Deve estar com frio.
Vou até o seu quarto, pego a coberta preta da sua cama, volto para a sala e o cubro. Apago as luzes da sala, me ajeito do seu lado do sofá, o coloco meu braço em volta da cintura dele, o ajeitando contra mim, fecho os olhos e permito o sono vir.
Essa situação não parece um encontro?
Foi meu último pensamento antes de adormecer completamente com ele em meus braços.