Capítulo 15: Certeza.

3058 Words
Acordei sentindo o cheiro de melão, quando abri os olhos, me deparei com o cabelo castanho e ondulado de Gris contra o meu rosto, seu corpo estava acomodado no meu abraço, exatamente na mesma posição que o pus ontem, como se encaixado perfeitamente em mim e um sorriso involuntário se formou no meu rosto. Me levanto, dou uma espreguiçada e ouço Gezora miando na cozinha. Me levanto devagar, ouvindo meus ossos estalarem e ouço a voz da minha mãe no fundo das minhas memórias. — Você está crocante, Nini. — Seu sorriso ao dizer essas palavras era tão bobo… Gezora, que está miando contra um armário, me traz de volta ao presente. Abro o armário e encontro sua ração ali. — Tá com fome? — Pergunto. Ele mia resposta, como se eu estivesse fazendo uma pergunta óbvia. — Ok, ok… — Murmuro para ele, colocando sua comida. Meus olhos vão para Gris dormindo profundamente, sem pensar muito decidi fazer café da manhã para nós dois. Ele ficará feliz em acordar e ter algo pronto pra comer… Abro a geladeira, pego ovos, manteiga, pão, queijo, presunto, leite, noto que tem morangos num potinho e os pego também. Encontro o liquidificador, coloco o leite e os morangos no copo, mas vou esperar ele acordar para bater. Ligo a misteira, passo manteiga nos pães, coloco o queijo e o presunto e preparo dois mistos. Coloco manteiga na frigideira, quebro dois ovos e começo a fritá-los. Ouço o barulho de uma musiquinha irritante, me viro em direção ao som, é o celular do Gris tocando. Ele murmurou irritado, levanta, desliga o alarme e nota o cobertor em cima dele com estranheza. — Bom dia, flor do dia. — Falo o olhando por cima do ombro. Seu rosto se contorce em uma expressão questionadora, interrompida por um bocejo preguiçoso. — Você dormiu aqui? — A voz sonolenta dele pergunta, se levanta e vem em minha direção. — Sim. — Respondo, me sentindo um pouco nervoso. Ele não queria que eu dormisse aqui? Não fui convidado, mas… O cabelo todo amassado de Gris tem um ar desleixado, olhos levemente inchados de sono me observam fritar os ovos, a misteira ligada e o liquidificador com morangos e leite. Parece estranhar a situação, ouço uma risada escapar da sua garganta, suas sobrancelhas se erguem surpresas. — Eu sei que falei pra ficar a vontade, mas dormir aqui e fazer seu café da manhã aqui é um pouco demais… — Ele vai até a fruteira e pega uma banana. — Queria ser capaz de comer tanto de manhã. Paro o que estou fazendo e olho para ele. — Você… Não é de comer de manhã? — Sinto um leve aperto no peito. — Só quando vou trabalhar, no máximo isso aqui e um “Ovomaltine”. — Diz, bocejando de novo e descascando uma banana. Enquanto pega o leite da pia e coloca num copo, sinto um calor subir para o meu rosto, a sensação de aborrecimento me domina, mas não posso falar nada. Gris não me pediu para preparar café da manhã, nem me contou o que gostava ou não de comer de manhã… Nem comer de manhã ele gosta. Sou um i****a… Desligo a frigideira, não sabendo o que fazer agora. — Ah, mas pode terminar o que cê tá fazendo já, não tem problema… — Sua entonação é condescendente. Acho graça, ele não se incomoda com a ideia de ter alguém usando sua cozinha para fazer comida, mas não percebe que fiz para nós dois. A definição da palavra “denso” no dicionário tem a foto de Gris… — Ok… — Murmuro e religo o fogo, terminando de fritar os ovos. — Tenho uma hora ainda… — Gris murmura, vendo as horas no celular. Ele tá ocupado hoje? Um desânimo me domina. — Vai fazer o que hoje? — Pergunto, tentando transparecer tranquilidade. — Trabalhar, mas saio na hora do almoço e posso curtir o restinho do meu fim de semana no meu maravilhoso sofá… — Responde com um ar sonhador. Enquanto arrumo meu “reforçado” café da manhã, sinto seu olhar sobre mim, ele parece impressionado com meu prato. Me sinto ainda mais constrangido. Não era pra eu comer tudo isso… — Não vai sair nem nada depois? — Pergunto de repente. Meu rosto esquentou com minha audácia repentina. — Hum… Não gosto de sair domingo, mas depende muito… — O celular dele toca, o nome “Rone” aparece na tela. — Alô? As pessoas ainda ligam hoje em dia? — Evento? — Sua voz é incrédula. — Que evento? Sábado é meu dia de folga. — Gris revira os olhos. — Ah, ok, né? Não tenho muita escolha… — Parece irritado. — Mais alguma coisa? — Ele toma um gole do “Ovomaltine”. — Ok, até daqui a uns quarenta minutos… — Desliga e faz uma cara inconformada. Incrível como ele pode ser tão expressivo sem muito esforço. — Tudo bem? — Pergunto, dando uma última mordida no segundo misto. Obviamente não estava bem, mas com Gris era quase impossível saber o que ele diria ou faria com certeza. Imprevisível, sarcástico e atrevido são adjetivos que combinam demais com ele, mas também é tímido, reservado e contido. Gris possui muitas camadas, a cada camada me sinto mais perto do centro, ao mesmo tempo vejo partes dele que nem imaginava que teria, é agradável quando me mostra mais, revelando pensamentos e sentimentos mais sinceros. — Tudo ótimo, só vou trabalhar na minha folga. — Responde com seu sarcasmo típico. — Bom, pelo menos vou receber uma grana extra… — Murmura e termina de beber seu “Ovomaltine”. — Enfim, vou tomar banho e me arrumar, aí você termina de comer e saímos. — Ok. — Respondo dando uma garfada no meu ovo frito. Ele entra no banheiro e ouço o barulho do chuveiro ligar, quando termino de comer, bebo de uma vez a vitamina do meu copo e depois lavo a louça. O liquidificador ainda tem a vitamina que fiz, tampo o copo e coloco na geladeira, talvez ele tome o resto depois. No reflexo da panela, que usei ontem para fazer o jantar, dou uma olhada no meu cabelo, a raiz está começando a ficar aparente. Pego meu celular e mando uma mensagem para a minha cabeleireira. Eu: Tem algum horário hoje de manhã? Monique: Temos uma vaga para as 9h. Eu: Ok, pd marcar. Monique: Descolorir e tintura? Eu: Sim, tô a fim de vermelho hoje. Monique: Perfeito, te espero às 9h. Meu cabelo ainda não desbotou, mas estou com vontade de mudar. Ouço a porta do banheiro abrir, me deparo com a seguinte cena: Gris com apenas uma toalha enrolada na cintura saindo do banheiro. Um arrepio percorre meu corpo inteiro, o cheiro de melão domina o ambiente e sua pele morena prende meus olhos, a sua barriga chapada tem linhas suaves de músculos, aquela linha de pelos castanhos descendo pela até o interior da toalha quase me faz salivar, algumas gotas de água escorrem pelos seus ombros largos. Recolho os lábios, minha mente sem controle volta para aquela noite. A sensação da sua boca passeando pelo meu corpo, enquanto minhas mãos exploravam o seu, o calor, seus gemidos, nenhum acanhamento quando arrancou as próprias roupas, depois tirou as minhas tão rápido que me surpreendi por não as ter rasgado, mas eu não me importava com aquilo, naquele momento eu só queria ele dentro de… — Nilo? — Volto a realidade com sua voz. — O que foi? Pisco algumas vezes, tentando me concentrar no seu rosto. — Nada. — Respondo apenas, minha voz deu falhada, involuntariamente meus olhos voltam a passear pela sua barriga, para aquela linha de pelos. O rosto dele fica um pouco vermelho, rapidamente entra no quarto e fecha a porta. Solto o ar que nem percebi que estava segurando, passo a mão pelo rosto tentando me manter calmo. Ele volta logo depois com uma camisa cinza escura com um desenho do “Darth Vader” e vários “Stormtroopers” ao seu redor, começo a rir. — Nerd. — Murmuro. — p********o. — Rebate, me fazendo arregalar os olhos. — Tá reparando demais em mim… Antes que pudesse me justificar, ele vai até a porta, pega as chaves e a abre. — Vamos, não quero te trancar aqui. — Gris diz com escárnio. Reviro os olhos, coloco minhas botas, pego minha jaqueta e o acompanho. — A gente se vê. — Diz e vai em direção às escadas. — Até, Gris! — Respondo. Ele para, se vira para mim e seus olhos azuis intensos me prendem. — Você é o único que me chama assim. — Gris diz com simplicidade, me dando um sorriso contido. — Eu gosto. — Gosto quando sorri. — Falo, sorrindo de volta. Gris ergue as sobrancelhas, surpreso, fica vermelho imediatamente, leva a mão ao rosto, tentando disfarçar e desvia o olhar. Como alguém pode ficar tão alterado com um simples elogio? — O-obrigado. — Uma voz envergonhada escapa de sua boca, então rapidamente se afasta, continuando seu caminho até as escadas. Fofo. * Saio do salão me sentindo incrivelmente bem, olho meu reflexo no vidro do lado de fora do salão, minha camiseta favorita do “Guns N' Roses” realça meu esforço na academia, meu jeans azul estava desbotado, mas a cor fica bem em mim e combinava com minhas novas botas pretas. Não tinha uma razão especial para me arrumar, apenas senti vontade… Quero que ele me veja. Me surpreendo com meu pensamento intrusivo, sem perceber meus pés me guiaram até a cafeteria para encontrá-lo, na porta do estabelecimento, vi Gris através do vidro, ele atendia um garoto e sorria abertamente. Seu sorriso me deu vontade de chamá-lo para sair, e por que não? Tinha todos os sinais que indicavam que ele não iria recusar, Gris não parecia mais desconfortável comigo, talvez sem jeito e envergonhado, mas de forma nenhuma ele parecia querer me afastar como antes. Depois de ontem, seria tão estranho assim chamar ele pra sair? Acho que seria natural, né? Apenas estou procurando justificativas para não perder a coragem, respiro fundo e empurro a porta da cafeteria. Outra confirmação, seus olhos brilham ao me ver, um sorriso imediatamente se forma em seus lábios, mesmo suave, era um sorriso sincero, o vi recolher os lábios como se tentando disfarçar seu contentamento, enquanto sua visão passeava por mim, quando me aproximei seu rosto ficou mais corado. — Bom dia, o que vai pedir? — Ele diz sua frase ensaiada. Vou pedir pra sair com você. Estava na ponta da língua, mas antes que pudesse falar, um garoto baixinho de cabelo castanho-claro brota do meu lado. — Você prefere “Jurassic World” ou “Doutor Estranho”? — Ele pergunta olhando para o celular, sem notar que estou bem aqui. — Tem nada melhor? — Gris pergunta de volta. Quê? — Bom, eu quero ver “Chamas da vingança”. — O cara baixinho diz e revira os olhos. — Mas a Brenda disse “ain, outro filme do Stephen King não!” — Ele faz uma voz fininha e enjoada, quando nota que estou ali ouvindo, fica bem mais vermelho que o Gris normalmente fica. — Ah, desculpa… O rapaz é bonito, tem feições delicadas, grandes olhos castanhos e uma pele bem branquinha. Ele tem óculos-escuros no topo do cabelo curto, que está penteado para trás, uma mecha escapando por baixo, dando um toque especial no seu rosto, usa pequenas argolas azuis nas orelhas. Para um cara baixinho, ele é fortinho, dá para notar um pouco de definição por baixo da camisa azul folgada. Me viro para o Gris sem entender nada. — Você não falou que não ia sair hoje? — Pergunto, não podendo conter minha irritação. — Eu não ia mesmo, mas não dispenso convite pra cinema. — Responde, um sorriso malicioso surgindo para o garoto. — Muito menos do “Hobbit” aqui. O “Hobbit” ficou ainda mais corado. — Vai se fuder, seu fumante desgraçado! — Grita constrangido, fazendo Gris rir. Não foi tão engraçado assim… — Bruno, entenda: posso parar de fumar, mas você não pode mais crescer. — Gris responde, o tal do Bruno dá um t**a no braço dele. — Aí! Prefiro na cara… Não consigo conter um sorriso s****o. Prefere mesmo. Os dois entram no mundinho deles por alguns segundos, Gris volta sua atenção para mim com um olhar culpado. — Desculpa, seu pedido? — Cappuccino… Com chocolate. — Murmuro puto, me sentindo um i****a pela segunda vez hoje. — Desculpa cara. — Bruno fala para mim. — Cláu aqui nasceu com uma condição rara em que ele fala as coisas sem pensar. Estou frustrado. — Você reclama, mas me ama! — Gris diz com escárnio, então se vira para mim. — Vai ficar pronto logo. Gris parece uma pessoa mais leve e aberta com ele. Eles começam a falar sobre os filmes da “Marvel”, acabo não resistindo e me incluo no assunto, um pouco cansado da sensação de ser deixado de lado, logo o tal do Bruno se vira para mim e aponta para o Gris. — Você conhece ele? Meus olhos vão até Gris, espero uma reação dele, que responda no meu lugar, negue, do mesmo jeito que fez com a j**k, qualquer coisa, mas me olha com seu nada infinito; me volto para Bruno e sorrio. — Sim, estudamos na mesma faculdade. — Penso um pouco, o que somos realmente? — Diria que somos… — Bruno. — O colega de trabalho gordo do Gris chama ele, me interrompendo. Entrega duas bebidas coloridas na mão dele, que agradece e se vira para mim, ainda esperando minha resposta. O que somos um para o outro? Gris, para mim, é alguém que quero por perto, divertido, engraçado, uma pessoa cheia de facetas que tenho privilégio de ver, ao mesmo tempo, há muitas coisas sobre ele que não sei, apenas o que ele permite que eu veja ou deixa escapar sem querer. Vou descobrir todos os lados que ele possui. — Próximos, somos próximos. — Digo com um sorriso. Gris faz uma cara engraçada, suas sobrancelhas se unem, recolhe os lábios, depois ergue as sobrancelhas e dá de ombros, como se eu tivesse dito algo sem sentido, mas não quis discordar. Bruno dá uma resposta genérica, depois confirma com o Gris o filme que vão ver, antes de se afastar ele olha para mim. — Quer vir com a gente? — Bruno pergunta. Olho para o Gris, perguntando com os olhos se ele gostaria que eu fosse junto. — Seria legal se você fosse. — Responde, como se lendo minha mente, me deixando feliz. Não consigo deixar de sorrir. Bruno vai até sua mesa, onde uma menina loira e cabisbaixa o espera, logo o gordinho que trabalha com Gris volta da cozinha, me entrega o meu cappuccino. — Você vai ao cinema? Num domingo? Você odeia sair no domingo. — O cara pergunta a Gris, parecendo não acreditar, ajeitando seus óculos de armação grossa, nervoso. — Bom, é uma oportunidade rara… Não vejo ele com muita frequência. — Ah… Ele é seu… Amigo? Não que isso seja da minha conta… Só estou curioso. — O cara quase se perde nas palavras. Olho para Gris com atenção, também querendo saber sua resposta. — Sim, ele é meu amigo. — Me sinto aliviado… Por que estou tão aliviado? — Quer ir com a gente? Ver o filme? O cara gordo ergue as sobrancelhas e fica vermelho. — Que-quero sim. — Responde sem jeito. Pelo visto não sou o único que tem uma quedinha pelo Gris… Sinto um leve desconforto com esse pensamento. — Não se preocupe, ele é legal… — Gris olha para a menina sentada do lado do Bruno, sussurra algo no ouvido do cara gordo, que ri do que ele diz. — Obrigado pelo aviso. — O gordinho murmura. Me ajeito na cadeira, sentindo aquele desconforto ficar mais forte. Antes que pudesse refletir sobre essa sensação, Bruno retorna com os copos vazios, deixando no balcão na frente do Gris. — Então, vamos eu, você, a dementadora e o… — Bruno aponta para mim e trava. — Nilo. — Gris diz meu nome, um sorriso involuntário surge no meu rosto com a forma que meu nome soa na sua voz… O gordinho do lado de Gris tem uma expressão surpresa. — Rone aqui vai também. Então esse é o cara que ligou pra ele hoje… — Ok. — Bruno diz e se vira para o Rone. — Prazer, Bruno. — Rone. — Responde com a voz baixa. Rone e Gris vão para os fundos após o fim do turno deles, a… Dementadora? Brenda, esse é o nome dela, tem um cabelo loiro cacheado num coque, olhos verdes cansados, usa um estilo confortável que, por alguma razão, não acho que seja seu estilo habitual. Ela se aproxima do Bruno, seus olhos passeiam por mim e balança a cabeça em aprovação. — Solteiro? — Pergunta com uma voz anasalada. — Comprometida. — Bruno aponta para ela, essa por sua vez dá uma cotovelada forte nele. — Ai! — Cala boca, ninguém te chamou na conversa… — Murmura com uma voz irritante, depois se vira para mim sorrindo. — Na verdade, meu relacionamento tá uma m***a, talvez precise de um novo… A audácia de certas sugadoras da felicidade. Sorrio educadamente para ela. — Foi m*l, não vai rolar. — Olha, se for pela minha aparência, lhe garanto que… — Na verdade, você é linda. — Falo a interrompendo. — Então por que não? — A loira insiste. A resposta saí da minha boca com bastante facilidade e flutua no ar surpreendendo, não só a ela, mas a mim também. — Tô desenrolando com alguém. A palavra “desenrolando” soa fraca. — Ah… Ok… — Brenda murmura sem jeito. Gris e Rone retornam dos fundos, impedindo a possibilidade de qualquer nova investida da parte dela. — Tudo certo? — Gris pergunta tentando ler o ambiente. Percebo seu olhar diferente em mim, parece atento, incerto e menos distante que de costume. — Certo. — Respondo com um sorriso. Nosso estranho grupo se dirige ao Shopping da Gávea.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD