Capítulo 23: Faculdade e Dúvidas,

2604 Words
(Nilo) — Você e o Cláudio estão… Namorando? — Vanessa me pergunta num sussurro. Engulo em seco. — Por que a pergunta? — Pergunto de volta, tentando ser evasivo. Vanessa revira os olhos. — Não sou i****a. — Ela responde em voz baixa. — Cláudio está agindo diferente, principalmente com você. — Seus olhos passeiam pela sala, verificando se alguém está ouvindo. — O conhecendo há um bom tempo, imagino que ele quer ser discreto… Comprimi os lábios nervosamente. Já faz duas semanas desde que eu e Gris começamos a “ficar sério”, se é que esse termo existe mesmo… Descobri mais sobre o Gris nas últimas duas semanas que durante os três meses que tentei me aproximar, comecei a fazer uma lista… Sério, fiz uma lista mesmo, está guardada no bloco de notas do celular com o título: Coisas que descobri sobre Gris… 1) Postou uma foto do Buzz no i********: dele com a legenda “Il proprietario di questo cane è mio” (O dono desse cão é meu) no mesmo dia que fomos na casa do meu tio. 1.1) (salvei a foto nos favoritos) 1.2) Ele apagou a foto do isqueiro (Provavelmente tem um significado sobre o Gael). 2) Toma suas vitaminas toda manhã, sem falta. 3) Tem mania de limpeza (Limpa a casa toda nas quartas - sem exceção - e nunca deixa louça na pia) 4) Sempre que faz um trabalho da faculdade, fica diversas horas seguidas trabalhando a ponto de esquecer de comer ou beber água, sempre Obs: Tenho que deixar comida e água do lado dele, chamar sua atenção e só assim ele come e bebe alguma coisa. 5) “Não cozinhar bem” é um elogio, ele é um desastre na cozinha se não tiver alguém o instruindo a cada passo. 6) Mesmo depois de consertar meu chuveiro, estamos praticamente morando juntos; ocasionalmente durmo no apartamento dele e vice e versa. Nas poucas vezes que não dormimos juntos foi porque ele foi na casa da irmã e eu fui no meu tio passar o fim de semana (situações que aconteceram duas vezes), mas Gris parece querer minha presença tanto quanto quero a dele. 7) Não quer que saibam da nossa relação. 7.1) Argumentos: “Não gosto de pessoas falando sobre mim”, “me sinto desconfortável com a ideia de chamar atenção”, “tenho medo de como vão reagir”. 7.2) Gris evita demonstrar afeto quando tem pessoas à volta, mas adora me puxar para uma sala vazia e me beijar intensamente até o sinal da aula tocar. 7.3) Ele segura minha mão por baixo da mesa no refeitório e me olha de canto (isso me aquece o coração). Talvez fosse algo bobo de fazer, mas depois de passar tanto tempo só recebendo migalhas de informação, a ideia de saber coisas sobre ele me deixava genuinamente animado. O problema deve ser eu, sou emocionado demais. — Desculpa Vanessa, mas… — Comecei olhando em volta, algumas pessoas nos olhavam com curiosidade. — Não posso te responder. — Sussurrei com sinceridade. Ela respirou fundo e recostou as costas na cadeira do meu lado. — Se você não vai me responder, falo com o Cláudio então… — Tinha determinação na sua expressão. — Por que você quer tanto saber? Vanessa vira seus olhos castanhos esverdeados para mim. — Eu sei que o Cláudio namorou alguém antes de mim, mesmo que nunca tenha me contado, eu sei que alguém machucou ele. — Cruzou os braços sem tirar os olhos de mim. — Machucou muito. Confirmei com a cabeça. — Então… — Ela baixou a voz novamente e apontou o dedo na minha cara. — Se partir o coração dele, eu parto a sua cara. Ergui as sobrancelhas surpreso, nunca imaginei a Vanessa ameaçando alguém, muito menos me ameaçando, sempre pareceu tão… Delicada. Como sempre, surpreendente. — Ok. — Disse simplesmente. — Tô falando sério. — Acredito em você. — Tá bom então. — Vanessa voltou para seu caderno. Peguei meu celular e mandei uma mensagem para o Gris. Eu: Vanessa sabe. Amore: Vc contou? Eu: Ñ, ela apenas disse que vai falar com vc depois pq eu não respondi à pergunta dela. Amore: Acho q não tem problema contar pros nossos amigos próximos… Eu: Msm? Amore: Sim, vou contar pra Vane e pra Rô hj msm, aí vc conta pro seu amigo, só ficar entre a gente e tá tranquilo. Amore: Mas não quero que j**k e Tom saibam… Não pude deixar de sorrir. É um começo. * — Então… — Gris começou nervoso. — Eu e o Nilo estamos… Juntos. Estamos numa mesa ao ar livre do refeitório na faculdade, Vanessa tem um sorriso de satisfação enquanto Roberta nos olha de queixo caído. — Juntos…? — Roberta murmura e se vira para Vanessa observando sua reação. — Como você não está surtando com isso?! Vanessa dá de ombros. — Já tinha notado… Era bem óbvio na verdade. — Um leve tom de arrogância escapou de sua voz enquanto olhava as próprias unhas bem pintadas de verde, me fazendo rir. — Não queremos que mais ninguém saiba. — Falo, sentindo o olhar de gratidão de Gris sobre mim. — O pessoal da faculdade é bem… — b****a. — Roberta diz me interrompendo. — Intrometido. — Vanessa comenta. — Fofoqueiro? — Gris sugere. — É. — Concordo com todos. Os três concordam. Gris começou a contar como as coisas aconteceram, quando começamos a ficar amigos depois que descobrimos que morávamos no mesmo andar, que o Lipe foi embora, “por livre e espontânea vontade”, nos deixando sozinhos e aconteceu. Claro, omitiu o que aconteceu na unificação, o beijo roubado na rua escura e que seu atual ficante enxotou o Lipe quase a força para finalmente… — Você uma vez contou que ficou com um cara super bonito na unificação mas não lembra quem foi… — Vanessa comenta e olha para mim. Gris engole em seco e seu rosto ficou corado. — Olha, eu realmente não me lembro… E isso não importa! — m*l consegue disfarçar o desespero na voz. Recolho os lábios, tentando conter uma risada. — É… Não importa. — Vanessa deixou passar. O alívio de Gris era óbvio demais. * Alguns dias depois, após a minha primeira aula, presenciei Gris conversando com j**k virando o corredor. Eu já tinha notado que ela estava interessada nele, mas ele parecia completamente alheio a isso. Isso é quase uma marca registrada dele. Senti um incômodo no peito, parecido com a sensação desconfortável de quando Gris e Lipe estavam saindo da festa de reencontro do ensino médio. Mesmo sabendo que ele não estava a fim dela, que nada iria acontecer entre eles… Vê-la obviamente flertando com Gris e ele não fazendo nada para impedir, porque não percebe o que ela está fazendo, me faz sentir desconfortável. Apenas fui pelo outro corredor, um caminho mais longo para minha segunda aula. Quando me ajeitei na carteira, j**k entrou super feliz e sentou do meu lado. — Bom dia, Nilo. — Me cumprimenta com um sorriso enorme. — Bom dia… Aconteceu algo de bom? — Jogo um verde. Ela leva a mão à boca, contendo uma risadinha. — Mais ou menos… Eu gosto de um cara… Que nunca imaginei que gostaria… — Ela suspirou, envergonhada. — Mesmo que talvez seja impossível dele gostar de mim, porque fiz muita m***a no passado… Conversar com ele é muito bom, ele me trata muito bem mesmo sendo só um amigo, nunca ninguém me tratou tão bem assim… Afirmei com a cabeça, j**k coloca os cotovelos na mesa e apoia o queixo nas mãos com um olhar sonhador. Eu te entendo… * No mesmo dia, saindo da última aula e andando pelo corredor fui puxado para uma sala vazia. Isso tá virando rotina já. — Gris, você… — Paralisei ao ver que não era o Gris. — Marta?! Ela estava com uma aparência pálida, seu corpo bem magro, era quase desumano, tinha os olhos azuis arregalados para mim com olheiras cobertas de maquiagem. — Quem você achou que era? Chris? Foi isso que você falou? — Sua voz estava cheia de raiva. — Cê tá me ignorando há meses e pegando a Christiane?! Christiane era uma garota de um círculo social diferente, não era popular, mas era conhecida por ser uma das garotas mais inteligentes do curso de história. Tinha uma aparência bem comum, sinceramente não fazia meu tipo. Prefiro um certo cara ranzinza de olhos azuis que, no fundo, é bem fofo e carinhoso. — Não estou pegando a Christiane… — Comecei a me justificar, mas logo parei. — Quem estou pegando não é da sua conta. O queixo dela caiu, enquanto eu apenas cruzei os braços e revirei os olhos. — Então é assim que você me trata?! — Marta esbraveja e levanta o punho, me deixando um pouco tenso. — Você é um insensível…! Alguém abriu a porta, era o Gris. — Tá tudo bem? — Pergunta, me olhando com preocupação. — Fui na sua sala e você não tava, ouvi gritos… Então nota a Marta. — O que tá rolando? — Pergunta, se voltando para mim. — Ah! — Marta bufa de irritação. — Sai daqui! Eu e Nilo estamos resolvendo nossa relação. Relação? — Relação? — Gris repete com um tom de escárnio. — E como é essa relação de vocês? — Não é da sua conta! — Marta estava descontrolada. — Na verdade, é sim. — Gris vem até mim e pega na minha mão. — Se você tem uma relação com ele, não terei outra escolha além de nós três viramos um trisal. Me surpreendeu sua atitude audaciosa, Gris estava entre mim e Marta, não parecia ter medo dela, na verdade parecia estar me protegendo. É um pouco estranho ser protegido por um cara que tem quase a metade do meu peso. Marta, por sua vez, estava em choque. — Você? E Nilo? Isso é uma piada? — Pergunta incrédula, com um sorriso torto. — Só pode ser piada… — Tenho cara de comediante? — Gris pergunta, num tom de irritação que nunca ouvi sair de sua boca e segurando minha mão com mais força. — Ele é meu. Ergui as sobrancelhas com satisfação. Gris está com ciúmes! Oddio… Marta começou a estremecer. — Nilo… — Ela olhou para mim com decepção nos olhos. — Você e esse… Cara… — Diz a última parte com nojo. — Estão namorando? Mordi o lábio inferior nervoso. O que eu digo? Que estamos ficando sério? Estamos juntos… — Sim estamos. — Gris responde no meu lugar, com determinação na voz, fazendo meu coração bater rápido. — Não é óbvio? Além de f**a é burra? Marta fecha as mãos em punhos, deixando os braços retos ao lado do seu corpo. Depois de alguns instantes, ela apenas bate o pé e sai, batendo a porta atrás de si em frustração. — Maluca do c*****o. — Gris diz revirando os olhos. — Não acredito que já ficou com ela… — Ele para ao perceber que o estou encarando. — Que foi? Recolho os lábios, tentando conter um sorriso. — Estamos namorando? — Pergunto, depois de alguns instantes. Gris arregala os olhos, seu rosto fica vermelho até a raiz do cabelo. — Bom… Tal-talvez? — Gaguejou nervoso. Puxei sua mão que segurava a minha, o deixando mais próximo de mim. — Estamos namorando? — Pergunto novamente, olhando no fundo dos seus olhos. Seus olhos azuis estão dilatados, claramente nervoso por estar encurralado. — Nós… Hum… — Gris tenta formular uma frase. — Você… Realmente quer? Começo a rir. — Quero… E você? — Pergunto nervoso. Gris me olha com atenção, parece calcular sua resposta. — Eu… Não é cedo? — Ele pergunta cauteloso. — Pra definirmos… — Você acha que é cedo? — Pergunto sério. Ele franze o cenho e seus lábios estremeceram. — Tenho medo… De me precipitar e… — Seus olhos se afastam mim. — As coisas… Fiquem sérias demais e… — Ele não terminou de falar. Respiro fundo, levo minhas mãos ao seu rosto, me inclino para ele e o beijo suavemente. — Eu não vou te machucar… — Digo baixinho para ele. — Acredita em mim…. Ele afastou minhas mãos do seu rosto, novamente desviando o olhar. — Desculpa… — Gris murmura, sua respiração está tensa. — Desculpa, Nilo… Aquilo partiu meu coração, eu sei que ele não estava fazendo de propósito, eu sei que está com medo, mas isso dói tanto. Ele foi em direção à porta, sem dizer nada, a abre e vai embora, me deixando sozinho naquela sala iluminada pelo sol da tarde. * Bati na porta do seu apartamento, quando abriu ficou surpreso em me ver. — Opa, e aí Nilo. — Nando me recebe com um sorriso. — Não te vejo faz um tempo… — Tô na m***a… — Digo passando por ele. Seu sorriso se desfaz. — O que foi? — Ele fecha a porta e vem até mim preocupado. — Gris. — Me jogo no sofá. Nando respira fundo. — O que ele fez agora? Óbvio que Nando já está de saco cheio de ouvir sobre o Gris, mas agora eu precisava dele mais do que nunca. — Estamos ficando. — Digo, sem enrolação. Nando pisca os olhos sem entender. — Desculpa, mas eu sou hétero. — Seu tom é ridiculamente condescendente. Jogo uma almofada nele. — Eu e Gris estamos ficando! — Falo exasperado, ele me encara surpreso. — E hoje… Falei com ele sobre entrar num relacionamento mais sério e ele… Apenas pediu desculpas e me deixou sozinho. Levo as mãos ao rosto em desespero, eu estava quase chorando. — Calma, calma… — Nando diz se sentando do meu lado. — Tenho certeza que ele está pensando nisso agora mesmo. Tiro as mãos do rosto e respiro fundo. — Você sempre faz isso. — Nando continua. — Quando você gosta de alguém de verdade, aumenta os problemas… Tipo com o Henrique, quando vocês namoraram e ele falava o nome de outro cara enquanto dormia. Balanço a cabeça em confirmação. — Mas. — Nando prossegue. — Com o Henrique o problema é que ele gostava de outra pessoa, então com o Gris deve ser um problema diferente… — Ele passou por muita m***a, teve um relacionamento que acabou muito m*l… — Digo pensativo. — Ele diz que tem medo… Nando bate uma palma teatralmente. — Ora! Tá aí! — Ele diz animado, o olho sem entender. — A última vez que você gostou de alguém de verdade foi o Henrique, quando ele começou a falar o nome da pessoa que gostava dormindo do seu lado… Você refletiu incansavelmente e decidiu acabar o namoro. — Nando explica. — Foi um relacionamento que acabou m*l, você e o Gris tem isso em comum! Novamente afirmo com a cabeça. — Agora vai lá. — Nando aponta para a porta. — E conversa com ele, diz tudo o que você sente, lhe garanto que tudo vai ficar bem. Sinto uma determinação crescer no meu peito. — Ok. — Me levanto e vou até a porta. — Obrigado! — Se continuar assim, vou mudar de carreira para psicólogo… — Ouço a voz de Nando atrás de mim enquanto fechava a porta, me fazendo rir baixo. Fui até o elevador, apertei o botão do meu andar, as portas se abriram e fui até sua porta rapidamente. Bati no seu apartamento como sempre fazia, ouvi um barulho de passos rápidos vindo em direção à porta. O adesso o mai più (É agora ou nunca)…
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