(Cláudio)
— Tá de s*******m? — Pergunto, incrédulo para Nilo. — Não subo em nada que tenha duas rodas e não fique em pé sozinho.
Nilo abaixa o capacete que tentou me oferecer, o deixa no assento da moto e cruza os braços, irritado.
— Motos ficam em pé sozinhas… Bom… Cai se não colocar o apoiador, mas… — Murmurou a última parte.
— Exato! — Suspiro com exasperação.
Ele respirou fundo.
— Ok. — Sua voz é profunda e impaciente, passa a mão pelo rosto num gesto indignado. — Cê não sobe em nada que não fique em pé sozinho e que tenha duas rodas… então qual meio de transporte você acha mais perigoso? Um avião ou uma moto?
— Nunca andei de avião.
— Tá. — Nilo revira os olhos. — Mas se você tivesse que optar entre avião ou moto, qual escolheria?
— Ir a pé. — Tento conter meu sorriso involuntário pela reação dele.
— Vaffanculo. — Murmura naquele idioma sexy.
É incrível como um idioma pode soar como um elogio, um nome de vinho caro e um palavrão ao mesmo tempo.
O cabelo tom de pêssego dele brilha na luz do sol, suas sobrancelhas escuras estão unidas no meio, pensando num novo argumento para tentar me convencer a subir na moto dele.
A camisa branca que está vestindo é justa, tem um desenho azul enorme de um microfone com asas e garras de pássaro, que por alguma razão está andando de skate (?), desenhos de raios, também possui as palavras “my generation” e embaixo tem as palavras “hope I die before I get old” fazendo uma curva ao redor do número 1965. Nas asas está escrito “The Who”, outra banda que nunca ouvi falar.
Seus jeans preto desenham bem suas pernas fortes, realçando os músculos das coxas, como sempre usando um par de botas.
Quantas botas esse cara tem?
— Prefere andar de navio ou de moto? — Pergunta de repente, me tirando dos meus devaneios.
— Um navio sequer tem rodas! — A risada escapa de mim.
— Tem sim… Quer dizer, tem um negócio redondo… — Diz levantando a mão e girando o indicador no ar.
— Timão? — Sugiro.
— Não não, fica embaixo do navio… — Nilo estala os dedos algumas vezes, como se isso fosse o ajudar a lembrar.
— Hélice.
— Isso! Enfim, navio ou moto? Yamaha ou Titanic? — Pergunta de forma exagerada.
Começo a rir de novo, essa discussão é ridícula, não levará a gente a lugar nenhum.
Não é como se fossemos de barco pra casa do tio dele!
— Uber? — Pergunto, querendo acabar com a discussão.
— Acho que fica caro daqui até a casa do meu tio, não? — Nilo responde, irredutível.
Jogo a cabeça para trás e bufo de frustração, levo o indicador e o polegar para o espaço entre meus olhos, apertei levemente, tentando me prevenir da dor de cabeça que estava começando a surgir.
— Não importa o que eu diga, vou ter que subir nessa… — Aponto com raiva para a moto — … Coisa mortífera.
— “Coisa”… “Mortífera”…? — Nilo repete lentamente com uma risada profunda.
Novamente me oferece o capacete, pego com raiva e o coloco. Nilo pega outro capacete, o deixando levantado sobre a cabeça, senta na moto, com o pé empurrando o apoio para trás, se vira para mim e dá batidinhas no espaço do banco atrás dele. Bufo pela segunda vez, subo na moto muito desajeitadamente, coloco meus braços ao redor de sua cintura, o segurando com firmeza.
— Cê se acostuma, vai até gostar do vento batendo no rosto. — Cínico.
— Jesus amado… — Murmurei contra seu ombro.
— Antes, posso te comer, ver se tu fica mais calminho… — Me provoca.
Apoio o queixo no seu ombro e sussurro.
— Já estamos atrasados, podemos resolver isso mais tarde…
— Tudo bem… mas antes. — Nilo vira para mim, solta a alça do capacete no meu queixo num movimento fluido, o levanta e se inclina na minha direção, me dando um selinho. — pra acalmar seus nervos, amore mio…
Sorrio contra os seus lábios.
Adoro italiano.
— Por favor, não mate a gente. — Peço, ajustando o capacete e o abraçando novamente.
— Não se preocupe. — Garante, abaixando seu capacete, prendendo a alça no queixo e dando partida na moto. — Geralmente me acidento sozinho…
— Quê?! — Pergunto desesperado, mas já é tarde demais.
Nilo arrancou com a moto, saindo do estacionamento, fechei os olhos e o segurei com mais força. Meu coração batia acelerado, não sentia o vento no rosto por conta do capacete, mas sentia nos braços, ao redor das minhas roupas, quando Nilo fazia uma curva, meu corpo todo estremecia de medo.
Então fiz a coisa mais lógica que poderia num momento desesperador como esse, recitei Salmo 91.
Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e Nele confiarei…
Quando finalmente chegamos, praticamente pulei da moto, arranquei o capacete e respirei profundamente algumas vezes, tentando me acalmar.
— Viu? Não foi tão r**m… — Mesmo num tom tranquilo, conseguia sentir uma nota de preocupação.
Depois de algumas respiradas, consegui me acalmar completamente, devolvi o capacete para ele com as mãos tremendo e dei uma olhada ao redor.
Era uma rua com várias casas, a dele era azul, tinha um muro da altura do meu peito e um portão branco, do lado da casa tem um restaurante com o nome “Restaurante Garcia”. Nilo comentou algumas vezes que trabalhava de motoboy num restaurante, mas não lembro dele ter mencionado que o restaurante tinha o mesmo sobrenome que o dele…
Ele disse que seu tio o contratou como motoboy…
Ah… É verdade.
Vi um cachorro pulando na minha direção por trás do muro, um Bull Terriê com manchas pretas ao redor dos olhos, era o Buzz. Me inclinei sobre o muro e comecei a fazer carinho nele, que estava em pé, apoiando as patas da frente no muro. Latindo animadamente, lambeu a minha mão algumas vezes me fazendo cócegas na palma.
— Prazer em te conhecer… — Murmurei para ele.
Nilo colocou o braço sobre meus ombros e me deu um beijo no rosto.
— Não sabia que você ficaria tão assustado… — Se desculpa colocando seu queixo apoiado no meu ombro
— Tudo bem. — Falo tranquilo. — É que da última vez que subi numa moto foi no primeiro ano da faculdade, quando Rô me deu uma carona para a casa da minha irmã. — Suspirei e levei a mão para o seu rosto. — Nunca havia andado de moto antes, achei que seria tranquilo…
Paro de falar, passando a mão no cabelo e coço a nuca.
— O que aconteceu? — Pergunta, preocupado.
Comprimi os lábios num sorriso nervoso, foquei meus olhos no Buzz.
— Quase batemos num carro, ela desviou e eu caí, não me machuquei gravemente. — Falei rapidamente, tirando a mão da minha nuca. — Só fiquei todo ralado, mas fiquei apavorado e desde então recusei todas às vezes que Rô me ofereceu carona.
— Amore, non ti preoccupare. — Nilo sussurrou, esfregando o nariz na minha bochecha.
— Suspeito que você falou “Meu amor, tá tudo bem”, mas não tenho certeza… — Digo incerto.
— Eu disse “Amor não se preocupe”. — Uma risada escapa da sua garganta. — Vai repete comigo. — Diz animado olhando para mim. — Non…
— “Num”. — Repito, incerto.
— Non. — Ele repete com mais força.
— Non…
— Isso. — Nilo diz com aprovação. — Agora ti.
— Ti. — Ok, esse é fácil.
— Preoccupare. — Diz pausadamente.
— “Preocupari”. — Repito.
— Preoccupare. — Nilo repete mais devagar.
— Preoccupare.
— Agora tudo junto, non ti preoccupare. — Balança o indicador a cada variação fonética.
— Non… ti… preoccupare? — Repito, sentindo que o idioma não casa com minha língua.
— Isso! — Seus olhos brilham, me dá um selinho e se afasta. — Aos poucos você pega o jeito.
Nilo tira as chaves do bolso da calça, abre o portão e Buzz pula nele.
— Calma, garotão! — Rindo, se vira para mim. — Não se preocupe, ele não morde.
Passo pelo portão, o fechando atrás de mim, chamando atenção do Buzz, que pula em mim, me derrubando no chão.
— Buzz! — Nilo grita deixando escapar seu sotaque. — Gesù! Lasciatelo stare!
Buzz começou a cheirar meu rosto, fazendo um ventinho bater no meu rosto, fiz um carinho entre suas orelhas, ele fechou os olhinhos e deitou no meu peito. Nilo sentou do meu lado, desistindo de dar bronca no Buzz.
— Ele gostou de você. — Nilo diz num tom doce.
— Tem um jeito meio agressivo de demonstrar. — Comento sorrindo. — Gostei dele.
— Você também é bem “agressivo” demonstrando que gosta de alguém. — Ele comenta com um sorrisinho malicioso.
— Posso ser carinhoso também… — Murmuro sem jeito.
Admito que tenho problemas para me aproximar das pessoas, gostar de alguém então é bem mais complicado. Geralmente mantenho distância, fico com pessoas que não desenvolverei sentimentos com tanta facilidade.
Mas aqui estou eu, conhecendo o cachorro do meu ficante.
“Ficante” não é um termo que definiria bem.
“Ficante sério”?
Existe isso de “ficante sério”?
Respirei fundo, tentando acalmar minha mente ansiosa. Não preciso me preocupar com isso agora, estamos bem, é simples, confortável e bom.
Muito bom.
O que me surpreende é ele gostar de mim de volta.
— Adônis. — O chamei, ele me lança um olhar curioso. — Como foi quando a gente se conheceu?
Nilo ergue as sobrancelhas, provavelmente surpreso por eu tocar num assunto que sempre evitei.
— Foi engraçado. — O jeito que diz isso me deixa nervoso. — Você estava sentado no chão do banheiro, abraçando a uma garrafa de cerveja…
— Jesus… — Murmurei parando de fazer carinho no Buzz.
O cachorro se levantou de mim e andou em direção à casinha dele.
— Tentei te levantar, mas você disse que o chão era bem confortável. — Ele continua. — Então me sentei na sua frente, estava bem triste, falando umas paradas bem profundas. — Me ergo, sentando de frente para ele. — Foi uma conversa boa.
— Foi?
— Você foi sincero. — Um sorriso genuíno surge em seu rosto. — Quando falei como me sentia, sobre as pessoas e tal, você, mesmo triste, tentou me animar. — Comecei a rir. — E aí você ficou vermelho e disse que queria me beijar.
Nilo levou a mão para o meu rosto, fazendo carinho na minha bochecha.
— E eu te beijei. — Se inclinou para mim e me beijou, calmo e carinhoso, ele para, encostando a testa na minha. — Depois perguntei se iríamos na sua casa ou na minha e você disse “pode ser na sua”.
Ergo as sobrancelhas.
— Pedimos um carro. — Nilo retoma a história. — Você acendeu um cigarro, me deu seu isqueiro, dizendo que estava com medo de perder e não podia.
— Isso explica porque não achei no dia seguinte. — Comento pensativo.
Nilo ri.
— Fiquei bem triste quando acordei e você não tava mais lá. — Ele deu de ombros. — Sei lá, fiquei achando que você não tinha gostado…
— Quando acordei, fiquei apavorado. — Me lembro daquela manhã. — Tipo eu pensei “p**a m***a, acordei na cama do Nilo Garcia”. — Comecei a rir. — Pensava que você era um b****a popular, fiquei com medo de me tornar mais uma de suas conquistas pra todo mundo ficar falando, a ideia do pessoal da faculdade ficar falando de mim… — Balancei a cabeça. — Você era tudo o que eu queria evitar.
— Ah, cê jura? — Pergunta, não parecendo impressionado. — Pelo visto, não deu muito certo…
— Fico feliz. — Digo levando a mão até sua, que ainda está no meu rosto. — Estava completamente errado.
Nilo ri novamente, levanta, ficando de pé e dando batidinhas na parte de trás do seu jeans, tirando pedacinho da grama.
— Vamo entrar. — Diz me oferecendo a mão, a seguro e ele me puxa, olha para mim por um momento e então me dá um abraço. — Hai dei bellissimi occhi…
— Han? — Não entendi uma palavra.
— “Você tem olhos lindos”. — Ele traduz para mim.
— Ah… Hum… “Aí de bellissimi oche” também. — Tento repetir o que ele disse.
Nilo sorri, pega minha mão de novo e me guia para a casa enquanto dou batidinhas na parte de trás do meu jeans, o limpando da grama.
*
Franco é um homem bem parecido com o estereótipo dos italianos nos filmes que assisti: pele bronzeada, nariz grande com uma leve elevação no meio, cabelo preto e liso, amarrado num r**o de cavalo, gordo e alto, alguns centímetros mais alto que eu e é bem animado.
Vestia uma camisa azul desabotoada no peito, usava uma bermuda preta e chinelos.
— Então você é o famoso Gris! — Franco me abraça com força, quase me tirando o ar. — Pode me chamar de Franco! É bom finalmente te conhecer, Nilo não calava a boca sobre você…
— Zio! Chiudi quella cazzo di bocca! Mi metti in imbarazzo! — Nilo diz exasperado.
— Ma è vero! Parli solo di lui! — Franco responde, parecendo indignado.
— Ma non necessario lui sappia! — Nilo diz, revirando os olhos.
— Uma legenda seria legal. — Digo, chamando a atenção dos dois.
Franco dá uma risada exagerada.
— Desculpa, Nilo tá dizendo que o estou envergonhando. — Explica, dando de ombros e indo em direção à cozinha. — Enfim, vou esquentar a comida de novo, vocês demoraram pra chegar…
Me sento no sofá e olho ao redor, o piso é de carvalho, móveis antigos de madeira preenchem a sala, a televisão é de tubo, o que me surpreende, não vejo uma dessas a anos, tem várias fotos de família nas paredes brancas, uma das paredes está pintada de azul, que combina com a cor do sofá.
Uma das fotos me chama a atenção, tem um menino gordo de uniforme, com um corte tigela no cabelo preto, sendo muito liso, no fundo a casa em que estamos, me levanto e vou até a foto, o menino tem o mesmo nariz que o Franco, algumas espinhas e olhos castanhos, os mesmo olhos do…
— Nossa! Você era uma gracinha! — Comento apontado para a foto.
Nilo me olha surpreso.
— Como me reconheceu? — Ele está tenso.
— Pelos olhos. — Respondo com simplicidade. — Você era muito fofo! Como alguém tão lindinho vira um discípulo do Muzy?
— Tá de s*******m? Eu era f**o pra c*****o… — Diz enojado, o que me surpreende um pouco.
— Você é bonito em qualquer versão.
Olho a foto com mais atenção.
— Seu nariz… Está diferente. — Me viro para ele. — Você… Fez alguma coisa?
Nilo cruza os braços e desvia o olhar.
— Eu… Fiz uma cirurgia… Aos dezoito anos. — Respondeu sem jeito.
— Por quê?
Ele comprimiu os lábios, parecendo desconfortável.
— Odiava me olhar no espelho… — Os seus olhos começam a lacrimejar. — Então… Mudei tudo que odiava em mim. — Nilo respira fundo. — Meu cabelo, meu corpo… Meu rosto…
Seu rosto se contorce em tristeza.
— Eu… Já volto. — Ele se afasta, indo pelo corredor e entrando numa porta.
Fiz m***a…
— A comida tá esquentada! — Franco diz animado saindo da cozinha, ele olha ao redor e franze o cenho. — Cadê o Nilo?
— Ele… Hum… Acho que fiz m***a. — Respondo sem jeito.
Franco cruza os braços e olha para mim como se fosse me enterrar a sete palmos do chão.
— O que você fez? — Sua voz não é nem um pouco amigável como antes.
— Vi essa foto e… — Comecei gesticulando para a foto.
— Ah! — Diz aliviado, descruzando os braços. — Nilo fica bem sensível com esse… Assunto.
Recolhi os lábios, nervoso.
— Ele não teve uma infância fácil. — Franco continua. — Crianças podem ser bem cruéis, presenciar o pai indo morar em outro país e a mãe… — Ele balança a cabeça e dá um suspiro. — Vai lá falar com ele.
Confirmo com a cabeça e vou em direção à porta que entrou, bato na porta e ouço um fraco “entra” vir de dentro. Abro a porta, Nilo está sentado numa cama de solteiro, tem um dinossauro de plástico na mão, ele não levanta os olhos para mim.
Seu quarto tem paredes verdes, estrelas no teto, várias prateleiras de livros e miniaturas de dinossauros. Uma escrivaninha ocupa o canto, tem vários lápis de cor, cadernos de desenho e papéis soltos com rabiscos e rascunhos.
Fecho a porta atrás de mim, vou até ele e sento ao seu lado.
— Quer conversar? — Pergunto preocupado.
Nilo respira fundo, ainda sem me olhar.
— Quero… — Murmura manhoso.
Nilo se ajeita, erguendo o corpo e se virando para mim, seus olhos estão vermelhos.
— Quando era criança… — Nilo começa com a voz tremida, pigarreia e continua. — Sofri muito bullying… Pela minha aparência, por falar italiano… As coisas pioraram quando minha mãe adoeceu e… Morreu.
— Sinto muito. — Digo pegando sua mão, que brinca nervosamente com o dinossauro de plástico.
— Meu pai não estava presente… Não está presente há muito tempo. — Nilo suspira melancólico. — Ele está na Itália agora, trabalhando como professor, às vezes liga, raramente vem nos visitar, mas ganha bem… Pagou pela cirurgia que fiz, as consultas com o dermatologista, academia, até pela moto… Mas… Dinheiro faz valer a pena toda essa distância?
Nilo desvia o olhar de mim.
— Não queria que me visse assim… — Ele murmura.
O puxo, encaixando seu rosto no meu pescoço.
— Também tive uma infância de m***a… Meus pais eram aqueles tipos de pais que não deveriam ter filhos…
Nilo envolve os braços em mim, me abraçando.
— Meu pai… — Continuei. — Traiu minha mãe com uma mulher que poderia facilmente se passar por filha dele.
— Credo. — Nilo murmura.
— É. — Concordo. — Minha mãe não aceitou bem… — Dou uma risada sofrida.
Nilo levanta o rosto e olha para mim.
— Minha irmã… — Prossegui. — Era a filha perfeita… Não que eu tivesse raiva dela por isso, ela fazia seu melhor para cuidar de mim… E então, no ensino médio, engravidou do namorado e expulsa de casa.
— Cazzo… — Murmura incrédulo.
— E eu fui junto, fomos morar na nossa tia Miranda, tivemos ajuda de uma amiga dela, a Sofia… As coisas melhoram muito… — Me interrompi, estava com medo.
— Parece que tem mais coisa.
— É cedo pra falar disso. — Digo apenas, me levantando e indo até sua escrivaninha.
Olho os rascunhos na mesa, tem poses de pessoas, rostos e alguns desenhos do Buzz.
— Você pode me contar. — Ouço o barulho dele levantando da cama e se aproximando.
Meu coração começou a bater forte, senti que era um daqueles momentos que as coisas iriam mudar e eu não teria controle nenhum da sua reação, minha respiração falhou.
Merda, se acalma.
— Eu… Não quero… Que você se afaste de mim. — Digo baixinho.
— Não! Eu não vou! — Nilo me abraça por trás. — Por que tá dizendo isso?
Levo as mãos ao rosto, não sou capaz de encará-lo.
— Da última vez… Que falei sobre isso… A pessoa não reagiu muito bem… — Minha respiração estava entrecortada. — Eu não quero…
Nilo me soltou, me virou para ele, levou as mãos às minhas e as abaixou, me fazendo o olhar, depois segurou meu rosto, limpou minhas lágrimas com os polegares, se inclinou e me beijou, com carinho, intensidade, acalmando minha respiração.
— Amore… — Ele murmura contra minha boca. — Você pode me contar qualquer coisa e não vou me afastar, você terá que me aguentar por muito muito muito tempo… — Nilo respira fundo. — Claro, se você quiser.
Recolhi os lábios, nervoso.
Isso seria um pedido de namoro?
— Eu…
Uma batida na porta me interrompe.
— Smettila di flirtare e vieni a mangiare! — Franco grita através da porta.
Nilo bufa de irritação, solta o meu rosto e olha para a porta fechada.
— Stiamo andando! — Grita na direção dela.
Solto a respiração que nem percebi segurar, um misto de alívio e decepção passa pelo meu corpo.
— Eu tô com fome. — Digo tentando soar relaxado.
Nilo me dá um sorriso triste.
— Vamos… — Ele pegou na minha mão e me guiou para fora do quarto.
O que será que eu teria respondido se não tivéssemos sido interrompidos?
*
— … E tinha essa garota que o Nilo era obcecado! Daniella! — Franco diz em sua voz animada.
— Zio! — Nilo diz com um tom de desespero.
— Ele a beijou no meio do parabéns! — O tio dele continua, ignorando o desespero do sobrinho. — Ela ficou tão envergonhada que saiu correndo!
Comecei a rir, estava sentado no chão da sala, fazendo carinho no Buzz, enquanto Nilo estava sentado no sofá cobrindo o rosto com as mãos e Franco, por sua vez, estava sentado numa poltrona reclinável, bem relaxado.
— Nilo sempre foi bom em fazer péssimas escolhas! — Franco comenta rindo. — Quando ele fumou pela primeira vez, achou que seria tranquilo… Quase morreu de tanto tossir!
— Imagino. — Digo e olho para Nilo, que agora estava recostado no encosto do sofá e olhando para o teto.
— Dio mi prende ora… — Ele murmurou.
— Non essere drammatico! — Franco diz parecendo irritado.
— Queria tanto entender italiano… — Comento para o Buzz. — Você entende italiano?
Buzz inclinou a cabeça para o lado, parecendo estar na mesma situação que eu.
— Lembro de uma vez… — Franco prosseguiu, — Quando Nilo tinha uns treze anos, ele quebrou um vaso e simplesmente jogou fora, fingiu que o vaso sumiu! — Ele levou a mão à barriga, rindo da lembrança. — Quando achei os pedaços do vaso no lixo, ele culpou o Buzz!
— Em minha defesa. — Nilo falou de repente. — Buzz pulou em mim enquanto eu passava pano no vaso.
— Era um vaso caro? — Perguntei, curioso.
— Nada, comprei na feira. — Franco respondeu balançando a mão.
Nilo o olhou irritado, parecendo uma criança.
— Você disse que era uma antiguidade da família! — A voz dele está cheia de indignação sofrida. — Me deixou de castigo por um mês!
— As antiguidades dessa família são cartas e diários, não é culpa minha você acreditar em qualquer m***a que digo. — Franco diz na defensiva.
— Cartas e diários? — Pergunto interessado.
— Ah! — Franco se levanta da poltrona. — São cartas do meu trisavô e diários da minha trisavó! — Ele se afasta em direção ao corredor.
Nilo suspirou de alívio.
— Grazie a Dio… — Murmurou. — Não tava aguentando mais essa tortura.
— Minha história favorita foi de quando você era criança e entupiu o vaso com uma lanterna. — Digo com um sorriso de canto.
— De novo, em minha defesa. — Nilo começa levantando o indicador. — Achei que a lanterna era um submarino.
Mas que tipo de justificativa é essa?
— Como seu cérebro chegou nessa conclusão? — Perguntei incrédulo.
— Eu era uma criança burra. — Respondeu, dando de ombros.
— Era? — Meu sarcasmo era claro. — Quando deixou de ser?
Nilo semicerrou os olhos, levantou do sofá e veio até mim, me empurrou no chão, prendendo meus pulsos com suas mãos sobre minha cabeça, Buzz se afastou de mim e sentou nos observando.
— Tá dizendo que sou burro? — Nilo perguntou irritado.
— Eu não disse nada, só fiz uma pergunta. — Posso ser cínico também.
— Divertenti… — Murmurou e se inclinou, seu nariz tocando no meu, ficando perigosamente perto. — Você tem sorte de ser bonito.
Senti um calor subir para meu rosto.
— Adoro quando fica vermelho… — Nilo começa a beijar meu rosto todo, me deixando mais quente ainda.
— Adônis… — Suspirei derretido com seu carinho.
Ouvimos alguém pigarreando atrás de nós, olhamos na direção do som e vimos Franco tampando os olhos.
— Seja lá o que estão fazendo, por favor não façam na sala. — Pede com um sorriso enorme.
Nilo ficou vermelho até as orelhas, nós nos erguemos rapidamente, sentamos comportados no chão. Buzz novamente volta para o meu colo, pedindo carinho. Franco destampou os olhos, rindo da cara que Nilo fazia.
— Enfim. — Franco balança alguns papéis velhos plastificados e um caderno com capa de couro vermelha. — Vamos a uma aula de história?
Eu e Nilo concordamos com a cabeça.
— Vamos lá! — Franco sentou no chão à nossa frente, espalhou os papéis plastificados, que se revelaram serem as cartas e colocou o diário de lado. — Meu trisavô, Francisco, conheceu minha trisavó, Isabella, durante o carnaval de Veneza. — Ele pegou uma das cartas e me ofereceu. — Aqui.
Peguei a carta e comecei a ler em voz alta.
— “Minha incomparável Isabella…”
— Ele endereçou todas as cartas assim. — Franco comentou rapidamente.
— “… Gosto das suas cartas, as quais são meiguinhas, e também gosto de si, inocente na armadilha da vida também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e a divina deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é impossível. Estou triste, maluco e ninguém em meu lar gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, pois só gosto de ti, é isso mesmo, e torna tudo ao princípio.
Além desce a remoto, me entregue através uma humanidade, lívida fixação, galhardetes vibrantes, igual ganho conversado, eu sei além desce o arremessar da ternura dos pombinhos. Estou apreciando ‘O mercador de Veneza’, entendo porque desce sua peça favorita, desce engraçada, profunda e politizada no entanto além. Uma rapariga tão linda, elegante e no entanto é inteligentíssima.
Gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e comer-lhe a boca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos no ponto final, poder recomeçar novamente.
Como quem diz desde que nasci, e eu destinado a ti, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é escrito por mim.
Eterno seu, Francisco.” — Depois que terminei de ler, olhei para Franco em dúvida. — Incrível como entendi quase nada…
— Ele a chamou de anjo. — Nilo explicou. — Que salvou a vida dele.
— Ah, mas por que tá em português e não italiano? — Pergunto devolvendo a carta para Franco.
— A família Garcia veio de Portugal, mas meu trisavô largou tudo para se casar com minha trisavó. — Franco explicou dando de ombros. — Ele apenas ignorou todos os protestos a família dele fez e foi morar em Veneza. — Franco olhou para as cartas com uma sombra de sorriso. — As coisas hoje em dia são muito mais fáceis, antigamente tinha que escrever umas cem cartas de amor, cortejando a pessoa que você ama e torcer pelo melhor.
— Hoje em dia não é tão fácil assim. — Nilo comenta me olhando de lado.
— Em minha defesa… Eu não tenho defesas. — Disse sem jeito.
Nilo ri e me dá um beijo na bochecha, Franco nos olha com carinho.
— Fico feliz que tenha dado tudo certo entre vocês. — Comenta sorrindo.
Vamos torcer pra continuar assim…
Às vezes odeio minha mente ansiosa.