Capítulo 3: Normal.

2426 Words
Levanto de madrugada para beber uma água, vou à cozinha e vejo Nilo, só de cueca boxe preta, com seu sorriso sedutor, apoiado com o quadril na mesa da minha sala e de braços cruzados. Olho para ele surpreso. — Como você entrou aqui? — Pergunto, sem entender nada. Nilo se aproximou de mim, segura meu rosto e me olha nos olhos. Aquele detalhe cinza ao redor de sua íris parece mais forte que antes, mas não tenho muito tempo para pensar nisso, pois sua boca logo encontra a minha, meu corpo automaticamente se derrete em suas mãos. — Não vou mais deixar você fugir de mim de novo… — Sussurra contra os meus lábios, provocando um arrepio pelo meu corpo todo. Quando acordo, levo alguns segundos para entender que foi um sonho. Nem preciso botar no Google “qual é o significado do meu sonho” para entender o que estava acontecendo com a minha mente. Além de vê-lo em todo lugar, agora o vejo nos meus sonhos também, simplesmente maravilhoso… Depois daquele beijo, que provavelmente, tive um decepcionante desempenho, não senti mais a necessidade de evitar Nilo como uma praga, cheguei a conclusão que as coisas voltaram ao normal. Ele no mundo dele, e eu no meu. Na faculdade, o via nos corredores sempre com um grupo diferente de amigos, depois do que rolou na cafeteria, Nilo parou de andar com o grupinho da Jackeline. Quando seus olhos encontravam os meus, eu dava um leve sorriso educado, quase imperceptível, e continuava meu caminho, às vezes retribuía, outras vezes apenas desviava o olhar. Normal. Vanessa e Roberta, às vezes Tom, se tornaram minha companhia constante nos intervalos, onde Roberta tinha finalmente encontrado alguém que se interessava pelo drama adolescente da prima do seu namorado. — … Então Brenda ficou sem falar com Caio por uma semana! — Roberta finaliza a história animadamente. — Tudo isso por que ele demorou pra responder uma mensagem? — Vanessa perguntou rindo. — Que infantil! — Drama de ensino médio… — Murmurei enquanto lia meu roteiro. Estou tão concentrado que nem noto que uma nova pessoa se juntou à mesa. — Oi, Nilo, como vai? — A voz da ruiva me tira a atenção do roteiro que estou trabalhando e levanto meu olhar. Nilo, com seu cabelo agora loiro, está sentado de frente para mim, me olha e retribuo com meu sorriso educado. Ele não sorri de volta, se vira para Vanessa, dando total atenção a ela. — Vou bem, e você, minha linda? — Diz, numa voz grave e sedutora. Previsível. Volto meu olhar para o roteiro, procurando erros, mas minha leitura é interrompida por uma cutucada da Rô. — O que você acha que tá rolando entre eles? — Pergunta, sussurrando no meu ouvido. Dou de ombros. — Sei lá. — Respondo, novamente me volto para o roteiro. Ouço a Roberta bufar, logo os sons a minha volta ficam abafados e me foco apenas no meu trabalho. Estava em ordem, sem erros de digitação, não me perdi na história… Talvez a cena do isqueiro fique melhor antes da frase de… — Cláu! — Vane me chama. — Han? — Murmuro, levantando o olhar. — Você não me respondeu. — Não ouvi. — Digo, com um sorriso amarelo. — Fala. — Você vai ao reencontro da nossa turma de ensino médio? — Perguntou, animada. — Ainda estamos planejando, mas acredito que vai ser no próximo mês ou no seguinte. Tentei controlar a minha cara para não demonstrar o quanto não queria ir. — Onde vai ser o reencontro? — Pergunto, tentando ser educado. — No sítio “Amor Eterno.” — Responde, sorridente. — Lembra da fogueira? Ou quando nadávamos no lago? — Me lembro dos insetos. — Faço uma careta. — Ah, vai! Vai ser legal, eu vou! Roberta vai! Todo mundo estará lá! — Implora. Gael estará lá? — Todo mundo quem? — Tento soar descontraído. Enquanto ela pega o celular para conferir, tiro meu pacote de cigarro e saco meu isqueiro. Vanessa me olha com desaprovação, ignoro seu olhar enquanto acendo meu cigarro, dou duas tragadas e me sinto relaxar. — Você vai morrer assim… — Vane diz irritada. — Deus te ouça… — Murmuro durante uma tragada. Nilo olha para mim com atenção, talvez tenha ouvido o que eu disse e esteja se perguntando se estou brincando ou não. Nem eu sei se estou. — Todo mundo que estudou na nossa sala confirmou… Vai ter várias pessoas de outros anos também… — Diz Vanessa olhando para seu celular. — Falta só você. Pego seu celular e olho o grupo com os nomes de quem vai, toda a nossa sala confirmou, dou uma olhada em outras turmas e encontro o nome que procuro na lista de confirmação de presença. Gael. Tensiono com a ideia de encontrá-lo, noto Rô me olhando com atenção pelo canto do olho, trago com mais força o cigarro. Gael, um cara mais velho que conheci no primeiro ano, eu tinha 16 e ele 19, foi uma pessoa muito importante na minha vida, meu primeiro amor, a pessoa que tive minhas primeiras experiências, incluindo um coração partido. Mas claro que não seria uma história minha se não tivesse acabado num final de m***a, onde ele prometeu que voltaria para mim… E nunca voltou. Devolvo o celular e me faço de desinteressado. — Bom, pode confirmar então… — Suspiro, tentando disfarçar minha ansiedade. — O que eu tenho a perder? Minha paz, minha sanidade, minha vontade viver… Ah, não, essa última já perdi. Vanessa sorri. — Ótimo! Vou confirmar você e te adicionar ao grupo. — Diz, mexendo no celular. — Ótimo. — Murmuro, olhando para um ponto distante. Sei que a Roberta está me olhando atentamente, também sei que está preocupada, mas o mais importante: ela sabe que não tem o que fazer. Pego meu isqueiro e olho para ele pensativo. — O amor supera tudo, até o tempo, eu volto pra você. — Gael disse depois de me entregar o isqueiro com uma ampulheta entalhada. Entrou naquele avião para nunca mais voltar para os meus braços. O que mais odeio na vida, além de café, são clichês… Mas admito que o plot twist que ele me deu foi o mais doloroso que eu poderia viver. Não só nunca voltou para mim, também nunca retornou minhas mensagens, ligações, ou e-mails, quando estava quase aderindo ao pombo-correio ou sinal de fumaça, descubro que voltou para o Brasil. Estava feliz, imaginando que ele viria até mim… Então recebi um convite de casamento com seu nome e o nome de uma mulher, alguém que conheceu no exterior, no fim daquele mês, se tornou de outra pessoa. Nessa apunhalada, fui ao casamento, apenas para olhar em seus olhos e dizer… — E eu esperei você. — Minha voz saiu fria da minha garganta, ele apenas me olhou sem emoção alguma e foi para o altar. Doloroso. Se casou, decidi seguir minha vida na escola, com 18 anos, conheci a Vanessa e mergulhei de cabeça num relacionamento com ela, a garota mais perfeita que poderia ter conhecido. Mas não conseguia sentir nada mais forte que um carinho enorme por ela… — Parece que tem muita coisa acontecendo aqui… — Ouço a voz de Nilo, levanto meu olhar e o vejo apontando o para a minha testa. Sorrio, um sorriso sincero e genuíno. — Devia ver o que tá acontecendo no meu coração… — Respondo de forma enigmática. Nilo me olha impressionado, como se eu tivesse dado a resposta certa para o seu comentário. Ele se inclina na minha direção, olha para Vanessa e para Roberta, que estão super distraídas com o planejamento do reencontro, depois volta para mim. — Incrível como você nunca deixa de me surpreender… — Sussurra. Ergo as sobrancelhas e franzo o cenho. — Lhe-garanto… — Sussurro de volta. — Eu sou a pessoa mais tediosa que você poderia conhecer na sua vida. Novamente aquele ar de surpresa passa pelo seu rosto, mas vejo um pouco de… Decepção. É, conheço esse olhar bem demais. * Saí da sala de prova com a cabeça doendo, tirei os óculos e apertei os olhos, senti meu corpo tenso e a ansiedade que me dominava estabilizar. Espero ter ido bem, mas a questão 5 provavelmente foi uma pegadinha… Virando o corredor, noto um borrão vermelho e verde, muito familiar, apoiado na parede conversando com outro borrão, mais alto com branco, azul e o topo amarelo. Paro imediatamente de andar, os observei por alguns instantes. — O que você acha que tá rolando entre eles? — A voz da Roberta soa no fundo da minha mente. Vanessa ri de algo que Nilo diz, ele está de frente para ela, acredito que a observando com bastante atenção. Normal. Outro borrão aparece, Vanessa o vê, vai até ele, dá um beijo em seu rosto, entrelaça o braço no dele, acena para Nilo e se afasta. Ela vem na direção onde estou, acena para mim e eu retribuo. — Vai trabalhar hoje? — Pergunta. — Infelizmente. — Digo, me concentrando para não sentir a enxaqueca se alastrar, coloco meu óculos novamente e reconheço o outro borrão como Tom. Tom, ou Tomás, era mais baixo que Vane, cabelo liso, preto, num corte militar, pele morena, olhos verdes, usava um estilo mais esporte fino, um pouco tímido, mas, do mesmo jeito que Vanessa, era um romântico incurável. Todos os seus roteiros da aula de escrita criativa tinham um final em que: o casal ficava junto, casavam e tinham filhos. — Não faz sentido criar uma história sem um final feliz! — Palavras dele. Vanessa riu da minha resposta, sua risada doce tem a sensação de uma britadeira no meu cérebro e me esforço ao máximo para fingir que não estou incomodado. — Vou passar lá e te convencer a me dar um bolinho de graça. — Vane brinca, se afastando. — Claro, qualquer coisa, finjo ser seu aniversário e canto parabéns. — Ela para e me olha confusa, reprimi um suspiro de irritação. — Só posso dar bolinho de graça se for de aniversário. — Ah! — E novamente ri e volta a andar, com sua atenção agora voltada para Tom. — Então como eu dizia… Sigo meu caminho pelo corredor, Nilo está parado me olhando. Aceno educadamente, que retribui e começa a andar do meu lado. — Você tá bem? — Pergunta, parecendo preocupado. Olho sem entender. Estranho. — Enxaqueca… — Murmuro. Ele coloca a mão no meu ombro e me para, me deixando confuso. Estranho. — Você comeu alguma coisa hoje? — Nilo perguntou. Bufo de irritação e penso um pouco. — Não… Saí de casa com pressa e tô sem tempo pra almoçar. — Sua mão no meu ombro pesa. — Cê vai passar m*l assim… — Começa a falar, mas logo o corto. — Tô de boa. — Afasto sua mão do meu ombro. — Tenho que ir. Sigo meu caminho, deixando Nilo para trás. * Minha cabeça vai explodir, minha pausa vai ser só daqui a uma hora e o movimento da cafeteria está a mil por conta das provas do segundo bimestre. Se mais alguma loira odonto reclamar que seu café gelado está frio demais, eu juro por Deus… Nilo entra na loja, chamando atenção de quase todos ali, que param o que estão fazendo para cumprimentá-lo. Ele fala com algumas pessoas, mas seus olhos vem até mim, imediatamente desvio o olhar e foco na loira odonto que torce a boca com desdém, o frappuccino com canudinho rosa que entreguei a ela, em suas palavras, é suspeito. — Isso não parece caramelo, parece Nutella. — Seu nariz enruga com irritação. Vou gastar meu réu primário hoje. — Garanto, é caramelo. — Dou meu sorriso mais educado. — Olha, eu tô de dieta… — Diz, como se fosse a coisa mais importante do mundo. Foda-se, não é problema meu. — … Não posso comer algo tão açucarado assim. — Continua exasperada. — Garanto, é apenas caramelo. — Repito. De repente, Nilo surge atrás dela, se inclina e bebe o frappuccino dela pelo canudinho rosa, a loira o olha surpreso, mas sem nenhum vestígio de irritação de alguns segundos atrás. — Nilo! — Grita com um sorriso enorme nos lábios, num tom brincalhão. — Para com isso! — Bom, Ana, isso é claramente caramelo. — Nilo sorri para… Mim. Bonito… Não! Estranho! Estranho… Ana odonto sorri sem jeito para ele. — É, você tem razão… — Murmura, finalmente se afastando, o rosto vermelho. Nilo olha para mim. — Comeu alguma coisa? — Pergunta, naquele estranho tom preocupado que estava começando a me dar nos nervos. — Eu vou, daqui a uma horinha… — Suspiro. — Então, o que vai pedir? Ele recolhe os lábios, com aquela expressão insatisfeita, nota os bolos em exposição no balcão transparente e ergue uma sobrancelha. — Qual é seu sabor preferido? Fico confuso e ajeito meus óculos. — Pra que você quer saber? — Pergunto de volta. — Quero uma sugestão. — Responde ainda olhando os bolos. Dou de ombros. — A torta de limão daqui é maravilhosa. — Falo, numa entonação ensaiada. — Você gosta desse sabor? — Nilo pergunta irritado. Uma risada foge da minha garganta, noto a fila atrás dele, pessoas olhando com impaciência para nós. — Sim, é meu sabor favorito. — Respondo com sinceridade. — Quero duas fatias, uma pra viagem e uma pra comer aqui. — Pede. Faço o pedido no caixa, passo seu cartão, corto duas fatias, coloco uma numa embalagem de plástico e a outra num pratinho, entrego para ele a nota fiscal e coloco as duas fatias na sua frente. Nilo pega a nota e, em vez de pegar as duas fatias, pega apenas a que está no saco, olha para mim, aponta para a torta no prato e diz: — Essa é sua, aproveite. — Então se afasta e vai embora antes que possa reagir. Pisco algumas vezes, sem acreditar no que acabou de fazer. — Não sabia que o Nilo era seu amigo… — Comentou Rone com curiosidade, aparecendo do nada no caixa ao lado. — Ele não é… — Respondo, sem saber o que pensar dessa pequena atitude. Mas… Por quê? Não tenho tempo para pensar nisso, uma mulher do curso de jornalismo com uma camiseta “viciada em café” surge na minha frente já fazendo seu pedido. Nas pequenas brechas entre os pedidos, dou uma garfada na torta, que está… Incrível. Essa é a melhor torta que já comi na minha vida…
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