Capítulo 1: Memória.

2666 Words
Parte 1: Cláudio. Avistei Roberta descendo de sua moto, quando tirou o capacete revelou seu cabelo preto todo bagunçado, a mecha verde da franja estava embolada para trás, revelando uma testa com cicatrizes de espinhas, algo que odiava mostrar. Vestia uma jaqueta de couro, apesar do calor infernal, uma calça jeans preta justa e suas botas que parecem ser roubadas das bonecas "Bratz". Ela ajeitava seu cabelo furiosamente às cegas, mas para ao me ver chegando, abrindo um enorme sorriso. — Ai, que bom que você tá aqui! — Grita aliviada, pega seu celular e me entrega. — Segura virado para mim, preciso arrumar o cabelo! Revirei os olhos, mas fiz como ordenou, enquanto a observava ajeitar o cabelo, as pessoas do estacionamento passavam por nós com curiosidade. Ignorava, pois sabia que quem estava verdadeiramente chamando a atenção era a Rô e não eu. Finalmente ajeitada, percebo que cortou o cabelo mais curto, realçando suas bochechas, ela pega seu celular de volta, enfia no bolso, remove a jaqueta, revelando um cropped branco com vários esqueletos dançando. Abrindo o compartimento do banco da moto, tira sua mochila roxa com caveirinhas, guarda seu capacete com a jaqueta de couro embolada ali e se vira para mim. — Agora tô pronta! — Gritou animada. — Por que tá tão feliz hoje? — Perguntei começando a andar em direção à entrada da faculdade. — Hoje é o aniversário de um ano que conheci o Mateus! — Exclama, quase saltitando. Para uma gótica, ela sorri demais... — Um ano? Faz isso tudo já? — Perguntei, fazendo as contas mentalmente. — Pois é! Ele disse que pra comemorar vamos fazer uma festa do pijama, só eu e ele, pedir comida japonesa, em homenagem ao Bruno. — Disse, rindo. — Se não fosse por ele, nunca teria conhecido o Mateus... — E como anda as coisas com a prima dele e aquele cara? — Perguntei, abrindo a porta para ela. — Ah, o de sempre... — Rô respondeu, passando por mim. — Eles brigam, fazem as pazes, brigam de novo, fazem as pazes de novo... — Enquanto você e Mateus estão em eterna lua-de-mel. — Digo com ironia contida. Ela me lança um olhar irritado. — Ok, ok... Eu e o Mateus brigamos às vezes... Mas Brenda e Caio? Parece quase que brigam com hora marcada! — Gesticula exageradamente. — Toda semana isso! Que m***a! Comecei a rir. — Você está empolgada com o drama dos outros. — Comentei. — Drama de ensino médio! — Você sabe que eu ADORO drama, principalmente se for dos outros. — Respondeu, dando de ombros. Passamos pelo corredor principal da faculdade, Roberta me atualizava do drama que Brenda passava para Mateus semanalmente. Por alguma razão desconhecida, essa corrente de fofoca chegava até mim sem minha permissão, mas era divertido ouvir como Bruno estava se divertindo com seus amigos e... Seu namorado. — ... E Henrique finalmente decidiu o que quer fazer no futuro... — Roberta continuava sua atualização sobre os fatos da semana. — Aham... — Respondia a cada alguns momentos, para parecer que estava prestando atenção. Viramos o corredor em direção à sala e no canto, sentados num banco, estava um grupinho rodeando um cara alto, que estava de costas, mas reconheci o cabelo raspado tingido de rosa. Desviei o olhar para a frente e mentalmente pedi a Deus para que não me notasse. Por favor, não olha pra mim... Não deveria me preocupar, claro que não, ele nem deve saber meu nome... — Cláudio! — Alguém me chama. Paro e me volto na direção da voz, Vanessa abre seu sorriso enorme para mim. Vanessa é umas das garotas mais bonitas que já beijei e tive até a honra de namorar, não sei como, mas tenho esse feito no meu histórico. Poucos centímetros mais baixa que eu, o que a tornava uma garota bem alta comparada às suas amigas... Um dos apelidos que dei a ela foi de "Ártemis" na época do ensino médio, pois vivia rodeada de amigas mais baixas que ela, que a seguiam para todo o lado sem exceção. Senti um leve constrangimento ao lembrar disso. Quantos apelidos idiotas eu dei para ela? Mas não seria exagero compará-la com uma deusa, ainda mais com seu enorme cabelo ruivo natural, olhos castanhos esverdeados, pele salpicada de sardas, como constelações, um sorriso branco que iluminava todo lugar que entrava e suas curvas, muitas curvas. As roupas que usava sempre ressaltaram bem essas curvas, vestia uma blusa justa de um tom verde suave, uma saia branca com alguns girassóis, plissada e que ia até o joelho, salto baixo vermelho, uma marca registrada dela, um cordão delicado com um pingente de folha de prata e brincos também de folhas de prata. Maquiagem leve, o máximo era a sombra verde-escura nos olhos; tinha uma bolsa preta atravessada no corpo, que balançava contra sua coxa enquanto fazia seu caminho até mim. — Sumiu na unificação, onde você foi? — Ela perguntou ao se aproximar de mim. Você nem acreditaria se eu te contasse. Roberta cruzou os braços e deu um sorriso cínico. — Ficou bêbado e foi de base. — Resumiu bem minha situação em poucas palavras. Vane olhou para mim preocupada. — Meu Deus, Cláu! Você sabe que... — Sou fraco pra beber, eu sei, eu sei... — Falei e balancei a mão, não querendo ouvir seu discurso preocupado. — Mas estou vivo, agora o mais importante... — Aponto para sua roupa. — Cosplay de "Hera venenosa"? A ruiva sorriu, era a única pessoa que gostava dos meus apelidos imbecis. — Sabia que ia dizer isso. — Vane ajeita o cabelo, jogando para trás do ombro e aponta para minha camisa rindo. — O que achou, "Batman"? Olhei para minha camisa que, só naquele momento, percebi ser a tinha a estampa do "Batman". — Eu sou a vingança, não entendo de moda — Falo com a voz rouca, arrancando risadas dela. Com o canto do olho, noto Roberta nos observando com aquele sorriso de quem achava nossa conversa muito fofa e melosa. Reviro os olhos, com essa ação, eles pararam no grupo do canto o qual Vanessa tinha se afastado, as suas amigas nos olham e cochicham em nossa direção, elas não gostam de mim. Outra pessoa me olha, Nilo, com uma expressão atenta e curiosa... Imediatamente volto minha atenção a Vanessa. — Bom, na próxima, não vou beber... Não vou prometer, porque quebraria a promessa... — Enfio as mãos no bolso, tentando parecer relaxado. — Mas farei meu melhor. Novamente a faço rir, mas dessa vez é uma risada educada. — A gente se vê. — Me despeço e começo a me afastar. — Tchau! — Ela acena e volta para o seu grupo. Penso sentir o olhar dele na minha nuca, mas me desfaço desta ideia, não faria sentido, estou paranoico, ele olhou pra Vane naquele momento, com certeza... — Quando vocês vão voltar? — Pergunta Rô do meu lado. Suspiro. — Não vamos voltar, somos amigos agora... — Minha resposta está tão repetitiva que soa como uma gravação na minha garganta. Incrível que, não importa quantas vezes eu dê a mesma resposta, ela continuava fazendo a mesma pergunta. — Vocês sempre flertam quando se veem, usam apelidos da época de namoro um com o outro, ela ri de tudo o que você diz mesmo não tendo graça nenhuma... — Roberta começa sua argumentação, mas logo a corto. — Tenho um carinho enorme por ela. — Falei irritado. — A gente namorou, tivemos uma ótima relação, mas eu não sentia... — Não acha que está superestimando o amor? — A pronto, entramos no ramo da filosofia de buteco. — Eu sei o que é amor, eu já senti... — Respondi cauteloso. — Gael. — Roberta diz o nome, afirmando. Estremeço, definitivamente não quero falar disso, logo chegamos na nossa sala, decido mudar de assunto. — Agora. — Falo apontando para ela com seriedade. — Senta do meu lado, disseram que essa matéria é em dupla no segundo bimestre, não quero fazer trabalho com um desconhecido. Roberta revira os olhos. — A gente faz tanto trabalho em dupla que vamos acabar tendo só um diploma com nossos nomes. — Diz com ironia passando por mim, entrando na sala. * Estou sentado numa mesa do refeitório, ao ar livre, lendo um artigo sobre o diretor Hitchcock, quando sinto uma presença do meu lado, ignoro até essa presença tirar meu fone. Levanto o rosto do meu computador e vejo o sorriso de Vane, que põe o fone no seu ouvido e sorri. — Blackbear? — Pergunta, com muita certeza. — Hopsin. — Falo, a vendo fechar os olhos com força e então grunhiu de raiva. — Nunca acerto... — Murmura. Sorrio, fecho meu computador e apoio os braços na mesa. — Que foi? — Pergunto. — Parece preocupada... — O de sempre... Meus pais... — Revira os olhos, apoia o cotovelo na mesa e o rosto na mão. — Estão tentando me colocar um contra o outro. — Faz assim, aproveita que estamos na páscoa, fica contra os dois e grita "não adianta deixar de comer carne numa sexta-feira santa se vocês vão infernizar a minha vida o ano inteiro". — Me sento um i****a ao terminar de falar, mas ela ri mesmo assim. — Não importa o que eu tenho você sempre tá aqui pra me fazer rir... — Diz colocando os braços na mesa e deitando a cabeça neles, fazendo seu cabelo ruivo enquadrar seu rosto de um jeito angelical. — Pra isso que servem os amigos. — Respondo, dando de ombros. Seu sorriso aumenta. — Sabe, é isso que gosto em você. — Seus olhos vão para um ponto distante longe de mim. — Você é meu amigo, apesar do que passamos... — Sou seu amigo pelo que passamos. — Corrijo ela. — Namoramos por um ano, você é uma garota incrível, claro que vou continuar querendo você na minha vida. — Eu sei, eu sei. — Levantou o rosto, seu cabelo cai sobre seu ombro. — Meus outros ex-namorados não são maduros como você. — Começa a ajeitar algumas mechas rebeldes. — Otto tá querendo voltar comigo, mesmo depois de dizer que só queria minha amizade... Quero pessoas mais sinceras na minha vida, como você, sabe? Amigos sinceros... — Sinto que não são só seus pais sendo babacas que tá te incomodando... — Murmuro. Vanessa respira fundo. — Descobri que a j**k está falando pelas minhas costas que estou tentando roubar o namorado dela. — Encolhe os ombros, revoltada. — Eu disse a ela que Pablo flertou comigo e ela faz isso? — Acho que ela fez isso porque prefere perder uma amiga incrível que um namorado m***a. — Imito ela, encolhendo os ombros também, um sorriso travesso surge em seu rosto. — A vida é feita de escolhas... Falando em escolhas, minha escolha de sábado a noite está sentado a duas mesas de distância nos encarando, socorro! — ... Ou talvez. — Continuo, me voltando a ela. — Ela não quer aceitar que é corna. Vane morde o lábio frustrada, ao mesmo tempo que um sorrisinho surge nos lábios. — Preciso de amigos melhores. — Troca de curso, vem pro cinema. — Brinco. — Tem eu, Rô e um cara chamado Tom, já é melhor que seus amiguinhos do curso de história. Vanessa me abraça de repente, o que me surpreende, devolvo o abraço, ficamos assim alguns momentos até a ruiva se afastar, seus olhos verdes acastanhados estão tristes. — Posso ficar com vocês entre os intervalos? — Pergunta. — Vou te enviar nossos horários. Sorri e seu olhar triste se desfaz. — Obrigada. — Nada... — Vejo as horas no meu celular. — Preciso ir, trabalho. Me levanto e guardo minhas coisas. — Trabalhar no café tá sendo legal? — Pergunta, se levantando também. — Sim, ainda mais porque odeio café, o último funcionário bebia o estoque escondido. — Falo com a maior seriedade, e vejo o queixo dela cair. — Mentira! — Ela leva a mão à boca, incrédula. — Queria eu inventar essas coisas... Ela devolve meu fone, se despede e cada um vai para o seu lado. Caminhando em direção à saída, procurava uma música específica na minha playlist, enquanto meditava diante dessa escolha tão importante, que definiria meu humor para o início do meu turno, uma mão pousou no meu ombro, sem aviso prévio, me dando um susto que quase arrancou minha alma do corpo. Quase. — AI! — Grito e olho para trás. Nilo, bem ali, me olhando com uma expressão surpresa e sua mão no ar. — p***a, que susto! — Falo irritado, pauso a música nos meus fones e levo a mão ao coração. — Quase tive um infarto... Eu não tenho plano de saúde, cara... Um sorriso se forma no rosto dele, logo se torna uma risada profunda. Minha bronca é divertida? Eu sou palhaço agora? — Nossa, desculpa, não foi minha intenção... — Diz, recolhendo sua mão. — Perdoado. — Digo com ironia. Ficamos num silêncio estranho, ajeito meu alargador para disfarçar meu desconforto, ele parece esperar eu dizer algo. — Quer alguma coisa? — Pergunto impaciente. Seus olhos castanhos e brilhantes demonstram surpresa novamente, ele pisca algumas vezes, mas logo sorri, um sorriso forçado. Nossa eu odeio gente que sorri assim. — Tô tentando falar com você a semana toda. — Seu sorriso aumenta. Ergo uma sobrancelha, ai meu Deus, que m***a de situação é essa? — Tá, pode falar. — Olhei a hora no meu celular, tinha dez minutos ainda. Vejo aquela expressão surpresa de novo, seu sorriso treme, ele pigarreia e enfia a mão no bolso. — Aqui, isso é seu. — Nilo tira do bolso meu isqueiro. Sorrio involuntariamente, a sensação de desconforto que sentia a alguns minutos evaporou. — c*****o! — Falo pegando de sua mão e olhando com cuidado o entalhe de ampulheta. — Achei que tinha perdido! — Ainda sem olhar para o Nilo, dou dois tapinhas no seu ombro e me afasto. — Obrigado, mano. Coloquei o isqueiro no bolso, dou dois passos e sua voz me chama. — Peraí! — Me viro para ele. — É só isso? Franzo o cenho sem entender. — Hum... Muito obrigado? — Quero ir embora. Ele ergue as sobrancelhas. — Inacreditável... — Murmura. — Olha, você fugiu do meu apartamento... Duas perguntas passaram pela minha cabeça naquele segundo. Ele me viu saindo do apartamento? E se lembrou de mim? Ótimo... — ... E nem me deu a chance de pedir seu número! — Continuou. Han? Fico sem entender nada. — Pra que você quer meu número? — Pergunto, genuinamente confuso. Nilo inclina a cabeça e me olha como se eu fosse um i****a. — Ah, não sei, marcar alguma coisa? — Respondeu com obviedade. Recolho os lábios, desconfortável e sem acreditar. — É... Não. — Respondo. Novamente mostra aquela expressão surpresa, mas agora com bastante indignação. — Não? Como assim "não"? — Nunca ouviu? É uma palavra que significa o oposto de "sim". — Respondo secamente. — Por que não? — Insiste. Carinha chato, hein? — Porque eu não quero, você não faz o meu tipo, mercúrio tá retrógrado... Sei lá, só não quero, pra que caralhos você quer motivo? — Respondo, muito cansado daquela conversa. — Eu realmente tenho que trabalhar... — Mas... Você não gostou? — Nilo pergunta, ofendido. Suspiro. — Eu nem me lembro o que rolou... Então, não posso dizer se gostei ou não. — Respondo com toda minha sinceridade. Seu queixo cai, numa mistura de irritação e incredulidade. — Tá falando sério? — Pergunta, num tom ofendido, muito ofendido. Esse cara realmente nunca ouviu um "não" na vida? — Mais sério impossível... — Olho para a hora no meu telefone. — Tô atrasado, ótimo! Dou as costas para ele e ando em passos rápidos para a saída, deixando Nilo para trás, torcendo para que aquela fosse a nossa última interação.
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