Como esperado, o filme foi um saco, a única parte boa foi quando Gris adormeceu no meu ombro. Foi repentino, estava assistindo ao filme tranquilamente, tentando abstrair os efeitos especiais ruins e de repente senti algo no meu ombro, quando olhei era Gris com o rosto apoiado em mim, dormindo calmamente. Mesmo no escuro era possível ver seu rosto relaxado, os olhos se movendo por baixo das pálpebras, uma visão muito tranquila.
Não preciso ser um gênio para perceber que estava começando a realmente gostar dele, não deixava de reparar seus detalhes, de querer passar mais tempo com ele, queria mais do que só repetir aquela noite, mais do que realizar um desejo, do que fazê-lo se lembrar.
Eu quero ele.
Infelizmente, Rone notou que Gris dormiu em meu ombro, me lançou um olhar furioso e o acordou porque “precisava muito” mostrar a ele a cena pós-crédito.
Que cara chato…
Brenda e Bruno foram embora logo depois do filme, pelo visto para resolver, como diria o Gris, um “drama de ensino médio”.
Quando vi Gris mandando mensagem para o Bruno e vi o contato salvo como “Hobbit”, senti uma raiva subir dentro de mim, não pelo Gris ou pelo Bruno, mas por eu mesmo não conseguir achar o momento certo para pedir o número dele.
Não devia ser tão difícil…
Parecia que qualquer coisa que o envolvesse era difícil e por alguma razão isso me fazia querer saber mais sobre ele.
Queria que Rone fosse embora e me deixasse sozinho com o Gris, mas ele não parecia disposto a fazer isso, os dois foram ao banheiro juntos e eu os esperei enquanto checava minhas mensagens.
Nando: Fazendo o q de bm?
Eu: Acabei de sair pra ver um filme com o Gris e uns amigos.
Nando: Rolou alguma coisa entre vc e ele?
Nando: ( ͡─ ͜ʖ ͡─)
Eu: Ele dormiu durante boa parte do filme no meu ombro, isso conta?
Nando: (╯ ͡ಥ 𝆒 ͡ಥ)╯┻━┻
Nando: MDS eu desisto de vc!
Comecei a rir, minha risada morreu quando vi duas mensagens, uma da j**k e outra do Ricardo, revirei os olhos e abri da j**k primeiro.
Insuportável: O que vc viu ontem não é o que parece, não conta pro Pablo, por favor.
Não respondi, decidi não me meter e evitar problema para o meu lado, ainda mais com Pablo envolvido.
Pablo é um cara muito problemático, pelo que Nando me conta das classes de medicina, ele tem uma fama de vender receita falsificada para tudo o que a pessoa “precisar”. Soube que uma garota, que comprava receita com Pablo, largou o curso após ter um derrame durante uma prova por excesso de Ritalina.
Como j**k se envolve com um cara desses?
Suspirei e abri a mensagem do Ricardo.
Ri: Tá livre hoje? Tô cm o pessoal no shopping aqui!
Eu: Ocupado.
Ri: Qnd vc ñ tá ocupado?
Eu: ¯_( ͡─ - ͡─)_/¯
Gris estava demorando, então fui ao banheiro verificar se estava tudo bem, mas parei na porta quando ouvi a voz do Rone gritando.
— … Ele não tá nem aí pra você, ele quer é saber da Vanessa, tá te usando pra se aproximar dela! Ele jamais ficaria com você…
— Rone. — A voz do Gris é firme. — Se você falar mais alguma coisa, eu vou embora… Você não sabe nada dele, nem o conhece, fica falando dele pelas costas, mas você só tá repetindo o que os outros dizem por aí.
Estão falando de mim.
Me apoiei do lado da porta para continuar escutando, porque não sou de ferro e minha curiosidade era muito descarada.
— E você o conhece? — Rone pergunta.
Gris não respondeu na hora, comecei a ficar nervoso com sua demora. Diria que não nos conhecemos bem, nos aproximamos bastante nos últimos três dias, mas parecia ter muita coisa que não conseguimos dizer um para o outro, ficava no ar, tinha medo de afastá-lo pois Gris, até pouco tempo, se esquivava de mim e agora parecia finalmente disposto a permitir me aproximar.
— Não tanto quanto gostaria, mas conheço melhor do que você. — Sua voz me pareceu sincera.
Um sorriso involuntário brotou no meu rosto.
— Não vou negar que acreditei no que diziam, que achava o mesmo que você, mas eu estava errado, do mesmo jeito que estava errado sobre você. — As palavras de Gris são duras, não existem incertezas nelas. — E diferente de você, nunca falei dele pelas costas do mesmo jeito que você tá fazendo agora, na verdade, as pessoas falam demais dos outros, foi um grande erro da minha parte achar que ele era como falavam.
Um silêncio, então ouço alguém bufar de insatisfação.
— E o que mudou? — Rone soa desesperado. — O que ele fez para você mudar sua opinião?
Novamente silêncio, eu era capaz de sentir a vibração dos pensamentos de Gris, o quanto estava escolhendo com calma cada palavra que diria.
— Fez muito mais do que eu esperava. — Meu coração bate acelerado ao som da sua resposta. — Ele… É muito mais do que dizem.
Respirei fundo, deixando suas palavras preencherem meu coração.
Merda, Gris, vou realmente me apaixonar por você.
A última vez que estive apaixonado, foi bom e doeu muito quando acabou… Mas terminar com Henrique e permitir que ele fosse feliz era a coisa certa.
Estou pronto para me permitir ser feliz agora?
— Que piada, você tá cego por um cara m***a que você nem tem chance, esperava mais de você… — A voz de Rone tem veneno.
Gris tem todas as chances que ele quiser comigo.
— Bom, eu nunca esperei nada de você. — Comprimi os lábios, segurando uma risada. — E tenho mais chance com ele do que você tem comigo.
Sua afirmação me surpreende.
— Quando ele te descartar, pisar em você, não venha atrás de mim e não diga que eu não avisei…
— p***a! Não sabia que era vidente! — Gris o interrompe, levo a mão à boca para segurar a risada mais uma vez. — Cobra quanto por sessão?
— Você não é tudo isso! E nem é tão engraçado assim… — Rone diz e ouço seus passos.
Ele saiu do banheiro, me olhou e seu rosto ficou vermelho até a raiz do cabelo. Abre a boca para dizer algo, mas logo desiste de qualquer tentativa de falar e vai embora.
Pouco tempo depois Gris sai, ergue as sobrancelhas ao me ver, parece um pouco surpreso, mas não diz nada.
— Obrigado, Gris. — Murmuro, sendo incapaz de disfarçar meu sorriso.
— Não foi nada… — Desviou o olhar e começou a se afastar.
Vou até ele, coloco meu braço ao redor de seus ombros, seu corpo parece relaxar ao meu toque, noto um sorrisinho se formar em seu rosto e isso me causa um frio na barriga.
— Foi sim. — Digo, me sentindo envergonhado e não conseguindo olhar para ele. — Muito mais que muita gente já fez por mim…
É muito fácil falar pelas minhas costas, dizer coisas que fiz ou deixei de fazer, espalharem rumores sem me conhecerem de verdade, sempre foi assim, estava acostumado, porque falar de mim é muito mais fácil do que tentar me conhecer de verdade. Gris não era assim, na verdade no começo nem interesse de me conhecer tinha, era claramente alguém que gostava de manter distância, mas isso aos poucos está mudando, agora ele quer me conhecer e eu quero me abrir.
O encarei por alguns instantes, sentindo o peito leve, seu corpo relaxado contra o meu era uma sensação agradável…
Nosso instante acaba quando esbarro no meu antigo grupo de amigos, eles não parecem notar Gris do meu lado, exceto Felipe, que o olha com interesse, o que me deixa um pouco tenso.
Sinto Gris tentar se afastar, mas o mantenho do meu lado.
Marta se aproxima de mim, parece pior do que da última vez que falei com ela, suas olheiras profundas escondidas sob uma camada espessa de maquiagem, consigo ver o relevo dos seus ossos sob a pele do ombro… Ela fala com tranquilidade, mas consigo ouvir na sua voz que tem algo de errado.
Fico preocupado quando os outros finalmente notam Gris e o olham com raiva, consigo imaginar j**k fazendo a caveira dele depois de ontem, mas como sempre, ele está cagando para isso. Gris obviamente fica nervoso com a situação, é possível sentir, mas lida muito bem com seu nervosismo, como também revela o pequeno e sórdido segredinho da j**k sem pensar duas vezes.
Após ser deixada para trás ela, em vez de perceber seu próprio erro e se arrepender, coloca a culpa em nós por revelar.
Típico, não esperava menos…
Diria que foi uma tarde bem proveitosa para todos nós.
*
Me despedi de Gris, o deixando na porta do seu apartamento, ele começou a fechar a porta e eu estava prestes a me afastar, mas notei que a porta não fechou completamente, tinha uma fresta, me permitindo ver seu tênis por ela, então esperei e o vi abrir a porta com tudo. Uma expressão tensa no rosto corado, não desvia seu olhar de mim.
— Você… Quer entrar? — Sua voz saiu tremida.
Não consigo deixar de me sentir surpreso, ele não estava só abrindo a porta do seu apartamento, mas se permitindo abrir para mim. Meu sorriso era incontrolável, recolhi os lábios tentando disfarçar o quanto estava feliz, passei a mão nos cabelos da minha nuca, tentando conter o arrepio que subiu pelo meu pescoço, percebo que estou em silêncio e finalmente respondo:
— Claro.
Não criei expectativas sobre o que iria acontecer naquele momento dentro do seu apartamento, imaginei que falaria sobre a discussão que rolou no banheiro com o Rone.
Estava certo.
Pediu desculpas por acreditar nos rumores antes de me conhecer, pelo seu jeito frio e distante, depois me agradeceu pelas coisas que fiz por ele. A sinceridade de Gris era uma virtude que me agradava demais, sabia que podia confiar em suas palavras. Quando agradeci pelas coisas que disse no banheiro, quando me defendeu do Rone, achei que diria algo como: “eu exagerei” ou “menti no calor do momento”.
Mas não, ele disse:
— Bom, saiba que cada palavra foi verdade. — Gris ficou com o rosto corado quando falou isso.
Foi aí que fiquei esperançoso, pois as palavras dele mais cedo eram fortes, me pegaram de surpresa, principalmente perto do final.
— E tenho mais chance com ele do que você tem comigo. — A voz dele era firme e séria
Tenho mais chance com ele…
Tenho chance com ele…
Essas palavras me deram coragem.
— O que eu sou pra você? — Pergunto com seriedade.
Sua expressão muda algumas vezes, sempre pensando com cuidado, sinto meu coração querer sair do peito, esse efeito que me causa me assusta, me leva do céu ao inferno em segundos, mas não quero que isso mude, eu quero mais.
— Meu amigo. — Uma facada.
Tento segurar minha raiva, não dele, mas de mim mesmo. Já devia saber que não tem interesse em mim…
Isso me magoa.
*
— Então vocês são amigos? — Meu tio perguntou, terminando de tragar seu cigarro.
— É. — Digo desviando o olhar.
Ouço meu tio bufar de irritação, olho para ele e vejo pena.
— Você tá naquela… Como chama? “Friendalone”? — Ele pergunta sem certeza.
— “Friendzone”… — Murmuro irritado.
— Bom… Pelo menos agora você tem o número dele, né? — Tio Franco volta para o interior da loja sem esperar minha resposta.
Franzo o cenho e levo a mão ao rosto, me sentindo mais ridículo ainda.
Cazzo, qual é o meu problema? Por que sou assim?