Um mês de férias inteirinho da faculdade, não podia pedir nada melhor, talvez mais tempo com Gris, mas o restaurante estava rendendo bastante e não podia deixar meu tio na mão. Comecei a criar um hábito: sempre que passava na frente do apartamento dele, batia na sua porta. Às vezes ele abria, me deixava entrar, víamos um filme ou eu fazia comida e jantávamos juntos. Nas vezes que não abria, ficava meio envergonhado e cabisbaixo por não poder mandar mensagem e saber quando estaria em casa… Afinal, não tinha seu número ainda.
— Parece nunca ter um momento certo para pedir… — Murmuro frustrado para meu tio.
— Isso não existe! Você pede e ponto final! — Tio Franco responde, parecendo mais frustrado que eu.
Meu tio abre a despensa da cozinha do restaurante, pega queijo e molho de tomate.
— Nilo, cê não está agindo como você mesmo. — Ele me olha com preocupação, coloca os ingredientes perto da massa de pizza. — Pensei que já tinha deixado para trás essa insegurança.
Sinto um arrepio passear pela minha espinha.
Imediatamente me lembro da época da escola, antes de perder peso, antes de fazer academia, antes de mudar meu cabelo, antes de fazer tatuagem, antes da cirurgia no nariz, antes do…
Bullying.
— Você tá se afogando na “friendzone”. — Meu tio diz com um sorriso de lado enquanto espalha o molho na massa. — Precisa de um bote salva-vidas!
Ele começa a rir da sua piada super inteligente, me fazendo revirar os olhos.
— Preciso ir. — Falo olhando as horas. — Vou vir amanhã de noite para passar o fim de semana, então deixa o jantar pronto.
— Ok, algum pedido para jantar amanhã, signore? — Pergunta, fazendo voz de servente.
Tio Franco sempre fazia isso quando eu não usava as palavrinhas mágicas.
— Fogazza. — Digo, um sorriso de lado.
— Fogazza então, maestà… — Ele murmura, colocando o queijo por cima do molho.
Revirei os olhos, peguei meu capacete e saí do restaurante. Estava de noite, as luzes da cidade, como sempre, ofuscam as estrelas. Me veio à memória quando a cidade teve um apagão, eu era bem novo, devia ter uns 5 ou 6 anos, estava morrendo de medo do escuro.
Nessa memória, minha mãe olhou pela janela e sorriu.
— Vem cá Nini. — Ela me chama sem desviar o olhar do céu. — Vem ver…
Me aproximei devagar, minha mãe me pegou no colo, apesar de na época eu ser uma criança gordinha, conseguiu me ajeitar nos seus braços e apontou para as estrelas. Elas eram tão brilhantes, nunca vi estrelas tão bonitas quanto naquela noite.
Sinto sua falta, madre…
De forma quase ritualística, fiz um carinho no Buzz, subi na moto e voltei para o meu prédio. No corredor, fiz meu outro ritual de bater na porta do apartamento do Gris.
— Vá embora! — Respondeu, desesperado.
Franzi o cenho.
— Por quê? — Perguntei sem entender.
Ouvi passos em direção à porta, mas ele não a abriu.
— Eu tô com… Um negócio na cara. — Sua voz estava próxima e envergonhada. — Volta daqui a uns quinze minutos.
— Deixa de graça! — Respondi contendo um riso. — Prometo não rir!
Ouço bufar do outro lado da porta, o barulho da chave na fechadura me anima, a porta abre e me deparo com o rosto de Gris com um produto preto cobrindo seu rosto todo.
— Removedor de cravos… — Murmura sem jeito.
Gris fica fofo envergonhado.
Ele se afastou da porta, voltando para o sofá, entro, fecho a porta, tiro as botas e a jaqueta. Gezora me cumprimenta se esfregando em minhas pernas, me abaixo e faço um carinho nele.
— Não sabia que curtia “skincare”. — Comento.
— Vane me emprestou. — Deu de ombros. — Disse que deixaria meu rosto sem pontos pretos… Não que eu me importe com isso.
Comecei a rir, me levantei e fui até sua geladeira.
— Então como você… — Antes que pudesse terminar a frase, a luz acabou.
— Ótimo… — Gris murmura irritado na escuridão.
Ouço o levantar e logo a luz do seu telefone ilumina seu caminho até mim.
— Terceira vez hoje já, espero que volte logo… Eu baixei uns episódios de “the office” por garantia, quer ver?
Sorri.
— Vou fazer pipoca. — Falei.
— Mas o microondas precisa de luz…
— Tenho uma panela e milho de pipoca. — Digo o interrompendo. — Deixe seu isqueiro na pia pra eu acender o fogo, já volto.
Sem colocar minhas botas, saio pelo apartamento com a luz do meu celular me guiando pelo corredor.
Provavelmente Gris não ficaria confortável com a ideia de ir no meu apartamento, ainda mais porque na última vez que ele pisou no meu apartamento… Enfim, não que tenhamos falado sobre isso, mas de qualquer forma ele estava se abrindo para mim, devagar…
Não importa quanto tempo leve, ele vai ser abrir completamente para mim.
Peguei a panela, um saquinho de milho, procurei na despensa, achei tempero de pipoca sabor cebola e salsa. Voltei para o apartamento do Gris, ele e Gezora estavam no sofá com a luz do computador os iluminando, a sua pele morena com o produto ainda em seu rosto é uma visão muito intimista. Observei enquanto digitava ou clicava no “touchpad” a luz em seu rosto mudando para azul, depois verde e por fim branca.
Quando me viu seu sorriso se desenhou em seu rosto, diferente das outras vezes, senti, não só um conforto, mas um calor irradiar do peito e subir para o rosto. Meu corpo estremeceu, deixei cair a panela no chão com as outras coisas dentro dela, assustando Gris e seu gato, que pulou e se escondeu embaixo do sofá.
Pareço a p***a de um adolescente apaixonado…
— Tudo bem? — Gris pergunta se levantando. — Quer ajuda?
— Tudo, escorregou só… — Murmurei sem jeito.
Me abaixei, peguei a panela, milho e tempero e pus no fogão.
— Tem manteiga? — Pergunto indo até a geladeira.
Gris não respondeu, só ficou me observando enquanto eu pegava a manteiga, colocava meu celular com a lanterna acesa posicionado para iluminar o que eu fazia, acendia a boca do fogão com o isqueiro que Gris deixou na pia e preparava a panela para por pipoca.
— Meu apartamento é legal? — Gris pergunta atrás de mim.
— Sim eu acho… — Respondi, sem entender a pergunta.
— Sei lá, se você quiser podemos fazer algo no seu apartamento, parece que só ficamos por aqui…
Meu coração deu um pulo, olhei para ele por cima do ombro, que mexia no celular distraidamente.
— Hum… — Murmurei cauteloso. — Podemos sim, claro.
Gris levantou seus olhos azuis para mim, que me fitavam com atenção, ele se aproximou de mim, o seu cheiro de melão parecia mais intenso hoje, desviou o olhar para a pia, pegou o isqueiro e começou a se afastar.
— Combinado então.
O que isso significa? Será que significa alguma coisa?
Como sempre, não fazia ideia do que se passava na cabeça dele, me surpreendendo com poucas palavras, indo contra a ideia formada que já tinha dele. Sempre que chegava a conclusão de que faria tal coisa de tal forma, Gris dava um mortal para trás, me deixando de queixo caído.
Me limitei a fazer a pipoca, deixar esse pensamento de lado por enquanto, porque se pensasse demais poderia queimar a pipoca. Aos poucos sentia não precisar tomar cuidado, mas tinha limites silenciosamente estabelecidos.
Ou será que esses limites estão mesmo estabelecidos?
A pipoca começou a estourar, fazendo meus devaneios evaporarem. Procurei um recipiente, coloquei na pia, quando a pipoca terminou de estourar a despejei na tigela, colocando tempero e deixando a panela na pia.
Peguei a tigela e fui para a sala, mas Gris não estava mais sentado no sofá, estava apoiado na janela fumando um cigarro, deixei a pipoca na mesa de centro e me aproximei.
— Posso? — Perguntei apontando para o cigarro.
Ele me olhou surpreso, mas não disse nada, me entregou o cigarro e o isqueiro. Acendi, comecei a tragar, observando o céu ao seu lado, as estrelas estavam lindas ao redor da lua cheia.
Não pude deixar de lembrar da minha mãe, imediatamente senti uma melancolia me preencher.
— Não sabia que fumava.
— Pois é, só fumo quando alguém está fumando por perto. — Respondi, dando de ombros. — Comecei a fumar com 17 anos, mais ou menos quando meu tio me contratou como ajudante de cozinha, isso até eu tirar a carteira e comprar minha moto, aí fui promovido a motoboy.
— E como foi a experiência?
— Foi muito engraçado, quase coloquei meus pulmões para fora, enquanto meu tio riu da minha cara.
Gris sorriu, fazendo o cigarro subir nos lábios.
— Finalmente um parceiro para o câncer de pulmão. — Comentou sarcástico. — Era muito solitário ser o único fumante.
— Se depender de mim, estarei sempre do seu lado. — Brinquei.
Mesmo soando como piada, tinha um fundo de verdade.
— Isso me deixa feliz… — Gris murmura de forma misteriosa.
As estrelas perderam meu interesse, percebi que observar Gris fumando de forma pensativa era muito mais interessante. Sem perceber, levei minha mão até sua bochecha e passei a ponta dos dedos. Ele estremeceu ao meu toque, mas não se afastou, seus olhos azuis foram até meu rosto com uma leve interrogação, percebi o que estava fazendo e afastei a mão.
— Desculpa… — Murmurei, sentindo meu rosto pegar fogo. — Sua… Han, o negócio de cravos no seu rosto…
Graças a Deus não tem luz, se não ele veria o quanto meu rosto tá vermelho.
Ele não respondeu, seus olhos ainda em mim, mas não levantei o olhar, estava envergonhado demais. Ficamos em silêncio por alguns segundos, até sua voz preencher o ambiente iluminado apenas pela luz da lua.
— Pode continuar. — Soava inexpressivo. — Tem… uma textura estranha mesmo.
Levantei o olhar para ele, que olhava para o céu, não parecia constrangido ou incomodado, parecia… Carente. Respirei fundo, novamente levantei minha mão até seu rosto, passando a ponta dos dedos pela sua bochecha, ele fechou os olhos, levando seus dedos até o cigarro pendurado em sua boca, o segurando no filtro. Deu uma forte tragada, fazendo a ponta acender, afastou os lábios e a fumaça flutuava pela boca entreaberta, fazendo um choque percorrer pelo corpo, era uma visão tentadora, me fazia querer beijá-lo.
Mas não o fiz, sentia que já estava ultrapassando um limite, era privilegiado por ele não se afastar com meu toque, mostrava que queria, que estava confortável e isso me dava esperança de que, em algum momento, eu iria mais além.
Não hoje, não agora, mas logo.
Ele abriu os olhos, apagou o cigarro num pires no batente da janela e pigarreou.
— Vou… Tirar essa coisa. — Disse andando até o corredor as escuras, se afastando do meu toque.
Ouvi algo bater e Gris soltar um palavrão, comecei a rir, com o brilho do computador iluminando o ambiente fui capaz de ver os olhos azuis de Gris se voltarem para mim com um brilho irritado.
— Cala a boca.
— Não disse nada… — Apaguei meu cigarro.
Ele revirou os olhos, continuou seu caminho para o banheiro, enquanto eu ia até o sofá, o esperando com a tela do computador mostrando o episódio pausado do seriado.
Gris voltou do banheiro, sem o produto no rosto e se sentou do meu lado.
— Vamos… Assistir o seriado? — Perguntou sem olhar para mim, parecendo envergonhado.
Me ajeitei no sofá e sorri para ele.
— Vamos.
Gezora saiu de seu esconderijo, pulou no meu colo e se acomodou, Gris se ajeitou do meu lado, com seu ombro quase tocando o meu, seu rosto levemente recostado no encosto do sofá, queria que deitasse em mim, mas parecia querer manter sua distância. A luz voltou depois de dois episódios e sinceramente não me incomodaria se tivesse demorado mais para voltar.