— Senhoras e senhores, eu peguei o número dele! — Falei quando cheguei na casa do meu tio, que me olhou surpreso.
— Olha só, finalmente! — Tio Franco aplaudiu meu feito.
Me curvo para frente como se estivesse num palco.
— Obrigado, agradeço ao meu tio, que sempre me apoiou neste feito. — Digo me erguendo novamente.
Buzz vem me cumprimentar, pulando em mim e quase me derrubando.
— Opa, e aí garotão! — O cumprimentei, fazendo carinho entre as orelhas dele. — Já volto.
Fui até meu antigo quarto, me deitei na cama de solteiro e dei um suspiro. Estava feliz, senti que dei mais passos nos últimos dias do que nos últimos meses, peguei meu celular e observei a mensagem que Gris me mandou para salvar seu número.
Gris: Oi, sou eu, o vizinho fumante com um gato gordo, me avise quando chegar.
Uma risada escapou dos meus lábios.
Eu: Cheguei.
Gris: Td bm? Naum foi atropelado nem nada?
Eu: Na vdd fui.
Gris: Merecido então.
Eu: ( ͡ಠ ₃ ͡ಠ)
Gris: Kkkkkkk
Gris: Com tá seu tio e o Buzz?
Olhei para a porta e vi Buzz me olhando, dei algumas batidinhas na cama o chamando, ele veio, pulou e deitou do meu lado, aconchegando o focinho no meu peito. Tirei uma selfie, onde Buzz olhou para a câmera de boca aberta com a língua para fora.
Eu: Meu tio tá legal, Buzz quer te dar um oi.
Eu: (foto)
Eu: Ele tem olheiras que nem vc!
Gris: (っ ͡ಥ ⏥ ͡ಥ)っ vai se fuder!
— Nilo. — Levanto os olhos para o meu tio, que está apoiado no batente da porta. — Te chamei três vezes, tá fazendo o quê?
— Nada, o que foi? — Pergunto constrangido, deixo meu celular de lado e o encaro.
Tio Franco ergue uma sobrancelha e um sorriso de canto surge em seu rosto.
— Jantar, depois você volta a ficar conversando com o Gris. — Diz e se afasta.
Recolho os lábios e sinto meu rosto esquentar, Buzz me olha como se também soubesse o motivo do calor no meu rosto.
É tão óbvio assim?
*
Acabei não combinando de chamar Gris para o meu apartamento, ele estava estressado demais com o vídeo que fizeram dele na cafeteria levando café na cara e não parecia muito animado para fazer alguma coisa. Mesmo quando ele disse estar tudo bem, que já tinha feito o que era para fazer, dava para ver que estava muito desconfortável com tantos olhos nele, suas olheiras eram mais profundas que o normal, tinha a sensação de estar desarmado. Tanto eu quanto Nando ficamos sem acreditar em como as coisas escalaram tão rápido.
— Como pode ter tantos comentários negativos? — Nando perguntou olhando para seu celular incrédulo. — Não pode ter tanta gente assim do lado do Pablo!
— Você estuda com ele, o cara não é popular? — Pergunto.
— Ah, pera-lá! — Meu amigo reclama, ofendido. — Nossas especialidades são diferentes e temos grupos de amigos diferentes. — Um careta enojada domina seu rosto. — Sem falar que ele é daquele tipo que se reúne com um grupo e adora dar um tapinha…
Nando era bem intolerante quando se tratava de drogas, seu irmão se meteu em muita m***a por conta disso.
— Sem falar que esse vídeo tá bem estranho, parece até que foi planejado. — Nando comenta.
Ergo as sobrancelhas, confuso.
— Como assim?
— Olha. — Ele aponta para o vídeo. — Começa quando Pablo pede café gelado pra j**k e vai rodando, só acaba quando Pablo manda o Cláudio calar a boca. — Nando se virou para mim. — Eu soube da garota que o Pablo tava saindo, dispensou ele nesse mesmo dia, ainda na cafeteria. — Nando me olha de forma questionadora. — Então… Por que não tem essa parte filmada?
Pisco os olhos fazendo a ligação em minha mente.
Eu nem havia notado.
— É por isso que você tá fazendo medicina, seu puto inteligente! — Falo, dando um t**a leve no ombro dele.
Nando leva a mão ao rosto e aperta os olhos.
— O problema é provar isso… — Murmurou pensativo. — Acho que o Pablo vai sair pra beber hoje com o pessoal da turma, dizem que Pablo fica bem falante bêbado.
— Você tá pensando no que tô pensando? — Pergunto com um sorriso malicioso.
Nando retribuiu com um sorriso cúmplice.
— Com certeza.
*
Não foi um super plano elaborado, mas deu certo. Apenas fomos até o bar onde Pablo estava, o que não foi difícil já que o cara posta a vida inteira no i********:, sentei numa mesa perto enquanto Nando sentou com eles, começou com algumas perguntas inocentes, depois Pablo começou a se abrir sobre seu relacionamento com a j**k. Logo os outros começaram a falar sobre o assunto, não demorou muito e tinha em vídeo sua confissão. Postei quase imediatamente no fórum por uma conta anônima e deixei Pablo queimar na fogueira…
*
Assim que acordei no dia seguinte, vi todos os comentários de ódio contra Pablo e senti a necessidade de ver Gris, fazia dias que ele estava incomodado com o assunto, agora que finalmente acabou podíamos continuar onde havíamos parado. Enquanto me arrumava imaginava como ele ficaria feliz quando soubesse, não perderia tempo e convidaria ele para o meu apartamento para comemorar, ainda tinha aquele convite para conhecer o Buzz… Muitos planos!
Corri para a cafeteria com o telefone na mão, quando entrei vi Gris e foquei apenas nele. Ele ainda não viu o fórum naquele dia, quando falei que tinha um vídeo do Pablo no site ele logo pegou o celular e assistiu ao vídeo, quando terminou esperei que ficasse aliviado, feliz, soltasse fogos, qualquer coisa, até mesmo algum sinal de surpresa ou alívio, mas não.
Gris ficou preocupado com a garota de cabelo curto do seu lado, que nem tinha notado que estava ali.
Eu só a notei quando colocou as mãos nos ombros dela e a levou para dentro, fiquei olhando sem entender sua atitude.
— Coitada da j**k… — Vane murmurou do meu lado.
Olho para ela ainda mais confuso.
— Por que você tá preocupada com ela? — Percebo que minha voz está irritada. — Ela nem tá aqui.
Vanessa me lança um olhar incrédulo.
— Ela acabou de sair daqui chorando, você é cego? — Roberta pergunta do lado dela.
Franzo o cenho.
— Ué, onde? — Pergunto olhando ao redor.
— Ah, você também não a reconheceu de cabelo curto. — Vanessa diz colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha nervosamente.
Pisco os olhos surpreso.
— Aquela garota é a j**k?
— É, nossa, nem imagino o que ela tá passando… — Vanessa suspira. — Vai lá ver se ela tá bem?
De todas as pessoas que você deveria estar preocupada agora, deveria ser o Gris.
Vanessa estava preocupada com j**k, mesmo depois das coisas que aquela insuportável fez com ela. Nunca diria em voz alta, mas isso mostra como Vane é boazinha demais às vezes.
— Ok. — Digo sem muita vontade.
Uma mulher de meia-idade aparece atrás do caixa.
— Onde tá o Gris? — Pergunto.
— Ah, você é amigo dele? — Ela aponta para os fundos, atrás dela. — Ele e a Jackeline estão lá nos fundos, na sala de descanso.
— Obrigado.
Dou a volta no balcão, passo rapidamente pela cozinha, tem um corredor com duas portas uma de frente para a outra. Vejo a placa “Sala de descanso”, ergo a mão para bater na porta, mas a voz de Gris me paralisa.
— … Primeiro batia depois beijava o lugar que bateu… Nunca encostou um dedo na minha irmã, então achei que o problema fosse eu. — A voz dele era carregada de dor. — Tem pessoas que não sabem amar… Diria que não sei ser amado. — Ouço sua risada triste.
Sinto meu coração congelar.
Gris não falou muito da sua infância, sabia que tinha uma irmã, uma relação complicada com os pais e foi apaixonado pelos “Power Rangers”, o conhecia há três meses, mas aqui estava ele, falando do seu passado com alguém que m*l conhece.
O fato dele abrir essa porta para ela, sendo empático e gentil, me fazia sentir raiva, pensar como isso era injusto, queria que se abrisse para mim, mas foi só essa garota chorar para ele contar a história da sua vida?
Imediatamente me senti egoísta com esse pensamento, devia entender, apesar de ser a j**k, apesar do que ela fez, estava passando por uma situação que não entendia… Mas Gris entendia.
Cazzo, o que eu tô sentindo, isso é…
— Tirando minha irmã e outra pessoa, você é a única que sabe… — Gris diz com a voz falhada — Então… Vamos dizer que esse é um segredo nosso.
A sala fica em silêncio por um momento, até a voz de j**k surgir.
— Vou guardar seu segredo.
Recolho os lábios com irritação.
… Ciúme.
— Quer ir pra casa? — Gris pergunta.
Respiro fundo, aproveito a chance e ergo a mão novamente.
— Não, me sinto melhor já. — Algo na voz de j**k me impede de bater na porta. — Tá muito r**m?
— Parece um panda. — Gris brinca.
— Para de rir, seu bosta… — Ela murmurou irritada.
Ouço risadas, de repente um silêncio, abri a porta devagar e olhei pela fresta.
Vejo Gris de lado, erguendo a mão com um guardanapo até o rosto manchado de rímel da j**k.
— Posso? — Pergunta, delicado demais.
Ela o encara, confirma com a cabeça sem tirar os olhos dele, noto o rosto de Gris ficar corado, a olhando com atenção. Novamente raiva, irritação, estou com ciúmes, é exatamente isso que estou sentindo, quando percebo, sinto vergonha.
Eu sou muito egoísta.
— Bem melhor agora. — Gris diz por fim. — Se quiser ficar aqui mais um pouco não tem problema. — Ele se levanta.
Rapidamente fecho a porta e me afasto, mas bati as costas na porta atrás de mim, fazendo um barulho alto, saio em passos rápidos e volto para o pessoal sentado perto do balcão.
— Eles estão bem? — A mulher de meia-idade pergunta.
— Ah… Não achei eles. — Respondo um pouco sem ar.
— Nilo? — Vane me chama. — Você… Tá bem?
— Aham… — Murmurei sem muito esforço.
Dou a volta no balcão, sento do lado da Vanessa, ela e Roberta me observam com curiosidade, apenas ignoro seus olhares. Tem um cara sentado do lado da Roberta, ele se ocupa a comer.
Pouco tempo depois, Gris retorna e fala com a senhora no caixa, quando ela volta para os fundos, Vanessa pergunta para ele sobre j**k, que responde de forma evasiva. Então olha para mim, faz um gesto com o queixo de forma questionadora, apenas dou de ombros e lhe ofereço meu melhor sorriso.
Fico pensando sobre isso, sobre meus sentimentos com relação à Gris, como consegui ignorar completamente como as coisas que Pablo diz afetariam j**k, ela nem passou pela minha cabeça quando filmei e postei o vídeo.
Meu foco estava apenas no Cláudio Gris.