Capítulo 18: Foco.

1875 Words
— Senhoras e senhores, eu peguei o número dele! — Falei quando cheguei na casa do meu tio, que me olhou surpreso. — Olha só, finalmente! — Tio Franco aplaudiu meu feito. Me curvo para frente como se estivesse num palco. — Obrigado, agradeço ao meu tio, que sempre me apoiou neste feito. — Digo me erguendo novamente. Buzz vem me cumprimentar, pulando em mim e quase me derrubando. — Opa, e aí garotão! — O cumprimentei, fazendo carinho entre as orelhas dele. — Já volto. Fui até meu antigo quarto, me deitei na cama de solteiro e dei um suspiro. Estava feliz, senti que dei mais passos nos últimos dias do que nos últimos meses, peguei meu celular e observei a mensagem que Gris me mandou para salvar seu número. Gris: Oi, sou eu, o vizinho fumante com um gato gordo, me avise quando chegar. Uma risada escapou dos meus lábios. Eu: Cheguei. Gris: Td bm? Naum foi atropelado nem nada? Eu: Na vdd fui. Gris: Merecido então. Eu: ( ͡ಠ ₃ ͡ಠ) Gris: Kkkkkkk Gris: Com tá seu tio e o Buzz? Olhei para a porta e vi Buzz me olhando, dei algumas batidinhas na cama o chamando, ele veio, pulou e deitou do meu lado, aconchegando o focinho no meu peito. Tirei uma selfie, onde Buzz olhou para a câmera de boca aberta com a língua para fora. Eu: Meu tio tá legal, Buzz quer te dar um oi. Eu: (foto) Eu: Ele tem olheiras que nem vc! Gris: (っ ͡ಥ ⏥ ͡ಥ)っ vai se fuder! — Nilo. — Levanto os olhos para o meu tio, que está apoiado no batente da porta. — Te chamei três vezes, tá fazendo o quê? — Nada, o que foi? — Pergunto constrangido, deixo meu celular de lado e o encaro. Tio Franco ergue uma sobrancelha e um sorriso de canto surge em seu rosto. — Jantar, depois você volta a ficar conversando com o Gris. — Diz e se afasta. Recolho os lábios e sinto meu rosto esquentar, Buzz me olha como se também soubesse o motivo do calor no meu rosto. É tão óbvio assim? * Acabei não combinando de chamar Gris para o meu apartamento, ele estava estressado demais com o vídeo que fizeram dele na cafeteria levando café na cara e não parecia muito animado para fazer alguma coisa. Mesmo quando ele disse estar tudo bem, que já tinha feito o que era para fazer, dava para ver que estava muito desconfortável com tantos olhos nele, suas olheiras eram mais profundas que o normal, tinha a sensação de estar desarmado. Tanto eu quanto Nando ficamos sem acreditar em como as coisas escalaram tão rápido. — Como pode ter tantos comentários negativos? — Nando perguntou olhando para seu celular incrédulo. — Não pode ter tanta gente assim do lado do Pablo! — Você estuda com ele, o cara não é popular? — Pergunto. — Ah, pera-lá! — Meu amigo reclama, ofendido. — Nossas especialidades são diferentes e temos grupos de amigos diferentes. — Um careta enojada domina seu rosto. — Sem falar que ele é daquele tipo que se reúne com um grupo e adora dar um tapinha… Nando era bem intolerante quando se tratava de drogas, seu irmão se meteu em muita m***a por conta disso. — Sem falar que esse vídeo tá bem estranho, parece até que foi planejado. — Nando comenta. Ergo as sobrancelhas, confuso. — Como assim? — Olha. — Ele aponta para o vídeo. — Começa quando Pablo pede café gelado pra j**k e vai rodando, só acaba quando Pablo manda o Cláudio calar a boca. — Nando se virou para mim. — Eu soube da garota que o Pablo tava saindo, dispensou ele nesse mesmo dia, ainda na cafeteria. — Nando me olha de forma questionadora. — Então… Por que não tem essa parte filmada? Pisco os olhos fazendo a ligação em minha mente. Eu nem havia notado. — É por isso que você tá fazendo medicina, seu puto inteligente! — Falo, dando um t**a leve no ombro dele. Nando leva a mão ao rosto e aperta os olhos. — O problema é provar isso… — Murmurou pensativo. — Acho que o Pablo vai sair pra beber hoje com o pessoal da turma, dizem que Pablo fica bem falante bêbado. — Você tá pensando no que tô pensando? — Pergunto com um sorriso malicioso. Nando retribuiu com um sorriso cúmplice. — Com certeza. * Não foi um super plano elaborado, mas deu certo. Apenas fomos até o bar onde Pablo estava, o que não foi difícil já que o cara posta a vida inteira no i********:, sentei numa mesa perto enquanto Nando sentou com eles, começou com algumas perguntas inocentes, depois Pablo começou a se abrir sobre seu relacionamento com a j**k. Logo os outros começaram a falar sobre o assunto, não demorou muito e tinha em vídeo sua confissão. Postei quase imediatamente no fórum por uma conta anônima e deixei Pablo queimar na fogueira… * Assim que acordei no dia seguinte, vi todos os comentários de ódio contra Pablo e senti a necessidade de ver Gris, fazia dias que ele estava incomodado com o assunto, agora que finalmente acabou podíamos continuar onde havíamos parado. Enquanto me arrumava imaginava como ele ficaria feliz quando soubesse, não perderia tempo e convidaria ele para o meu apartamento para comemorar, ainda tinha aquele convite para conhecer o Buzz… Muitos planos! Corri para a cafeteria com o telefone na mão, quando entrei vi Gris e foquei apenas nele. Ele ainda não viu o fórum naquele dia, quando falei que tinha um vídeo do Pablo no site ele logo pegou o celular e assistiu ao vídeo, quando terminou esperei que ficasse aliviado, feliz, soltasse fogos, qualquer coisa, até mesmo algum sinal de surpresa ou alívio, mas não. Gris ficou preocupado com a garota de cabelo curto do seu lado, que nem tinha notado que estava ali. Eu só a notei quando colocou as mãos nos ombros dela e a levou para dentro, fiquei olhando sem entender sua atitude. — Coitada da j**k… — Vane murmurou do meu lado. Olho para ela ainda mais confuso. — Por que você tá preocupada com ela? — Percebo que minha voz está irritada. — Ela nem tá aqui. Vanessa me lança um olhar incrédulo. — Ela acabou de sair daqui chorando, você é cego? — Roberta pergunta do lado dela. Franzo o cenho. — Ué, onde? — Pergunto olhando ao redor. — Ah, você também não a reconheceu de cabelo curto. — Vanessa diz colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha nervosamente. Pisco os olhos surpreso. — Aquela garota é a j**k? — É, nossa, nem imagino o que ela tá passando… — Vanessa suspira. — Vai lá ver se ela tá bem? De todas as pessoas que você deveria estar preocupada agora, deveria ser o Gris. Vanessa estava preocupada com j**k, mesmo depois das coisas que aquela insuportável fez com ela. Nunca diria em voz alta, mas isso mostra como Vane é boazinha demais às vezes. — Ok. — Digo sem muita vontade. Uma mulher de meia-idade aparece atrás do caixa. — Onde tá o Gris? — Pergunto. — Ah, você é amigo dele? — Ela aponta para os fundos, atrás dela. — Ele e a Jackeline estão lá nos fundos, na sala de descanso. — Obrigado. Dou a volta no balcão, passo rapidamente pela cozinha, tem um corredor com duas portas uma de frente para a outra. Vejo a placa “Sala de descanso”, ergo a mão para bater na porta, mas a voz de Gris me paralisa. — … Primeiro batia depois beijava o lugar que bateu… Nunca encostou um dedo na minha irmã, então achei que o problema fosse eu. — A voz dele era carregada de dor. — Tem pessoas que não sabem amar… Diria que não sei ser amado. — Ouço sua risada triste. Sinto meu coração congelar. Gris não falou muito da sua infância, sabia que tinha uma irmã, uma relação complicada com os pais e foi apaixonado pelos “Power Rangers”, o conhecia há três meses, mas aqui estava ele, falando do seu passado com alguém que m*l conhece. O fato dele abrir essa porta para ela, sendo empático e gentil, me fazia sentir raiva, pensar como isso era injusto, queria que se abrisse para mim, mas foi só essa garota chorar para ele contar a história da sua vida? Imediatamente me senti egoísta com esse pensamento, devia entender, apesar de ser a j**k, apesar do que ela fez, estava passando por uma situação que não entendia… Mas Gris entendia. Cazzo, o que eu tô sentindo, isso é… — Tirando minha irmã e outra pessoa, você é a única que sabe… — Gris diz com a voz falhada — Então… Vamos dizer que esse é um segredo nosso. A sala fica em silêncio por um momento, até a voz de j**k surgir. — Vou guardar seu segredo. Recolho os lábios com irritação. … Ciúme. — Quer ir pra casa? — Gris pergunta. Respiro fundo, aproveito a chance e ergo a mão novamente. — Não, me sinto melhor já. — Algo na voz de j**k me impede de bater na porta. — Tá muito r**m? — Parece um panda. — Gris brinca. — Para de rir, seu bosta… — Ela murmurou irritada. Ouço risadas, de repente um silêncio, abri a porta devagar e olhei pela fresta. Vejo Gris de lado, erguendo a mão com um guardanapo até o rosto manchado de rímel da j**k. — Posso? — Pergunta, delicado demais. Ela o encara, confirma com a cabeça sem tirar os olhos dele, noto o rosto de Gris ficar corado, a olhando com atenção. Novamente raiva, irritação, estou com ciúmes, é exatamente isso que estou sentindo, quando percebo, sinto vergonha. Eu sou muito egoísta. — Bem melhor agora. — Gris diz por fim. — Se quiser ficar aqui mais um pouco não tem problema. — Ele se levanta. Rapidamente fecho a porta e me afasto, mas bati as costas na porta atrás de mim, fazendo um barulho alto, saio em passos rápidos e volto para o pessoal sentado perto do balcão. — Eles estão bem? — A mulher de meia-idade pergunta. — Ah… Não achei eles. — Respondo um pouco sem ar. — Nilo? — Vane me chama. — Você… Tá bem? — Aham… — Murmurei sem muito esforço. Dou a volta no balcão, sento do lado da Vanessa, ela e Roberta me observam com curiosidade, apenas ignoro seus olhares. Tem um cara sentado do lado da Roberta, ele se ocupa a comer. Pouco tempo depois, Gris retorna e fala com a senhora no caixa, quando ela volta para os fundos, Vanessa pergunta para ele sobre j**k, que responde de forma evasiva. Então olha para mim, faz um gesto com o queixo de forma questionadora, apenas dou de ombros e lhe ofereço meu melhor sorriso. Fico pensando sobre isso, sobre meus sentimentos com relação à Gris, como consegui ignorar completamente como as coisas que Pablo diz afetariam j**k, ela nem passou pela minha cabeça quando filmei e postei o vídeo. Meu foco estava apenas no Cláudio Gris.
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