Capítulo 19: Raiva.

2465 Words
Olhei no espelho do salão, a cor do cabelo era para ser rosa, mas acabou ficando num tom pêssego. Monique pediu um milhão de desculpas, até ofereceu devolver o dinheiro, mas falei que estava tudo bem, acho que essa era a cor mais próxima do natural que já tinha pintado meu cabelo. Mas o que fez valer a pena foi a reação do Gris. — Caramba! — Ele disse embasbacado ao me ver. — Seu cabelo… — Ficou estranho? — Ficou incrível! É meu favorito até agora… — Respondeu com um sorriso enorme. — Mas não precisa de mim pra dizer isso. — Gris balança a mão como se sua opinião não importasse. — Enfim, entra. Adorei o jeito que me elogiou. Como sempre, Gezora me cumprimentou miando, me abaixei, fiz um carinho nele e depois me direcionei a cozinha para começar a fazer algo para comermos. Gris nem tentava mais me impedir oferecendo pedir comida ou até dizendo que tinha comida pronta na geladeira, já sabia que, quando eu fosse ao seu apartamento, eu mandava na cozinha. — Então? — Pergunto pegando alguns ingredientes da geladeira. — Algum pedido especial? — Miojo. — Me provoca. Olho para ele irritado. — Enquanto eu estiver aqui, você nunca mais comerá miojo! — Digo apontando uma faca para ele. — Perdeu seu direito de escolher o que vamos comer. Gris ri, uma risada gostosa. — Qualquer coisa que você faça eu vou gosto, então por mim tudo bem… — Diz relaxado, me deixando feliz. * — Você quer conhecer meu cachorro amanhã? — Pergunto para Gris enquanto ele lavava a louça que fiz. Ele para e se vira para mim com um prato ensaboado na mão e uma expressão de dúvida. — Ah, é mesmo, você disse que iria me apresentá-lo… — Murmura pensativo. — Pode ser. — Responde descontraído. Gris termina de lavar a louça, seca as mãos e dá um suspiro. — Vou me arrumar. — Olha para mim e sorri. — Vou sofrer naquela festa. Me levanto e vou à porta. — Ok, já volto. — Abro a porta e paro. — Hum… — Olho por cima do ombro. — Que roupa eu uso? Gris leva a mão ao rosto, coçando a bochecha, reflexivo. — Vou com roupa social, disseram para ir arrumado… — Diz batucando os dedos no lábio inferior. — Usa uma camisa social e aquela calça de couro, fica bem em você. Ergo as sobrancelhas com divertimento. — Ah, é? Por que fica bem em mim? — Pergunto com um sorriso de canto. Gris revira os olhos. — Preciso mesmo falar? — Pergunta, impaciente. — Porque você malha que nem um desgraçado! — Gris começa a rir e a gesticular com as mãos. — Parece até que vai lutar contra algum youtuber… — Desculpa, não consigo ser bonito naturalmente como você. Gris arregala seus olhos azuis, desvia o olhar e leva a mão ao rosto novamente, dessa vez tampando seu constrangimento. — Hum… — Murmura por trás da palma, depois pigarreia e balança a mão sem olhar para mim. — Enfim, vai logo se arrumar! Dou uma risada, fecho a porta e vou até meu apartamento no fim do corredor. Ultimamente ando percebendo os trejeitos de Gris. Consigo diferenciar quando fala sério e quando está sendo sarcástico, Gris diz “ótimo” quando algo o irrita, cora quando o elogio de repente e nunca acredita nos meus elogios, o que é frustrante. Gris sempre ajeita os óculos com o dedo do meio de forma debochada, quando usa lentes de contato às vezes esquece que não está usando óculos e leva a mão ao rosto para ajustar a armação inexistente no seu rosto, quando percebe que não está usando óculos fica levemente corado e olha ao redor, como se procurando se alguém notou o que acabou de fazer, ao notar que vi o que fez, semicerra os olhos, irritado, como se comunicando telepaticamente para eu não fazer nenhum comentário, sempre sorrio em resposta. Outras vezes o encaro por alguns momentos, notando seus detalhes, suas feições, então quando nossos olhos se encontram, seu rosto fica bem vermelho e esconde o rosto com a mão, desviando o olhar. Adoro quando faz isso… Depois do banho, abro meu armário e pego uma camisa social roxa, a calça de couro que “fica bem em mim” e procuro meus sapatos sociais. Acabei não achando, então decidi ir com minhas botas de sempre. Rapidamente passo perfume, me visto e volto para o apartamento do Gris. — Tô pronto! — Grito, entrando e fechando a porta. — Tô terminando! — Gris grita de volta em outro cômodo. Bato na porta do seu quarto e espero um pouco. — Entra. — Ele permite. Abro a porta, me deparo com Gris vestindo uma camisa social branca desabotoada. Vejo as linhas de definição no meio do seu peitoral, parece ter uma certa dificuldade em abotoar até a gola. — Odeio… Esses… — Murmura distraído, com os botões escorregando dos seus dedos. Vou até ele, levo minhas mãos até os botões e começo a abotoar sua camisa. — Obrigado. — Agradece sem jeito. Sinto uma certa satisfação por minha proximidade causar esse efeito nele, decido aproximar mais, fingindo que não estou vendo os botões muito bem. Consigo ver, com minha visão periférica, seu rosto ficar mais corado, noto ele recolher os lábios, levanto meu rosto e seus olhos estão em mim. Azul é minha nova cor favorita. Sorrio, termino de abotoar e me afasto. — Prontinho. Gris sorri em resposta, vai até o armário e pega um suéter cinza. — Faz frio lá… — Murmura, como se justificando sua escolha. Enquanto ele veste o suéter, observo o quarto dele. É um quarto pequeno, tem espaço para uma cama de casal, que tem um lençol preto e um cobertor dobrado na ponta. Um armário com duas portas, uma delas com espelho, cortinas blecaute, um mural com várias fotos do Gris com sua irmã, sobrinha, amigos e seu gato… Tem uma foto minha com o Buzz, a primeira foto que mandei para ele quando me passou seu número, isso aqueceu meu coração. Não tinha nenhuma foto dele com seus pais. O quarto estava pintado com uma parede preta e as outras cinzas, dando um ar ainda menor para o quarto já pequeno, mas Gris parecia gostar assim. Um criado mudo ao lado da cama, que tinha uma garrafa de água, um pote de comprimidos escrito “vitaminas”, um pacote de cigarro e seu isqueiro. — Vai levar? — Pergunto, apontando para o isqueiro e o cigarro. Gris, finalmente pronto, olha para onde aponto, seu rosto não demonstra emoção, mas seus olhos revelam uma tempestade de sentimentos. Respira fundo, vai até seu isqueiro, o pega e enfia no bolso, mas não pega seu cigarro. * Observei Gris ser levado pela garota loira chamada Sofia, deixando eu e os outros para trás. Fiquei irritado, Gris tinha me convidado, mesmo que tenha sido um convite de última hora, para fazer companhia a ele nessa festa i****a que nem queria vir, agora quem estava sozinho era eu. Na verdade, lembrando agora, o convite foi mais uma sugestão. Estávamos no café, j**k comentou que Vanessa a convidou para a festa de reencontro e estava animada para ir, quando foi para os fundos, Gris jogou a cabeça para trás de forma dramática. — Eu nem quero ir mais! — Gris bufou numa voz sofrida. — Mas eu já confirmei, se eu não for, Vane me arrastará pelo braço só para eu estar lá… Ele suspirou e deu de ombros. — Você quer ir comigo? — Perguntou se virando para mim. — Vai ser depois de amanhã… — Gris para de falar e recolhe os lábios. — Pensando bem, deixa… Você deve ter coisa melhor pra… — Eu vou. — Respondi sem hesitar com um sorriso. Gris ergue as sobrancelhas. — Você não precisa… — Eu vou. — Repito minha resposta. — Tem certeza? — Pergunta, se apoiando no balcão. — Tenho. — Absoluta? — Gris se inclina para mim. — Sim. — Ignorei o efeito que sua proximidade me causava. — Mesmo? — Eu vou e pronto. — Respondo com firmeza. Agora estou aqui, vendo o Cláudio conversar com… — É o Felipe? — j**k pergunta do meu lado. Vanessa olha na direção de Cláudio confusa. — Ué… O que ele tá fazendo aqui? — Obviamente, flertando com o Cláu. — Responde Roberta, sem se abalar. — Mas não vai dar em nada, aquele cara não é o tipo dele. Minha atenção se volta completamente para esse detalhe. — Qual é o tipo dele? — Pergunto, curioso. Vanessa se virou para mim, parece me analisar. — Pessoas tímidas, tipo bem tímidas… Inteligentes. — Roberta diz pensativa. — Engraçadas também. — Ela dá de ombros e olha para Felipe. — Aquele cara com certeza não se encaixa nisso. Nem eu… — Ele parece um hétero top… — j**k comenta. — Não esperava que fosse gay… — Do que tão falando? — Mateus pergunta com um pratinho de comida na mão. — Nada. — Roberta diz dando de ombros. — Por que não pegou um pra mim? Roberta e Mateus entraram numa discussão sobre comida, percebo que Vanessa ainda me olha atentamente. — Tem algo na minha cara? — Pergunto debochadamente, passando a mão ao rosto. — Nilo… Você, por acaso, tá a fim do Cláudio? — Pergunta de volta com cautela. Arregalei os olhos, senti meu rosto queimar, como uma simples pergunta podia me deixar tão nervoso? — Por que a pergunta? — Pergunto de volta descaradamente, tentando parecer calmo. — Por nada… Antes que pudesse pensar em dizer algo, Tom se aproxima e chama Vanessa para dançar. j**k começa conversar com um cara que elogia bastante seu vestido, continuo no meu lugar e observo Gris de longe. Não sou um perito em linguagem corporal, mas parecia que eles estavam tendo uma ótima conversa. De repente Gris olha por cima do ombro, seus olhos encontraram os meus, ele ergue a mão, aponta para si e depois para a porta lateral, depois move os lábios, dizendo “volto já”. Não consigo disfarçar minha expressão surpresa. Mentira… Depois Gris se volta para Felipe, pega sua mão e sai pela porta. Estou em choque. Gris e Felipe? Por quê? Eu tô bem aqui! Por que não…? — Onde tá o Cláudio? — j**k me pergunta do meu lado. — Acabou de sair de mãos dadas com o Lipe. — Respondo, ainda incrédulo. Jack me olha tão confusa quanto eu. — Mas… — Ela olha ao redor, como se perdida. — A Roberta disse… — Sim disse. — E mesmo assim ele… — É. Noto decepção em seu rosto. — Poxa… — Murmura por fim e vai até a mesa de bufê. — Vou beber alguma coisa. Não consigo pensar, só sentir raiva e humilhação. Estou há meses tentando me aproximar, conhecer mais o Gris, desenrolar alguma coisa, dando indiretas, flertes, mostrar que gosto dele, até convidei ele para conhecer meu cachorro! Eu até o chamei para o meu apartamento hoje e ele respondeu, com todas as letras: — Se eu passar a noite no seu apartamento, não vamos dormir. Ele mudou de ideia? Por que ele mudou de ideia? Será que ele estava sendo sarcástico e não percebi? Minha mente tá uma bagunça agora… — Nilo? — Roberta me chama. — Você viu o Cláudio? Antes que pudesse responder, Roberta arregala os olhos para algo atrás de mim. — m***a… Gael tá aqui… — Murmurou tensa. Me virei na direção que olhava e um homem se destacava, estava rodeado de várias pessoas que conversavam animadamente com ele, o observando com calma, fiquei um pouco decepcionado. Era bonito, charmoso, mas não tinha nada de realmente especial, era um cara bem comum para ser sincero. Tem quase metade do meu tamanho, pele n***a, olhos castanhos claros, cabelo encaracolado e um sorriso enorme no rosto. Se vestia com um terno branco caro, dava para notar mesmo de longe, sem gravata, caia bem no corpo, olhei suas mãos e notei uma aliança de ouro enorme no dedo. — Cláudio, atende! — Roberta falou com urgência atrás de mim desesperada, me virei e a vi falando no telefone. — Atende! m***a! — Levantou o olhar na mesma direção de antes, guardou o celular e respirou fundo. Gael se aproximou com aquele sorriso enorme no rosto, algo nos seus olhos me dizia que não estava vindo com boas intenções. — Se não é Betty a f**a! — Cumprimenta animado, abraçando Roberta, parecendo ignorar o desconforto dela. — Você tá ótima! — Afastou com as mãos nos seus ombros. — Ainda a mesma pirigótica! — Espaço pessoal, Gael… — Roberta diz, erguendo uma sobrancelha. — Conhece? — Não, me apresenta ele depois. — Responde rindo, sua piada sem graça alguma e afastando as mãos. — Não precisa ser tão fria comigo. — Gael leva a mão ao peito, agindo como se estivesse muito magoado. — Sempre te tratei tão bem… — Nossa… Imagina tratando m*l… — Murmura cruzando os braços. — O que tu quer? Cabou o assunto com seus amiguinhos? Gael não demonstra qualquer afetação a hostilidade da Roberta, na verdade ele age como se fosse o esperado. — Ah, você e Cláu sempre foram mais interessantes que meus amigos… — Olha ao redor. — Aliás, cadê ele? — Não sei… — Roberta também, o procurando. — Ele tava conversando com… — Ela para de falar e olha surpresa para um canto. Olho na mesma direção e vejo Gris entrando pela porta da frente… De mãos dadas com Felipe. Franzo o cenho, sinto raiva borbulhar em mim, várias vozes começam a falar, ao mesmo tempo, na minha mente. Mas que p***a?! Que m***a é essa?! Nem. Fodendo. Como ele conseguiu fica com o Gris com tanta facilidade?! Eu tô quase parindo pra conseguir desenrolar com ele e em menos de cinco minutos o Lipe tá andando por aí de mãos dadas com o Gris?! Acho que nunca senti tanta raiva na vida quanto agora. — Mentira… — Roberta murmurou, ignorando Gael completamente. Gael percebe o olhar dela para algo atrás dele, então se vira e nota Gris, de mãos dadas com Lipe, se aproximando de nós. Vanessa e Tom olham para eles surpresos, j**k parece ressentida, Mateus observa tudo de boca cheia, sem entender nada. Gris está a poucos passos de Gael, ele não parece tenso, nem nervoso, na verdade tem um sorriso quase imperceptível no rosto. — Oi, Cláudio. — Gael diz com um leve sorriso. — Já faz um tempo… Gris não diz nada de início, parece cauteloso, sua expressão demonstra calma e indiferença. Espero que Gris nunca olhe assim pra mim…
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