Prólogo: Colisão.

1027 Words
Acordei com uma leve dor de cabeça e uma estranha sensação de conforto ao meu redor. Antes de abrir os olhos, os meus outros cinco sentidos acordaram primeiro. Senti lençóis macios contra minha pele, calor a minha volta, o cheiro de lavanda dominava o ambiente em que estava, suspirei, adoro lavanda… E então, senti o gosto de resquício de sono e álcool na minha boca, uma pergunta surgiu na minha mente: onde eu tô? Abri os olhos e tudo estava um pouco embaçado. Quando minha visão se acostumou, vi uma parede roxa com pôsteres de bandas de rock: Linkin Park, Foo Fighters, Capital Inicial… Aquela parede não é minha, e nem aqueles pôsteres… Olhei para cima e tinha um ventilador de teto girando, me dando leves calafrios, puxei o cobertor, percebi que também era roxo… Então sinto o calor que estava a minha volta se mover, ergui o cobertor vi braços bronzeados me abraçando. Franzi o cenho, tentei me lembrar de ontem a noite… Fui numa festa com a Roberta, era alguma coisa de unificação da faculdade, vários alunos de diversos cursos estavam reunidos num bar em frente a faculdade, todos bebiam cerveja como se fosse água, eu… Não me lembro de nada depois da minha décima cerveja. Segui o caminho dos braços a minha volta e me deparei com seu dono, fiquei imediatamente tenso. Ah, não… Corpo sarado, pele toda bronzeada, uma tatuagem de um Lírio no ombro, cabelo raspado tingido numa cor chamativa, rosa, cílios enormes e lábios cheios, mesmo de boca fechada, eu já sabia como era seu sorriso: simpático e sedutor. Seu rosto estava relaxado contra o travesseiro, sua boca entreaberta, senti um arrepio ao pensar que beijei aquela a boca, a boca do… Nilo Garcia, a p***a do Nilo Garcia! — Para de se mover… — Murmurou, grogue de sono. Ao ouvir sua voz senti um receio desagradável, deslizei da cama devagar e fiquei de pé, catei minhas roupas no chão, comecei a me vestir o mais rápido que pude, acho que nunca me vesti tão rápido em toda a minha vida. Meu celular estava caído com a tela para baixo, com a película trincada, ótimo, minha carteira com meu nome, “Cláudio”, impressa no couro — presente da minha irmã — estava num aquário vazio, graças a Deus, e meu isqueiro com desenho de ampulheta sumiu, ah, que ótimo! Frustrado, abri a porta do quarto, me virei uma última vez para cama, vendo Nilo dormir calmamente, suspirei aliviado por não o acordar e saí dali rapidamente, evitando ao máximo fazer barulho. Fora daquele apartamento, a sensação de que cometi um grande erro bêbado aumentou ainda mais ao ver que, não só dormi com o maior galinha da faculdade, como era, também, um dos meus vizinhos. Três portas de distância, meu apartamento estava bem ali me esperando. Mentira, eu sou vizinho desse cara?! Tive a sensação de que meu anjo da guarda, além de não estar fazendo um bom trabalho, ria às minhas custas. Me mudei para o prédio faz oito meses, e em oito meses nunca esbarrei com ele, espero que minha sorte se mantenha assim. Entrei no meu apartamento, tranquei a porta atrás de mim, fechei os olhos e respirei fundo com a nuca apoiada na porta. Tirando minha respiração, o único outro barulho no meu apartamento era do meu gato cinza, chamado Gezora, que miava desesperadamente para mim. — Bom dia pra você também, Gezora. — Falei, abrindo os olhos e me abaixando para fazer carinho nele. Não seria a primeira vez que durmo com um desconhecido, o problema era que o tal desconhecido da vez era, na verdade, muito conhecido. Nilo é famoso na faculdade por ser um completo b****a, frio e partir corações, tanto de homens quanto de mulheres. Cursando história, agora no quinto período, uma quantidade absurda de seguidores e fotos sem camisa no i********:, quantidade igualmente absurda de amigos na vida real, apesar da sua personalidade narcisista, era a definição do extrovertido popular de filmes adolescentes, exatamente aquilo que queria evitar a todo custo. Alguém como eu, terceiro período do curso de cinema, que tinha apenas seis fotos no i********: e apenas uma delas mostrava meu rosto, talvez três amigos na vida real e quase ninguém sabendo quem sou eu na faculdade — a maioria me conhecendo apenas como “o ex da Vane”, o que para mim é o auge da popularidade que eu já experimentei em toda a minha vida — não poderia suportar mais que isso. A ideia de chamar atenção me deixava nervoso e dormir com aquele cara, especificamente aquele cara, com a fama que ele tem, me colocaria no centro da fofoca daquela faculdade, isso definitivamente era a última coisa que queria… Na verdade, na lista de coisas que eu queria, essa situação nem na lista estava! Conseguia até imaginar as fofocas… Ai Meu Deus, você soube? Nilo Garcia pegou o Cláudio Gris! Quem? O ex da Vane! Nossa, como um cara tão sem graça como ele conseguiu esse feito? Macumba com certeza… Não duvido que um bando de ignorantes faria pouco de uma religião mesmo pagando de desconstruídos e mente-aberta, tudo isso apenas para fazer pouco de mim… Fui até o banheiro, lavei o rosto e me olhei no espelho. Uma expressão nervosa dominava meu rosto moreno, meus olhos azuis estragados pelas olheiras profundas, meu cabelo castanho escuro e ondulado estava amassado, mas como estava num corte curto, poderia facilmente se passar por um estilo de penteado, a academia parecia surtir efeito, mas continuava magro demais para a minha altura… Tirando meus olhos e o meu alargador, era um cara completamente sem graça, alguém totalmente esquecível. Esquecível… Respirei fundo. — Ele nem vai lembrar de mim quando acordar… — Murmurei, alívio surgia em meu reflexo. Não teria porque ele se lembrar de mim, somos totalmente diferentes, nem somos do mesmo curso! Nada a ver um com o outro, duvido até que ele saiba quem eu sou. Meu alívio aumentou ainda mais com esse pensamento. É só fingir que nada aconteceu… Claro que se fosse só isso não haveria história, não é mesmo?
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