Capítulo 6
Eu não estava acreditando que estou dentro de um ônibus barulhento, indo para meu primeiro retiro, sem um adulto da minha família por perto. É a primeira vez que isso acontece, e eu estou me sentindo super empolgada.
Logo eles começaram a cantar canções alegres junto com batuques em instrumentos improvisados, deixando o clima empolgante. É legal ver a alegria dessas pessoas, isso me contagia e eu me arrisco a pelo menos bater palmas já que não conheço a canção. Mas meus olhos teimam em seguir na direção do rapaz desconhecido que parece mais comedido e concentrado em uma conversa com outros rapazes sentados perto dele. Volta e meia ele olha ao redor e acha graça do alvoroço e sorri. Infelizmente eu não tenho uma visão privilegiada de onde eu estou, então eu só o vejo de relance.
‘Que drogaa!’
Depois de um tempo a euforia diminui, a cantoria cessa e as conversas e risadas prevalecem. As meninas próximas a nós engatam em uma conversa e eu tento prestar atenção.
Lizi: — Comprei um biquíni novo lindo para usar.
Evelyn: — Aí, nem me fale de biquíni, foi uma chatice ter que comprar esse estilo mais comportado, tipo shortinho, deve deixar uma marca horrível na bundaa.
— Eu achei que ficou lindo no meu corpo. Comprei aquele que ficou conhecido como biquíni da Bionda da novela. Eu respondi.
Evelyn: — Você fala isso porque tem um corpo estilo violão, ele evidencia sua cintura fina Sol. Mas não são todas nós que temos essa sorte, eu quase não tenho cintura, esse modelo acaba me desvalorizando ainda mais.
Ju: — Não exagera Érvelyn, você ficou ótimo nele.
Jéssica: — A pergunta que não quer calar é: vamos poder aproveitar bastante na praia ou a programação estabelecida vai tomar muito o nosso tempo?
— Meu irmão disse que teremos bastante tempo livre para nos divertir. Respondeu Raquel, irmã da Lizi.
A conversa continuou por um bom tempo já que o trânsito estava praticamente parado, mas cada um conversava mais com a pessoa em seu lado e foi quando Ju e eu conversavamos que eu vi quando um rapaz n***o, magro e sorridente se levantou e se aproximou de nós, parando no corredor do ônibus ao lado da Ju. Ele se abaixou ficando de cócoras, dividindo seu olhar entre nós duas com um sorriso galanteador até que diz:
— Oi Julia, você não vai apresentar a sua amiga? Não lembro de vê-la alguma vez na igreja com você e sua irmã. —O sorriso não saia dos seus lábios enquanto falava —E com certeza eu iria lembrar…
Eu como uma boa tímida que sou, apenas sorri um pouco sem graça em receber aquela atenção enquanto ele me olha como um predador olha a sua presa. Não estou acostumada a receber esse tipo de olhar, então fiquei um pouco assustada ao perceber que gostei do seu interesse em mim.
Saber que um garoto se interessa ao ponto de se aproximar desse jeito foi algo novo para mim. Já que até então isso só tinha acontecido com alguns garotos da minha sala de aula no colégio, o que tinha um significado diferente já que eu os conhecia.
Ele parece ser um pouco mais velho que eu, e como não faz parte do meu convívio me senti bem com essa demonstração de uma forma que não sei explicar ainda.
— Oi Fernando, essa é a Sol, ela é minha prima e mora em Niterói. É por isso que você não a conhecia ainda.
— Seja bem vinda entre nós. —Disse ele me analisando da cabeça aos pés mesmo eu estando sentada.
Mais uma vez me limitei a sorrir porque não fazia ideia do que falar, já ele, com seu sorriso estampado ele disse:
— Olha só, ela é tímida! Vou gostar mais ainda em te conquistar, gatinha…
Eu fiquei sem reação, nem consegui baixar meu rosto mesmo querendo muito escondê-lo em algum lugar. Ju olhou pra ele achando graça da sua ousadia e decretou:
— Saí daqui, Fernando. Fica longe dela. Não pode ver uma garota que fica em cima.
— Que isso Ju, eu sou da casa. Melhor ela ficar comigo do que com um desconhecido.
Ele logo levantou e saiu sorrindo, mas o problema foi que essa conversa chamou atenção das pessoas em volta e todos começaram a zoar o Fernando que já tinha iniciado o retiro escolhendo um alvo para investir.
Eu achava que estava r**m ver a maioria das pessoas me olhando e rindo, mas ficou ainda pior quando o Fernando abriu o seu bocão e falou para os seus amigos ouvirem:
— Já aviso logo, hein. Eu vi a morena de Niterói primeiro!
Ele não falou tão alto, mas foi o suficiente para nós duas ouvir. Eu não sabia que era possível alguém de pele morena ficar vermelha, mas foi isso que aconteceu. Eu senti meu rosto pegando fogo com aquela situação. E nesse exato momento percebi que os olhos daquele rapaz que tinha chamado minha atenção também estava sobre mim.
‘Droga…’
Ele me olhou de uma forma que parecia me analisar, mas não demonstrou nada. Porém, o seu olhar mexeu comigo como nunca outro foi capaz. E pela primeira vez eu realmente senti vontade de ser tocada e beijada por um cara sem me sentir enjoada com esse pensamento como ficava todas as outras vezes.
‘O que está acontecendo comigo?’
Senti minha boca ficar seca novamente, e as borboletas voltaram a ruflar em meu estômago.
‘O que é isso?’
Ele voltou a olhar pra frente e conversar com seus amigos, e entre eles está o Fernando que não para de falar, rir e de vez em quando, olha pra mim.
‘Eu não mereço isso!’
Se antes eu estava nervosa, agora estou muito mais.
Ju começou a rir e me zoava dizendo que eu já tinha chegado chamando atenção, mas m*l sabia ela que eu queria sim chamar a atenção, mas de outra pessoa. Que por sinal não parecia estar afetado em nada por mim.
(...)
Um tempo depois chegamos à tão esperada casa, que fica virada para a praia. Ela tem uma varanda coberta enorme que vai da frente da casa até a lateral. A parte externa é decorada com pedras na cor amarela, as portas e janelas são de madeira escura e tem uma vista maravilhosa já que não tinha muro, apenas um guarda-corpo em madeira escura também.
Logo o pastor fez a contagem novamente, e em seguida uma oração agradecendo a Deus por termos chegado bem, pedindo a Deus para que nossos momentos nesse lugar gere frutos no reino de Deus além de momentos prazerosos nas nossas vidas.
As pessoas que já estavam na casa aguardando a nossa chegada, já tinham preparado um lanche para nos receber. E nós chegamos matando o que estava nos matando, já que devido ao trânsito pesado demoramos um pouco a mais do previsto para chegar.
Entramos na fila para pegar nosso lanche e em seguida nos direcionamos a varanda, decidimos sentar no chão mesmo. Assim foi formando-se vários grupos ao nosso redor, todos comendo e conversando, mas às vezes se ouvia risadas altas também.
Embora eu tentasse comer comecei a ficar enjoada com aquela refeição, parando antes de terminá-la. Acho que ainda era o nervoso que insistia em permanecer em mim, pois meus olhos ainda andam teimando em procurar aquele rosto que a essa altura já me faz suspirar.
‘Porque estou agindo assim?’
Enquanto todos comiam, percebi que os garotos analisam as meninas e elas fazem o mesmo com eles o tempo todo. O grupo que estou não para de falar, e falam tantas coisas ao mesmo tempo que eu não consigo acompanhar os assuntos. Embora, sinto que seja especialmente difícil porque eu ainda estou conhecendo essas pessoas, e não fui apresentada a maioria delas, mas também tem o fato de eu ficar prestando atenção na beleza que me encanta mesmo sem fazer nada.
Eu me senti um pouco aérea nessa confusão de conversas paralelas, então me encostei na parede para observar ao redor. Olhando esse monte de adolescentes, jovens e alguns adultos pude ver quando o causador do meu nervosismo voltava da cozinha com seu segundo lanche nas mãos, sentando-se encostado na parede, de frente pra mim, perto dos seus amigos.
Ele esticou suas pernas que por sinal mesmo coberta pela calça comprida me pareceu ser grossas o suficiente para a minha satisfação, me olhou fixamente por alguns segundos até que sorriu continuamente.
‘Se eu tivesse piscado, não teria visto.’
Sem acreditar, retribui e em seguida abaixei o olhar pois não estou acostumada a olhar por tanto tempo um rapaz por causa da minha timidez.
Foi quando ouvi a voz do pastor perguntando se todos já tínhamos terminado de nos alimentar, e pedindo para que quem tivesse terminado fosse se sentando no chão para formarmos uma única roda pois ele gostaria de fazer uma apresentação grupal.
Eu permaneci onde estava enquanto as meninas se ajeitam, e assim uma grande roda foi se formando.
Ele permaneceu no mesmo lugar conversando com seu amigo inseparável, mas consegui notar que seu olhar às vezes seguia em minha direção enquanto conversava.
‘Ai como eu queria saber o que eles falam.’
Quando todos estavam sentados e prontos, o pastor começou a falar:
— Sejam todos bem vindos ao nosso primeiro retiro de carnaval, estou muito feliz por realizarmos esse evento, e também com a presença de cada um que se encontra aqui. Saiba que não foi por acaso que Deus nos trouxe nesse lugar, Ele tem um propósito em tudo que faz. Então quero começar me apresentando porque tem pessoas aqui que não são da nossa igreja....
E assim ele fez, ao finalizar, pediu para que a pessoa que está no seu lado direito se apresentasse. Isso deveria ser feito por todos nós até chegar a ele novamente e aí percebi que enfim eu iria descobrir quem é aquele ser que agrada tanto os meus olhos sem precisar perguntar a ninguém.
Nos próximos minutos seguimos ouvindo várias apresentações, algumas mais sérias, curtas, outras longas e engraçadas também. As risadas ecoavam de vez enquanto, e eu comecei a ficar ansiosa porque estava chegando a minha vez. O que me consolava era que antes passaria por ele. E quando chegou, eu fiquei encantada ao ouvir a sua voz.
— Me chamo Noah, sou cristão, tenho 19 anos, trabalho, sou solteiro, gosto de jogar futebol e gosto de tocar violão.
‘Ai que nome lindo ele tem, assim como ele.’
E assim ele encerrou sua fala, dando lugar ao próximo.
‘Nossa… foi tão rápido.’
Logo chegou a minha vez, acho que nunca fiquei tão nervosa na minha vida em ter que falar em público.
— Eu me chamo Sol, tenho 14 anos, estudo, gosto de ouvir música e ir à praia, sou prima da Julia e da Évelyn...
Eu falava com dificuldade até ser interrompida pelo Fernando que com um sorriso no rosto fez questão de anunciar...
— Ela mora em Niterói, gente. É a morena de Niterói!
Todos começaram a rir e eu que já não sabia onde enfiar a cara, simplesmente me calei, porque o olhar castanho que tem me deixado estranha me fitou sem desviar o olhar com um sorrisinho disfarçado no canto da sua boca rosada e gostosa.
Dei graças a Deus quando o pastor intercedeu chamando a atenção do Fernando e retornando as apresentações até que todos tenham falado.
Para a minha sorte o momento das apresentações acabou e nós podemos arrumar nossas coisas dentro de casa.
Como a noite está gostosa, corre uma brisa que diminui o calor. Nós voltamos para o lado de fora e iniciamos mais uma vez conversas engraçadas e bobas.
E quando chegou a hora de se recolher, todas as garotas entraram para a casa, enquanto os meninos ficaram na parte externa para acamparem como o combinado.
Nós nos preparamos e eu deitei ao lado da Ju iniciando as nossas famosas conversas antes de dormir que já é de praxe até que ela não aguentou e adormeceu, me deixando pensando:
‘Noah… esse nome é lindo!’