Alguns dias se passaram desde o beijo.
E nada voltou ao normal.
Na verdade…
ficou pior.
Vinícius evitava Eva.
Mais do que antes.
Se antes ele era distante… agora era ausência.
Saía cedo.
Voltava tarde.
E quando estava na casa…
não ficava no mesmo ambiente que ela.
Mas Eva sentia.
Sentia nos pequenos detalhes.
Nos olhares rápidos que ele desviava.
Na tensão quando estavam perto demais.
Na forma como ele respirava diferente quando ela se aproximava.
Ele não era mais indiferente.
Ele estava fugindo.
E isso só fazia ela querer mais.
Naquela tarde, a casa estava silenciosa.
Como sempre.
Mas dessa vez… vazia.
Vinícius tinha saído há horas.
Eva estava no quarto, tentando escrever, tentando focar em qualquer coisa que não fosse ele.
Mas era inútil.
Tudo voltava pra ele.
Sempre.
Do outro lado da cidade…
Vinícius Ferraz caminhava sem destino.
O maxilar travado.
A mente… pior ainda.
O beijo.
A forma como ela não recuou.
A forma como ela olhou pra ele depois.
Aquilo não saía da cabeça.
— Droga… — murmurou, passando a mão pelo rosto.
Ele precisava de ar.
De distância.
De qualquer coisa que colocasse ordem na cabeça.
E foi então…
que ele viu.
Ela.
Lídia.
Parada na frente de um restaurante elegante, mexendo no celular.
Impecável.
Como sempre.
Cabelo loiro perfeito.
Vestido justo.
Olhar calculado.
Ela levantou os olhos.
E quando viu ele…
sorriu.
— Vinícius…
A voz saiu suave.
Como se fosse coincidência.
Mas não era.
Ele parou.
O olhar frio.
Analítico.
— Lídia.
Seco.
Sem emoção.
Ela se aproximou.
Devagar.
Confiante.
— Quanto tempo…
— Não o suficiente.
A resposta veio direta.
Mas ela não se abalou.
Pelo contrário.
Gostou.
— Você continua igual… — disse, inclinando levemente a cabeça. — Frio.
— E você continua inconveniente.
Ela riu baixo.
— Engraçado… — deu mais um passo perto. — Porque você não parecia incomodado da última vez que me viu.
Silêncio.
Pesado.
Vinícius não respondeu.
Mas o olhar…
endureceu.
— O que você quer?
— Nada demais — ela respondeu, dando de ombros. — Só conversar.
— Então fala logo.
Ela observou ele por alguns segundos.
Como se estivesse estudando.
— Eu fiquei sabendo… — começou, casual — que você anda com companhia.
O ar mudou.
Vinícius ficou imóvel.
— Cuidado com o que você diz.
A voz veio baixa.
Perigosa.
Lídia sorriu.
— Relaxa… eu não tô julgando.
Pausa.
— Até porque… eu sei exatamente o tipo de homem que você é.
Aquilo foi um jogo.
E os dois sabiam.
Ela se aproximou mais.
Perto demais.
— E eu sei que você não gosta de coisas fáceis.
Os olhos dela desceram lentamente… e voltaram.
— Muito menos de meninas quebradas.
O maxilar dele travou.
— Fica longe dela.
Direto.
Sem rodeios.
Lídia arqueou uma sobrancelha.
— Interessante…
Mais um passo.
Agora praticamente colada nele.
— Então ela importa?
Silêncio.
E foi ali…
que ela percebeu.
Um pequeno detalhe.
Um erro.
Ele não respondeu.
E aquilo…
já era resposta suficiente.
O sorriso dela mudou.
Mais lento.
Mais perigoso.
— Isso complica as coisas…
— Eu não vou repetir.
A voz dele cortou.
Mais fria.
Mais escura.
— Não precisa.
Ela inclinou o rosto, mais perto.
A respiração quase tocando a dele.
— Eu gosto de complicações.
Silêncio.
Pesado.
Carregado.
Vinícius não se afastou.
Mas também não cedeu.
Só observou.
Frio.
Calculando.
Mas por dentro…
algo estava errado.
Porque Lídia não era Eva.
E mesmo assim…
ela era perigosa de um jeito diferente.
— Você devia tomar cuidado, Vinícius… — ela sussurrou. — Nem tudo que parece frágil… é.
E então…
ela se afastou.
Como se nada tivesse acontecido.
— A gente se vê.
E foi embora.
Vinícius ficou parado.
Imóvel.
Pensando.
No erro.
No risco.
Na confusão que ele mesmo estava criando.
E, pela primeira vez…
uma possibilidade passou pela cabeça dele.
Eva…
ou o caos completo.
Mas o problema?
Ele já estava no meio dos dois.
E ainda não sabia…
qual deles ia destruir ele primeiro.