Os dias depois daquela noite… mudaram.
Não de forma clara.
Não de forma óbvia.
Mas Eva sentia.
Em cada olhar.
Em cada silêncio.
Em cada momento em que Vinícius demorava um segundo a mais para se afastar.
Ele ainda era frio.
Ainda era distante.
Mas agora…
Havia falhas.
Pequenas.
Perigosas.
Naquela noite, ele estava na sala.
Como sempre.
Sentado.
Um copo de whisky na mão.
Mas diferente.
Mais tenso.
Mais… inquieto.
Eva parou na escada, observando.
O coração já acelerando.
Ela sabia.
Algo tinha mudado.
E ela não ia recuar.
Desceu.
Devagar.
Sem desviar o olhar.
Sem fingir.
Sem medo.
Vinícius percebeu antes mesmo de ela chegar.
Os olhos levantaram.
E ficaram nela.
Dessa vez… não desviaram.
— Você devia estar dormindo.
A voz saiu baixa.
Mais rouca.
— E você devia estar descansando.
Ela respondeu, se aproximando.
Silêncio.
Pesado.
Cheio.
Ela parou na frente dele.
Perto.
Mais perto do que nunca.
— O ferimento… — ela começou.
— Já cicatrizou.
Cortou.
Mas sem agressividade.
Eva inclinou levemente o rosto.
— Nem tudo.
Aquilo fez algo nele… quebrar um pouco mais.
Vinícius levantou.
Devagar.
Ficando na frente dela.
Imponente.
Dominante.
Perigoso.
— Você tá brincando com coisa que não entende.
A voz dele abaixou.
Intensa.
Eva não recuou.
Não dessa vez.
— Então me faz entender.
Silêncio.
Um segundo.
Dois.
E foi aí…
Que ele perdeu.
Vinícius segurou o braço dela.
Não forte o suficiente pra machucar.
Mas firme.
Decidido.
— Você não sabe aonde isso vai dar.
— Eu sei exatamente.
Ela deu um passo mais perto.
Colando o corpo no dele.
O coração disparado.
Mas firme.
— E eu não quero parar.
O ar ficou pesado.
Quente.
Carregado.
Os olhos dele desceram para os lábios dela.
Por um segundo.
Só um.
Mas ela viu.
E isso foi o suficiente.
Eva não pensou.
Não hesitou.
Não mediu consequência.
Ela puxou ele pela camisa…
E beijou.
Forte.
Decidido.
Sem medo.
Sem volta.
Por um segundo…
Nada aconteceu.
E então…
Ele respondeu.
A mão dele subiu para o rosto dela, segurando com firmeza.
O beijo mudou.
Mais intenso.
Mais profundo.
Mais… perigoso.
Como tudo que envolvia ele.
Mas não durou.
Vinícius se afastou de repente.
Como se tivesse levado um choque.
Respiração pesada.
Olhos escuros.
Descontrolados.
— Chega.
A voz saiu rouca.
Cortada.
Eva ainda estava perto.
Sentindo.
Tudo.
— Não.
A resposta veio baixa.
Mas firme.
Aquilo foi o erro.
Ou talvez… o ponto sem retorno.
Ele segurou o rosto dela de novo.
Mais forte.
Mais intenso.
— Você não entende — ele disse, com a respiração pesada. — Eu não sou o cara que você acha que sou.
— Eu sei exatamente quem você é.
Silêncio.
— E mesmo assim… — ela sussurrou — eu quero você.
Aquilo atingiu.
Direto.
Vinícius fechou os olhos por um segundo.
Como se estivesse lutando.
Contra ela.
Contra si mesmo.
Mas dessa vez…
Ele não se afastou na hora.
Ficou ali.
Perto.
Sentindo.
E isso…
Já era mais do que ele permitia.
Mas então…
Ele soltou ela.
Bruscamente.
Se afastando.
— Vai pro seu quarto.
A voz voltou.
Fria.
Mas agora… quebrada.
Eva ficou parada.
O coração ainda acelerado.
Os lábios ainda queimando.
Ela venceu.
Mesmo que só um pouco.
E ele sabia disso.
Vinícius virou de costas.
Passou a mão pelo cabelo, irritado.
— Para de me provocar, Eva.
Ela deu um pequeno sorriso.
Fraco.
Mas verdadeiro.
— Você que não consegue resistir.
Silêncio.
Pesado.
Ele não respondeu.
Mas também…
Não negou.
E naquele momento…
Os dois entenderam.
A linha tinha sido cruzada.
E agora…
Não tinha mais volta.