A chuva caía forte naquela noite.
O som constante contra os vidros deixava a casa ainda mais silenciosa… mais isolada.
Eva estava na sala, sentada no sofá, com um livro aberto — mas não lia.
Já fazia isso há dias.
Fingir distração… enquanto esperava.
Sempre esperando.
—
O barulho da porta chamou sua atenção.
Ela levantou o olhar imediatamente.
Vinícius.
Mas algo estava errado.
Muito errado.
—
Ele entrou devagar.
Mais devagar do que o normal.
Os passos pesados.
A respiração… irregular.
Eva levantou na mesma hora.
O coração disparando.
— Vinícius…?
Ele não respondeu.
Só continuou andando, como se estivesse ignorando o próprio corpo.
Foi então que ela viu.
Sangue.
Na camisa.
Escuro.
Espalhado.
—
— Meu Deus… — ela sussurrou, já indo na direção dele.
— Para — ele disse, seco, sem nem olhar.
Mas a voz…
não tinha a mesma força de antes.
—
Eva ignorou.
Chegou perto.
Muito perto.
— Você tá ferido—
— Eu disse pra parar.
Ele tentou se afastar.
Mas o corpo falhou.
Por um segundo.
E foi o suficiente.
—
Eva segurou o braço dele.
— Você precisa de ajuda!
— Eu não preciso de nada.
Teimoso.
Frio.
Mesmo naquela situação.
—
Ela respirou fundo.
E decidiu.
— Então aguenta.
Antes que ele pudesse reagir, ela puxou ele com mais força do que ele esperava.
Levando até o sofá.
Ele tentou resistir.
Mas não estava em condições.
E aquilo… irritou ele.
—
— Eva.
O tom foi baixo.
Perigoso.
Aviso.
—
Mas ela não parou.
— Fica quieto.
Direta.
Sem medo.
—
Aquilo fez ele travar por um segundo.
Não pela dor.
Mas pela forma como ela falou.
—
Eva começou a desabotoar a camisa dele.
As mãos tremiam levemente… mas não paravam.
— Você é impossível… — murmurou, mais pra si mesma.
—
Quando abriu o suficiente…
o ar sumiu dos pulmões dela.
Um corte.
Profundo.
Recente.
Ainda sangrando.
—
— Você tá maluco?! — a voz saiu baixa, mas carregada.
Ele riu.
Fraco.
Sem humor.
— Já estive pior.
—
Ela levantou rápido, indo buscar o kit que o médico tinha deixado dias atrás.
As mãos rápidas.
Coração acelerado.
—
Quando voltou, ele estava do mesmo jeito.
Mas agora…
observando ela.
De verdade.
—
Eva se ajoelhou na frente dele.
Com cuidado.
Concentrada.
—
— Isso vai doer.
— Eu sei.
—
Silêncio.
Só o som da chuva.
E da respiração dos dois.
—
Ela começou a limpar o ferimento.
Devagar.
Delicada.
Mesmo tremendo.
—
Vinícius não reagiu.
Não reclamou.
Não se mexeu.
Mas os olhos…
não saíam dela.
—
Ela mordia o lábio de leve, focada.
Cuidando.
Como ninguém fazia.
Como ninguém tinha feito… em muito tempo.
—
— Você devia ter me deixado chamar um médico — ela disse, sem olhar pra ele.
— Eu não confio em ninguém.
Resposta automática.
Fria.
—
Ela levantou o olhar.
Direto.
— Mas me deixou.
Silêncio.
—
Aquilo… ficou no ar.
Pesado.
Carregado.
—
Ele desviou o olhar primeiro.
—
— É diferente.
—
Eva não perguntou.
Mas sentiu.
—
Continuou cuidando dele.
Passando o remédio.
Fazendo o curativo.
Com mais cuidado do que ele achava possível.
—
Quando terminou…
ela soltou o ar devagar.
Como se só agora estivesse respirando.
—
— Pronto…
A voz saiu mais suave.
Cansada.
—
Ela levantou o olhar.
E percebeu.
Ele estava perto.
Mais do que antes.
Muito mais.
—
Os olhos dele estavam fixos nela.
Profundos.
Pesados.
Diferentes.
—
O coração dela disparou.
—
— Por que você insiste tanto? — ele perguntou, baixo.
Sem agressividade.
Sem frieza.
Só… verdade.
—
Eva hesitou.
Mas respondeu:
— Porque você precisa de alguém.
—
Ele soltou uma risada curta.
Sem humor.
— Eu não preciso de ninguém.
—
Ela chegou mais perto.
Sem perceber.
Ou percebendo… e ignorando.
—
— Todo mundo precisa.
—
Silêncio.
—
A distância entre eles agora era mínima.
Perigosa.
Quase inexistente.
—
Vinícius inclinou levemente o rosto.
Os olhos escurecendo.
—
— Você não devia estar fazendo isso.
—
— Eu sei.
—
— E mesmo assim continua.
—
— Sim.
—
O ar ficou quente.
Pesado.
Tenso.
—
Por um segundo…
pareceu que algo ia acontecer.
De verdade.
—
Mas então—
Vinícius fechou os olhos.
E se afastou.
De novo.
—
Quebrou.
Como sempre.
—
— Vai dormir, Eva.
A voz voltou.
Fria.
Controlada.
—
Ela ficou parada.
Sentindo.
Tudo.
—
Mas dessa vez…
não doeu da mesma forma.
—
Porque agora ela sabia.
Ela tinha atravessado.
Mesmo que só um pouco.
—
E isso…
mudava tudo.
—
Naquela noite…
ninguém dormiu direito.
—
Porque algo tinha mudado.
Algo perigoso.
Algo irreversível.
—
Ela estava mais perto.
E ele…
mais fraco.
—
E isso…
era só o começo.