linhas cruzadas

791 Words
A chuva caía forte naquela noite. O som constante contra os vidros deixava a casa ainda mais silenciosa… mais isolada. Eva estava na sala, sentada no sofá, com um livro aberto — mas não lia. Já fazia isso há dias. Fingir distração… enquanto esperava. Sempre esperando. — O barulho da porta chamou sua atenção. Ela levantou o olhar imediatamente. Vinícius. Mas algo estava errado. Muito errado. — Ele entrou devagar. Mais devagar do que o normal. Os passos pesados. A respiração… irregular. Eva levantou na mesma hora. O coração disparando. — Vinícius…? Ele não respondeu. Só continuou andando, como se estivesse ignorando o próprio corpo. Foi então que ela viu. Sangue. Na camisa. Escuro. Espalhado. — — Meu Deus… — ela sussurrou, já indo na direção dele. — Para — ele disse, seco, sem nem olhar. Mas a voz… não tinha a mesma força de antes. — Eva ignorou. Chegou perto. Muito perto. — Você tá ferido— — Eu disse pra parar. Ele tentou se afastar. Mas o corpo falhou. Por um segundo. E foi o suficiente. — Eva segurou o braço dele. — Você precisa de ajuda! — Eu não preciso de nada. Teimoso. Frio. Mesmo naquela situação. — Ela respirou fundo. E decidiu. — Então aguenta. Antes que ele pudesse reagir, ela puxou ele com mais força do que ele esperava. Levando até o sofá. Ele tentou resistir. Mas não estava em condições. E aquilo… irritou ele. — — Eva. O tom foi baixo. Perigoso. Aviso. — Mas ela não parou. — Fica quieto. Direta. Sem medo. — Aquilo fez ele travar por um segundo. Não pela dor. Mas pela forma como ela falou. — Eva começou a desabotoar a camisa dele. As mãos tremiam levemente… mas não paravam. — Você é impossível… — murmurou, mais pra si mesma. — Quando abriu o suficiente… o ar sumiu dos pulmões dela. Um corte. Profundo. Recente. Ainda sangrando. — — Você tá maluco?! — a voz saiu baixa, mas carregada. Ele riu. Fraco. Sem humor. — Já estive pior. — Ela levantou rápido, indo buscar o kit que o médico tinha deixado dias atrás. As mãos rápidas. Coração acelerado. — Quando voltou, ele estava do mesmo jeito. Mas agora… observando ela. De verdade. — Eva se ajoelhou na frente dele. Com cuidado. Concentrada. — — Isso vai doer. — Eu sei. — Silêncio. Só o som da chuva. E da respiração dos dois. — Ela começou a limpar o ferimento. Devagar. Delicada. Mesmo tremendo. — Vinícius não reagiu. Não reclamou. Não se mexeu. Mas os olhos… não saíam dela. — Ela mordia o lábio de leve, focada. Cuidando. Como ninguém fazia. Como ninguém tinha feito… em muito tempo. — — Você devia ter me deixado chamar um médico — ela disse, sem olhar pra ele. — Eu não confio em ninguém. Resposta automática. Fria. — Ela levantou o olhar. Direto. — Mas me deixou. Silêncio. — Aquilo… ficou no ar. Pesado. Carregado. — Ele desviou o olhar primeiro. — — É diferente. — Eva não perguntou. Mas sentiu. — Continuou cuidando dele. Passando o remédio. Fazendo o curativo. Com mais cuidado do que ele achava possível. — Quando terminou… ela soltou o ar devagar. Como se só agora estivesse respirando. — — Pronto… A voz saiu mais suave. Cansada. — Ela levantou o olhar. E percebeu. Ele estava perto. Mais do que antes. Muito mais. — Os olhos dele estavam fixos nela. Profundos. Pesados. Diferentes. — O coração dela disparou. — — Por que você insiste tanto? — ele perguntou, baixo. Sem agressividade. Sem frieza. Só… verdade. — Eva hesitou. Mas respondeu: — Porque você precisa de alguém. — Ele soltou uma risada curta. Sem humor. — Eu não preciso de ninguém. — Ela chegou mais perto. Sem perceber. Ou percebendo… e ignorando. — — Todo mundo precisa. — Silêncio. — A distância entre eles agora era mínima. Perigosa. Quase inexistente. — Vinícius inclinou levemente o rosto. Os olhos escurecendo. — — Você não devia estar fazendo isso. — — Eu sei. — — E mesmo assim continua. — — Sim. — O ar ficou quente. Pesado. Tenso. — Por um segundo… pareceu que algo ia acontecer. De verdade. — Mas então— Vinícius fechou os olhos. E se afastou. De novo. — Quebrou. Como sempre. — — Vai dormir, Eva. A voz voltou. Fria. Controlada. — Ela ficou parada. Sentindo. Tudo. — Mas dessa vez… não doeu da mesma forma. — Porque agora ela sabia. Ela tinha atravessado. Mesmo que só um pouco. — E isso… mudava tudo. — Naquela noite… ninguém dormiu direito. — Porque algo tinha mudado. Algo perigoso. Algo irreversível. — Ela estava mais perto. E ele… mais fraco. — E isso… era só o começo.
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