A Deus ao que eu sentir

647 Words
A casa nunca pareceu tão silenciosa. Mas, dessa vez… não era vazio. Era fim. Eva não chorou. Nem naquele momento. Nem depois. Ela simplesmente… desligou. O que antes doía, agora… queimava frio. Ela subiu as escadas devagar, como se cada passo fosse mais pesado que o outro. Entrou no quarto. Fechou a porta. E ficou parada O olhar perdido. Mas a mente… clara demais. Ela viu. Ela entendeu. E, pela primeira vez… aceitou. Vinícius nunca seria dela. Não de verdade. E o pior? Ela nunca foi nada pra ele. Um erro. Um impulso. Um… nada. Eva respirou fundo. Longo. Controlado. — Chega… — sussurrou. E começou. Abriu o armário. Pegou a mala. E, dessa vez… não teve pressa. Dobrou cada roupa com calma. Organizou tudo em silêncio. Sem lágrimas. Sem hesitação. Era diferente da outra vez. Naquela noite… ela foi expulsa. Agora… ela estava escolhendo ir. E isso mudava tudo. No andar de baixo… Vinícius estava na sala. Tenso. Imóvel. Ele já sabia Não porque viu. Mas porque sentiu. Algo na casa… tinha mudado. E quando Eva desceu as escadas com a mala ele confirmou. O olhar dele travou nela. — O que é isso? A voz saiu mais dura do que ele queria. Eva parou no último degrau. Calma. Fria. Quase irreconhecível. — Eu vou embora. Silêncio. Pesado. — Não. A resposta veio automática. Ela soltou um pequeno sorriso. Sem humor. — Engraçado… — disse, descendo o último degrau. — Você não falou isso quando trouxe outra pra sua cama. O golpe foi direto. Vinícius travou. Então ela viu. A confirmação. Ele não negou. Aquilo bastou. Mas, diferente do que ele esperava… ela não desmoronou. Ela ficou… firme. — Eu vi. Simples. Silêncio. Ele passou a mão pelo rosto. Irritado. Tenso. — Eva — Não. Ela cortou. Calma. — Não explica. A voz dela não tremia. Não quebrava. E aquilo… incomodou mais do que qualquer grito. — Foi um erro. Ele disse. Eva riu baixo. — Não. Ela balançou a cabeça. — Erro é tropeçar. Isso… é escolha. Silêncio. — Eu te quis — ela continuou, olhando direto pra ele. — Mesmo sabendo que você era perigoso. Mesmo vendo quem você era. Pausa. — Mas você… me mostrou que eu tava errada em insistir. Aquilo atingiu. De verdade. Vinícius deu um passo na direção dela. — Você não vai embora. A voz voltou. Mais baixa. Mais perigosa. Mas dessa vez… não funcionou. Eva não recuou. — Eu não sou sua. Silêncio. — Nunca fui. O ar ficou pesado. — E agora… — ela continuou — eu também não quero ser. Aquilo foi o ponto. Algo nele… quebrou. — Você tá indo embora por causa disso? Ela inclinou levemente o rosto. — Não. Pausa. — Eu tô indo embora por mim. Silêncio. Final. Ela pegou a mala. Passou por ele. E, dessa vez… ele não segurou. Mas não por escolha. Porque não sabia como. A porta se abriu. O mesmo lugar. A mesma saída. Mas outra história. Ela não estava sendo jogada fora. Ela estava indo embora… inteira. Mesmo quebrada. Do lado de fora… o ar parecia diferente. Mais leve. Mais frio. Mais real. Eva respirou fundo O coração ainda doía. Mas agora… não comandava mais. Ela olhou pra frente. E decidiu. Nova casa. Nova vida. Novo começo. Sem ele. Dentro da casa… Vinícius permaneceu parado. Imóvel. O olhar fixo na porta fechada. E, pela primeira vez… o silêncio não era confortável. Era insuportável. Ele passou a mão pelo rosto. Irritado. Tenso. Descontrolado. — Droga… Mas não era raiva. Era outra coisa ,algo que ele não sabia lidar. Porque, pela primeira vez…ele não estava perdendo controle de uma situação. Ele estava perdendo…ela. E não sabia como impedir. E do outro lado da cidade… Eva começava de novo. Mais fria. Mais forte. Mais perigosa. Porque agora… ela não amava mais do mesmo jeito. E isso… mudava o jogo.
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