Os quinze dias seguintes passaram rápido demais.Eu nunca havia esperado que um simples encontro no porto mudasse tanto minha rotina.
Mas mudou.Lorenzo aparecia quase todos os dias.
Às vezes no porto.
Às vezes na pequena praça da cidade.
Outras vezes simplesmente passava na confeitaria com uma desculpa qualquer.Nós conversamos sobre coisas simples.
Filmes.
Comida.
Histórias da infância.
E, mesmo sem perceber, eu comecei a esperar pelas mensagens dele.
Todas as manhãs.Todas as noites.
E pelas minhas vistas,ele também parecia gostar daquilo.Ele nunca falava muito sobre si mesmo, mas sempre fazia perguntas sobre mim.Sobre o que gostava.Sobre o que sonhava.
Sobre por que parecia carregar um peso nos olhos às vezes.E eu, mesmo tomando cuidado com suas respostas, sentia algo que não sentia há muito tempo.
Tranquilidade.
Naquela tarde, nós estavam sentados novamente no porto.O vento suave fazia os meus cabelos dançarem enquanto eu olhava o mar.
— Você sempre vem aqui quando precisa pensar? — perguntou Lorenzo.
— Sempre.
— E funciona?
Eu penso por um momento.
— Às vezes.
Ele observa o horizonte.
— Talvez eu comece a vir também.
Eu sorriu.
— Você já vem.
Ele riu baixo.Mas naquele momento, o telefone dele vibrou.Ele olhou rapidamente para a tela.E algo mudou em seu rosto.
Frio.Sério.Profissional.
E eu percebi imediatamente.
— Problemas?
Ele guardou o telefone.
— Trabalho.
Ela suspirou.
— Negócios complicados?
Ele deu um pequeno sorriso.
— Algo assim.
Nós ficamos em silêncio por alguns segundos.Então Lorenzo se levantou.E ficou a minha frente,eu sentada com as pernas a balançar lentamente.
— Acho que vou precisar viajar por um tempo.—Eu levanto os olhos para ele.
— Por quanto tempo?
— Não sei ainda.—Aquilo não deveria me incomodar
Nós nos conhecíamos há apenas duas semanas.Mas incomodou.E tento disfarçar.
— Bom… boa sorte com seus negócios— Lorenzo a observou por alguns segundos.
— Vou sentir falta das nossas conversas.
Ela desviou o olhar para o mar.
— Você nem sabe se vai voltar.
— Vou voltar.
A forma como ele disse aquilo parecia uma promessa.
Ele caminhou de mim.Se ele quisesse poderia abrir minhas pernas e ficar no meio,ficamos na altura certa para os dois.
— Eu volto para me despedir direito.
Eu arqueio uma sobrancelha.
— Isso não foi uma despedida?
Ele sorriu.
— Não.Se cuidará enquanto eu estiver fora? — ele pergunta e sorriu irônica.
— Não precisa nem mandar.
Ele afirma.
— Só,tome cuidado,não fique sozinha na rua a noite,volte para a casa direto para o trabalho.
— Virou meu pai agora? — ele olhando pra o lado e sorri negando e se aproxima.
— Me ligue,tem o meu número.Para o que precisa.E por favor…na converse com estranhos.Seja uma boa menina e não me deixe preocupado
Ele ironiza,ele já foi um estranho pra mim e sorriu afirmando.
— Tudo bem. -sorriu e ficamos nos olhando.
Voltamos para o carro e ele sai junto comigo e ficamos em frente à portaria do meu prédio.
— Então…é isso!Foi um prazer conhecê-lo Sr.Lorenzo.
— Isso não é uma despedida,Nielly.Saiba disso.
Ele se aproxima de mim com dois passos e minha respiração parece cortar e engulo em seco.Olho para cima,já por ele ser maior que eu.
Ele beija a minha testa e fico surpresa pelo seu carinho.
— Me espere.
Fico sem saber o que dizer.Ele faz sinal com os olhos dizendo que já podia subir.
Entro deixando ele ali,ainda sem reação por sua atitude.Não olho para trás porém escuto o som do carro saindo.
E então foi embora.
⸻
No começo, eu acreditei que Lorenzo voltaria rápido.
Talvez algumas semanas.Talvez um mês.
Mas as semanas viraram meses.
E Lorenzo não voltou.Nao deu noticias.
Nos primeiros dias eu ainda verificava o celular às vezes, esperando uma mensagem.
Depois parei.A vida precisava continuar.
E, pela primeira vez em muitos anos, eu decidi realmente construir uma vida que fosse só minha.
Sem máfia.
Sem segredos.
Sem o peso de um sobrenome perigoso.
Foi assim que, dois meses depois da partida de Lorenzo, eu finalmente tomei uma decisão que sonhava desde criança.
Entrei na faculdade de Administração.
Quando recebi a confirmação da matrícula, fiquei parada olhando o e-mail por vários minutos.Era algo simples para muitas pessoas.Mas para mim significava tudo.
Era prova de que uma vida diferente era possível.
⸻
Foi na biblioteca da cidade que conheci Sofia.
Sofia trabalhava organizando livros e ajudando estudantes com pesquisas.
Ela tinha cabelos castanhos claros, óculos grandes e uma personalidade calma, mas divertida.
— Você está olhando essa estante há cinco minutos — Sofia comentou um dia.
Então riu.
— Estou tentando fingir que entendo esses livros de economia.
— Então estamos na mesma situação.
Nos duas rimos.A amizade começou ali.
Simples.Natural.Sofia também foi quem me apresentou a outro amigo.Marco.
Marco trabalhava como barman em um pub pequeno, mas muito popular entre estudantes.Ele era alto, tinha cabelo escuro bagunçado e um sorriso fácil que parecia iluminar o lugar inteiro.
— Então você é a nova amiga da Sofia — ele disse quando as nós duas entráramos no pub pela primeira vez.
— Sou.
— Ótimo.
Ele colocou três copos sobre o balcão.
— Então a primeira rodada é por conta da casa.
— Você faz isso para todos os clientes? — pergunto.
— Não.
Ele sorriu.
— Só para os amigos.
A partir daquele dia, nós três começamos a sair juntos com frequência.Estudavamos às vezes.
Ríamos muito.E sempre terminávamos a noite no pub onde Marco trabalhava.
⸻
A música estava alta.
Luzes coloridas iluminavam a pista de dança enquanto estudantes riam e conversavam ao redor.
Nielly e Sofia dançávam no meio da pista, rindo de alguma coisa.Marco observava de trás do balcão enquanto preparava bebidas.
Um cliente comentou:
— Sua namorada dança bem.
Marco levantou os olhos imediatamente.
— Ela não é minha namorada.
— Poderia ser.
Marco ficou em silêncio
Ele olhou novamente para Nielly.
Ela estava rindo, os cabelos escuros soltos, completamente livre.
Ele gostava dela.Muito mais do que deveria.
Mas nunca disse nada.Porque toda vez que Nielly falava sobre um certo homem misterioso que conheceu meses atrás…
Os olhos dela mudavam.
E Marco sabia que estava competindo com alguém que nem estava mais ali.
————
Mais tarde naquela noite
A música finalmente terminou e o pub começou a esvaziar.
Sofia estava um pouco bêbada.
— Eu amo vocês dois — ela disse abraçando eu e Marco que riu.
— Você diz isso toda sexta-feira.
— Porque é verdade.
Ele ajudou as nós duas a saírem do pub.
Primeiro deixou Sofia na casa dela.
Depois dirigiu até o prédio onde eu morava.
Eu estava cansada, mas sorrindo.
— Obrigada por sempre cuidar da gente — eu digo.
— Alguém precisa fazer isso.
Sorriu,mas quando ia voltar a andar quase se desequilibra,mas Marco me segura.
— É melhor eu te ajudar,é capaz de não chegar inteira lá em cima.
Subimos as escadas devagar.
Quando chegamos ao apartamento, eu praticamente caiu na cama.Marco puxa o cobertor sobre mim com cuidado.
Depois disso não me lembro de mais nada.
*********
Enquanto isso… em outro país
O escritório estava silencioso.Eu estava sentado atrás de uma mesa grande de madeira escura.Diante de mim estava Riccardo, meu consigliere.E mais um homem da organização.Um dos informantes.
Nós haviamos passado a última hora discutindo negócios.
Rotas de transporte.Acordos.Problemas com famílias rivais.Quando terminamos,o homem parecia hesitar.
— Don… tem mais uma coisa.
— Fale.
Digo olhando os papéis na minha mesa.
O homem parecia constrangido.
— É sobre… a garota.
O olhar de Lorenzo mudou imediatamente.Frio.Sombrio.
— Continue.
O homem colocou algumas fotos sobre a mesa.
— Nossos homens continuaram observando ela, como o senhor pediu.
Riccardo fica quieto.
Nielly.Rindo.Saindo da faculdade.Na biblioteca.E… no pub.Ao lado de um homem.
Em uma das fotos, ele colocava o braço ao redor dela enquanto riam.O silêncio no escritório ficou pesado.Muito pesado.
Eu pego uma das fotos lentamente.
Meus olhos ficaram escuros.
— Quem é ele?
— Barman do pub que ela frequenta.Marco Sthefan
— Eles estão juntos?
— Não sabemos, Don… mas parecem próximos.
Lorenzo colocou a foto na mesa.Seu rosto estava completamente frio agora.E então respiro fundo e olho para Riccardo.que suspira também,sabia o que eu estava pensando.
— Prepare o avião.
Riccardo ergueu uma sobrancelha.
— Lorenzo…
— Eu volto para a Itália hoje.
— Temos a reunião com seu pai amanhã.
Eu me levanto.
— Então vamos terminar isso agora.
Fico de frente ao meu pai, estávamos sentado na varanda olhando o mar.Aposentado.Mas ainda respeitado por toda a organização.
— Você parece irritado — disse ele quando eu respiro fundo pela centésima vez.
— Negócios.
O velho Don sorriu levemente.
— Ou mulher?
Não respondo .
— Vá para a Sicília — disse o pai calmamente. — Se algo está incomodando sua mente… resolva.
— Se cuida,pai!
— Eu vou.
********
Dias depois
A noite estava tranquila no restaurante perto do porto.Eu entro depois do trabalho para jantar.
Quando um dos meus colegas garçom se aproximou, ele disse:
— Tem alguém esperando por você na área VIP.
Estranho.
— Por mim?
— Sim.
Caminho até o fundo do restaurante.Quando viro a esquina da parede…Meu coração parou por um segundo.Sentado à mesa estava Lorenzo.Exatamente como meses atrás.Elegante.Calmo.Observando-me.
Mas desta vez havia algo diferente em seu olhar.Algo mais escuro.Mais intenso.Ele levantou-se devagar.
— Olá, Nielly.
Eu ainda estava surpresa demais para falar direito.
— Lorenzo…?
Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.Só aí reparo que ele está acompanhado.
— Esse é meu irmão,Riccardo.Parece que muita coisa mudou enquanto eu estive fora.
Os olhos dele passaram rapidamente por mim.Depois voltaram ao meu rosto.
— Inclusive… suas companhias.
Eu não entendi imediatamente.Mas algo no tom dele fez o ar ficar pesado.Muito pesado.