O pequeno vilarejo da Sicília começava a ganhar vida com o cair da noite.
Luzes amarelas se acendiam nas janelas das casas antigas de pedra, o cheiro de pão fresco escapava da pequena padaria da esquina e o som distante de música italiana ecoava de um restaurante próximo ao porto.
Eu caminhava pela rua estreita segurando uma pequena caixa de madeira. Dentro dela estavam os poucos doces que sobraram da confeitaria onde havia começado a trabalhar há apenas algumas semanas.
Era uma vida simples.
Muito simples para alguém que nasceu cercada por luxo, segurança armada e homens perigosos.
Mas para mim , aquilo era liberdade.
Pela primeira vez em muitos anos, ninguém me chamava de “signorina Bellini”.
Ali ela era apenas… eu.
Viro a esquina da rua que levava até o meu pequeno apartamento que alugava acima de uma floricultura. Mas antes que pudesse continuar andando, duas vozes masculinas surgiram atrás de mim.
— Ei… espere um pouco.
O tom não era amigável.Eu parou lentamente.Meu corpo inteiro ficou tenso.
Instinto.
Mesmo tentando abandonar o mundo da máfia, algumas coisas nunca desapareciam.
Me viro devagar.
Dois homens estavam parados no meio da rua. Ambos com jaquetas de couro, expressões arrogantes e aquele olhar típico de homens que estavam procurando problema.
— Você trabalha naquela confeitaria nova, não é? — perguntou um deles.
Eu manteve a postura firme.
— Trabalho.
O outro deu um passo à frente.
— Então deve saber que esse bairro tem… certas regras.
Eu já conhecia aquele tipo de conversa.Extorsão.Proteção.O tipo de coisa que minha própria família fazia há anos.
Um gosto amargo subiu pela garganta.
— Eu só trabalho lá — respondo calmamente. — Não sou dona do lugar.
O primeiro homem sorriu, mas o sorriso não tinha nada de amigável.
— Mesmo assim… talvez você possa convencer sua chefe a pagar pela segurança do bairro.Ele se aproximou mais.
Perto demais.
Eu apertou a caixa de madeira nas mãos.
Por um segundo, uma parte antiga de mim — uma parte que tento enterrar — sussurrou em minha mente.
Você sabe lidar com homens como esses.Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa…
Uma terceira voz surgiu atrás deles.
— Acho que ela já disse que não é a dona.
A voz era calma.Fria.Autoritária.
Os dois homens viraram-se imediatamente.
Eu também.E lá estava ele.Encostado casualmente em um carro preto estacionado na rua.
Lorenzo.
Ele caminhou em direção a eles com passos tranquilos, como se aquilo fosse apenas uma conversa comum.Mas havia algo na maneira como ele se movia.
Algo perigoso.Os dois homens trocaram um olhar rápido.
— E você é quem? — perguntou um deles, irritado.
Lorenzo parou a poucos passos deles.
Seu olhar escuro percorreu os dois lentamente.
— Alguém que não gosta de ver dois homens incomodando uma mulher sozinha.
O silêncio caiu sobre a rua por um instante.Então um dos homens deu um riso debochado.
— Isso não é da sua conta, amigo.
Lorenzo inclinou levemente a cabeça.
— Agora é.
Algo no tom dele mudou o clima imediatamente.Não era um grito.Não era uma ameaça direta.Mas era pior.Era autoridade.
Os dois homens pareceram hesitar.
Um deles olhou para mim novamente, depois para Lorenzo.
— Não vale a pena — murmurou para o amigo.
Sem dizer mais nada, os dois começaram a se afastar pela rua.
Eu observo enquanto eles desapareciam na esquina.Só então eu solto lentamente o ar que estava prendendo.Quando voltou o olhar para Lorenzo, ele já estava olhando para mim.
— Você tem um talento especial para encontrar problemas — disse ele com um leve sorriso.
Eu cruzo os braços.
— Eu não estava procurando problema.
— Eu sei.
Ele se aproximou um pouco mais.
— Mas ele encontrou você mesmo assim.
Por um momento, nós ficamos em silêncio.A brisa da noite levantou alguns fios do cabelo meu cabelo.
— Obrigada — digo finalmente.
Lorenzo deu de ombros.
— Não foi nada.Estava passando por aqui,com carro,e vi a movimentação.
Eu o observo com mais atenção dessa vez.Algo não encaixava.A forma como aqueles homens recuaram tão rápido.O jeito como Lorenzo parecia completamente tranquilo.
— Você não parece alguém que apenas estava passando — digo.Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.
— Talvez eu não estivesse.
— Então estava me seguindo?
Ele riu baixo.
— Não exatamente.
— Então o quê?
Lorenzo olhou para mim por alguns segundos.Como se estivesse decidindo o quanto deveria dizer.
— Digamos que eu estava… curioso.
Eu arqueio uma sobrancelha.
— Curioso?
— Sobre você.
Por um momento, o meu coração bateu um pouco mais forte.
Eu rapidamente desvio o olhar.
— Isso é estranho.
— Talvez.
Ele deu mais um passo para trás, dando espaço entre eles.
— Mas às vezes as pessoas mais interessantes aparecem quando menos esperamos.
*********
Nielly não responde..Mas por algum motivo, ela não conseguia negar que também estava curiosa.Sem perceber, os dois estavam começando algo perigoso.
Muito mais perigoso do que qualquer um deles imaginava.Porque, enquanto Nielly acreditava estar finalmente livre da máfia…
O homem parado diante dela era exatamente o tipo de pessoa que ela passou a vida inteira tentando evitar.
E ainda assim…
Ela não conseguia simplesmente ir embora.