Aula prática

719 Words
Após o intervalo, os alunos se dirigiram para o laboratório de engenharia, um espaço amplo e cheio de bancadas de metal, ferramentas, calculadoras e equipamentos elétricos espalhados em cada mesa. O cheiro de metal aquecido e óleo misturava-se com o leve aroma de café que vinha da cafeteria próxima. Allan entrou primeiro, ajustando o jaleco e observando cada detalhe do laboratório: os manuais sobre as bancadas, os alunos se acomodando e o barulho de ferramentas sendo preparadas para a prática. Flávia sentou-se em uma das primeiras bancadas, perto de um grupo de colegas, abrindo seu caderno e já preparando a calculadora. Sua postura indicava foco total: cada passo da aula prática parecia ser registrado com precisão. Allan, observando do outro lado do laboratório, notou como ela não perdia nenhum detalhe, anotava fórmulas, traçava diagramas e perguntava, baixinho, aos colegas sobre pequenos pontos de dúvida. A dedicação era clara. Enquanto os alunos começavam a se movimentar pelo laboratório, um rapaz alto, de cabelos castanhos e expressão debochada, sussurrou para a colega ao lado: — Aquela ali deve ser bolsista, né? Muito certinha, tudo impecável. Claro que tem bolsa... perfeita demais. O comentário era baixo, quase um murmúrio, mas Allan ouviu nitidamente. Ele ergueu uma sobrancelha, mantendo a compostura, e caminhou até a bancada onde Flávia estava. A medida que se aproximava, os alunos se calaram um pouco, conscientes de sua presença. — Bom, você aí, fazendo piadinhas... — Allan disse, com a voz firme, mas sem elevar o tom. — Me dá a dica da fórmula disso aqui. O rapaz engoliu em seco, surpreso com a rapidez e precisão da resposta de Allan. Ele se virou, hesitante, e apontou para o exercício que Flávia estava resolvendo com perfeição. Flávia, levemente corada, ergueu os olhos para Allan, e ele se permitiu apenas um instante de observação: os traços firmes da mão escrevendo a fórmula, os dedos ajustando a régua, o modo como ela parecia completamente absorvida no que fazia. Allan não precisava de mais nada para perceber que ela tinha uma dedicação rara, quase fora do comum para alunos de primeiro semestre. — Perfeito — disse Allan, apontando para o exercício resolvido. — Parece que você não apenas entendeu a teoria, mas aplicou de maneira impecável. Flávia desviou rapidamente o olhar, tentando esconder a timidez. Mas, dentro de si, sentiu uma estranha mistura de orgulho e nervosismo. Ela já tinha percebido que Allan a notava de uma forma diferente, e momentos como aquele reforçavam essa sensação, mesmo que não soubesse exatamente por quê. Enquanto isso, o restante da turma continuava movimentando-se pelo laboratório, alguns reclamando baixinho das fórmulas complicadas, outros ajudando colegas que se atrapalhavam com equipamentos. Allan percorria o laboratório, observando cada aluno, mas seus olhos sempre encontravam Flávia, de maneira discreta, analisando a dedicação, a atenção e a forma como ela se concentrava, absorvendo cada explicação e aplicando imediatamente o conhecimento. Quando a aula prática terminou, os alunos começaram a guardar os materiais e a se organizar para a saída. Flávia arrumou sua bancada com cuidado, ainda refletindo sobre o comentário do colega e a reação firme do professor. Ela sabia que era esforçada, mas nunca esperava que alguém percebesse de forma tão clara. "Será que ele realmente percebeu que eu sou bolsista? Ou está me olhando de um jeito diferente?" — pensou. Mas, imediatamente, se corrigiu: “Não, não devo imaginar nada demais. Professor é professor. Só estou sendo observada por causa da aula.” Allan, por outro lado, voltou para sua mesa de materiais e sentou-se por alguns minutos, refletindo. A dedicação dela não passava despercebida, e a forma como se concentrava, absorvendo o conteúdo de maneira quase perfeita, chamava sua atenção de uma maneira que ele não esperava. Ele fechou os olhos por um instante e respirou fundo, tentando afastar pensamentos que não deveriam surgir naquele contexto profissional. E assim, a primeira aula prática terminou, com a rotina da faculdade de engenharia estabelecendo o ritmo do semestre: fórmulas complexas, cálculos detalhados e a presença silenciosa de uma aluna que despertava mais atenção do que qualquer outra. O semestre seria longo — seis meses de aulas, trabalhos, provas e projetos — e, naquele ritmo intenso, cada olhar, cada observação e cada gesto de dedicação iriam se tornando parte de algo maior, mesmo que ninguém ainda tivesse percebido.
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