A noite caiu pesada, quente, típica de morro. Eu me arrumei devagar no meu quarto, escolhendo a roupa com cuidado. Não era pra parecer vulgar, não. Era pra parecer perfeita. Vestido curto, rodado, que marcava a cintura e dava movimento quando eu andava. Cabelo solto, batom cor de boca, perfume doce que grudava na pele e na memória. Olhei pro espelho uma última vez. — Hoje eu vou amarrar ele de vez… — murmurei. — Ele vai ficar tão dependente que não vai saber mais viver sem mim. Desci as escadas devagar. Minha mãe tava na sala vendo televisão. — Vou ali na casa da vizinha, mãe, já volto. — Vai logo, menina, e não fica até tarde não. — disse ela sem nem olhar direito. — Pode deixar. Saí. E ele tava lá. Encostado no portão, na sombra, me esperando. Assim que me viu, o corpo dele mudo

