Capitulo 3

1121 Words
Capitulo 3 ****** Violeta Harvey Minha barriga protestou de fome. Estendi as mãos diante de mim mesma e as vi trêmulas. Meu cérebro não trabalhava para identificar há quanto tempo eu me via sem comer. Mais de quatro horas, talvez. Já se passara mais ou menos um mês depois da morte da Molly. Alguns acreditaram mesmo que fui eu, vê se pode! E o resto do pessoal, que conseguia pensar de verdade acreditava em minha inocência. Porém, isso nem de perto era o suficiente para me tirar deste calabouço. A cada dia que se passava, à dona Meire vinha aqui despejar todo o seu ódio e amargura em cima de mim, toda sua ira e a raiva que sentia de mim. Eu fingia não escutar, e segurava a língua para não dizer nada. Afinal, ela tinha perdido a filha, por mais que a mesma fosse..o que ela era. A dona Meire a amava, eu nunca a vi demonstrar tanto afeto e carinho por outra pessoa. Pensando bem, os únicos indícios que apontavam contra mim era a porta arrombada e o falso testemunho que aquela garota fizera, somente isso. E sua mãe caiu direitinho. Quando você pensa que não piora, piora sim. A todo instante eu me lembro da Molly, o modo como estava caído sem vida ao chão, a crueldade que fizeram com ela, a aflição e indignação de sua mãe, como se aquele sentimento tivesse impregnado no ar. O desentendimento de algumas pessoas, e a ficha caindo para outras. Por mais que a mesma fosse daquele jeito, ela não merecia, ninguém merecia morrer daquela forma. E o que era mais desconcertante, perturbador, tirando meu sono e trazendo um medo surreal eram duas simples perguntas. "Quem arrombara a porta"? "E quem a matou"? Saí de meus devaneios quando uma velhinha, de cabelos brancos amarrados, entrou pela porta (outra porta e de ferro agora), com uma bandeja de comida e uma lanterna. Aqui não tinha luz, a única que entrava era a da lua. Ela apontou o claro forte da lanterna em minha cara. Gemi, fechando com força os olhos. - Ai, vovó! - Olá.-vi seus olhos claros através dos óculos de grau. Em seguida, disse. - Sei que te acusaram injustamente. Não tinha a mínima possibilidade daquela tragédia ter sido feito por você.-ela fez uma pausa. - Quando as crianças me contaram o que tinha ocorrido, achei um absurdo o que ela fez com você. O caso chocou a cidade inteira, mas o que passou nos jornais é que ela apenas fora morta e que não tinha suspeitos, nada além disso.-sua voz saiu bem baixa e firme. Ela abaixou-se perto de mim e me estendeu a bandeja nas mãos. - Obrigada por acreditar em mim. A dona Meire, como a senhora deve saber, só está fazendo isso porque me odeia. Embora, no fundo saiba que não cometi aquela barbaridade contra sua filha. Ela balançou a cabeça. - Bem, vou deixar você sozinha. Coma tudo.-falou, já afastando-se. Minha única esperança de sair daquela prisão estava indo embora. - Não, espera.-baixei meu tom de voz, que saira um pouquinho alto demais. - A senhora tem que me ajudar a sair daqui, por favor! Eu imploro. - Não posso, filha. A dona Meire mandou cercar o orfanato com vários seguranças e a mesma me encarregou de ficar com todas as chaves de todos os cômodos do orfanato.-parou para respirar. - Hoje é meu primeiro dia aqui como cozinheira. Amanhã irei denunciar o que ela está fazendo com você. - A senhora promete?-arregalei os olhos, e quando a mesma assentiu que sim, corri para abraçá-la. Isso ela não esperava. - Tenho que ir, fique com isso, sei que vai precisar.-deixou a lanterna em minhas mãos, e um meio sorriso branco em seus lábios, ocultando seus dentes. Se retirou, fazendo um breve aceno com a cabeça, antes de me trancar novamente. Olhei para a bandeja e estava caprichada com pães, suco, frutas, legumes e água. Não preciso nem contar que aquilo foi a coisa mais maravilhosa do mundo né? Depois de quase comer a bandeja e eu não estou exagerando fiquei pensando em minha liberdade no dia seguinte. A bruxa da Meire seria despedida e eu nunca mais voltaria a ser presa nesse lugar. Ninguém voltaria. Que velhinha boa. Pensei e sorri. Ela era um anjo que vinhera para me salvar. ******* - Caramba. De novo! Quem está aí?-falei, atordoada, após ouvir um barulho vindo do lado de fora. Pela brecha que a porta proporcionava devia ser muito tarde da noite. Eu odeio a noite. Ela é terrível. - Será a velhinha novamente?-perguntei a mim mesma, desejando que fosse. O rangido da porta nova de metal se abrindo ecoou sobre o lugar lamentável em que eu me via. Levei minha visão até a a******a e vi outra violeta. Não, não, não! Dessa vez não era um sonho ou algum tipo de alucinação, era real demais para isso. E lá estava, mais uma vez, outra violeta cheia de sangue. Levantei-me do chão e fui caminhando em passos calmos até ela. Quando inclinei meu corpo para pegá-la, uma pessoa apareceu de supetao em minha frente, que fez com que eu recuasse caindo sentada no chão. O cara do pesadelo... Olhei para ele sem reação. Sua máscara não me permitia ver se em seu rosto estava uma expressão divertida ou com dó do meu medo. Passaram-se segundos em um silêncio fatalmente perturbador até que comecei a ouvir gritos ao longe. De novo não. Ele ergueu-se e apanhou a rosa, vindo até mim. Meu coração parecia que ia parar de bombardear meu sangue. Não era possível. - Levante.-sua voz, levemente rouca saiu resistente, com uma entonação de comando. Sem saber o que fazer o obedeço. Peguei a rosa de suas mãos e arfei. O sangue dela preencheu minhas narinas com o odor. Ele recuou para trás e fez um sinal sugestivo com a cabeça, como se pedisse para que eu olhasse na direção de onde vieram os gritos. Tomei fôlego e fui Mr aproximando dele, então olhei. Seria melhor se não tivesse olhado. A flor caiu de minhas mãos. - Te d****o boa sorte, Violeta.-disse aproximando-se e enfatizando o meu nome. Andei para trás, para longe dele, e o mesmo me deu as costas e trancou a porta novamente. Gritei e gritei na esperança de que alguém ouvisse. Quando minha garganta ardeu e a voz saiu rouca, parei. Tinha muito fogo por todo o orfanato. Alguns minutos, ou horas se passaram e eu já conseguia sentir o forte cheiro de fumaça tomando todo o meu oxigênio. Me apoei na parede e me sentei, colocando a cabeça entre as pernas. Encolhi-me o quando pude. Meu choro abafado saía com lágrimas quentes.
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