Capítulo 5
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Edward Marx
Seus olhos se arregalaram de leve, então tirei minha mão. Até considerei a chance de soltá-la, só que era melhor não fazer isso agora.
Eu precisava dar um pequeno susto nela, para que jamais pensasse em tentar me intimidar novamente. Depois do que eu fizesse, com certeza ela não iria.
Suspirei e passei as mãos nos cabelos, conduzindo-me até o banheiro para tomar banho. O cheiro de fumaça ainda estava impregnado em mim. Quando saí vesti uma calça jeans manchada e uma camisa básica azul cobalto. Peguei minha faca e saí.
Desci para o andar de baixo e dei a volta indo até a garagem. Enquanto dirigia passava-se mil e uma maneiras de como iria m***r a Violeta.
Entre as milhares de possibilidades, eu tinha algumas torturas em mente. Cortar as pontas de seus dedos com a faca. Cortar na altura do queixo seus longos cabelos castanhos e depois fazer algumas cicatrizes em seu pescoço. Fazer um corte profundo em um de seus pulsos. Furar seus lábios e ver o sangue escorrer. Essas eram bem leves, mas uma macabra e um pouco esquisita eu tinha em mente. Cortar as extremidades de seus s***s. Essa era fantástica, um pouco macabra admito, mais fantástica.
Verifiquei a hora, quase sete da noite.
Eu já estava no centro da cidade a procura de alguém. Foi aí que direcionei minha preciosa atenção a uma casa noturna, que ao longe podia-se ouvir a música alta vinda de dentro e um pequeno movimento de pessoas que já começavam a chegar. Na calçada tinha algumas mulheres, que conversavam e riam umas para as outras.
Cheguei bem perto, parando o carro ao lado do meio fio. Baixei o vidro e elas aproximaram-se rindo e murmurando algo entre elas. Foi nessa hora que percebi que não eram tão velhas, eram bem jovens. E bonitas.
- Olá. Está perdido?-a ruiva disse, o cheiro de álcool me atingiu em cheio.
Suspirei.
- Não. Estou à procura de uma coisa.-elas vinheram mais para perto.
- Hm, e o que é? A gente pode saber?-uma morena que parecia ser a mais nova do g***o disse, sorrindo.
- Diversão.-dei um sorriso. - Querem se divertir?
Elas se entreolharam e sorriram. Cada uma com um olhar bem sugestivo. Eu até iria me divertir sim, se não tivesse vindo com outro propósito.
- Não é tão fácil assim, será que você dá conta de nós cinco? Cadê os seus amigos?-a ruiva voltou a interrogar em um tom sarcástico. Arqueando as sobrancelhas.
- Só fazendo o teste pra saber. E não estou acompanhado de amigos hoje porque quero me divertir sozinho.-ouço as meninas gargalharem com minha resposta. Depois não medem esforços e entram no carro.
Na mosca! Tão fácil assim, crianças?
Cheguei a pensar se Violeta tomaria a mesma atitude que elas, provavelmente não. Pelo que pude perceber, ela não era desse tipo.
Eu nunca tinha ouvido uma conversa tão...feminina entre mulheres. Durante nosso percurso, elas falaram sobre descoloração de cabelo, que batom vermelho não combinava com sombra rosa, roupas quentes, silicone nas pernas e anticoncepcional.
A que ponto elas eram tão burras? Em certo ponto eu até compreendia, estavam embriagadas, claro. Mas deviam saber que não se pode confiar em estranhos, nem sóbrias, nem bêbadas.
- Pra onde estamos indo?-uma que não reparei bem perguntou.
- Minha casa.
- Ai, tô com tanta gastura!-uma delas, que não vi quem foi afirmou.
- Não vomita no meu carro. Ou eu te faço engolir tudo o que sair de dentro dessa boquinha.-falei sério. Mas fosse o que eu dissesse, só conseguia risos escandalosos da parte delas.
- Você pode baixar o vidro? Por favor!-ela levou sua mão a boca.
- Já estamos chegando.
Desliguei o carro e guardei a chave no bolso. Elas saíram do veículo abismadas. Escutei alguns murmúrios dizendo o quão estranho era morar no meio de uma floresta. Devo rir ou devo ter pena? A escolha é de vocês.
- Nossa, porquê você mora em uma floresta?-fui até a porta para abri-la.
- Não interessa. Venham! Não trouxe vocês aqui para ficarem me interrogando.-elas entraram sem hesitar. Fechei a porta diante de mim e virei-me para encará-las.
- Então meu bem, o que vamos fazer primeiro?-uma delas perguntou e aproximou-se devagar. Senti sua mão deslizar sob meu abdômen.
Segurei seu braço com força e o levantei para cima. Isso a fez querer recuar e sair do meu toque, mas não deixei.
- Eu tenho alguns joguinhos. As meninas gostam de brincar?.-sorri. Olhei para as outras que já se aproximavam entusiasmadas.
- Muito.-uma falou e as outras concordaram com a cabeça.
Só bastou essa simples confirmação para que todo o meu teatro acabasse. Então, meu ouvido foi invadido por seus gritos estridentes.
- Calem a boca, ca**lho!
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Violeta Harvey
Quando os raios de luz solar começaram a desaparecer pelas lacunas da parede, imaginei em que lugar estaria. Onde estaria cercada, e até que ponto minhas chances de fugir e sobreviver me permitiriam. Ele disse que não ia me m***r, não agora. Então tinha planos para mim. Caso surgisse a oportunidade eu fugiria. Mesmo que isso me custasse a vida, eu tinha que tentar.
Nunca passou pela minha cabeça em como minha vida tomaria um rumo tão inesperado em vinte quatro horas.
Meu coração errou uma batida quando escutei gritos de mulheres vindos lá de cima. Eram aterrorizantes. Pedidos de socorro. Uma tremedeira decidiu aflorar em minhas mãos e em meus lábios. Aos poucos, tudo foi ficando silencioso. Já previ o pior: a próxima era eu.
O porquê desse joguinho, eu não fazia ideia.
- Tudo bem, tudo bem.-falei respirando. - Vai ficar tudo bem.-lembrei que uma vez no orfanato, se reuniu eu e mais outras meninas para escrever poemas, cada uma escreveria o que achasse mais interessante. Eu escrevi sobre a dança, no quanto a achava interessante e consoladora e minha amiga Cecília, que foi adotada alguns dias depois, escreveu sobre a morte. Achei um pouco clichê, mas bem interessante. Uma estrofe que ficou marcada em mim, foi a seguinte.
"Quando a vida se cansar de mim, irei a sua procura
Quando ela pisar em mim e eu não aguentar, você me acolherá
Vou admitir, eu tenho medo de ti
Por isso, vou criar coragem e despertar o herói que há dentro de mim"
- Desperte o seu herói.-murmurei seguidas vezes, como um mantra. Era inútil, mas eu tinha que me agarrar a alguma coisa. Nem que fosse a uma simples frase motivadora.
Escutei os passos pesados se aproximando. A porta abriu-se e vi a sua silhueta bem contornada. Engoli em seco quando ele avançou dentro da escuridão. Essa noite não tinha luz, acho que até os astros sabiam como eu me sentia: sem luz.
- Vou tirar suas correntes. Não tente fugir.-ah, mas eu ia tentar caso houvesse uma oportunidade, com certeza. - Venha comigo.-disse ele. O que quer que estivesse me esperando não era bom. Não era nada bom.
A cada passo um rangido na madeira velha e empoeirada da escada. Com isso, uma nova maneira de pensar em minha morte.
- Eu tirei as correntes de seus pés, então ande depressa antes que eu ponha de novo e faça você andar com elas.
Minha mente gritou. Assassino! Assassino!
Passamos por um corredor e depois subimos outra escada. Saímos perto da sua cozinha. Indo para algum lugar que eu não sabia qual. Quando chegamos no que supus ser sua sala de estar, minhas pernas fraquejaram. Meus olhos pareciam não acreditar no que viam e o meu cérebro demorou a entender que aquilo estava acontecendo e que era verdade.
Ele saiu de trás de mim, e me dei conta de que não estava respirando.
Das cinco garotas que estavam desfalecidas no chão, uma eu conhecia de vista, era do colégio. Nunca tinha visto tanto sangue. Meu estômago embrulhou com aquilo. O problema na verdade, não era o sangue em si. Eu já tinha visto muito nas aulas de zoologia, tinha derramado um pouco na minha folha de anotações, o que fez com quê a professora quase zerasse minha nota. Tá legal. Aquele sangue na minha frente era humano, completamente humano. Comparar com sangue de animais não ia ajudar em nada.
Desviei o olhar dos rostos das garotas e tentei não pensar.
Quando ele se pós na minha frente, quase dei um pulo para trás.
- Limpe!-disse, entregando-me um enorme saco plástico preto e alguns produtos de limpeza.
Ele não podia estar falando sério.
Meu olhar perpassou dele para as garotas. Inspirei fundo.
- Está s***a? Eu disse para você limpar.-ele deu um passo para frente, e eu recuei dois.
- Não.-sussurrei baixo.
- Dá pra falar com a boca?-grunhiu impaciente.
- Não vou fazer isso!-falei alto o bastante. Me esquivei para o lado, e comecei a correr pela casa pedindo por socorro. Bati em uma janela escura, pensei que tinha algo lá fora bloqueando minha visão, mas então percebi que aquilo era só o escuro. Quando o vi se aproximando, dei a volta e peguei um vaso de...acho que era porcelana, e falei, quase sem ar:
- Se se aproximar de mim, eu quebro o seu..vaso.-suas sobrancelhas franziram tanto que quase alcançaram a testa, e ele balançou a cabeça para os lados. Então desatou a rir.
Ótimo, ele me ameaça de morte e eu ameaço quebrar seu vaso. Pensei quais alternativas eu tinha, e então joguei com toda força que reuni.
Ele se chocou contra seu peitoral e caiu. Suas gargalhadas sumiram. Ele olhou para os cacos no chão, e depois para mim, boquiaberto, como se não acreditasse que fui capaz de fazer aquilo.
- Era um vaso bem antigo, sabia?-ele não perguntou para que eu respondesse, mas para que eu soubesse. - Gastei...Hm...Não lembro bem quanto gastei nessa m**da, só sei que custou uma grana alta.
Ele começou a vir devagar até mim, e eu me afastei. Ele parou me repreendendo com o olhar, como se dissesse: Se der mais um passo, será seu último.
Então forcei os músculos das minhas pernas a pararem. Se movendo rápido, ficou só meu coração, reclamando para eu não me entregar assim, tão fácil. Não ousei olhar para cima, com medo de que a última coisa que eu visse fosse aquele par de olhos ardentes, tão azuis quanto o céu.