Confissões de uma mãe

993 Words
Guilherme não conseguia ficar parado. Já estava há alguns dias naquela casa, cercado de conforto que não lhe pertencia, de seguranças silenciosos que nunca sorriam. Do quarto à sala, tudo parecia impecável demais, limpo demais. Naquela tarde, enquanto caminhava pelos corredores, notou pela janela a movimentação de dois homens armados. Postura de soldados, não simples vigias. Seu peito apertou — aquilo não era uma casa qualquer. Curioso, seguiu adiante. Até que parou diante de uma porta grande, de madeira escura, diferente das demais. Estava entreaberta. Respirou fundo, e empurrou com cuidado. O cheiro de couro e papel antigo tomou o ar. Era um escritório. Estantes altas, repletas de livros; uma mesa robusta, carregada de papéis organizados e pastas fechadas. Mas o que chamou atenção foi o porta-retrato. Ele se aproximou. Na foto, Sol sorria ao lado de um rapaz alto, loiro, olhos verdes intensos. O sorriso dele parecia vivo, quase real. Guilherme segurou o porta-retrato, analisando os traços, até que sentiu um arrepio. Aqueles olhos… havia algo familiar. Algo que lhe lembrava outra pessoa. Havia também uma segunda foto do mesmo rapaz sozinho, jovem, radiante. Guilherme apertou os olhos, tentando encaixar aquela lembrança distante. — Bonito, não é? A voz de Sol rompeu o silêncio atrás dele. Guilherme se virou sobressaltado, quase derrubando o retrato. Ela entrou no cômodo com calma, mas o olhar estava mais sombrio do que em qualquer outro momento desde que o conhecera. Caminhou até ele e tomou o porta-retrato de suas mãos. — Meu filho. — disse, a voz grave, quase embargada. Guilherme ficou sem reação. Apenas aguardava, como se ela fosse completar sozinha. — Ele… se apaixonou uma vez. Amou como poucos homens são capazes de amar. — Ela fez uma pausa, olhando fixamente para a imagem do rapaz. — Mas esse amor… foi também a sua sentença de morte. Guilherme franziu a testa. — O que aconteceu? Sol respirou fundo, o olhar perdido. — Ele foi morto pela mesma mulher que jurou amar. — disse com frieza. — Loucamente… até o último instante. O silêncio caiu pesado no escritório. Guilherme engoliu seco, o coração acelerado. Não sabia o que responder, mas aquela revelação parecia esconder algo muito maior. Sol ajeitou o retrato de volta sobre a mesa, encarando-o com intensidade. — Alguns amores não trazem vida, Guilherme. Trazem apenas destruição. Ela se virou, caminhando até a porta. Antes de sair, deixou no ar: — É por isso que estou te protegendo. E o deixou ali, sozinho, com um peso no peito e mil perguntas na mente Fazia uma semana desde que Maria deixara o hospital. O corpo ainda frágil, os passos contidos, mas os olhos buscavam força nos detalhes simples da rotina. Bruno a mimava como sempre fizera, mas era Milena quem surpreendia. A Soberana, temida e fria, parecia ter se tornado algo mais próximo de uma mãe comum. Preparava o chá, ajeitava os travesseiros, vigiava as refeições da filha como uma enfermeira dedicada. Naquela tarde, a chuva fina escorria pelas janelas da casa. Maria estava sentada na cama, com uma manta sobre as pernas, quando Milena entrou silenciosa. Trazia nas mãos uma xícara fumegante. — É de camomila. — disse, colocando a xícara sobre a mesinha. — Vai ajudar a descansar. Maria a observou com um receio misturado à ternura. Sabia do temperamento da mãe, do peso que carregava, mas também sentia que havia algo diferente nela desde o susto no hospital. — Mãe… — começou hesitante — por que você é assim comigo? Uma hora brava, outra hora… tão doce? Eu não entendo. Milena se sentou na beira da cama, respirou fundo e encarou a filha. Seus olhos, que tantas vezes transmitiam dureza, agora estavam marejados. — Porque eu tenho medo, Maria. — confessou. — Um medo que nunca me deixou, desde a adolescência. Maria franziu o cenho. — Medo de quê? Milena abaixou a cabeça, os dedos entrelaçados como se buscassem firmeza. Quando falou, sua voz estava embargada: — Eu já perdi um filho. — A frase saiu como uma lâmina cortando o ar. — Eu tinha dezesseis anos… e estava grávida de três meses. Era do Bruno. Maria arregalou os olhos, surpresa. Milena prosseguiu, sem dar tempo para perguntas: — Eu era só uma menina, mas achava que o mundo podia ser meu. E de repente, tudo desmoronou. O bebê se foi antes mesmo de eu conhecer o som do choro dele. — Fechou os olhos, respirando fundo. — Aquela dor me moldou, Maria. Foi o ferro quente que me tornou quem eu sou hoje. O silêncio pesou no quarto. Maria sentia o coração apertado, uma mistura de empatia e choque. — Mãe… — murmurou, segurando a mão de Milena. — Eu não sabia… Milena apertou os dedos da filha com força, como se tivesse medo que ela desaparecesse também. — Eu guardei essa dor a sete chaves,não gosto de tocar nesse assunto… mas quando vi você sangrando, no meu colo, eu voltei a ter dezesseis anos de novo. Voltei a sentir tudo. O desespero, a impotência… — sua voz falhou, e lágrimas rolaram, coisa rara para quem era conhecida como a Soberana. Maria deixou as próprias lágrimas caírem, e pela primeira vez não se sentiu só diante da mãe. — Mãe, eu… eu vou cuidar de mim. Eu juro. — disse, engolindo o choro. — Mas eu também preciso que você confie em mim. Que me veja como alguém que pode escolher… que pode amar. Milena a encarou longamente, como se as palavras da filha fossem difíceis de aceitar. Ainda assim, assentiu levemente, enxugando as lágrimas com a mão livre. — É difícil, Maria. Você é tudo o que eu tenho. Tudo. — sussurrou. — E o medo de te perder me faz cometer erros… erros que te machucam. As duas se abraçaram. Foi um abraço carregado de dor antiga e esperança nova, o tipo de gesto que não apaga o passado, mas abre uma pequena fresta para o futuro.
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