CAPITULO 1 GENERAL

1832 Words
CAPÍTULO 1: O SOL QUE MORREU AO MEIO-DIA ARTHUR (O GENERAL) Dizem que o inferno é um lugar de fogo, mas para mim, ele começou com um domingo ensolarado e o cheiro de café fresco. Há exatamente um ano, eu ainda era um homem que acreditava na vida. Eu era Arthur Garcia, o dono do Morro do Jacaré, sim, mas eu tinha uma âncora que me mantinha humano: Samantha e Letícia. Naquela manhã, o morro estava estranhamente calmo. O vento trazia o som das primeiras músicas de domingo das vielas, e eu estava na varanda da nossa casa, observando Samantha terminar de arrumar nossa filha. Letícia tinha cinco anos. Ela era a minha miniatura, exceto pelos olhos, que tinham a doçura infinita da mãe. Ela usava um vestido rosa e segurava uma Bíblia infantil com as mãozinhas gordinhas. Samantha, aos 27 anos, era a luz que guiava o meu caos. Ela acreditava em milagres, em orações e em um Deus que, segundo ela, tinha um plano até para um homem como eu. — Arthur, você não quer mesmo ir conosco? — Samantha perguntou, ajeitando o laço no cabelo da pequena. — O pastor vai falar sobre o poder do perdão. Eu sorri, encostado no batente da porta, segurando uma xícara de café. No meu coldre, a pistola estava travada, mas presente. — O perdão não paga as contas do morro, Sam. Mas eu vou estar aqui quando vocês voltarem. Vou preparar aquele churrasco que a Letícia gosta. — Promete, papai? — Letícia correu e abraçou minhas pernas. — Prometo, princesa. O papai nunca quebra uma promessa para você. Acompanhei as duas até o carro blindado. Dei um beijo em Samantha — o último que eu sentiria em toda a minha existência — e acenei até o veículo sumir na primeira curva da descida. Eu não sabia que estava acenando para a minha própria alma. Duas horas se passaram. Eu estava no escritório, conferindo as planilhas do faturamento das bocas, quando o silêncio foi cortado pelo toque estridente do meu celular pessoal. O visor mostrava o nome de Vitor, meu braço direito. O homem que eu tirei da lama, que eu chamei de irmão, que foi padrinho da minha filha. Atendi com um sorriso. — Fala, Vitor. Algum problema na divisa? A voz que veio do outro lado não era a do meu amigo. Era a voz de um carrasco. “Arthur... preste muita atenção. Eu cansei de ser o segundo. Cansei de ver você gastar dinheiro com caridade e escolta para mulherzinha enquanto a gente podia estar dominando o Rio. Eu estou com a Samantha e a Letícia.” Meu coração parou. Literalmente. Senti um choque elétrico percorrer minha espinha, paralisando meus pulmões. — Vitor, que p***a de brincadeira é essa? — eu sibilei, o suor frio já brotando na minha testa. “Não é brincadeira, General. Venha para o Galpão 4 do Cais. Sozinho. Se eu ver a sombra de um vapor seu, eu começo pela pequena. Você tem vinte minutos. O relógio está correndo.” A ligação caiu. O desespero que me atingiu foi algo que nenhuma palavra consegue descrever. É a sensação de ver o chão se abrir e você cair em um abismo sem fim. Peguei as chaves da moto, ignorei meus seguranças que gritavam perguntas e desci o morro como um louco. Eu não via carros, não via sinais, não via pessoas. Eu só via o rosto da Letícia. Eu implorei. Pela primeira vez na vida, eu falei com Deus. “Por favor, leva tudo o que eu tenho. Leva o morro, leva o dinheiro, me leva, mas deixa elas em paz.” Quando cheguei ao cais, o sol do meio-dia queimava, mas dentro do Galpão 4, o ar era gélido e cheirava a óleo diesel e morte. Chutei a porta de ferro e a luz que entrava pelas frestas revelou o meu apocalipse. No centro do galpão, Samantha e Letícia estavam amarradas a cadeiras de ferro. Samantha tinha sangue no lábio e os olhos inchados de tanto chorar. Letícia estava em um silêncio absoluto, um choque tão profundo que ela apenas tremia, as lágrimas escorrendo pelo rosto sujo de fuligem. — Vitor! — gritei, jogando minha arma longe, as mãos para o alto. — Estou aqui! Sozinho! Pega o que você quiser, mas solta elas! Vitor saiu de trás de um contêiner, segurando um fuzil. Outros quatro homens, que eu também considerava leais, estavam com ele. — Você ficou mole, Arthur — Vitor disse, a voz cheia de um ressentimento que eu nunca tinha percebido. — A família te transformou em um líder medroso. O Jacaré precisa de um General, não de um pai de família. — O morro é seu, Vitor! Eu saio agora! Eu pego elas e sumo do mapa! — eu implorei, caindo de joelhos no chão imundo. Eu, o homem mais temido do Jacaré, estava reduzido a um trapo, implorando pela vida de quem eu amava. Vitor caminhou até Letícia. Ele passou a ponta fria do cano do fuzil na bochecha dela. A pequena fechou os olhos e deu um soluço abafado. — O problema, Arthur... é que enquanto elas existirem, você sempre terá um motivo para lutar. E eu não quero você lutando. Eu quero você quebrado. — NÃO! — Eu tentei me lançar para frente. Pá. O som foi curto. Um estalo que ecoou pelas paredes de metal. O corpo de Letícia deu um tranco para trás. O laço rosa no cabelo dela voou. O sangue... o sangue dela espirrou no vestido branco de Samantha. Eu não consegui gritar. O som ficou preso na minha garganta. O mundo ficou mudo. Eu vi minha filha, a razão de cada batida do meu coração, tornar-se um peso morto naquela cadeira de ferro. Vitor não me deu tempo para processar o fim do mundo. Ele virou o cano para Samantha, que gritava um som inaudível por trás da mordaça. Pá. Pá. Dois tiros no peito. Ela desabou. Vitor riu uma risada que eu ouviria em cada pesadelo pelo resto da minha vida e fugiu com seus homens pelos fundos do galpão. Eu me arrastei. Meus joelhos sangravam no concreto, mas eu não sentia. Cheguei até Samantha. Desamarrei suas mãos com dedos trêmulos e a puxei para o meu colo. Ela ainda tentava buscar o ar, o sangue borbulhando em sua garganta. — Arthur... — ela sussurrou, a voz carregada de uma agonia insuportável. — Não... não entre na escuridão. Deus... Ele sabe... Procure o seu caminho... — QUE DEUS, SAMANTHA? OLHA O QUE ELE FEZ! — eu urrei, as lágrimas finalmente explodindo, misturando-se ao sangue dela. — ONDE ESTAVA A MÃO DELE QUANDO O VITOR ATIROU NA NOSSA FILHA? Ela apertou minha mão com a pouca força que lhe restava. — Eu... te amo... E então, o brilho nos olhos dela se apagou. Samantha morreu nos meus braços, me deixando com o cadáver da nossa filha e um vazio que nenhuma droga ou poder conseguiria preencher. Fiquei ali, sentado no chão daquele galpão, com o corpo da minha esposa e da minha filha sobre mim. O sol continuava a brilhar, ignorando a carnificina lá dentro, e aquele calor na pele era a maior das ofensas. O mundo não parou. O céu não desabou. E isso era o que mais doía. Arrastei-me até a cadeira onde Letícia estava. Meus dedos, costumados a apertar gatilhos e contar pilhas de dinheiro, agora tremiam como os de uma criança. Desatei as cordas que prendiam aquele corpinho frágil. Ela estava leve. Tão leve que parecia que sua alma, ao partir, tinha levado todo o peso que ela um dia teve. Puxei-a para o meu peito. Encaixei a cabeça dela no meu pescoço, exatamente como fazia quando ela tinha pesadelos e corria para a nossa cama. Mas desta vez, não havia respiração. Não havia o cheiro de shampoo de morango. Havia apenas o cheiro metálico e quente do sangue que encharcava a minha camisa. — Acorda, princesa... — eu solucei, minha voz saindo como um guincho de um animal ferido. — O papai tá aqui. Eu prometi, lembra? Eu prometi que ia fazer o churrasco... levanta, Letícia. Por favor, levanta! Gritei o nome dela até minha garganta arder, até minhas cordas vocais sangrarem. Mas o silêncio dela era absoluto. Era um silêncio que me esmagava. Levantei-me com dificuldade, as pernas vacilando sob o peso da minha tragédia. Com Letícia nos meus braços, eu caminhei em direção à luz. Quando chutei a porta do galpão e saí para o pátio, o brilho do sol de meio-dia me cegou por um instante. Olhei para cima. O céu estava azul, limpo, sem uma única nuvem. Um dia perfeito para quem tinha esperança. Um insulto para quem acabava de ser destruído. — OLHA O QUE VOCÊ FEZ! — eu urrei para o alto, minha voz ecoando por todo o cais deserto. — VOCÊ ESTÁ OLHANDO, SEU COVARDE? Caí de joelhos no asfalto quente, ainda abraçado ao cadáver da minha filha. Eu balancei o corpo dela de um lado para o outro, em um ninar macabro, enquanto minhas lágrimas lavavam o rosto dela, misturando-se ao sangue que já começava a secar. — ONDE VOCÊ ESTAVA? — eu gritava para o céu, minha face retorcida em uma máscara de agonia e ódio puro. — Ela era um anjo! Ela falava de Você todo dia! Ela acreditava na Tua proteção! Por que Você não parou aquela bala? Por que Você me deixou vivo para ver isso? Eu bati com a mão livre no chão, socando o asfalto até meus nós dos dedos se abrirem em carne viva. A dor física não era nada comparada ao r***o que eu sentia na alma. Era como se tivessem arrancado meu coração com uma faca cega e deixado o buraco aberto para apodrecer. — EU TE ODEIO! — o grito saiu do fundo da minha alma, um decreto de guerra contra o Criador. — Se Você queria me punir, que me matasse! Mas elas não! Elas não! Eu olhei para o rosto de Letícia uma última vez antes que o ódio final tomasse conta de mim. A doçura dela tinha sido apagada pela crueldade do homem e pela omissão do céu. Ali, naquele pátio sujo, sob o sol que eu passaria a odiar, eu jurei. — Não existe mais Deus no meu mundo — sibilei, meus olhos agora gélidos, transformando a dor em uma promessa de destruição. — De hoje em diante, eu sou o inferno. E eu vou buscar cada um deles. Vou buscar o Vitor e vou buscar a Tua presença em cada canto desse morro, só para apagá-la. Levantei-me devagar, um homem morto por dentro. O Arthur tinha morrido no galpão. O que voltou para o Jacaré naquela tarde foi uma sombra. Um General sem exército de paz, apenas com uma sede de sangue que o mundo jamais seria capaz de saciar. O luto não me transformou em um homem triste; ele me transformou em um monstro.
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