Capitulo 3 ONDE O SILÊNCIO GRITA. ALANA

2193 Words
O sol daquela tarde de domingo era enganador. Ele brilhava sobre a Baixada Fluminense com uma intensidade que sugeria vida, mas dentro daquela casa de três cômodos, o ar estava estagnado, carregado de um pressentimento que fazia os pelos do meu braço se arrepiarem. Eu tinha doze anos. Doze anos de uma infância que já era equilibrada no fio de uma navalha, sob a sombra constante de um homem que transformava cachaça em crueldade. Eu estava no meu quarto, um quadrado pequeno com paredes descascadas que eu tentava enfeitar com recortes de revistas. Sentada sobre o tapete de retalhos que minha mãe, Marta, costurara com as sobras de sua dignidade, eu tentava consertar uma boneca de pano. A asa dela tinha se soltado. Eu sentia que, se eu pudesse consertar aquela boneca, talvez pudesse consertar o clima pesado da casa. Na cozinha, o cheiro do guisado de carne um luxo para aquele final de mês borbulhava. Era o cheiro da esperança de um jantar em paz. Mas a paz era uma visita que nunca se demorava na nossa porta. O som começou com o ranger do portão de ferro. Depois, o baque pesado de botas que não tentavam esconder sua chegada. Caio. Meu padrasto. O homem que a vizinhança respeitava por medo e que minha mãe tolerava por falta de saída. O som das garrafas de vidro batendo na mesa de fórmica foi como o primeiro trovão de uma tempestade apocalíptica. — Marta! Cadê a p***a do dinheiro? — a voz dele não era humana. Era um rosnado vindo de um pulmão corroído pelo fumo e pela raiva. Eu me encolhi. Abracei a boneca contra o peito, sentindo meu coração martelar contra as costelas como um pássaro preso numa gaiola prestes a ser esmagada. Pela fresta da porta, eu vi a cena que se repetiria nos meus pesadelos por décadas. Minha mãe estava de pé, as mãos sujas de farinha, o rosto pálido. — Caio, o dinheiro acabou. Foi pro aluguel e pra escola da Alana. Ela precisa de uniforme, homem! Ela tá crescendo, as roupas não servem mais! — Mentira! — ele rugiu, e o som da mão dele atingindo o rosto dela foi um estalo seco, como um galho de árvore se partindo ao meio. Minha mãe caiu, mas se levantou rápido. Ela não era uma mulher fraca; ela era uma sobrevivente que estava sendo agredida dentro da própria casa todos os dias. Ela correu para o meu quarto, trancando a porta atrás de si. Seus olhos estavam injetados de terror. Ela me puxou pelo braço, me jogando debaixo da cama de ferro. — Não sai daí, Alana. Aconteça o que acontecer, não faz barulho. Toma isso — ela enfiou um envelope amassado na minha mão. — É o que sobrou. Se ele entrar, pula a janela e corre. Vai pra casa da vizinha. Não olha pra trás. Mas eu estava paralisada. O medo não me deu asas; ele me deu correntes. A porta do quarto estremeceu. Um chute. Dois chutes. No terceiro, a madeira cedeu com um som de agonia. Caio entrou. Ele não estava apenas bêbado; ele estava possuído por uma vontade de destruir. Em sua mão direita, o brilho frio de uma pistola preta. Minha mãe se jogou na frente dele, abraçando suas pernas, humilhando-se no chão sujo. — Pelo amor de Deus, Caio! Faz o que quiser comigo, mas deixa a menina! Ela é uma criança! Me mata, mas deixa ela! Ele a olhou de cima, com um sorriso distorcido que revelava dentes amarelados. — Tu acha que eu quero teu dinheiro agora, Marta? Eu cansei da tua ladainha. O que aconteceu a seguir foi um r***o no tecido da realidade. Ele agarrou os cabelos dela, forçando-a a olhar para mim, que estava ali, encolhida, vendo tudo. Ele encostou o cano da arma no crânio dela. Eu vi o suor escorrendo pela testa dele. Eu vi o desespero final nos olhos da minha mãe ela não estava com medo de morrer, ela estava com medo de me deixar sozinha com ele. — Não! — eu tentei gritar, mas o som morreu na minha garganta. O disparo não foi apenas um barulho. Foi uma força física que deslocou o ar do quarto. O corpo da minha mãe deu um solavanco violento. Eu vi o momento exato em que a vida abandonou aqueles olhos que sempre me olharam com amor. O sangue um vermelho escuro, quente e espesso jorrou como uma fonte macabra, atingindo o meu rosto, as minhas mãos, o meu vestido. Ela desabou sobre os meus pés, um peso morto que ainda exalava o calor da vida que acabara de ser roubada. O silêncio que se seguiu ao tiro foi o pior de todos. Era o silêncio do vácuo. Caio nem piscou. Ele chutou o corpo da mulher que o amara, afastando-a como se fosse um estorvo. Ele se agachou e me puxou pelo braço com tanta força que senti meu ombro estalar. Ele me jogou sobre a cama, sobre os mesmos lençóis que minha mãe tinha lavado e passado com tanto zelo naquela manhã. — Agora você vai aprender o que é ser mulher de verdade — ele sibilou. O cheiro dele era uma mistura de morte e podridão. Eu lutei. Oh, como eu lutei. Eu não era mais uma menina de doze anos; eu era um animal acuado lutando pela sobrevivência da alma. Usei minhas unhas para cavar sulcos de sangue no rosto dele. Eu o mordi até sentir o gosto do sangue dele se misturar ao da minha mãe na minha boca. Eu chutei, eu me debati, eu usei cada grama de força que Deus me deu. Mas ele era um monstro de cem quilos de puro ódio. Ele me deu um soco no estômago que me fez ver estrelas e perder o ar. Enquanto eu tentava recuperar o fôlego, sentindo meu diafragma paralisado, ele rasgou meu vestido de missa. O som do algodão se partindo foi o som do meu coração sendo desintegrado. O que se seguiu foi uma descida direta aos círculos mais profundos do inferno. A dor não foi apenas física, embora a sensação de ser rasgada por dentro fosse insuportável, como se um ferro em brasa estivesse sendo forçado através da minha carne. A dor era espiritual. Era a sensação de ser apagada. Cada movimento dele, cada rosnado de prazer que ele soltava, era um prego sendo martelado na minha infância. Eu fechei os olhos com tanta força que as luzes começaram a dançar nas minhas pálpebras. Eu tentei me transportar para outro lugar. Tentei imaginar que eu era um pássaro voando sobre o mar, longe dali. Mas o peso dele me trazia de volta. O cheiro do suor dele misturado ao sangue da minha mãe no meu rosto criava uma náusea que subia pela minha garganta, mas eu não conseguia vomitar. Eu só conseguia sofrer. — Deus, me mata! — eu implorava mentalmente. — Por favor, manda um raio, abre o chão, para o meu coração! Eu não quero mais existir! Mas a morte não veio para mim. Ela só tinha vindo para a minha mãe. Eu fui deixada viva para testemunhar a minha própria destruição. O ato não foi rápido. Foi uma eternidade de agonia detalhada, onde eu sentia cada fibra do meu ser sendo violada por um ódio que eu não compreendia. Ele não queria apenas o meu corpo; ele queria destruir a imagem de Deus em mim. Quando ele finalmente terminou e se afastou, o silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelos meus soluços curtos e secos. Eu não tinha mais lágrimas; minhas glândulas lacrimais pareciam ter secado junto com a minha esperança. Eu estava ali, um amontoado de carne trêmula, coberta de fluidos e sangue, olhando para o teto onde uma infiltração formava o desenho de uma nuvem n***a. Ele se vestiu com uma calma que me dava mais medo do que a sua raiva. Limpou o rosto ensanguentado na cortina e saiu do quarto sem olhar para trás, trancando a porta por fora. Eu rolei para o lado e vi minha mãe. Ela estava ali, a poucos centímetros de mim. Estendi a mão trêmula e toquei o rosto dela. Já estava começando a esfriar. A poça de sangue dela tinha se espalhado, encontrando a mancha de sangue que saía de entre as minhas pernas. Naquele momento, no centro daquele tapete de retalhos, nossos sangues se fundiram pela última vez. O GRITO DO DESESPERO E A LONGA ESTRADA DA FÉ Eu não sei quanto tempo fiquei ali. Pode ter sido uma hora, podem ter sido anos. O tempo parou naquele quarto. Mas, em algum momento, o instinto de sobrevivência aquela pequena centelha que nem o d***o consegue apagar brilhou. Eu me arrastei até a janela. Cada movimento era um grito de dor que eu não conseguia soltar. Meus músculos protestavam, minha pélvis parecia em frangalhos, mas eu pulei. Caí na lama do quintal enquanto a chuva começava a cair, como se o céu tivesse finalmente decidido chorar por mim. Corri. Corri pelas vielas da Baixada, nua da cintura para cima, cobrindo-me com os restos do vestido rasgado. As pessoas fechavam as janelas. O mundo não quer ver a dor; o mundo tem medo de que a dor seja contagiosa. Eu cheguei aos degraus da Igreja Nova Vida e desabei. Foi Lavinia quem me pegou. Ela não fez perguntas primeiro. Ela me cobriu com seu xale, me levou para os fundos e lavou o meu corpo. Cada toque da água era uma tortura, mas cada palavra dela era um bálsamo. — Eles podem ter tocado na sua pele, Alana, mas eles não chegaram na sua alma. Sua alma é um jardim fechado onde só Deus entra — ela sussurrava enquanto eu gritava de dor física e emocional. A superação não veio no dia seguinte. Ela não veio em um ano. Ela veio em ondas, muitas vezes seguidas por recuos sombrios. Tentei a morte três vezes. Uma vez com remédios, outra com uma lâmina, outra com uma corda improvisada. Em todas as vezes, algo me impedia. Um vento, um pensamento, uma batida na porta. — Por que o Senhor me deixou viva? — eu gritava para o altar vazio durante as madrugadas de vigília. — Para ser um lembrete do que o m*l pode fazer? A resposta veio no silêncio de uma dessas noites: “Você ficou viva para ser o lembrete do que o Meu Amor pode reconstruir.” Comecei a entender que o estupro não era o capítulo final. O meu sofrimento era o rascunho da minha autoridade. Eu comecei a estudar. Eu comecei a falar. Eu comecei a olhar para as outras meninas da comunidade e ver o perigo antes que ele acontecesse. Eu me tornei um cão de guarda da inocência alheia porque a minha tinha sido devorada. A AUTORIDADE DA CURA Hoje, quando entro naquela igreja, eu não entro como uma vítima. Eu entro como uma sobrevivente que carrega as marcas da guerra, mas não a derrota dela. O ensinamento para a vida real é este: A dor é um fato, mas o sofrimento é uma escolha que fazemos quando permitimos que o trauma dite quem somos. Caio tentou me reduzir a um objeto de prazer e descarte. Mas Deus me pegou daquela poça de sangue e me transformou em uma coluna de fogo. Sabe o que é ter fé de verdade? Não é acreditar que o m*l não vai te tocar. É saber que, se o m*l te tocar e te quebrar em mil pedaços, Deus tem paciência para colar cada pedacinho, um por um, até que você seja mais forte nos lugares onde foi quebrada. Eu perdoei o Caio? O perdão que eu dou não é um "está tudo bem". O perdão é o ato de soltar a corda que me ligava a ele. Eu não carrego mais o peso do ódio dele nas minhas costas. Ele não sei se está na cadeia apodrecendo no sistema ou não , mas eu estou livre. A verdadeira justiça não é apenas a prisão do agressor; é a liberdade plena da vítima. Minha mãe morreu para que eu vivesse. E eu vivo cada dia para honrar o sacrifício dela. Cada vez que eu ajudo uma mulher a sair de um ciclo de violência, eu estou dizendo à minha mãe: "O seu sangue não foi em vão. Olha o que a sua filha se tornou". Ajoelhada no altar da Igreja Nova Vida, sinto a brisa entrar pela porta aberta. O sol agora está se pondo, pintando o céu de um laranja vivo, a cor do fogo que refina o ouro. Eu me levanto. Minha coluna está ereta. Meus olhos estão limpos. — Eu venci — sussurro para o universo. A dor foi grande. O grito foi desesperador. Mas a minha vida é um milagre, escrito com o sangue da resistência e a tinta da esperança. Eu sou Alana. Eu sou filha de Marta. E eu sou a prova viva de que o inferno pode até tentar, mas ele nunca consegue apagar a luz de quem decidiu que o seu destino pertence apenas a Deus.
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