A segunda-feira sempre trazia um peso diferente. Enquanto o mundo lá fora corria desesperado atrás de moedas e sobrevivência, eu e Lavinia tínhamos o nosso ritual sagrado: o dia da limpeza da Casa do Pai. O "Mercadão do Povo" tinha me liberado mais cedo, e eu troquei o uniforme de caixa por uma roupa simples de algodão e um lenço no cabelo.
O som das vassouras de palha contra o chão de cimento batido era o único ritmo que importava. Havia uma paz terapêutica em remover o pó que o vento da Baixada trazia. Eu passava o pano nos bancos de madeira, um por um, removendo as marcas de mãos suadas e lágrimas que ficaram ali no culto de domingo. Eu limpava cada banco como se estivesse curando as pessoas que sentaram neles.
Lavinia estava perto do altar, limpando os vidros das janelas. Mesmo com a idade pesando nos ombros, ela se movia com uma dignidade que me deixava em choque. Ela nunca reclamava. Ela cuidava daquelas paredes descascadas como se fossem feitas de mármore e ouro.
— Alana, minha filha... larga esse pano um pouco — Lavinia disse, limpando o suor da testa com o braço. — Vem aqui, senta comigo. O Senhor colocou um peso no meu coração pra gente conversar.
Eu parei imediatamente. Quando Lavinia dizia que tinha um "peso no coração", era porque algo profundo estava por vir. Caminhei até ela e nos sentamos nos degraus do altar, de frente para a cruz de madeira. O sol da tarde entrava lateralmente, criando um feixe de luz que iluminava as partículas de poeira que ainda flutuavam no ar.
— Você tem sido uma coluna aqui, Alana — ela começou, segurando minhas mãos. As mãos dela eram quentes e ásperas, cheias de cicatrizes de uma vida de luta. — Eu vejo como você ajuda as meninas como a Liara. Eu vejo como você encara o mundo sem baixar a guarda. Mas eu sinto que você ainda carrega uma dureza que não é só fé... é defesa.
Eu abaixei os olhos. Ela me conhecia melhor do que eu mesma.
— Eu não posso amolecer, Lavinia. Se eu amolecer, a dor entra. Se eu baixar o escudo, o que o Caio fez volta a me definir.
Lavinia deu um sorriso triste e olhou para o fundo da igreja.
— Deixa eu te contar uma coisa que o Espírito Santo me lembrou hoje. Sabe, na antiguidade, o oleiro trabalhava com o barro. É uma parábola que todo mundo conhece, mas poucos entendem o detalhe da vida real.
Ela se inclinou mais perto, a voz ficando baixa e intensa.
— Imagine um pedaço de barro bruto, tirado do chão sujo. Esse barro foi pisoteado, misturado com detritos, jogado de um lado para o outro. Ele não tem forma, não tem beleza. Assim era a sua vida naquele dia em que você chegou ao meu portão, coberta de sangue e de nojo. Você era esse barro ferido.
Eu senti um nó na garganta, mas não desviei o olhar.
— O Oleiro pega esse barro e o coloca na roda. Ele começa a moldar. Mas, às vezes, enquanto o Oleiro aperta, Ele encontra uma pedra escondida dentro do barro. Essa pedra, Alana, representa o trauma, o ódio por quem deveria cuidar e feriu, a revolta contra o céu. E o que o Oleiro faz? Ele não joga o barro fora. Ele quebra o vaso que estava começando a formar. Ele amassa tudo de novo.
— Dói ser amassada, Lavinia — sussurrei, sentindo uma lágrima solitária queimar meu rosto.
— Dói muito. Ser quebrado dói mais do que a ferida original. Mas o Oleiro só quebra para tirar a pedra que impediria o vaso de ser útil. Depois que a pedra sai, Ele molda de novo. Um vaso lindo, forte, de honra. Mas tem um segredo que ninguém te conta: depois que o vaso está pronto, ele precisa passar pelo fogo.
Ela apertou minhas mãos com força.
— O fogo do forno é o que endurece o barro para que ele possa carregar água sem vazar. Se o vaso não passar pelo fogo, ele continua sendo apenas lama seca que se desfaz no primeiro sereno. Você, Alana, passou pelo fogo. O estupro foi o seu forno. A morte da sua mãe foi o calor que tentou te transformar em cinzas. Mas, em vez de cinzas, o fogo te fez resistente.
Lavinia fez uma pausa, os olhos brilhando com uma sabedoria milenar.
— O ensinamento pra sua vida real, minha pequena, é este: O fogo não te queimou para te destruir, ele te queimou para te dar estrutura. Hoje, você não é mais lama. Você é cerâmica forte. Mas cuidado... a cerâmica forte pode se tornar quebradiça se ficar fria demais. Você não pode deixar que a sua força se transforme em um muro de gelo. O vaso foi feito para carregar algo dentro dele. Se você se fechar completamente, como vai carregar o bálsamo para as outras pessoas?
— Eu tenho medo, Lavinia. Tenho medo de que, se eu for gentil, se eu for "doce", eu me torne vulnerável de novo para monstros como o Caio.
— O monstro não venceu, Alana. O Caio tirou a sua carne, mas ele perdeu a guerra porque você se tornou essa mulher que está aqui. O ensinamento é: seja forte como a cerâmica que passou pelo fogo, mas permaneça aberta como o vaso que precisa ser enchido. Não deixe o ódio por aquele homem ditar a temperatura do seu coração. Se você viver apenas para odiar o que ele fez, ele ainda está no controle. A verdadeira superação é quando você olha para a sua cicatriz e não sente mais o nojo, sente a vitória.
Ficamos em silêncio por um longo tempo. As palavras dela eram como óleo sendo despejado em uma ferida aberta. O ensinamento sobre o oleiro e o fogo me fez entender que minha dor não foi um erro de percurso, mas uma preparação brutal para algo que eu ainda não conseguia enxergar.
— A pessoa que deveria cuidar e feriu — Lavinia continuou, olhando fixo para a cruz — ela quebrou a lei dos homens e a lei de Deus. Ela é um vaso rachado que o Oleiro descartou. Mas você... você foi reconstruída para carregar a luz em lugares onde ninguém mais tem coragem de entrar.
Eu respirei fundo, sentindo o ar entrar mais leve nos meus pulmões. A dor de ver minha mãe morta ainda estava lá, um fantasma que me visitava, mas agora eu entendia que eu era o legado de sobrevivência dela.
— Obrigada, Lavinia — falei, abraçando aquela mulher que era meu único porto seguro. — Eu vou tentar não ser tão fria. Vou tentar deixar o vaso aberto.
— Isso mesmo, minha leoa — ela beijou minha testa. — Porque o Senhor vai te levar a lugares onde o seu testemunho vai ser a única luz. E para isso, você precisa estar pronta para transbordar, não só para resistir.
Eu cutucava a cutícula do polegar até sentir o ardor da carne viva. A pergunta que estava presa na minha garganta por doze anos finalmente saiu, rasgando o silêncio do santuário.
— Lavinia... de alma para alma — comecei, com a voz embargada, sem conseguir desviar os olhos do chão. — Será que algum dia eu vou conseguir olhar para algum homem sem me sentir suja? Sem ver o rosto do Caio projetado no semblante de qualquer um que se aproxime de mim?
As lágrimas, que eu orgulhosamente segurava no mercado e na rua, começaram a inundar minha visão.
— Será que algum dia algum homem vai me tocar sem que eu sinta que estou sendo invadida de novo? — Minha voz quebrou em um soluço seco. — Às vezes eu sinto que fui marcada, Lavinia. Que o nojo que ele deixou em mim está escrito na minha testa para todos verem. Eu vejo a Silvana no mercado falando de carinho, de colo... e para mim isso parece um conto de fadas perverso. Para mim, o toque de um homem é sinônimo de destruição. Eu me sinto um vaso quebrado que, por mais que Deus tenha colado, ainda tem as marcas das rachaduras que ninguém quer tocar.
Lavinia não respondeu de imediato. Ela pegou minhas mãos trêmulas e as envolveu nas suas, que eram quentes e firmes como o porto seguro que ela sempre foi.
— Alana, olhe para mim — ela ordenou com aquela doçura que cortava como faca. — O ensinamento que eu vou lhe dar agora é para você carregar pelo resto da sua vida. O nojo que você sente não é seu. É dele. Você está carregando um lixo que o Caio jogou no seu quintal e está acreditando que esse lixo faz parte da sua terra. Não faz.
Ela respirou fundo, olhando para a cruz no altar.
— Sobre o toque... a vida real não é um filme onde tudo se cura com um estalo de dedos. O trauma daquela violência é uma marca profunda. Mas escute: Deus não restaura apenas o que foi perdido, Ele ressignifica o que sobrou. Vai chegar o dia, Alana, que o Senhor vai colocar um homem na sua frente que terá mãos tão cheias de temor que, quando ele encostar em você, não será para tirar nada, será para depositar. Será um toque de cura, não de posse.
— Eu tenho tanta dificuldade em acreditar nisso, Lavinia. Para mim, eles parecem todos iguais, prontos para atacar — eu disse, balançando a cabeça.
— Isso é o seu escudo falando, não a sua fé — ela rebateu prontamente. — O homem que deveria cuidar e foi o seu algoz, ele quebrou a sua percepção da masculinidade. Mas o erro de um covarde não anula a existência de homens de verdade. O problema é que você se fechou em um castelo de espinhos. E deixe-me lhe falar uma verdade dura: quem se protege demais do sofrimento, acaba se protegendo também da felicidade.
Lavinia se inclinou, o olhar dela parecia ler cada trauma que eu escondia sob a minha postura de mulher de ferro.
— Você me perguntou se vai se sentir suja para sempre. A resposta é: só se você continuar permitindo que aquele monstro more na sua memória. A superação real acontece quando você entende que o seu corpo é um templo que foi profanado, sim, mas o Templo de Jerusalém também foi destruído e Deus o reergueu com mais glória que o primeiro. A sua pele não está manchada. O que aconteceu foi um ato de uma b***a, e uma b***a não tem poder sobre a imagem e semelhança de Deus que habita em você.
Ela parou por um segundo e me deu o ensinamento mais forte daquela tarde:
— O toque de um homem só vai lhe trazer paz quando você permitir que o toque de Deus cure a visão que você tem de si mesma. Se você se olhar como uma vítima suja, terá sempre medo ou repelirá quem é bom. Mas se você se olhar como uma sobrevivente ungida, terá autoridade para dizer quem entra e quem fica de fora. Você não é um objeto quebrado, Alana. Você é um tesouro que foi enterrado na lama, mas que agora foi achado e limpo. A lama saiu, você precisa acreditar que o brilho voltou.
Eu chorei. Chorei o choro de quem queria acreditar, mas ainda sentia o frio daquela tarde maldita no meu quarto. Chorei pela minha mãe, que nunca veria a mulher que eu me tornei. Chorei por cada vez que eu recuei por medo.
— Vai doer o processo de confiar de novo — Lavinia continuou, limpando meu rosto com o polegar. — Mas o amor verdadeiro não sufoca, ele liberta. O amor não invade, ele pede licença. E quando esse dia chegar, você não sentirá nojo. Você sentirá que, finalmente, as chamas do forno do Oleiro terminaram o serviço e você está pronta para carregar a água da vida junto com alguém.
Levantei-me daquele banco sentindo que um peso imenso tinha sido aliviado, mas o receio ainda rondava como uma sombra na espreita. Eu sabia que as palavras da Lavinia eram poderosas, mas a prática nas ruas era um desafio constante.
— Eu vou tentar, Lavinia. Vou tentar não olhar para todo homem como se ele fosse um agressor em potencial — prometi, guardando as ferramentas de limpeza.
— Comece perdoando a menina de doze anos que não pôde lutar, Alana. Ela não teve culpa. O pecado foi daquele homem, a dor foi sua, mas a vitória pertence ao Senhor.
Saí da igreja naquele dia com a alma um pouco mais leve. No caminho para casa, passei pelo mercado e vi as pessoas vivendo suas vidas. Pela primeira vez em muito tempo, eu não senti apenas repulsa. Senti uma vontade dolorida de ser curada por completo. Será que existia mesmo alguém que pudesse tocar as minhas rachaduras sem querer me quebrar mais? Alguém que visse além das cicatrizes?