A rotina é, muitas vezes, o único trilho que impede uma alma despedaçada de descarrilar para o abismo. O sol da manhã na Baixada Fluminense não tem misericórdia; ele ferve o asfalto e faz o ar pesar, mas eu já estava de pé antes mesmo dele dar as caras. Meu dia começava no silêncio do meu quarto, de joelhos, reforçando a armadura que o mundo tentaria furar nas próximas doze horas.
Eu trabalhava no "Mercadão do Povo", um estabelecimento barulhento, com o chão de cerâmica gasta e o som constante dos bipes dos caixas. O cheiro ali era uma mistura de produtos de limpeza, pão fresco e o suor das centenas de pessoas que buscavam o sustento diário. Eu gostava do trabalho. Ele exigia foco, me mantinha ocupada e me permitia ser útil. Eu era a operadora do caixa quatro, conhecida pela agilidade e pelo olhar firme, que não se desviava nem diante do cliente mais m*l-educado.
Ao meu lado, no caixa cinco, trabalhava a Silvana. Ela era o oposto de mim: falante, usava batons vibrantes e vivia mergulhada em romances complicados que ela fazia questão de narrar entre um cliente e outro.
— Menina, tu viu o que o meu "enrolo" postou ontem? — Silvana disse, passando um fardo de refrigerante enquanto mascava chiclete. — O cara some o final de semana todo e depois posta foto em churrasco. Eu digo que vou largar, mas o coração é mole, sabe como é?
Eu apenas dei um sorriso de canto, mantendo o ritmo com as compras de uma senhora.
— Sei como é, Silvana. O ser humano é complicado.
Silvana parou por um segundo, me analisando com aquela curiosidade que já estava entalada na garganta dela há meses. O mercado estava em um momento de calmaria, o movimento das dez da manhã dando uma trégua.
— Ô Alana, papo reto aqui... eu te observo, sabe? Tu é bonita pra caramba, tem um corpo que as invejosas morrem pra ter, esse rosto de boneca... mas tu é um gelo, mulher! — Ela se inclinou sobre o balcão. — Tu nunca tá com ninguém, não sai pra um baile, não aceita um Direct, não aceita nem um café com o rapaz do açougue que vive babando por ti. Por que tu não se relaciona com ninguém, guria? Tu é tão nova pra viver trancada nessa tua bolha de igreja. Qual é o mistério?
O ar pareceu faltar por um milésimo de segundo. As mãos de Caio no meu pescoço, o peso dele me esmagando, o cheiro de álcool... as memórias tentaram subir como um refluxo amargo, mas eu as empurrei de volta para o porão da mente. Eu nunca contaria. O meu trauma não era entretenimento para o horário de almoço de ninguém. A dor que eu carregava era sagrada demais para ser jogada em conversas vãs.
— Não tem mistério, Sil — respondi, com a voz tão calma que chegava a ser desconcertante. — Eu só escolhi esperar. Deus sabe o tempo de todas as coisas. Se for para alguém entrar na minha vida, vai ser alguém que venha para somar, não para tirar minha paz. Por enquanto, eu e Deus estamos muito bem sozinhos.
— Ai, lá vem tu com esse papo de santa — Silvana revirou os olhos, mas sem maldade. — Mas o corpo pede, Alana! A gente é carne e osso. Tu não sente falta de um carinho? De um homem pra te proteger, pra te dar um colo?
Senti uma pontada de ironia no peito. Proteger. O homem que deveria ter me protegido foi o que me destruiu. O conceito de "proteção" masculina, para mim, era uma armadilha que eu aprendi a evitar com a perícia de quem sobreviveu a um campo minado.
— A minha proteção vem de um lugar que não falha, Silvana. Homens falham. Deus, não. — Cortei o assunto com o bipe de um pacote de arroz.
.....
Naquela noite, na Igreja Nova Vida, o clima estava denso, carregado de uma espiritualidade que parecia eletrizar o ar. Lavinia, minha mentora, a mulher que me ensinou que eu não era um "resto de gente", subiu ao púlpito. Ela não usava roupas luxuosas; usava a autoridade de quem já tinha sido moída pela vida e saído do outro lado com o brilho de Deus no rosto.
Eu estava no banco da frente, com a Bíblia aberta em Neemias — a história da reconstrução dos muros.
— Tem muita mulher aqui hoje que se sente como as muralhas de Jerusalém — Lavinia começou, a voz ecoando pelas vigas de ferro do teto. — Derrubada, queimada, com as portas arrancadas pelo inimigo. Vocês foram invadidas. O invasor entrou, levou o que era precioso e deixou apenas cinzas e entulho. E agora, vocês olham para o espelho e não veem uma mulher; veem uma ruína.
Eu vi várias mulheres baixarem a cabeça. O choro baixo começou a preencher os vãos entre os bancos.
— Mas escutem o que o Espírito Santo diz hoje! — Lavinia bateu a mão no púlpito, e o som foi como um trovão de esperança. — O inimigo pode derrubar o muro, mas ele não pode ser o dono do terreno! O terreno pertence ao Rei! Neemias não ficou chorando em cima dos cacos. Ele pegou o que sobrou e começou a levantar pedra sobre pedra. A sua superação, minha irmã, começa no dia em que você para de se olhar como uma vítima e começa a se olhar como uma obra em construção!
Lavinia olhou diretamente para o fundo da igreja. No último banco, Liara a jovem que eu tinha ajudado no dia anterior estava lá. Ela ainda usava o casaco pesado, escondendo as marcas da violência que sofreu do ex-namorado, mas os olhos dela estavam fixos na pastora.
O ENCONTRO COM A DOR ALHEIA: O ENSINAMENTO REAL
Ao final do culto, Liara me procurou. Ela tremia. O trauma dela era uma ferida aberta, latejando em carne viva. Nós fomos para a salinha dos fundos, o nosso pequeno "hospital de almas".
— Alana... eu não aguento mais sentir esse nojo — Liara desabou, as mãos cobrindo o rosto. — Eu tomo banho até a pele arder, mas eu ainda sinto o cheiro dele. Eu fecho os olhos e sinto que ele ainda está me tocando. Como você consegue? Como você consegue ser essa mulher forte, que ninguém dobra, depois do que passou?
Sentei-me diante dela. Peguei suas mãos e as segurei com firmeza. Era hora do ensinamento que a vida real não ensina nas escolas.
— Liara, presta atenção no que eu vou te dizer, porque isso é o que vai te manter viva — comecei, olhando no fundo da alma dela. — A primeira coisa que você precisa entender é que o que ele fez com você não é sobre quem você é, é sobre a podridão dele. Ele tentou usar o seu corpo para aliviar a própria miséria. Ele não te "tirou" nada, porque a sua essência, a sua alma, o seu valor... isso é intocável. Ele só tocou na embalagem.
Liara soluçava, o corpo sacudindo.
— O ensinamento para a sua vida, para o seu dia a dia lá fora, é este: não entregue a chave da sua mente para o seu agressor. Se você passar o dia pensando no que aconteceu, você está permitindo que ele continue te estuprando todos os dias, mesmo que ele esteja a quilômetros de distância. Você precisa retomar o controle da sua narrativa. Você não é "a menina que foi estuprada". Você é a Liara, a mulher que o m*l tentou apagar, mas que Deus decidiu acender de novo.
— Mas dói tanto, Alana... a traição de quem deveria me amar...
— Eu sei que dói. A dor de ver quem deveria cuidar se transformando no carrasco é a pior que existe. Foi o que eu senti quando vi o Caio matar minha mãe e depois avançar sobre mim. Mas a superação não é a ausência da dor; é a gestão dela. Você vai sentir dor, mas você vai dizer para essa dor: "Você não manda mais em mim".
Lavinia entrou na sala e nos abraçou. O abraço dela tinha cheiro de colo de mãe, algo que eu perdi cedo demais, mas que Deus restaurou através dela.
— Liara — Lavinia falou, com aquela voz que parecia curar feridas. — A pessoa que deveria cuidar e não cuidou, ela vai prestar contas com a Justiça de Deus e dos homens. Mas você... você tem uma vida inteira pela frente. Não deixe que o erro de um covarde defina o resto dos seus dias. Deus é especialista em pegar vasos quebrados e fazer novos. Ele não cola os pedaços velhos; Ele faz um novo barro.
Passamos o resto da noite orando e conversando. Eu ensinei a Liara exercícios de respiração para quando as crises de pânico chegassem. Ensinei ela a repetir versículos de autoridade toda vez que o nojo tentasse sufocá-la.
O ensinamento que deixo para qualquer mulher que passou por isso é visceral: A sua cicatriz é a prova de que você é mais forte do que o que tentou te matar. O mundo vai tentar te olhar com pena, mas você deve se olhar com respeito. Quem sobrevive ao inferno e volta com a cabeça erguida tem uma autoridade que nenhum fuzil e nenhum grito de homem pode calar.
Saí da igreja com a alma lavada. No caminho para casa, sob a luz dos postes fracos da Baixada, eu me sentia mais viva do que nunca. Eu não tinha um homem para me proteger, como a Silvana sugeriu, porque eu tinha aprendido a ser minha própria fortaleza sob a guarda do Altíssimo.
Eu não precisava de ninguém para validar minha existência. Eu era Alana Valença. Sobrevivente do estupro, testemunha do assassinato da própria mãe, e hoje, uma coluna inabalável na casa de Deus. O sofrimento me deu uma visão que as pessoas comuns não têm: eu enxergo o m*l de longe, e não tenho medo dele.
— Senhor — orei ao trancar a porta da minha casa simples, mas limpa e cheia de paz. — Obrigada porque o Caio tirou minha infância, mas o Senhor me deu o meu destino.