Capítulo — Escravidão invisível " Há problemas no mundo que a sociedade finge não saber, e se sabe prefere não tomar partido seja por medo ou por conforto." Açucena Termino o banho, lavo a minha calcinha e deixo pendurada no registro da torneira da banheira, saio da água, me enxugo e me visto devagar, como se cada gesto exigisse uma negociação silenciosa com o meu próprio corpo. Ao passar a mão pelos cabelos, sinto o relevo áspero sob os dedos. E para minha surpresa, descubro os pontos na cabeça. Conto um por um, com a atenção de quem tenta dar sentido ao que vê: cinco. Cinco marcas que confirmam que algo grave aconteceu, embora minha memória ainda esteja enevoada demais para oferecer respostas claras. A pergunta surge automática, quase dolorida: por que não morri? Por que a vida

