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1794 Words
A manhã seguinte nasceu fria no mundo vampiro. O castelo erguia-se no topo das montanhas negras como uma criatura antiga observando o vale. As torres altas eram envoltas por névoa prateada que jamais desaparecia completamente, mesmo durante o dia. A luz do sol raramente tocava aquelas pedras antigas — e quando tocava, parecia fraca, quase tímida. Luian despertou cedo. Não porque precisasse. Vampiros não dependiam de horários humanos. Mas ele sempre tivera o hábito de acordar cedo desde os tempos da escola vampírica. A disciplina havia ficado gravada nele como uma segunda natureza. Ele abriu os olhos lentamente e ficou alguns segundos olhando para o teto de pedra do seu quarto. O silêncio era profundo. O quarto era grande, com paredes de pedra escura e uma enorme janela arqueada que dava para o vale coberto de névoa. Cortinas vermelhas pesadas estavam parcialmente abertas, deixando entrar uma luz pálida que atravessava o quarto como um feixe fantasmagórico. Mas o que ocupava sua mente não era a paisagem. Era Lisbeth. A lembrança da discussão da noite anterior no clube ainda estava viva em sua cabeça. As palavras ditas, os olhares, o momento em que tudo havia terminado. Ele suspirou profundamente. — Ótimo começo de dia… — murmurou para si mesmo. Levantou-se da cama e caminhou até a janela. Lá fora, o mundo vampiro despertava lentamente. Criaturas atravessavam as passagens do castelo, sombras movendo-se entre torres e pátios. Alguns vampiros já voavam sobre o vale, patrulhando as fronteiras. Outros se reuniam nos pátios para treinamentos. Era um mundo organizado. Um mundo antigo. E agora, oficialmente, ele fazia parte dele como adulto. Luian havia terminado a escola vampírica semanas atrás, o que significava que agora possuía deveres reais dentro da hierarquia do reino. Não era mais apenas um estudante. Era um herdeiro. Ele passou a mão pelos cabelos escuros e decidiu vestir-se. Colocou uma camisa preta de tecido fino, calças de couro e o sobretudo longo que marcava seu status dentro da família real vampírica. Quando terminou, respirou fundo e saiu do quarto. Os corredores do castelo estavam movimentados. Servos vampiros caminhavam carregando documentos, armas ou bandejas com sangue armazenado. Guardas passavam em silêncio absoluto, sempre atentos. Assim que Luian apareceu, alguns se curvaram levemente. — Bom dia, príncipe. Ele apenas respondeu com um aceno discreto. Ainda não se acostumara completamente com aquilo. Virou um corredor e seguiu em direção à ala leste do castelo, onde ficavam os jardins suspensos. Era lá que ele sabia que encontraria sua irmã. E não estava errado. Cèlèna estava sentada na borda de uma das fontes de pedra, observando a água escura que corria lentamente. Seus cabelos prateados caíam pelos ombros como fios de luz. Ela parecia tranquila. Mas quando percebeu a presença dele, levantou os olhos imediatamente. — Dormiu m*l — disse ela. Não era uma pergunta. Luian soltou um pequeno riso. — Dá pra perceber? — Muito. Cèlèna levantou-se e cruzou os braços. Ela era bem mais nova que Luian, mas possuía uma postura muito mais calma e calculista. Enquanto ele era impulsivo, Elena era estrategista. Por isso muitos dentro do castelo diziam que, se um dia Luian governasse, Cèlèna seria a mente por trás de muitas decisões. — As notícias correram rápido — disse ela. Luian fechou os olhos por um segundo. — Eu já imaginava. — O castelo inteiro sabe que você e Lisbeth terminaram. — Fantástico. Cèlèna aproximou-se dele. — O que aconteceu? Ele demorou um pouco para responder. — Ela queria algo que eu não podia dar. — O quê? Luian olhou para o jardim, pensativo. — Compromisso imediato. Cèlèna ena levantou uma sobrancelha. — Vocês estavam juntos há quase dois anos — Exatamente. Ela soltou um pequeno suspiro. — E você não quis oficializar? — Não agora. Lèna observou o irmão em silêncio por alguns segundos. — Ou você simplesmente percebeu que não a amava como deveria. As palavras foram diretas. E acertaram. Luian passou a mão pelo rosto. — Talvez. Lèna não parecia surpresa. — Então era inevitável. O vento frio atravessou o jardim naquele momento. Luian apoiou-se na borda da fonte. — O problema não é o término. — Então qual é? Ele respirou fundo. — O problema é que Lisbeth não é apenas Lisbeth. Lèna entendeu imediatamente. — A família dela. Luian assentiu. A família de Lisbeth era uma das casas vampíricas mais influentes do reino. Um casamento entre eles teria fortalecido alianças políticas importantes. Agora… Aquilo tinha sido destruído. — Pai não vai gostar — disse Lèna calmamente. — Eu sei. — Na verdade… ele provavelmente já sabe. Luian soltou um riso irônico. — Claro que sabe. O castelo tinha ouvidos em todos os lugares. Lèna colocou a mão no ombro dele. — Só tenta não discutir com ele. Luian olhou para a irmã. — Você sabe que isso é impossível. Ela sorriu levemente. — Eu sei. Eles ficaram em silêncio por alguns segundos. Depois Lèna mudou de assunto. — Quais são suas tarefas hoje? — Patrulha do setor oeste pela manhã, relatório com o Conselho ao meio-dia, treinamento estratégico à tarde. — Agenda cheia. — Bem-vinda à vida adulta vampira. Cèlèna deu um pequeno sorriso. — Ainda tenho alguns anos de escola. Aproveitarei enquanto posso. Luian riu. Mas a tensão dentro dele continuava ali. Depois de algum tempo, ele se despediu da irmã e saiu do jardim. --- A manhã passou rapidamente. Luian liderou uma pequena equipe de vampiros pelas regiões externas do reino. Eles sobrevoaram montanhas, verificaram postos de vigilância e examinaram sinais de possíveis invasões de criaturas selvagens. Era um trabalho rotineiro. Mas importante. Durante o voo, o vento gelado batia em seu rosto enquanto ele cruzava o céu nublado. Aquilo ajudava a limpar a mente. Por algumas horas, ele conseguiu esquecer Lisbeth. Esquecer o pai. Esquecer tudo. Depois da patrulha, ele retornou ao castelo e foi direto para a sala do Conselho. O encontro foi formal. Relatórios foram apresentados. Mapas analisados. Discussões sobre territórios humanos próximos aconteceram. Luian participou como observador. Era assim que funcionava agora. Ele precisava aprender tudo. Quando a reunião terminou, já era meio da tarde. Luian estava cansado. Ele caminhou lentamente pelos corredores do castelo, cumprimentando alguns guardas pelo caminho. A rotina havia sido longa, e tudo que ele queria naquele momento era voltar para seu quarto e ter algumas horas de silêncio. Mas o destino tinha outros planos. Assim que abriu a porta do quarto… Ele parou imediatamente. Alguém estava ali. Sentado em uma cadeira próxima à janela. O pai. Rei Gabriel A presença dele preenchia o quarto inteiro. Gabriel era alto, imponente, com cabelos negros longos e olhos vermelhos intensos que pareciam atravessar qualquer pessoa. Ele não estava apenas sentado. Ele estava esperando. E claramente… Zangado. Luian fechou a porta lentamente. — Pai. Gabriel não respondeu de imediato. Ele apenas observou o filho por alguns segundos, em silêncio absoluto. A atmosfera no quarto ficou pesada. — Você quer me explicar? — disse finalmente. A voz dele era baixa. Mas carregada de autoridade. Luian já sabia sobre o que era. — Imagino que esteja falando de Lisbeth. Gabriel levantou-se. O movimento foi lento, mas carregado de tensão. — Imaginar não é suficiente. Ele caminhou alguns passos pelo quarto. — Eu recebo relatórios de guerra, ameaças de clãs rivais, movimentações humanas… e no meio disso descubro que meu filho decidiu destruir uma aliança centenária . Luian manteve a postura. Os olhos de Gabriel brilhavam levemente. Luian respirou fundo. — Nós terminamos. — Isso eu já sei. — Então por que perguntar? O silêncio que se seguiu foi perigoso. Gabriel aproximou-se lentamente. — Porque eu quero saber o motivo. Luian hesitou por um momento. Mas então decidiu ser direto. — Porque eu não a amo o suficiente para casar. As palavras ecoaram no quarto. Gabriel ficou completamente imóvel. Por alguns segundos, parecia que o tempo havia parado. Então ele falou. — Amor? A palavra saiu quase como um desprezo. — Você acha que alianças vampíricas são baseadas em amor? Luian cruzou os braços. — Talvez não. — Então qual foi sua lógica? — Honestidade. Gabriel soltou uma risada curta. Sem humor. — Honestidade não governa reinos, Luian. — Mentira também não. Os olhos de Gabriel estreitaram. — Você é herdeiro deste reino. — Eu sei. — Então comece a agir como tal. Luian sentiu a tensão crescer dentro dele. — E agir como tal significa casar com alguém que eu não amo? Gabriel respondeu imediatamente. — Significa fazer o que é necessário. O silêncio voltou. Pesado. Cortante. Luian finalmente desviou o olhar por um segundo. — Eu não vou viver um século de mentira. Gabriel aproximou-se mais. — Você viverá séculos fazendo sacrifícios. Luian levantou os olhos novamente. — Talvez. — Não talvez. A voz de Gabriel ficou mais dura. — Com certeza. Ele ficou frente a frente com o filho. — Você acha que eu escolhi sua mãe? Aquilo pegou Luian de surpresa. — Mas é claro , você era um humano pai e a escolheu Gabriel virou-se para a janela. — Certo, mas diferente de você, nunca me envolve com ninguém com intenção de quebrar seu coração Luian ficou em silêncio... Gabriel virou-se lentamente. Os olhos vermelhos estavam mais intensos agora. — Você quer luxo… ou liberdade? Luian não respondeu. E aquele silêncio… Disse tudo. Gabriel suspirou profundamente. — Você terminou a escola vampírica há poucas semanas. — Eu sei. — Ainda não entende completamente o peso da coroa. — Talvez. — Não talvez. Ele se aproximou novamente. — Eu não posso permitir decisões impulsivas. Luian manteve a postura firme. — Eu não fui impulsivo. — Foi exatamente isso. O silêncio voltou novamente. Finalmente Gabriel falou: — A família de Lisbeth já foi informada. — Imagino que estejam felizes. — Estão insultados. — Que surpresa! Gabriel ignorou o sarcasmo. — Eu vou tentar reparar o dano. Luian franziu o cenho. — Como? — Política. — Isso significa me forçar a voltar? Gabriel o encarou por alguns segundos. — Não. Aquilo surpreendeu Luian. — Então? — Significa que agora você terá que provar seu valor de outras formas. Luian cruzou os braços. — Estou ouvindo. Gabriel caminhou até a porta. Antes de sair, falou: — Amanhã você liderará uma missão fora do território. Luian levantou uma sobrancelha. — Que tipo de missão? Gabriel abriu a porta. — Uma que mostrará ao Conselho que você é mais do que um príncipe emocional. Ele fez uma pausa. — Ou confirmará exatamente o contrário. E então saiu. A porta se fechou. Luian ficou sozinho no quarto. O silêncio voltou a dominar o espaço. Ele caminhou lentamente até a janela e observou o vale escuro do mundo vampiro. A discussão havia terminado. Mas algo dentro dele dizia que aquilo… Era apenas o começo de algo muito maior.
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