1

1444 Words
— Você ainda está pensando no que eu disse ontem? A pergunta caiu no quarto como uma pedra em água calma. Luian estava deitado de costas sobre os lençóis escuros, um braço jogado atrás da cabeça e o outro repousando preguiçosamente sobre o próprio abdômen. O quarto ainda carregava o calor da pele deles, o cheiro misturado de perfume caro, vinho e algo mais íntimo que permanecia no ar. Ao lado dele, Lisbeth— a vampira que havia sido sua namorada nos últimos dois anos — estava deitada de lado, apoiada em um cotovelo. O lençol n***o cobria apenas parte de sua cintura, deixando à mostra a pele pálida e impecável do tronco. Ela era linda. Disso ninguém poderia duvidar. Seus cabelos negros desciam em ondas até quase a cintura, brilhando sob a luz suave que vinha das lâmpadas de cristal do quarto. Os olhos, de um vermelho profundo característico dos vampiros mais antigos, observavam Luian com uma mistura de expectativa e ansiedade. Luian virou a cabeça lentamente para olhá-la. Seus próprios olhos — cinza prateados, herdados de sua mãe — tinham aquela expressão distante que sempre surgia quando algo o incomodava. — Pensando em quê? — respondeu ele, com voz calma. Lisbeth suspirou. — No casamento, Luian. Ele fechou os olhos por um segundo. Ali estava. De novo. O assunto que ele vinha evitando há semanas. Luian era muitas coisas. Impulsivo. Sedutor. Irresponsável, segundo seu pai. Mas acima de tudo, ele odiava sentir-se preso. E casamento… era a maior prisão que existia. — Lisbeth… — murmurou ele. Ela se moveu na cama, aproximando-se. O lençol deslizou mais um pouco, e ela nem tentou puxá-lo de volta. — Eu estou falando sério desta vez — disse ela. Luian soltou um pequeno riso sem humor. — Você sempre está. Ela franziu a testa. — Isso não é engraçado. — Não parece mesmo. Lisbeth se sentou na cama. Agora o lençol caiu completamente para sua cintura, e seus cabelos ruivos se espalharam sobre os ombros nus. Ela não estava tentando seduzi-lo. Aquilo era outra coisa. Era determinação. E Luian já conhecia aquele olhar. — Estamos juntos há dois anos — disse ela. — Dois anos, Luian. Ele virou a cabeça novamente para encará-la. — Eu sei contar tempo. — Então por que você age como se isso não significasse nada? Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Não porque não tivesse resposta. Mas porque sabia que qualquer resposta só levaria aquela conversa para um lugar pior. Lisbeth cruzou os braços. — Eu conheço suas amigas, suas aventuras, suas noites fora… — continuou ela. Luian ergueu uma sobrancelha. — Você não parecia reclamar quando me conheceu. — Porque eu achei que você mudaria! A voz dela ecoou no quarto. Luian soltou um suspiro longo e cansado. Ali estava o verdadeiro problema. Expectativas. Ele finalmente se sentou na cama. Seu corpo era esculpido como uma obra de arte antiga — músculos definidos, pele levemente dourada, os cabelos negros caindo de forma desordenada sobre os olhos. Luian não era apenas bonito. Ele tinha o tipo de presença que fazia pessoas virarem o rosto quando ele entrava em um lugar. Charme. Perigo. E uma confiança quase insolente. Era exatamente por isso que tantas pessoas se apaixonavam por ele. E exatamente por isso que tantas se machucavam. — Lisbeth— disse ele com calma — você sabia quem eu era desde o começo. Ela riu, mas foi um riso amargo. — Sabia que você era um príncipe arrogante. — Meio híbrido — corrigiu ele. — Eu não me importava com isso. Ela se inclinou na direção dele. Os olhos vermelhos brilhavam agora com intensidade. — Eu me importava com você. Luian passou a mão pelos cabelos. Aquilo estava indo exatamente para onde ele não queria. — Nós nos divertimos — disse ele. — Nos divertimos? — Sim. — É assim que você descreve dois anos? Ele deu de ombros. — Foi bom enquanto durou. A expressão dela mudou. Algo se quebrou ali. — Enquanto durou? — repetiu ela, incrédula. — Lisbeth… — Você já decidiu terminar comigo? — Não disse isso. — Mas pensou. Luian ficou em silêncio. E aquele silêncio disse tudo. Lisbeth se levantou da cama. O lençol caiu completamente no chão. Ela caminhou pelo quarto até pegar o vestido n***o que havia jogado sobre uma cadeira antes. Era um vestido elegante, de tecido leve, que abraçava o corpo dela perfeitamente. Ela o vestiu com movimentos rápidos. Cada gesto carregado de raiva. Luian observava em silêncio. Ela era linda mesmo irritada. Talvez ainda mais. — Eu sou uma vampira respeitada — disse ela enquanto fechava o zíper do vestido nas costas. — Minha família tem poder. — Eu sei. — Muitos homens gostariam de se casar comigo. — Eu não duvido. Ela virou-se abruptamente para ele. — Então por que você não quer? Luian apoiou os cotovelos nos joelhos. Seus olhos cinza encontraram os dela. — Porque eu nunca prometi isso. Lisbeth deu um passo à frente. — Você me ama? A pergunta pairou no ar. E por um momento Luian realmente pensou antes de responder. Mas no fim… Ele foi honesto. — Eu gosto de você. O silêncio que se seguiu foi pesado. Muito pesado. Lisbeth o encarava como se tivesse levado um golpe. — Gosta? — Sim. — Depois de dois anos? Ele levantou as mãos em um gesto calmo. — Lisbeth… — Eu te amo! As palavras explodiram. E pela primeira vez naquela noite, Luian pareceu realmente desconfortável. Ela respirava rápido. Os olhos brilhando. — Eu planejei uma vida com você — continuou ela. — Uma casa. Um futuro. Luian passou a mão pelo rosto. — Eu nunca pedi isso. — Porque você tem medo! Ele riu. — Medo? — Sim! Ela apontou para ele. — Você foge de qualquer coisa que pareça real. Aquilo o irritou. Um brilho frio passou pelos olhos de Luian. — Não confunda liberdade com medo. — Liberdade? Ela deu uma pequena risada amarga. — Dormir com alguém diferente toda semana? — Eu nunca escondi quem eu sou. — Mas você me deixou acreditar! Luian levantou-se da cama. Agora eles estavam frente a frente. Ele era um pouco mais alto que ela, e sua presença parecia preencher o espaço. — Eu nunca te pedi para acreditar em nada. Lisbeth ficou alguns segundos em silêncio. Então seus olhos começaram a brilhar com lágrimas. Algo raro para um vampiro. — Eu achei que você mudaria por mim. Luian soltou um suspiro. — Esse foi o erro. Ela recuou um passo. Como se aquelas palavras tivessem sido uma lâmina. — Então acabou? — perguntou ela. Luian inclinou a cabeça levemente. — Você quer casar. — Sim. — Eu não quero. Mais silêncio. Lisbeth assentiu devagar. Como alguém aceitando uma verdade amarga. — Então acabou. Ela caminhou até a porta do quarto. Mas antes de sair, virou-se pela última vez. Os olhos vermelhos estavam frios agora. — Um dia você vai perceber que não pode viver assim para sempre. Luian encostou-se na cabeceira da cama. — Talvez. — E quando esse dia chegar… — continuou ela — espero que ainda exista alguém disposto a amar você. Ela abriu a porta. — Porque eu não estarei mais aqui. E saiu. A porta se fechou com um clique suave. O quarto ficou silencioso. Luian passou alguns segundos olhando para a porta. Depois soltou um suspiro profundo. — Drama desnecessário… — murmurou. Ele se levantou da cama e caminhou até o grande espelho do quarto. Pegou a calça preta que estava jogada no chão e a vestiu. Seus movimentos eram tranquilos. Sem pressa. Sem arrependimento. Luian encarou o próprio reflexo. Cabelos negros bagunçados. Olhos prateados. Um sorriso leve surgindo nos lábios. Casamento. A ideia parecia absurda. Ele era jovem. Livre. O mundo — tanto o mortal quanto o sobrenatural — estava cheio de coisas muito mais interessantes. Compromisso nunca tinha sido parte de seus planos. E não começaria agora. Luian pegou uma camisa n***a aberta e a vestiu sem abotoar. Caminhou até a varanda do quarto. A noite ainda dominava o céu. O castelo de seus pais se erguia majestoso entre as montanhas. Luzes suaves brilhavam nas torres. Ali viviam o rei Gabriel e a rainha Helena. Seus pais. Duas das criaturas mais poderosas do mundo sobrenatural. E pessoas que provavelmente ficariam muito satisfeitas em vê-lo se casar. Luian sorriu sozinho. — Ainda bem que eles não sabem dessa conversa… Ele apoiou os braços na grade da varanda. Observando a escuridão da floresta abaixo. A liberdade tinha um gosto específico. E Luian não estava disposto a abrir mão dela. Nem por amor. Nem por tradição. Nem por ninguém.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD