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1117 Words
Eu ainda estava olhando para ele quando percebi que ele também estava olhando para mim. Não era aquele tipo de olhar casual que alguém lança por acaso numa pista de dança cheia. Era direto. Intenso. Como se ele estivesse tentando decifrar algo em mim. Ou talvez apenas me observando da mesma forma que eu o observava. Senti um leve aperto no estômago. — Ele está olhando para você — murmurou Maya perto do meu ouvido. — Não está. — Está sim. Eu tentei ignorar, voltando a atenção para a música e para os corpos que se moviam ao nosso redor. Mas alguns segundos depois meu olhar traiu minha tentativa de indiferença e voltou até ele. O grupo de quatro homens estava agora perto do bar. Mesmo no meio de tantas pessoas, eles chamavam atenção. Talvez fosse a forma como se moviam com confiança. Ou talvez fosse algo mais difícil de explicar. O que estava no centro do grupo — o que eu não conseguia parar de olhar — tinha cabelos negros e levemente ondulados que caíam sobre a testa. Mas o que realmente prendia o olhar eram os olhos. Cinza. Um tom de cinza claro e profundo ao mesmo tempo. Era um olhar estranho. Bonito. Hipnotizante. E completamente diferente de qualquer outro que eu já tivesse visto. — Ele é muito bonito — disse Maya. — Você diz isso de todos. — Não. Ela apontou discretamente com o queixo. — Eu digo isso daqueles que merecem. Eu estava prestes a responder quando percebi algo. Eles estavam vindo em nossa direção. Meu coração acelerou sem motivo aparente. — Maya… — murmurei. — Eu sei. Ela parecia tão curiosa quanto eu. Dois deles caminharam até nós. O de cabelos negros… e outro. O segundo homem era igualmente alto, mas tinha cabelos loiros que iam até o queixo, lisos e bem alinhados. As luzes da boate refletiam nos fios claros, quase dourados. Ele tinha um ar mais tranquilo. Observador. Como alguém que analisava o ambiente antes de agir. Os dois pararam diante de nós. O homem de cabelos negros sorriu de forma leve. — Boa noite. A voz dele era grave. Calma. Maya respondeu primeiro. — Boa noite. O loiro inclinou levemente a cabeça. — Esperamos não estar incomodando. — Ainda não decidiram — disse Maya, divertida. O homem de cabelos negros olhou diretamente para mim. Por um momento senti como se ele estivesse tentando me ler. — Eu sou Luian. Meu coração deu um pequeno salto. — Zuri. Ele repetiu meu nome devagar. — Zuri. Como se testasse o som. Depois apontou para o amigo. — Este é Kael. Kael levantou a mão em cumprimento. Seus cabelos loiros caíam levemente sobre o rosto enquanto ele sorria educadamente. Maya cruzou os braços. — Então vocês viram duas garotas sozinhas e decidiram vir falar conosco? Luian deu de ombros. — Algo assim. — Muito direto. — Eu prefiro ser honesto. Eu senti minhas bochechas esquentarem. Kael observava Maya com curiosidade. — E vocês? — Eu sou Maya — respondeu ela. No momento em que ela disse o nome… Algo mudou no rosto de Luian. O sorriso dele desapareceu. Ele piscou uma vez. Como se tivesse ouvido algo impossível. — Maya? Ela franziu a testa. — Sim. Luian olhou para ela com mais atenção agora. — Maya Fernandes? Ela parecia confusa. — Sim… por quê? Silêncio. Ele passou a mão pelos cabelos escuros. — Isso é impossível. Maya arqueou uma sobrancelha. — Eu sinto que estou perdendo alguma coisa. Luian deu um pequeno passo mais perto. Observando o rosto dela como se estivesse tentando confirmar algo. — Parque Central. Ela piscou. — O quê? — O parque perto da biblioteca municipal. O rosto de Maya mudou. — Não… Luian continuou: — Três adolescentes que costumavam matar aula para comer sorvete e reclamar da vida. Agora os olhos dela estavam arregalados. — Espera… Ele sorriu levemente. — Eu. Ela levou a mão à boca. — Luian? Kael soltou uma pequena risada ao lado. — Achei que isso aconteceria em algum momento. Eu olhava de um para o outro completamente confusa. — Vocês se conhecem? Maya parecia em choque. Ela deu um passo mais perto dele, analisando o rosto dele com atenção. — Isso não pode ser… — Sou eu. Ela balançou a cabeça, incrédula. — Mas… você… Ela apontou para ele. — Você está diferente! Luian riu baixo. — Faz alguns anos. — Alguns?! Ela parecia indignada. — Você era um adolescente magricela e tímido! Kael sorriu discretamente. — Eu gostaria de ter visto isso. Luian suspirou. — Eu era mais calmo naquela época. Maya cruzou os braços. — Mais calmo? Ela começou a rir. — Você m*l falava com as pessoas! Eu observei Luian. Era difícil imaginar aquele homem confiante e sedutor como um adolescente tímido. Maya apontou para ele novamente. — Você era o garoto mais quieto da escola! — Eu falava com você. — Porque eu te obrigava! Luian deu de ombros. — Funcionava. Ela olhou para mim. — Zuri, esse é o Luian! — Eu já entendi. — Não! Ela apontou dramaticamente. — Esse é o Luian da minha adolescência! Ela começou a contar com os dedos. — Eu, ele e Ethan! Luian sorriu ao ouvir o nome. — Ethan sempre dizia que nós dois éramos um desastre. — Porque éramos! Ela riu. — Nós três passávamos a tarde inteira no parque. — Ou na biblioteca. — Ou roubando comida do mercado. Luian levantou uma sobrancelha. — Você roubava. — Você ajudava! Kael cruzou os braços. — Eu estou gostando dessa versão antiga de você. Luian ignorou o comentário. Maya ainda parecia fascinada. — Mas você desapareceu! O sorriso dele diminuiu um pouco. — Eu sei. — Do nada! — Eu sei. Ela suspirou. — E agora aparece aqui… como se nada tivesse acontecido? Ele inclinou a cabeça. — O mundo é cheio de coincidências. Ela estreitou os olhos. — Isso não explica nada. Ele então olhou novamente para mim. Aquele olhar cinza voltou. Intenso. Observador. Quase perigoso. — Talvez eu explique… mais tarde. Maya cruzou os braços. — Talvez? — Depende. — Depende do quê? Ele sorriu de canto. — Depende se vocês vão aceitar beber alguma coisa conosco. Maya riu. — Você continua manipulador. Kael finalmente falou novamente. — Então… isso é um sim? Maya pegou minha mão. — Claro que é. Ela olhou para Luian novamente. — Mas você me deve muitas respostas. Luian deu de ombros. — Talvez eu dê algumas. Eu ainda estava tentando entender tudo aquilo. Mas uma coisa era certa. A noite tinha acabado de ficar muito mais interessante. E eu ainda não fazia ideia… De que conhecer Luian mudaria minha vida
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