Luian ainda estava terminando de abotoar os punhos da camisa quando alguém bateu à porta.
Três batidas leves.
Educadas.
Diferentes das entradas barulhentas de seus amigos.
Ele franziu levemente a testa.
— Entre.
A porta se abriu devagar.
Quem entrou foi uma jovem serva do castelo. Ela mantinha os olhos baixos, como era costume entre os criados que serviam diretamente a família real.
Chamava-se Elira.
Era pequena e delicada, com cabelos castanho-claros presos em uma trança longa que caía sobre o ombro esquerdo. Vestia o uniforme tradicional dos servos do castelo: um vestido cinza escuro de mangas longas, com um avental branco impecavelmente limpo.
Ela parou a alguns passos da porta e fez uma pequena reverência.
— Alteza.
Luian suspirou discretamente.
Sempre que alguém começava com “Alteza”, geralmente vinha algo que ele não queria ouvir.
— O que foi, Elira?
A jovem levantou os olhos apenas o suficiente para falar.
— Suas Majestades pediram que o senhor se apresente no salão de jantar.
Luian fechou os olhos por um segundo.
Claro.
Era exatamente o tipo de coisa que poderia arruinar seus planos para a noite.
— Agora? — perguntou ele.
— Sim, Alteza.
Ela hesitou por um momento antes de acrescentar:
— O jantar já foi servido.
Luian passou a mão pelos cabelos.
— E eu tenho escolha?
Elira permaneceu em silêncio.
O que já era resposta suficiente.
Ele soltou um pequeno suspiro resignado.
— Quem está lá?
— Suas Majestades… e a princesa Cèlèna.
Isso o fez erguer uma sobrancelha.
— Cèlèna também?
— Sim.
Luian assentiu devagar.
— Muito bem.
Ele pegou o casaco n***o que estava jogado sobre uma cadeira e o vestiu.
Era elegante, com bordados discretos em fios de prata nas mangas e na gola alta.
Elira inclinou novamente a cabeça.
— Deseja que eu informe sua chegada?
Luian caminhou até a mesa e pegou o celular.
— Não.
Ele desbloqueou a tela.
O grupo de mensagens de seus amigos estava cheio de notificações.
Darius:
“Não demore.”
Kael:
“Estamos escolhendo o lugar.”
Marek:
“Se você se atrasar, vamos começar sem você.”
Luian sorriu.
Digitou rapidamente.
Luian:
“Jantar obrigatório com meus pais.”
Alguns segundos depois surgiram respostas.
Darius:
“Trágico.”
Kael:
“Sobreviva.”
Marek:
“Traga vinho.”
Luian respondeu:
“Vou me atrasar um pouco.”
Guardou o telefone no bolso.
Então olhou para Elira.
— Vamos acabar logo com isso.
Ela abriu a porta para ele.
Os corredores do castelo estavam iluminados por candelabros altos que projetavam sombras elegantes nas paredes de pedra escura.
O castelo sempre tivera aquela atmosfera antiga.
Grandioso.
Silencioso.
Imponente.
O tipo de lugar que lembrava constantemente quem mandava ali.
E quem carregava o peso da linhagem.
Luian caminhava com passos tranquilos pelo corredor principal.
Elira seguia alguns passos atrás.
Eles passaram por enormes janelas arqueadas que revelavam o céu noturno.
A lua iluminava os jardins do castelo.
Fontes antigas.
Estátuas de pedra.
Árvores que existiam havia séculos.
Depois de alguns minutos, chegaram ao Grande Salão de Jantar.
As portas duplas de madeira escura estavam abertas.
E o cheiro da comida já se espalhava pelo corredor.
Luian entrou.
O salão era enorme.
Uma mesa longa de madeira n***a ocupava o centro do espaço, iluminada por um gigantesco candelabro de cristal que pendia do teto alto.
Pratos de prata.
Taças de cristal.
Talheres delicadamente trabalhados.
Tudo organizado com precisão quase ritualística.
Na cabeceira da mesa estava Gabriel.
O rei.
Pai de Luian.
Gabriel tinha a postura de alguém acostumado a comandar.
Alto.
Imponente.
Cabelos escuros levemente grisalhos nas têmporas.
Seus olhos eram penetrantes e calmos ao mesmo tempo.
Ao seu lado estava Helena.
A rainha.
Ela possuía uma beleza que parecia atemporal.
Cabelos longos e escuros caindo sobre os ombros.
Olhos intensos.
Elegância natural.
Mesmo sentada, sua presença dominava o ambiente.
E então havia Cèlèna.
A irmã mais nova de Luian.
Ela parecia uma estrela em meio à formalidade do jantar.
Seus cabelos eram castanho-claros, quase dourados sob a luz das velas. Caíam em ondas suaves até o meio das costas.
Os olhos eram grandes e curiosos, de um tom verde brilhante.
Ela vestia um vestido azul-claro delicado que contrastava com a formalidade sombria do castelo.
Quando viu Luian entrar, abriu imediatamente um sorriso.
— Finalmente!
Gabriel levantou os olhos.
— Está atrasado.
Luian puxou a cadeira.
— Eu sei.
Helena observou o filho com atenção.
— Esperávamos você mais cedo.
— Eu estava ocupado.
Cèlèna inclinou a cabeça curiosamente.
— Com Lisbeth?
Luian lançou um olhar rápido para ela.
— Talvez.
Cèlèna sorriu de forma misteriosa.
— Interessante.
Um servo se aproximou imediatamente para servir o primeiro prato.
Uma travessa grande foi colocada no centro da mesa.
Era carne de urso assada, cortada em fatias grossas.
O aroma era forte e intenso.
Temperada com ervas selvagens e alho assado.
Ao lado havia legumes escuros caramelizados.
E pão preto quente recém-saído do forno.
Outra serva trouxe uma jarra de cristal.
Não era vinho.
Era sangue.
Espesso.
Vermelho profundo.
Servido nas taças como uma bebida comum.
Gabriel pegou sua taça primeiro.
— Espero que esteja com fome.
Luian pegou o garfo.
— Sempre.
Cèlèna começou a comer animadamente.
Ela tinha aquele tipo de energia que parecia sempre vibrar ao redor.
— O que você estava fazendo antes do jantar? — perguntou ela.
Luian cortou um pedaço da carne de urso.
— Nada de especial.
— Estranho.
— Por quê?
Ela mastigou devagar.
Depois sorriu.
— Porque eu vi Lisbeth chorando no corredor.
O garfo de Luian parou no meio do caminho.
Helena ergueu o olhar imediatamente.
Gabriel também.
— Chorando? — perguntou Helena.
Cèlèna assentiu inocentemente.
— Sim.
Ela apoiou o queixo na mão.
— Ela saiu do quarto do Luian.
O silêncio na mesa ficou pesado por um segundo.
Luian mastigou calmamente.
Depois bebeu um gole de sangue da taça.
E respondeu com a maior naturalidade possível:
— Tivemos uma pequena discussão.
Helena inclinou a cabeça.
— Sobre o quê?
Luian deu de ombros.
— Ciúmes.
Gabriel arqueou uma sobrancelha.
— Ciúmes?
— Lisbeth tem uma imaginação fértil.
Cèlèna estreitou os olhos.
— Ela parecia muito triste para ser apenas isso.
Luian sorriu de lado.
— Você sabe como ela é dramática.
Cèlèna ainda parecia curiosa.
Mas Helena interveio.
— Relacionamentos são complicados.
Gabriel voltou a cortar a carne.
— Especialmente quando envolvem expectativas.
Luian manteve o rosto neutro.
Mas sabia exatamente o que seu pai estava insinuando.
E ele definitivamente não queria aquela conversa agora.
Então mudou de assunto rapidamente.
— A carne está excelente.
Helena sorriu levemente.
— Foi preparada especialmente hoje.
Cèlèna ainda observava o irmão.
Com aquele olhar curioso que sempre significava que ela ainda não estava convencida.
Mas por enquanto…
Ela deixou o assunto morrer.
E o jantar continuou.