Capítulo 14 – A Adega Velha

1022 Words
Capítulo 14 – A Adega Velha "Há lugares que não guardam apenas memórias. Guardam as pessoas que um dia prometeram voltar." A estrada estreita serpenteava entre alfarrobeiras, figueiras e amendoeiras antigas. O calor da manhã começava a subir, fazendo dançar pequenas ondas no alcatrão. À medida que deixavam o centro da vila para trás, o silêncio tornava-se diferente. Menos urbano. Mais antigo. Tomás conduzia devagar. Margarida seguia em silêncio, com a chave de ferro pousada no colo. Passava os dedos pela pequena etiqueta de couro. Adega Velha. — Nunca mais aqui vieste? — perguntou. Ele abanou a cabeça. — Desde adolescente. — Vinhas cá muitas vezes? — Mais do que a minha mãe imaginava. Ela sorriu. — Também te escondias? Tomás olhou-a de lado. — Contigo. Ela desviou os olhos para a janela, escondendo um sorriso. Lembrava-se. Nas tardes quentes de verão, fugiam de bicicleta e passavam horas ali, convencidos de que ninguém os encontraria. Naquela altura, o mundo parecia pequeno. E eterno. Poucos minutos depois, o carro parou. À frente deles erguia-se um edifício baixo de pedra, coberto por heras e silvas. O telhado tinha cedido em parte, mas as paredes resistiam ao tempo. Uma oliveira antiga fazia sombra à entrada. Margarida saiu do carro lentamente. — Ainda está de pé... — Como nós. Ela olhou para ele. Tomás pareceu surpreendido com as próprias palavras. Sorriu, embaraçado. — Esquece. — Não quero. Durante um instante ficaram apenas a observar a velha adega. O vento fazia ranger a porta de madeira. Tomás retirou a chave do bolso. Introduziu-a na fechadura. Rodou. O mecanismo ofereceu resistência. Depois cedeu com um estalido seco. A porta abriu-se lentamente. Um cheiro intenso a madeira envelhecida, terra húmida e vinho antigo envolveu-os. O interior estava coberto de pó. Alguns tonéis permaneciam encostados às paredes. Ferramentas enferrujadas descansavam sobre uma bancada. A luz entrava por pequenas frestas no telhado. Margarida caminhava devagar. Cada passo levantava pequenas nuvens de pó. Sentia o coração acelerar. — Não parece que alguém entre aqui há anos. Tomás passou a mão por um dos barris. — Ninguém entra. Parou de repente. No fundo da adega existia uma parede de pedra completamente diferente das restantes. Mais antiga. Mais cuidada. No centro havia uma pequena cruz gravada. Margarida aproximou-se. — Isto já estava cá? — Sim... Tomás franziu a testa. — Mas nunca lhe liguei importância. Ela passou a mão pela pedra. Sentiu uma pequena saliência. Empurrou-a instintivamente. Ouviu-se um clique. Os dois olharam um para o outro. Devagar, uma pedra deslocou-se alguns centímetros. Atrás dela existia um pequeno nicho. Não havia nenhuma caixa. Apenas um embrulho em pano de linho, protegido da humidade. Margarida pegou-lhe com cuidado. O tecido desfazia-se quase ao toque. No interior encontrava-se um pequeno livro de registos antigos da adega e um envelope de papel grosso. Na frente, apenas duas palavras. "Abram agora." Tomás olhou imediatamente para Margarida. — É este. Ela respirou fundo. Retirou do bolso o envelope lacrado que trouxeram da casa. Comparou-o com o que tinham acabado de encontrar. Sorriu. — A avó sabia que só perceberíamos isto depois de chegar aqui. O envelope encontrado na adega continha apenas uma folha. A letra era novamente de Amélia. "Se chegaram até aqui, cumpriram a única condição que vos pedi: caminharam juntos." Margarida continuou a ler. "Agora podem abrir o envelope selado." As mãos tremiam-lhe. Tomás colocou a sua mão sobre a dela. Não para a apressar. Apenas para lhe lembrar que não estava sozinha. Ela partiu cuidadosamente o selo de cera. Dentro havia vários papéis antigos. Uma fotografia. E duas cartas. A fotografia mostrava quatro pessoas. Amélia. O pai de Margarida. O pai de Tomás. E o padrinho de Tomás. Todos muito jovens. No verso, uma frase escrita pela avó. "Nem sempre o amor é o que destrói uma amizade. Às vezes é o medo." Tomás pegou na primeira carta. Não era dirigida a nenhum deles. Era uma carta escrita por Margarida aos dezassete anos. Nunca enviada. Reconheceu imediatamente a letra. *"Tomás, Disseram-me que já não queres voltar a ver-me. Disseram-me que escolheste outra vida e que o melhor é esquecer-te. Não acredito. Mas também não sei onde te encontrar..."* A voz de Margarida falhou. Olhou para Tomás. Ele tinha os olhos marejados. Pegou na segunda carta. Era dele. Também nunca enviada. *"Guida, Disseram-me que foste embora porque nunca me amaste como eu pensava. Não consigo acreditar. Mas também não consigo continuar à tua espera..."* Nenhum dos dois conseguiu continuar a ler. O silêncio da adega tornou-se pesado. Finalmente compreenderam. As cartas existiram. Foram escritas. Mas nunca chegaram ao destinatário. Margarida voltou a abrir a carta de Amélia. As últimas linhas diziam apenas: *"Quando encontrei estas cartas, já tinham passado demasiados anos. Quem as reteve acreditava sinceramente que estava a proteger-vos. Nunca consegui decidir se devia entregá-las. Hoje essa decisão pertence-vos. O passado não pode ser mudado. Mas o futuro ainda vos pertence."* Tomás deixou cair lentamente os braços. Respirou fundo. — Então... nunca me abandonaste. As lágrimas escorreram pelo rosto de Margarida. — Nunca. Ele deu um passo. Depois outro. Parou à frente dela. — Eu também nunca deixei de te procurar. Ela sorriu entre lágrimas. — Eu sei. Pela primeira vez desde que se reencontraram, já não existiam dúvidas entre os dois. Restava apenas o tempo perdido. Tomás ergueu lentamente a mão e limpou uma lágrima do rosto dela com o polegar. Ficaram imóveis. Muito próximos. Os olhos presos um no outro. O mundo parecia ter desaparecido. Mas, naquele instante, o telemóvel de Tomás começou a tocar. Os dois sobressaltaram-se. Ele afastou-se, visivelmente contrariado. Olhou para o ecrã. Era a irmã. Atendeu de imediato. — Sim? Fez-se silêncio. A expressão dele mudou. Olhou para Margarida. — Já vamos. Desligou. — O meu pai... Ela sentiu o coração apertar. — O que aconteceu? Tomás respirou fundo. — Disse que quer falar connosco. Aos dois. Pela primeira vez. Margarida olhou para as cartas que segurava nas mãos. Percebeu que a história ainda não estava completamente terminada. Mas também percebeu outra coisa. A partir daquele momento, qualquer verdade seria mais fácil de enfrentar. Porque, finalmente, deixara de estar sozinha.
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