Capítulo 11 – A caixa de Amélia

751 Words
Capítulo 11 – A caixa de Amélia "Algumas verdades não nos mudam quando as descobrimos. Mudam-nos no momento em que decidimos abri-las." Ninguém se mexeu. A pequena caixa de madeira repousava nas mãos de Margarida, coberta por uma fina camada de pó. Era mais pesada do que aparentava e a madeira, escurecida pelo tempo, conservava um brilho discreto, como se tivesse sido acariciada muitas vezes antes de ser escondida. O empreiteiro pigarreou. — Se já não precisarem de nós... voltamos amanhã. Margarida demorou alguns segundos a responder. — Sim... obrigada. Os trabalhadores foram saindo em silêncio. Um a um, as vozes desapareceram, até que a casa voltou a ficar estranhamente calma. Pela janela aberta entrava o som distante das gaivotas e o murmúrio da avenida àquela hora do fim da tarde. Só restavam três pessoas na sala. Margarida. Tomás. E Inês. Foi Inês quem quebrou o silêncio. — Eu espero lá fora. Tomás olhou para ela. — Tens a certeza? Ela sorriu com delicadeza. — Isto não é sobre mim. Quando a porta se fechou, Margarida passou o polegar pela tampa da caixa. As iniciais estavam gravadas à mão. A. M. Amélia. A sua avó. — Achas que ela a escondeu? — perguntou, sem levantar os olhos. Tomás demorou a responder. — Não. Ela olhou para ele. — Então? — Acho que a guardou. A diferença parecia pequena. Mas não era. Esconder significava medo. Guardar significava intenção. Margarida respirou fundo e abriu lentamente o pequeno fecho de metal. Este cedeu quase sem resistência. No interior não havia joias. Nem dinheiro. Nem documentos importantes. Apenas quatro objetos. Uma fotografia. Uma chave antiga. Um pequeno caderno de capa azul. E um envelope fechado com cera vermelha. Margarida pegou primeiro na fotografia. Estava um pouco desbotada. Reconheceu imediatamente a avó, muito mais nova, a rir, sentada no muro da praia. Ao lado dela estava o pai de Tomás. E entre os dois... o mesmo homem desconhecido da fotografia encontrada horas antes. Virou-a. No verso lia-se: "Verão de 1988. Prometemos nunca contar a ninguém." Ela sentiu um arrepio. — Quem é ele? Tomás aproximou-se. Assim que viu a fotografia, perdeu a expressão. — Não pode ser... — Conheces este homem? Ele demorou a responder. — Conheço. — Quem é? Tomás fechou os olhos por um instante. — O meu padrinho. Margarida franziu a testa. — Nunca o conheci. — Porque desapareceu quando eu era pequeno. Ela pousou cuidadosamente a fotografia. Pegou na chave. Era pesada, de ferro escuro, claramente antiga. Tinha presa uma pequena etiqueta de couro. Nela estavam escritas apenas duas palavras. Adega Velha. — Existe alguma adega com este nome? Tomás ficou a pensar. — Existia. — Existia? — Era uma pequena adega perto da ribeira. Foi abandonada há muitos anos. — E ainda existe? Ele encolheu os ombros. — As paredes... talvez. O telhado já nem sei. Margarida pousou também a chave. Restavam o caderno e o envelope. Olhou para Tomás. — O que abrias primeiro? Ele sorriu, pela primeira vez desde que tinham chegado. — Tu sempre foste curiosa. — Responde. Tomás pensou alguns segundos. — O caderno. Ela acenou. Abriu-o devagar. As primeiras páginas estavam em branco. Só à quinta página encontrou escrita. Reconheceu imediatamente a letra da avó. "Se estás a ler isto, significa que já não estou aí para vos obrigar a sentarem-se os dois na mesma mesa. Era mais teimosa do que vocês e sabia que, um dia, acabariam por voltar a esta casa." Margarida sorriu, emocionada. Era mesmo a voz da avó. Continuou a ler. "Há histórias que começam com um amor. A vossa começou com uma mentira." As mãos começaram a tremer. Tomás aproximou-se sem dar por isso. Os dois liam agora lado a lado. "Nenhum de vocês teve culpa do que aconteceu naquele verão. Alguém tomou uma decisão por vocês. Eu descobri a verdade tarde demais." Margarida levantou lentamente a cabeça. As lágrimas brilhavam-lhe nos olhos. — Ela sabia... Tomás não respondeu. Também ele estava visivelmente abalado. Margarida voltou a olhar para o caderno. Ia virar a página. Mas um pequeno papel dobrado caiu para o chão. Tomás apanhou-o primeiro. Assim que o abriu, empalideceu. — Não... — O que é? Ele não respondeu. Limitou-se a entregar-lhe o papel. Era um recorte antigo de jornal. No centro da página havia uma fotografia. Dois jovens. Ela reconheceu-os imediatamente. Era ela. Era Tomás. Tinham dezassete anos. E, por cima da fotografia, alguém escrevera à mão uma única frase: "Separá-los foi a única maneira de os salvar."
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