Capítulo 6 – Água salgada e verdades por dizer
— Acho que temos muito para conversar.
A frase de Inês ficou suspensa no ar.
Margarida limitou-se a sorrir por educação.
Daquela espécie de sorriso que serve apenas para esconder o desconforto.
— Também acho... — respondeu, sem saber exatamente porquê.
Tomás passou a mão pela nuca.
Era a primeira vez que parecia não controlar completamente a situação.
— Inês...
— Relaxa. — Ela deu-lhe uma pequena pancada no braço. — Não vou estragar nada.
"Não vais estragar o quê?", pensou Margarida.
Porque é que toda a gente parecia saber alguma coisa menos ela?
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Tomás desapareceu para tomar banho.
Inês aproximou-se do balcão da box para pedir um café.
— Também queres um? — perguntou.
— Aceito.
Sentaram-se na pequena esplanada.
Durante alguns segundos limitaram-se a observar o movimento da rua.
— Então... — começou Inês. — Voltaste.
Margarida franziu a testa.
— Parece que toda a gente sabe mais sobre mim do que eu própria.
Inês sorriu.
— Nesta terra, as notícias viajam mais depressa do que o vento.
— Já reparei.
Houve uma pausa.
— És namorada do Tomás?
A pergunta saiu antes que pudesse travá-la.
Inês desatou a rir.
Não um riso contido.
Uma gargalhada sincera.
— Espera... foi isso que pensaste?
Margarida corou ligeiramente.
— Não interessa o que pensei.
— Claro que interessa.
— Não somos namorados.
Nem nunca fomos.
Ela respirou sem dar por isso.
E odiou o facto de se sentir... aliviada.
"Ridícula."
Chamou-se mentalmente todos os nomes possíveis.
Tomás era livre.
Mesmo que tivesse namorada, isso não mudava absolutamente nada.
Ou mudava?
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Quando saiu da box, o calor já apertava.
Resolveu caminhar pela marginal antes de regressar a casa.
O mar estava calmo.
Pequenos barcos balançavam ao largo.
Um grupo de turistas esperava junto ao cais.
Entre eles...
Tomás.
Falava animadamente enquanto ajudava uma criança a vestir um colete salva-vidas.
Sorriu para o miúdo.
Abaixou-se para lhe apertar as fivelas.
Depois levantou-o ao colo para entrar no barco.
Margarida ficou a observá-lo.
Nunca o tinha visto assim.
Sem piadas.
Sem provocações.
Apenas... gentil.
— Ele faz isso todos os dias.
A voz de um pescador interrompeu-lhe os pensamentos.
— Desculpe?
— O Tomás.
Sempre que vê uma criança com medo do mar, é ele que a convence.
Tem jeito.
Ela desviou novamente o olhar para o barco.
Tomás ria de qualquer coisa que o miúdo lhe dissera.
Parecia diferente.
Mais leve.
Mais verdadeiro.
Talvez...
Talvez ela nunca o tivesse conhecido realmente.
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À noite, decidiu correr.
Precisava de cansar o corpo outra vez.
Saiu sem destino.
Passou pelo passadiço.
Pela praia.
Pelas esplanadas cheias.
Só parou quando chegou à ponta das rochas, onde quase ninguém ia depois do pôr do sol.
Sentou-se.
Fechou os olhos.
O som das ondas bastava-lhe.
— Sabia que te ia encontrar aqui.
Ela nem precisou de abrir os olhos.
— Tens um talento irritante para aparecer.
Tomás sentou-se ao lado dela.
Durante algum tempo nenhum falou.
O silêncio entre eles começava a deixar de ser estranho.
— A Inês contou-te alguma coisa?
— Não.
Mentiu.
— Ainda bem.
Ela virou-se para ele.
— Porque é que dizes isso?
Tomás olhava fixamente para o horizonte.
— Porque prefiro ser eu a contar-te.
O coração de Margarida acelerou.
— Contar-me o quê?
Ele demorou a responder.
— Há dez anos...
Naquela noite em que foste embora...
...eu fui à estação.
Ela ficou imóvel.
— Isso é impossível.
— Não é.
— Eu esperei.
Tomás fechou os olhos por um instante.
— Eu também.
Ela sentiu um nó apertar-lhe a garganta.
As memórias misturavam-se.
O relógio da estação.
O comboio.
A chuva.
As lágrimas.
Sempre acreditara que ele nunca aparecera.
Sempre.
Tomás respirou fundo.
— Alguém mentiu a um de nós.
Antes que Margarida pudesse fazer outra pergunta, ouviu-se um estrondo vindo do mar.
Um pequeno barco de recreio inclinava-se perigosamente perto das rochas.
Várias pessoas começaram a gritar.
Tomás levantou-se num salto.
Olhou para a embarcação.
Depois olhou para Margarida.
Sem dizer uma única palavra...
...desatou a correr em direção à água.