Capítulo 6 - Água salgada e verdades por dizer

684 Words
Capítulo 6 – Água salgada e verdades por dizer — Acho que temos muito para conversar. A frase de Inês ficou suspensa no ar. Margarida limitou-se a sorrir por educação. Daquela espécie de sorriso que serve apenas para esconder o desconforto. — Também acho... — respondeu, sem saber exatamente porquê. Tomás passou a mão pela nuca. Era a primeira vez que parecia não controlar completamente a situação. — Inês... — Relaxa. — Ela deu-lhe uma pequena pancada no braço. — Não vou estragar nada. "Não vais estragar o quê?", pensou Margarida. Porque é que toda a gente parecia saber alguma coisa menos ela? --- Tomás desapareceu para tomar banho. Inês aproximou-se do balcão da box para pedir um café. — Também queres um? — perguntou. — Aceito. Sentaram-se na pequena esplanada. Durante alguns segundos limitaram-se a observar o movimento da rua. — Então... — começou Inês. — Voltaste. Margarida franziu a testa. — Parece que toda a gente sabe mais sobre mim do que eu própria. Inês sorriu. — Nesta terra, as notícias viajam mais depressa do que o vento. — Já reparei. Houve uma pausa. — És namorada do Tomás? A pergunta saiu antes que pudesse travá-la. Inês desatou a rir. Não um riso contido. Uma gargalhada sincera. — Espera... foi isso que pensaste? Margarida corou ligeiramente. — Não interessa o que pensei. — Claro que interessa. — Não somos namorados. Nem nunca fomos. Ela respirou sem dar por isso. E odiou o facto de se sentir... aliviada. "Ridícula." Chamou-se mentalmente todos os nomes possíveis. Tomás era livre. Mesmo que tivesse namorada, isso não mudava absolutamente nada. Ou mudava? --- Quando saiu da box, o calor já apertava. Resolveu caminhar pela marginal antes de regressar a casa. O mar estava calmo. Pequenos barcos balançavam ao largo. Um grupo de turistas esperava junto ao cais. Entre eles... Tomás. Falava animadamente enquanto ajudava uma criança a vestir um colete salva-vidas. Sorriu para o miúdo. Abaixou-se para lhe apertar as fivelas. Depois levantou-o ao colo para entrar no barco. Margarida ficou a observá-lo. Nunca o tinha visto assim. Sem piadas. Sem provocações. Apenas... gentil. — Ele faz isso todos os dias. A voz de um pescador interrompeu-lhe os pensamentos. — Desculpe? — O Tomás. Sempre que vê uma criança com medo do mar, é ele que a convence. Tem jeito. Ela desviou novamente o olhar para o barco. Tomás ria de qualquer coisa que o miúdo lhe dissera. Parecia diferente. Mais leve. Mais verdadeiro. Talvez... Talvez ela nunca o tivesse conhecido realmente. --- À noite, decidiu correr. Precisava de cansar o corpo outra vez. Saiu sem destino. Passou pelo passadiço. Pela praia. Pelas esplanadas cheias. Só parou quando chegou à ponta das rochas, onde quase ninguém ia depois do pôr do sol. Sentou-se. Fechou os olhos. O som das ondas bastava-lhe. — Sabia que te ia encontrar aqui. Ela nem precisou de abrir os olhos. — Tens um talento irritante para aparecer. Tomás sentou-se ao lado dela. Durante algum tempo nenhum falou. O silêncio entre eles começava a deixar de ser estranho. — A Inês contou-te alguma coisa? — Não. Mentiu. — Ainda bem. Ela virou-se para ele. — Porque é que dizes isso? Tomás olhava fixamente para o horizonte. — Porque prefiro ser eu a contar-te. O coração de Margarida acelerou. — Contar-me o quê? Ele demorou a responder. — Há dez anos... Naquela noite em que foste embora... ...eu fui à estação. Ela ficou imóvel. — Isso é impossível. — Não é. — Eu esperei. Tomás fechou os olhos por um instante. — Eu também. Ela sentiu um nó apertar-lhe a garganta. As memórias misturavam-se. O relógio da estação. O comboio. A chuva. As lágrimas. Sempre acreditara que ele nunca aparecera. Sempre. Tomás respirou fundo. — Alguém mentiu a um de nós. Antes que Margarida pudesse fazer outra pergunta, ouviu-se um estrondo vindo do mar. Um pequeno barco de recreio inclinava-se perigosamente perto das rochas. Várias pessoas começaram a gritar. Tomás levantou-se num salto. Olhou para a embarcação. Depois olhou para Margarida. Sem dizer uma única palavra... ...desatou a correr em direção à água.
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