Capítulo 7 - Correntes

582 Words
Capítulo 7 – Correntes O primeiro grito veio da praia. O segundo espalhou-se pela marginal em poucos segundos. Tomás nem hesitou. Largou a conversa a meio e desatou a correr em direção à areia. Margarida seguiu-o instintivamente. Ao aproximarem-se da Praia dos Pescadores, perceberam o que estava a acontecer. Um dos pequenos barcos de turismo que fazia passeios às grutas tentava regressar à praia, mas uma ondulação mais forte empurrara-o para uma zona de rochas, a algumas dezenas de metros da rebentação. O motor parecia não responder e o barqueiro fazia sinais desesperados para terra. Na embarcação estavam um casal e uma criança. As pessoas começaram a juntar-se junto aos barcos de pesca puxados para a areia. — Chamem os bombeiros! — gritou alguém. — Avisem a Capitania! Tomás já tirava a t-shirt enquanto corria. — Tomás! — chamou Margarida. Ele olhou para trás apenas um instante. — Fica aqui. Correu para um dos barcos de pesca que estava preparado para sair. Dois pescadores saltaram para bordo ao mesmo tempo. Sem perder um segundo, empurraram a embarcação pela areia até à água, aproveitando uma aberta entre as ondas. Margarida ficou imóvel. As mãos tremiam-lhe sem que desse por isso. O barco avançava lentamente contra a ondulação, enquanto dezenas de pessoas observavam em silêncio. O vento trazia o cheiro intenso a sal e gasóleo dos motores. Ela nunca tinha sentido o mar daquela maneira. Sempre o vira como um lugar de férias. Naquele momento percebeu que também podia ser perigoso. Quando o barco de Tomás se aproximou da outra embarcação, uma vaga fez ambas balançarem violentamente. Margarida prendeu a respiração. Viu Tomás passar para o barco avariado com uma agilidade que denunciava anos de experiência. Falava com calma, apesar da confusão. Primeiro ajudou a criança a vestir corretamente o colete salva-vidas. Depois tranquilizou o casal. Só então começou a prender uma cabo de reboque. Uma onda maior rebentou contra as rochas. Durante um segundo, Tomás desapareceu da vista. O coração de Margarida apertou-se. — Vá... — murmurou, sem perceber que falava em voz alta. Quando ele voltou a surgir, ouviu-se um suspiro coletivo na praia. Minutos depois, com a ajuda do barco dos pescadores, conseguiram afastar a embarcação da zona de perigo e conduzi-la até à areia, onde já esperavam os bombeiros e a Polícia Marítima. Assim que saltou para terra, Tomás caminhou alguns metros e passou a mão pelo cabelo completamente encharcado. Só então viu Margarida à sua frente. Ela aproximou-se sem pensar. — És completamente irresponsável! Ele sorriu, cansado. — Olá para ti também. — Sabes o susto que apanhei? — Correu tudo bem. — Correu porque tiveste sorte! Tomás olhou-a demoradamente. — Estavas preocupada comigo. Ela abriu a boca para responder, mas nenhuma resposta lhe pareceu convincente. Foi então que reparou num pequeno corte junto à sobrancelha dele. Sem refletir, levantou a mão e tocou-lhe de leve na pele. — Estás magoado... Os olhos de Tomás prenderam-se nos dela. O mundo à volta parecia ter desaparecido. Já não ouviam as pessoas. Nem as ondas. Nem as sirenes. Só existiam aqueles poucos centímetros que os separavam. Margarida percebeu finalmente o que estava a fazer e afastou rapidamente a mão. — Desculpa... Tomás abanou a cabeça. — Nunca peças desculpa por te preocupares comigo. Ela desviou o olhar. Porque, pela primeira vez desde que regressara ao Algarve, começava a suspeitar que o problema nunca tinha sido voltar a ver Tomás. O problema era perceber que talvez nunca tivesse deixado de gostar dele.
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