Capítulo 7 – Correntes
O primeiro grito veio da praia.
O segundo espalhou-se pela marginal em poucos segundos.
Tomás nem hesitou.
Largou a conversa a meio e desatou a correr em direção à areia.
Margarida seguiu-o instintivamente.
Ao aproximarem-se da Praia dos Pescadores, perceberam o que estava a acontecer.
Um dos pequenos barcos de turismo que fazia passeios às grutas tentava regressar à praia, mas uma ondulação mais forte empurrara-o para uma zona de rochas, a algumas dezenas de metros da rebentação. O motor parecia não responder e o barqueiro fazia sinais desesperados para terra.
Na embarcação estavam um casal e uma criança.
As pessoas começaram a juntar-se junto aos barcos de pesca puxados para a areia.
— Chamem os bombeiros! — gritou alguém.
— Avisem a Capitania!
Tomás já tirava a t-shirt enquanto corria.
— Tomás! — chamou Margarida.
Ele olhou para trás apenas um instante.
— Fica aqui.
Correu para um dos barcos de pesca que estava preparado para sair. Dois pescadores saltaram para bordo ao mesmo tempo.
Sem perder um segundo, empurraram a embarcação pela areia até à água, aproveitando uma aberta entre as ondas.
Margarida ficou imóvel.
As mãos tremiam-lhe sem que desse por isso.
O barco avançava lentamente contra a ondulação, enquanto dezenas de pessoas observavam em silêncio.
O vento trazia o cheiro intenso a sal e gasóleo dos motores.
Ela nunca tinha sentido o mar daquela maneira.
Sempre o vira como um lugar de férias.
Naquele momento percebeu que também podia ser perigoso.
Quando o barco de Tomás se aproximou da outra embarcação, uma vaga fez ambas balançarem violentamente.
Margarida prendeu a respiração.
Viu Tomás passar para o barco avariado com uma agilidade que denunciava anos de experiência.
Falava com calma, apesar da confusão.
Primeiro ajudou a criança a vestir corretamente o colete salva-vidas.
Depois tranquilizou o casal.
Só então começou a prender uma cabo de reboque.
Uma onda maior rebentou contra as rochas.
Durante um segundo, Tomás desapareceu da vista.
O coração de Margarida apertou-se.
— Vá... — murmurou, sem perceber que falava em voz alta.
Quando ele voltou a surgir, ouviu-se um suspiro coletivo na praia.
Minutos depois, com a ajuda do barco dos pescadores, conseguiram afastar a embarcação da zona de perigo e conduzi-la até à areia, onde já esperavam os bombeiros e a Polícia Marítima.
Assim que saltou para terra, Tomás caminhou alguns metros e passou a mão pelo cabelo completamente encharcado.
Só então viu Margarida à sua frente.
Ela aproximou-se sem pensar.
— És completamente irresponsável!
Ele sorriu, cansado.
— Olá para ti também.
— Sabes o susto que apanhei?
— Correu tudo bem.
— Correu porque tiveste sorte!
Tomás olhou-a demoradamente.
— Estavas preocupada comigo.
Ela abriu a boca para responder, mas nenhuma resposta lhe pareceu convincente.
Foi então que reparou num pequeno corte junto à sobrancelha dele.
Sem refletir, levantou a mão e tocou-lhe de leve na pele.
— Estás magoado...
Os olhos de Tomás prenderam-se nos dela.
O mundo à volta parecia ter desaparecido.
Já não ouviam as pessoas.
Nem as ondas.
Nem as sirenes.
Só existiam aqueles poucos centímetros que os separavam.
Margarida percebeu finalmente o que estava a fazer e afastou rapidamente a mão.
— Desculpa...
Tomás abanou a cabeça.
— Nunca peças desculpa por te preocupares comigo.
Ela desviou o olhar.
Porque, pela primeira vez desde que regressara ao Algarve, começava a suspeitar que o problema nunca tinha sido voltar a ver Tomás.
O problema era perceber que talvez nunca tivesse deixado de gostar dele.