Capítulo 4 – Ciúmes não combinam contigo
Margarida continuou imóvel junto à janela.
A mão fechou-se instintivamente sobre o parapeito de madeira enquanto observava a mulher de vestido amarelo abraçar Tomás com uma familiaridade desconcertante.
Ela era bonita.
Daquelas mulheres que pareciam sair impecáveis mesmo depois de atravessarem a praia ao meio-dia. O cabelo escuro caía-lhe pelas costas em ondas perfeitas e os óculos de sol escondiam-lhe metade do rosto.
Tomás disse qualquer coisa que Margarida não conseguiu ouvir.
A mulher riu.
Depois deu-lhe uma palmada no peito, como quem o conhecia demasiado bem.
— Claro... — murmurou Margarida. — Demorou menos de vinte e quatro horas.
Afastou-se da janela antes que alguém pudesse vê-la.
Não lhe dizia respeito.
Tomás podia beijar quem quisesse.
Podia namorar.
Casar.
Ter cinco filhos.
O problema era exclusivamente dele.
Então porque sentia aquele aperto ridículo no estômago?
— Ridículo... — repetiu para si.
Passou o resto da tarde a organizar a cozinha. A avó Amélia guardava tudo.
Frascos de compota vazios.
Receitas escritas em guardanapos.
Postais antigos.
Enquanto limpava uma gaveta, encontrou um pequeno caderno de capa azul.
Na primeira página estava escrito, com a letra redonda da avó:
"Há pessoas que chegam para nos ensinar. Outras chegam para nos mudar. Aprende a distingui-las."
Sorriu.
Era tão típico dela escrever pensamentos em todo o lado.
Folheou mais algumas páginas.
Receitas.
Listas de compras.
Pequenas notas sobre flores.
Até que ouviu alguém bater à porta.
Desta vez, com força.
Respirou fundo antes de abrir.
Era uma senhora baixa, de cabelo branco apanhado num carrapito impecável, carregando uma travessa ainda quente.
— Tu só podes ser a neta da Amélia!
Sem esperar resposta, entrou em casa.
— Eu sou a Dona Celeste. Moro duas portas abaixo. Como ias passar a primeira noite sozinha, fiz uma cataplana. Não aceito recusas.
Margarida riu pela primeira vez naquele dia.
— Muito obrigada.
— Ainda bem que voltaste. Esta rua estava a precisar de sangue novo.
A mulher pousou a travessa sobre a bancada e olhou discretamente em volta.
— Já encontraste o Tomás?
Margarida arqueou uma sobrancelha.
— Foi difícil não encontrar.
Dona Celeste sorriu de lado.
— Continua bonito como o pecado.
— Continua convencido.
— Também.
As duas riram.
Enquanto serviam o jantar, a vizinha falava da vila, das festas de verão, dos turistas e de quem tinha casado ou divorciado.
Até que, como quem não queria nada, Margarida perguntou:
— A rapariga que esteve aqui hoje... quem era?
A senhora levantou imediatamente o olhar.
Sorriu.
Um sorriso demasiado conhecedor.
— Ah...
Fez uma pausa propositada.
— A Inês.
— Inês?
— Sim.
Voltou a comer como se o assunto não tivesse importância.
Margarida tentou parecer indiferente.
— Namorada dele?
Dona Celeste limpou os lábios ao guardanapo.
— Isso...
Outra pausa.
"...tens de perguntar ao Tomás."
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Já passava das dez da noite quando Margarida decidiu ir dar um passeio.
A marginal estava cheia.
Música.
Cheiro a farturas.
Crianças a correr.
Casais de mãos dadas.
Sentia-se uma estranha na terra onde tinha crescido.
Enquanto caminhava junto ao mar, ouviu alguém chamar pelo seu nome.
— Margarida!
Virou-se.
Tomás vinha na direção dela.
Trazia uma camisa branca de linho aberta no primeiro botão e as mangas dobradas até aos antebraços.
Parecia demasiado confortável na própria pele.
— Não disseste que não gostavas de multidões?
— E não gosto.
— Então vieste porquê?
Ela encolheu os ombros.
— Porque também não gosto que me digam o que fazer.
Ele riu.
— Continuas igual.
Durante alguns segundos caminharam lado a lado.
Sem discutir.
Sem provocar.
O silêncio entre os dois era surpreendentemente confortável.
Foi Tomás quem o quebrou.
— A Dona Celeste já fez o interrogatório?
— Mais ou menos.
— E já tentou casar-nos?
Margarida soltou uma gargalhada.
— Ainda não.
— Dá-lhe dois dias.
Ela abanou a cabeça, divertida.
— Também lhe perguntei quem era a Inês.
Tomás parou de andar.
Olhou para ela.
Depois sorriu lentamente.
— Ah...
— Ah, o quê?
— Nada.
— Vais responder?
Ele aproximou-se apenas o suficiente para que ela voltasse a sentir o perfume fresco que tão bem conhecia.
— Primeiro responde tu.
— A quê?
— Porque é que perguntaste?
Margarida abriu a boca para responder.
Mas percebeu que não tinha uma resposta convincente.
Tomás inclinou-se ligeiramente, divertido com o silêncio dela.
— Foi curiosidade...
...ou ciúmes?
Ela sustentou-lhe o olhar.
O coração batia demasiado depressa para alguém que dizia não sentir absolutamente nada.
Antes que conseguisse responder, um fogo de artifício rebentou sobre o mar.
Os dois olharam instintivamente para o céu.
Quando Margarida voltou a olhar para Tomás, ele já não estava a admirar os foguetes.
Estava a olhar para ela.
E dessa vez...
...não sorriu.