Capítulo 1 – O regresso
O cheiro a maresia entrou pela janela do carro antes mesmo de Margarida ver o mar.
Sorriu sem querer.
Não voltava a Armação de Pêra há quase dez anos. Demasiadas memórias. Demasiadas despedidas. Quando a avó morreu, prometeu a si própria que nunca mais pisaria aquelas ruas. Mas promessas feitas de coração partido raramente sobrevivem ao tempo.
Estacionou junto à marginal e desligou o motor.
Durante alguns segundos ficou apenas a observar.
As gaivotas voavam sobre os barcos coloridos. Crianças corriam descalças pela areia. Um pescador remendava uma rede como se o mundo tivesse parado algures nos anos oitenta.
Ali, quase nada mudara.
— Bem-vinda a casa... — murmurou para si.
Pegou na mala e caminhou até à velha casa branca da avó Amélia.
A chave ainda funcionava.
A porta abriu com um rangido tão alto que parecia protestar contra a ausência de tantos anos.
Tudo estava exatamente igual.
As fotografias, o relógio de parede parado nas três e vinte, o cheiro a madeira antiga e alfazema.
Sentiu um aperto no peito.
— Só venho vender a casa... nada mais.
Era o que repetia desde que recebera a herança.
Subiu ao primeiro andar para abrir as janelas.
Foi então que ouviu um estrondo.
Olhou para a rua.
Um homem acabara de estacionar uma carrinha branca mesmo em frente ao portão. Saltou do banco do condutor com a naturalidade de quem achava que o mundo inteiro lhe pertencia.
Alto.
Moreno.
Camisa azul de linho com as mangas arregaçadas.
Óculos de sol.
E aquele sorriso irritantemente convencido.
Margarida estreitou os olhos.
Não.
Não podia ser.
O homem levantou a cabeça, como se tivesse sentido que estava a ser observado.
Tirou lentamente os óculos de sol.
Sorriu.
— Então não é que a menina da cidade voltou?
Ela ficou imóvel.
Reconhecia aquela voz.
— Tomás?
— Vejo que ainda te lembras de mim.
— Era difícil esquecer alguém tão convencido.
Ele riu.
— E tu continuas a responder antes de pensar.
— E tu continuas a meter-te onde não és chamado.
Tomás aproximou-se da janela.
— Sou eu que vou tratar das obras da casa.
Margarida piscou os olhos.
— Desculpa... do quê?
— O empreiteiro subcontratou a minha empresa para fazer parte da remodelação.
Ela fechou os olhos por um segundo.
De todas as pessoas do Algarve...
Tinha de ser ele.
Tomás cruzou os braços e sorriu com um brilho divertido.
— Parece que vamos passar muito tempo juntos.
Margarida devolveu-lhe o sorriso.
Mas o dela era perigosamente falso.
— Não te entusiasmes.
Assim que as obras terminarem... nunca mais te volto a ver.
Tomás inclinou ligeiramente a cabeça.
— Tens a certeza?
Ela não respondeu.
Porque, pela primeira vez em muitos anos, não tinha certeza de absolutamente nada.