Capítulo 1 – O regresso

462 Words
Capítulo 1 – O regresso O cheiro a maresia entrou pela janela do carro antes mesmo de Margarida ver o mar. Sorriu sem querer. Não voltava a Armação de Pêra há quase dez anos. Demasiadas memórias. Demasiadas despedidas. Quando a avó morreu, prometeu a si própria que nunca mais pisaria aquelas ruas. Mas promessas feitas de coração partido raramente sobrevivem ao tempo. Estacionou junto à marginal e desligou o motor. Durante alguns segundos ficou apenas a observar. As gaivotas voavam sobre os barcos coloridos. Crianças corriam descalças pela areia. Um pescador remendava uma rede como se o mundo tivesse parado algures nos anos oitenta. Ali, quase nada mudara. — Bem-vinda a casa... — murmurou para si. Pegou na mala e caminhou até à velha casa branca da avó Amélia. A chave ainda funcionava. A porta abriu com um rangido tão alto que parecia protestar contra a ausência de tantos anos. Tudo estava exatamente igual. As fotografias, o relógio de parede parado nas três e vinte, o cheiro a madeira antiga e alfazema. Sentiu um aperto no peito. — Só venho vender a casa... nada mais. Era o que repetia desde que recebera a herança. Subiu ao primeiro andar para abrir as janelas. Foi então que ouviu um estrondo. Olhou para a rua. Um homem acabara de estacionar uma carrinha branca mesmo em frente ao portão. Saltou do banco do condutor com a naturalidade de quem achava que o mundo inteiro lhe pertencia. Alto. Moreno. Camisa azul de linho com as mangas arregaçadas. Óculos de sol. E aquele sorriso irritantemente convencido. Margarida estreitou os olhos. Não. Não podia ser. O homem levantou a cabeça, como se tivesse sentido que estava a ser observado. Tirou lentamente os óculos de sol. Sorriu. — Então não é que a menina da cidade voltou? Ela ficou imóvel. Reconhecia aquela voz. — Tomás? — Vejo que ainda te lembras de mim. — Era difícil esquecer alguém tão convencido. Ele riu. — E tu continuas a responder antes de pensar. — E tu continuas a meter-te onde não és chamado. Tomás aproximou-se da janela. — Sou eu que vou tratar das obras da casa. Margarida piscou os olhos. — Desculpa... do quê? — O empreiteiro subcontratou a minha empresa para fazer parte da remodelação. Ela fechou os olhos por um segundo. De todas as pessoas do Algarve... Tinha de ser ele. Tomás cruzou os braços e sorriu com um brilho divertido. — Parece que vamos passar muito tempo juntos. Margarida devolveu-lhe o sorriso. Mas o dela era perigosamente falso. — Não te entusiasmes. Assim que as obras terminarem... nunca mais te volto a ver. Tomás inclinou ligeiramente a cabeça. — Tens a certeza? Ela não respondeu. Porque, pela primeira vez em muitos anos, não tinha certeza de absolutamente nada.
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