Fogo e Fúria
A sala de interrogatório cheirava a ferro, suor e raiva.
Carla batucava os dedos na mesa de metal, o maxilar travado, os olhos faiscando como se a qualquer momento fosse pular em alguém.
O corte no supercílio ainda sangrava um pouco, lembrança da luta que tinha acabado de terminar — e do segurança i****a que achou que podia segurá-la.
A porta se abriu.
Rodrigo entrou. Alto, olhar frio, a postura de quem já viu o pior das pessoas e ainda assim acredita em justiça.
Ele olhou pra ela e não viu só uma lutadora presa por “agressão”.
Viu um vulcão prestes a explodir.
— Carla Mendes, 29 anos. Lutadora de MMA. — ele leu o papel sem levantar a cabeça. — Quer me contar o que aconteceu ou prefere continuar fingindo que não foi nada?
Ela arqueou uma sobrancelha, debochada.
— E se eu disser que o cara mereceu?
Ele finalmente levantou o olhar. O choque foi imediato.
O ar pareceu pesar entre os dois.
Nem ela desviou. Nem ele quis.
Rodrigo se aproximou, apoiando as mãos na mesa.
— Muita gente “merece”, Carla. Mas a lei não funciona assim.
Ela sorriu de canto.
— Ainda bem que eu não sou a lei.
Silêncio. Só o som do ar-condicionado zumbindo.
Ele percebeu o tremor leve nos dedos dela, a respiração contida.
Não era medo. Era pura raiva.
Mas por trás disso… algo que ele não conseguia nomear.
— Você tem um problema com autoridade, é isso? — ele perguntou.
— Só quando a autoridade acha que pode mandar em mim.
Ele riu, um riso breve, quase um desafio.
— Boa sorte tentando me provocar.
Ela inclinou o corpo pra frente, os olhos presos nos dele.
— Quem disse que eu tô tentando?
O tempo parou.
Por um segundo, a sala deixou de ser um interrogatório e virou um campo de batalha silencioso.
Fúria contra controle. Desejo contra razão.
E ali, naquele olhar trocado, os dois souberam — mesmo sem admitir —
que aquela guerra estava apenas começando
O Jogo Começa
O salão era puro luxo: cristais, champanhe e gente fingindo elegância.
Micael observava tudo de um camarote reservado, o olhar clínico de quem enxerga além das aparências. Dono de meio mundo, acostumado a comandar, a controlar, a comprar silêncio.
Até que ela entrou.
Grazyela Mendes
Vestido vermelho como pecado, perfume que cortava o ar e fazia virar pescoços.
Não pediu licença, não precisou. Quando ela passou, o ambiente pareceu desacelerar — como se o mundo, por um instante, respirasse junto com ela.
Os olhos de Micael seguiram cada passo.
Ele nem percebeu quando o copo congelou na mão.
Só percebeu o sorriso dela: curto, irônico, de quem sabe exatamente o efeito que causa.
Ela se aproximou do balcão, pediu um drink e o olhou pelo reflexo do espelho atrás do barman.
— Vai continuar me encarando daí ou vai descer pra jogar de verdade? — disse, sem virar o rosto.
Ele arqueou uma sobrancelha.
Gostava de gente ousada, mas aquela mulher passava do ponto.
Desceu os dois degraus que os afastavam
Aproximou-se devagar, voz baixa, segura:
— E qual seria o jogo, exatamente?
Ela virou pra ele, olhos de felina.
— Aquele em que o vencedor nunca admite que perdeu.
Silêncio.
Os dois se estudaram como predadores que se reconhecem.
Ele tentou medir o perigo; ela, o prazer da provocação.
Micael sorriu, oferecendo o copo.
— Então brinde comigo, pra começar justo.
Ela encostou o copo no dele, o toque suave, mas firme.
— Justo? — repetiu. — Eu não jogo justo, Micael.
Ele ficou em silêncio. Ela sabia o nome dele.
E ali, no primeiro gole, ele entendeu:
não era ele quem estava caçando.
Era ele quem tinha acabado de ser
escolhido.
Orgulho em Carne Viva
O salão do fórum federal estava cheio de gente importante — políticos, empresários, juízes, todos fingindo simpatia em meio a sorrisos calculados.
Lenita atravessava aquele espaço como quem nasceu pra isso. Salto firme, vestido sob medida, olhar que não pedia permissão pra existir.
Ela sabia que todos a observavam.
E gostava disso.
— Lenita Mendes, empresária do setor de energia — anunciou o apresentador no microfone, enquanto ela subia ao palco pra receber uma homenagem.
Do canto da sala, Jorge observava.
Desembargador temido, voz grave, presença que calava qualquer sala.
Acostumado a ver pessoas tentando impressioná-lo — mas aquela mulher… era diferente.
Não tentava nada. Ela era.
Quando ela terminou o discurso, ele foi o primeiro a aplaudir.
Devagar, firme, o olhar fixo nela.
Ela percebeu, e o encarou de volta.
Mais tarde, na saída, ele a interceptou perto dos carros oficiais.
— Belo discurso — disse, a voz rouca, polida. — Raro ver alguém tão segura… e tão certa de si.
Lenita sorriu, cruzando os braços.
— E é raro ver um homem que aplaude uma mulher sem sentir ameaça.
Ele sorriu de volta.
— Eu não aplaudo por gentileza. Aplaudo o poder quando o reconheço.
Ela deu um passo à frente. O perfume dela o envolveu como uma promessa perigosa.
— Então somos parecidos, desembargador.
— Em quê?
— Em nunca aceitarmos ficar por baixo.
O silêncio entre eles foi mais eloquente que qualquer frase.
O motorista ligou o carro dela, mas ela não entrou.
— Foi um prazer, doutor Jorge. — disse, com aquele tom que soava como um desafio.
Ele inclinou o corpo, perto o bastante pra sentir o calor dela.
— Ainda vai ser mais.
Ela sorriu, entrou no carro e partiu, deixando o cheiro de vitória no ar.
E Jorge soube, ali mesmo, que tinha acabado de encontrar sua igual —
e seu maior risco.
No Ritmo do Caos
O relógio marcava 22h40.
O escritório da empresa estava quase vazia, exceto por André, que ainda digitava relatórios e bufava de raiva a cada linha.
Precisava de uma assinatura para a nova fonte de energia que a Solares queria adquirir — e a advogada do grupo, Melissa Mendes,estava disponível
Ele entrou no escritório dela sem bater.
Luz baixa, cheiro de café e incenso.
Melissa estava deitada no sofá, com um livro aberto sobre o rosto e os pés descalços apoiados na mesa.
— Sério? — ele resmungou. — E a gente morrendo de trabalhar e você dormindo
Ela tirou o livro devagar, abrindo um olho só.
— Não tô dormindo, tô recarregando energia. — falou, a voz arrastada, quase um ronronar.
— Recarregando... — ele bufou, jogando o papel em cima da mesa. — Preciso disso assinado agora.
Ela olhou o papel, mas não se mexeu.
— Tá com pressa?
— É claro que tô!
Ela sentou-se lentamente, alongando os braços como quem desperta de um sonho.
— Então relaxa. A pressa faz a gente errar o alvo.
André ficou em silêncio, encarando-a.
O contraste o desconcertava — ela era uma ilha de calma no meio da tormenta que ele vivia.
O cabelo dela caía solto, a pele brilhava sob a luz amarelada do abajur.
— Você irrita qualquer um, sabia? — ele disse, entre os dentes.
Ela sorriu, pegando a caneta.
— E mesmo assim, você veio até aqui.
Assinou o papel, olhou pra ele e estendeu.
Os dedos se tocaram por um segundo.
Aquele toque simples fez o coração dele perder o compasso.
Ela percebeu, claro.
E sorriu de canto.
— Tá vendo? Às vezes, devagar também é perigoso.
Ele pegou o papel e saiu antes que ela percebesse o sorriso disfarçado no rosto dele.
Mas era tarde.
Melissa já sabia: o novato que odiava perder tempo… tinha acabado de começar a perdê-lo por ela.
Sob o Mesmo Segredo
A chuva caía pesada sobre o pátio da delegacia.
Relâmpagos cortavam o céu como flashes, iluminando os carros estacionados.
Lá dentro, o corredor estava quase vazio, exceto por Rafaela — pastas na mão, olhar atento, passos firmes.
Ela sempre foi boa em disfarçar intenções. Boa demais.
A porta do gabinete do Delegado Ricardo estava entreaberta. Luz acesa, fumaça de café e tensão no ar.
Ela bateu de leve.
— Entra — ele disse, sem levantar os olhos dos papéis.
Ela entrou, fechando a porta atrás de si.
Silêncio. O som da chuva fazia a cena parecer lenta, quase hipnótica.
— Você pediu os relatórios da equipe de campo. — Ela colocou os papéis sobre a mesa, próxima o bastante pra sentir o perfume amadeirado dele. — Aqui estão.
Ricardo finalmente olhou pra ela.
O olhar dele era firme, daqueles que atravessam.
Mas por um segundo, vacilou — algo em Rafaela sempre o desequilibrava.
— Obrigado — murmurou, pegando os documentos. — Você andou mexendo em arquivos que não devia, Rafaela.
Ela arqueou uma sobrancelha, fingindo inocência.
— Está me acusando de algo, chefe?
— Só tô dizendo que você sabe mais do que mostra.
Ela deu um meio sorriso.
— E você sabe menos do que imagina.
O silêncio voltou, denso.
Ele se levantou, dando a volta na mesa, parando perto demais.
O cheiro de café e tensão se misturava ao perfume dela.
— Eu devia te afastar disso — disse ele, voz baixa.
— Devia — ela respondeu. — Mas não vai.
— E por que acha isso?
Ela ergueu o olhar, firme.
— Porque quer saber até onde eu vou... e porque sabe que eu posso ir mais longe que você.
Ricardo segurou o queixo dela, por um instante, como se quisesse entender se aquele desafio era real ou só provocação.
Mas ela apenas o olhou — calma, perigosa, irresistível.
— Cuidado, Rafaela — ele sussurrou. — Brincar comigo pode te queimar.
Ela sorriu, sem recuar.
— Eu gosto do fogo, delegado. É nele que eu fico mais bonita.
O Gosto do Invisível
O vento soprava quente na feira esotérica.
Incensos queimando, vozes sussurrando mantras, velas coloridas tremulando sobre as bancadas.
Clarice caminhava devagar entre os estandes, os olhos atentos, como se procurasse algo — ou alguém — que ainda não sabia nomear.
No fundo da tenda principal, um homem observava os movimentos dela.
Camisa simples, barba por fazer, olhar de quem mede o ambiente antes de se aproximar.
Benjamin.
Estava infiltrado ali pra investigar possíveis conexões com o grupo Solares, mas nada naquele lugar fazia sentido.
Principalmente ela.
Quando Clarice passou diante dele, o tempo pareceu falhar por um segundo.
Ela parou.
Olhou direto nos olhos dele.
E disse, como quem fala uma verdade óbvia:
— Você não devia estar aqui, Benjamin.
Ele congelou.
Ninguém ali sabia o nome dele.
— Como… — ele começou, mas ela apenas sorriu.
— Eu te vi em sonho. Três vezes. A mesma sombra, o mesmo olhar. — Ela se aproximou, os olhos brilhando. — Agora entendo por quê.
Benjamin tentou manter a postura fria, mas a voz dela parecia atravessar qualquer defesa.
— Você tem imaginação demais, moça.
— E você tem medo demais, agente.
O silêncio que se formou parecia vibrar.
A feira continuava viva, mas em volta deles o ar ficou diferente — denso, elétrico.
Ela ergueu a mão e tocou o colar dele, escondido sob a camisa.
— Isso… te protege ou te prende?
Ele recuou um passo, desconcertado.
— Não gosto que mexam nas minhas coisas.
— Eu também não — ela disse, sorrindo — mas a vida adora mexer na gente, não é?
Ele respirou fundo, tentando entender que tipo de mulher era aquela.
Clarice apenas o observava, calma, como se já soubesse tudo o que ele ainda tentava esconder.
— A gente vai se ver de novo — ela disse, virando-se pra sair. — Quando você parar de fingir que é só um infiltrado.
Benjamin a seguiu com os olhos até ela sumir na multidão.
E naquele instante, teve a estranha certeza de que ela não era apenas um nome numa investigação.
Era o começo de algo que ele jamais conseguiria controlar.
O Valor do Silêncio
O escritório era um santuário de silêncio.
Planilhas abertas, telas piscando, luz fria refletindo nos óculos de Eva.
Cada número, cada detalhe, tudo sob domínio absoluto.
Ela não errava. Não hesitava.
O controle era o seu escudo — e sua prisão.
Quando a porta se abriu, ela nem levantou o olhar.
— Se veio pedir assinatura, deixa na mesa. Tô ocupada.
— Não vim pedir nada. — A voz era baixa, firme. — Vim conferir os números do fundo de investimento do grupo Solares.
Ela finalmente levantou os olhos.
Miguel.
Novo “contador”, recém-contratado. Roupa simples, olhar frio, jeito de quem entende mais do que fala.
— Achei que essa parte fosse da minha responsabilidade. — Ela disse, cruzando os braços.
— É. — Ele deu de ombros. — Mas gosto de revisar as contas de quem não gosta de ser revisada.
Ela arqueou uma sobrancelha, irritada.
— Gosta de viver perigosamente, é isso?
— Gosto de saber com quem tô lidando.
Silêncio.
O som dos ventiladores do computador era o único ruído.
Ela o estudou, minuciosa, tentando entender qual jogo ele estava jogando.
— Você fala pouco — ela comentou, seca.
— E você fala demais nas entrelinhas. — respondeu ele, sem desviar o olhar.
Eva sentiu o coração acelerar, mas manteve o rosto neutro.
— Tá me analisando, Miguel?
Ele se aproximou devagar, apoiando as mãos na mesa.
— Você analisa todo mundo, Eva. Alguém precisava equilibrar o tabuleiro.
Por um instante, ela ficou sem resposta.
O controle escorregou um milímetro.
E Miguel percebeu.
Ele pegou uma pasta e virou-se pra sair, mas antes parou na porta.
— O dinheiro não é o que te move, é? — perguntou sem olhar pra trás.
Ela o observou em silêncio, tensa.
— O controle é.
— Então cuidado — ele disse, abrindo a porta. — Porque eu sou o tipo de variável que não se calcula.
Quando ele saiu, Eva percebeu que estava sorrindo — um sorriso discreto, raro, perigoso.
Pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu algo que não podia mensurar.
E aquilo, pra ela, era o verdadeiro risco.