cada um com seu alvo

2327 Words
Fogo e Fúria A sala de interrogatório cheirava a ferro, suor e raiva. Carla batucava os dedos na mesa de metal, o maxilar travado, os olhos faiscando como se a qualquer momento fosse pular em alguém. O corte no supercílio ainda sangrava um pouco, lembrança da luta que tinha acabado de terminar — e do segurança i****a que achou que podia segurá-la. A porta se abriu. Rodrigo entrou. Alto, olhar frio, a postura de quem já viu o pior das pessoas e ainda assim acredita em justiça. Ele olhou pra ela e não viu só uma lutadora presa por “agressão”. Viu um vulcão prestes a explodir. — Carla Mendes, 29 anos. Lutadora de MMA. — ele leu o papel sem levantar a cabeça. — Quer me contar o que aconteceu ou prefere continuar fingindo que não foi nada? Ela arqueou uma sobrancelha, debochada. — E se eu disser que o cara mereceu? Ele finalmente levantou o olhar. O choque foi imediato. O ar pareceu pesar entre os dois. Nem ela desviou. Nem ele quis. Rodrigo se aproximou, apoiando as mãos na mesa. — Muita gente “merece”, Carla. Mas a lei não funciona assim. Ela sorriu de canto. — Ainda bem que eu não sou a lei. Silêncio. Só o som do ar-condicionado zumbindo. Ele percebeu o tremor leve nos dedos dela, a respiração contida. Não era medo. Era pura raiva. Mas por trás disso… algo que ele não conseguia nomear. — Você tem um problema com autoridade, é isso? — ele perguntou. — Só quando a autoridade acha que pode mandar em mim. Ele riu, um riso breve, quase um desafio. — Boa sorte tentando me provocar. Ela inclinou o corpo pra frente, os olhos presos nos dele. — Quem disse que eu tô tentando? O tempo parou. Por um segundo, a sala deixou de ser um interrogatório e virou um campo de batalha silencioso. Fúria contra controle. Desejo contra razão. E ali, naquele olhar trocado, os dois souberam — mesmo sem admitir — que aquela guerra estava apenas começando O Jogo Começa O salão era puro luxo: cristais, champanhe e gente fingindo elegância. Micael observava tudo de um camarote reservado, o olhar clínico de quem enxerga além das aparências. Dono de meio mundo, acostumado a comandar, a controlar, a comprar silêncio. Até que ela entrou. Grazyela Mendes Vestido vermelho como pecado, perfume que cortava o ar e fazia virar pescoços. Não pediu licença, não precisou. Quando ela passou, o ambiente pareceu desacelerar — como se o mundo, por um instante, respirasse junto com ela. Os olhos de Micael seguiram cada passo. Ele nem percebeu quando o copo congelou na mão. Só percebeu o sorriso dela: curto, irônico, de quem sabe exatamente o efeito que causa. Ela se aproximou do balcão, pediu um drink e o olhou pelo reflexo do espelho atrás do barman. — Vai continuar me encarando daí ou vai descer pra jogar de verdade? — disse, sem virar o rosto. Ele arqueou uma sobrancelha. Gostava de gente ousada, mas aquela mulher passava do ponto. Desceu os dois degraus que os afastavam Aproximou-se devagar, voz baixa, segura: — E qual seria o jogo, exatamente? Ela virou pra ele, olhos de felina. — Aquele em que o vencedor nunca admite que perdeu. Silêncio. Os dois se estudaram como predadores que se reconhecem. Ele tentou medir o perigo; ela, o prazer da provocação. Micael sorriu, oferecendo o copo. — Então brinde comigo, pra começar justo. Ela encostou o copo no dele, o toque suave, mas firme. — Justo? — repetiu. — Eu não jogo justo, Micael. Ele ficou em silêncio. Ela sabia o nome dele. E ali, no primeiro gole, ele entendeu: não era ele quem estava caçando. Era ele quem tinha acabado de ser escolhido. Orgulho em Carne Viva O salão do fórum federal estava cheio de gente importante — políticos, empresários, juízes, todos fingindo simpatia em meio a sorrisos calculados. Lenita atravessava aquele espaço como quem nasceu pra isso. Salto firme, vestido sob medida, olhar que não pedia permissão pra existir. Ela sabia que todos a observavam. E gostava disso. — Lenita Mendes, empresária do setor de energia — anunciou o apresentador no microfone, enquanto ela subia ao palco pra receber uma homenagem. Do canto da sala, Jorge observava. Desembargador temido, voz grave, presença que calava qualquer sala. Acostumado a ver pessoas tentando impressioná-lo — mas aquela mulher… era diferente. Não tentava nada. Ela era. Quando ela terminou o discurso, ele foi o primeiro a aplaudir. Devagar, firme, o olhar fixo nela. Ela percebeu, e o encarou de volta. Mais tarde, na saída, ele a interceptou perto dos carros oficiais. — Belo discurso — disse, a voz rouca, polida. — Raro ver alguém tão segura… e tão certa de si. Lenita sorriu, cruzando os braços. — E é raro ver um homem que aplaude uma mulher sem sentir ameaça. Ele sorriu de volta. — Eu não aplaudo por gentileza. Aplaudo o poder quando o reconheço. Ela deu um passo à frente. O perfume dela o envolveu como uma promessa perigosa. — Então somos parecidos, desembargador. — Em quê? — Em nunca aceitarmos ficar por baixo. O silêncio entre eles foi mais eloquente que qualquer frase. O motorista ligou o carro dela, mas ela não entrou. — Foi um prazer, doutor Jorge. — disse, com aquele tom que soava como um desafio. Ele inclinou o corpo, perto o bastante pra sentir o calor dela. — Ainda vai ser mais. Ela sorriu, entrou no carro e partiu, deixando o cheiro de vitória no ar. E Jorge soube, ali mesmo, que tinha acabado de encontrar sua igual — e seu maior risco. No Ritmo do Caos O relógio marcava 22h40. O escritório da empresa estava quase vazia, exceto por André, que ainda digitava relatórios e bufava de raiva a cada linha. Precisava de uma assinatura para a nova fonte de energia que a Solares queria adquirir — e a advogada do grupo, Melissa Mendes,estava disponível Ele entrou no escritório dela sem bater. Luz baixa, cheiro de café e incenso. Melissa estava deitada no sofá, com um livro aberto sobre o rosto e os pés descalços apoiados na mesa. — Sério? — ele resmungou. — E a gente morrendo de trabalhar e você dormindo Ela tirou o livro devagar, abrindo um olho só. — Não tô dormindo, tô recarregando energia. — falou, a voz arrastada, quase um ronronar. — Recarregando... — ele bufou, jogando o papel em cima da mesa. — Preciso disso assinado agora. Ela olhou o papel, mas não se mexeu. — Tá com pressa? — É claro que tô! Ela sentou-se lentamente, alongando os braços como quem desperta de um sonho. — Então relaxa. A pressa faz a gente errar o alvo. André ficou em silêncio, encarando-a. O contraste o desconcertava — ela era uma ilha de calma no meio da tormenta que ele vivia. O cabelo dela caía solto, a pele brilhava sob a luz amarelada do abajur. — Você irrita qualquer um, sabia? — ele disse, entre os dentes. Ela sorriu, pegando a caneta. — E mesmo assim, você veio até aqui. Assinou o papel, olhou pra ele e estendeu. Os dedos se tocaram por um segundo. Aquele toque simples fez o coração dele perder o compasso. Ela percebeu, claro. E sorriu de canto. — Tá vendo? Às vezes, devagar também é perigoso. Ele pegou o papel e saiu antes que ela percebesse o sorriso disfarçado no rosto dele. Mas era tarde. Melissa já sabia: o novato que odiava perder tempo… tinha acabado de começar a perdê-lo por ela. Sob o Mesmo Segredo A chuva caía pesada sobre o pátio da delegacia. Relâmpagos cortavam o céu como flashes, iluminando os carros estacionados. Lá dentro, o corredor estava quase vazio, exceto por Rafaela — pastas na mão, olhar atento, passos firmes. Ela sempre foi boa em disfarçar intenções. Boa demais. A porta do gabinete do Delegado Ricardo estava entreaberta. Luz acesa, fumaça de café e tensão no ar. Ela bateu de leve. — Entra — ele disse, sem levantar os olhos dos papéis. Ela entrou, fechando a porta atrás de si. Silêncio. O som da chuva fazia a cena parecer lenta, quase hipnótica. — Você pediu os relatórios da equipe de campo. — Ela colocou os papéis sobre a mesa, próxima o bastante pra sentir o perfume amadeirado dele. — Aqui estão. Ricardo finalmente olhou pra ela. O olhar dele era firme, daqueles que atravessam. Mas por um segundo, vacilou — algo em Rafaela sempre o desequilibrava. — Obrigado — murmurou, pegando os documentos. — Você andou mexendo em arquivos que não devia, Rafaela. Ela arqueou uma sobrancelha, fingindo inocência. — Está me acusando de algo, chefe? — Só tô dizendo que você sabe mais do que mostra. Ela deu um meio sorriso. — E você sabe menos do que imagina. O silêncio voltou, denso. Ele se levantou, dando a volta na mesa, parando perto demais. O cheiro de café e tensão se misturava ao perfume dela. — Eu devia te afastar disso — disse ele, voz baixa. — Devia — ela respondeu. — Mas não vai. — E por que acha isso? Ela ergueu o olhar, firme. — Porque quer saber até onde eu vou... e porque sabe que eu posso ir mais longe que você. Ricardo segurou o queixo dela, por um instante, como se quisesse entender se aquele desafio era real ou só provocação. Mas ela apenas o olhou — calma, perigosa, irresistível. — Cuidado, Rafaela — ele sussurrou. — Brincar comigo pode te queimar. Ela sorriu, sem recuar. — Eu gosto do fogo, delegado. É nele que eu fico mais bonita. O Gosto do Invisível O vento soprava quente na feira esotérica. Incensos queimando, vozes sussurrando mantras, velas coloridas tremulando sobre as bancadas. Clarice caminhava devagar entre os estandes, os olhos atentos, como se procurasse algo — ou alguém — que ainda não sabia nomear. No fundo da tenda principal, um homem observava os movimentos dela. Camisa simples, barba por fazer, olhar de quem mede o ambiente antes de se aproximar. Benjamin. Estava infiltrado ali pra investigar possíveis conexões com o grupo Solares, mas nada naquele lugar fazia sentido. Principalmente ela. Quando Clarice passou diante dele, o tempo pareceu falhar por um segundo. Ela parou. Olhou direto nos olhos dele. E disse, como quem fala uma verdade óbvia: — Você não devia estar aqui, Benjamin. Ele congelou. Ninguém ali sabia o nome dele. — Como… — ele começou, mas ela apenas sorriu. — Eu te vi em sonho. Três vezes. A mesma sombra, o mesmo olhar. — Ela se aproximou, os olhos brilhando. — Agora entendo por quê. Benjamin tentou manter a postura fria, mas a voz dela parecia atravessar qualquer defesa. — Você tem imaginação demais, moça. — E você tem medo demais, agente. O silêncio que se formou parecia vibrar. A feira continuava viva, mas em volta deles o ar ficou diferente — denso, elétrico. Ela ergueu a mão e tocou o colar dele, escondido sob a camisa. — Isso… te protege ou te prende? Ele recuou um passo, desconcertado. — Não gosto que mexam nas minhas coisas. — Eu também não — ela disse, sorrindo — mas a vida adora mexer na gente, não é? Ele respirou fundo, tentando entender que tipo de mulher era aquela. Clarice apenas o observava, calma, como se já soubesse tudo o que ele ainda tentava esconder. — A gente vai se ver de novo — ela disse, virando-se pra sair. — Quando você parar de fingir que é só um infiltrado. Benjamin a seguiu com os olhos até ela sumir na multidão. E naquele instante, teve a estranha certeza de que ela não era apenas um nome numa investigação. Era o começo de algo que ele jamais conseguiria controlar. O Valor do Silêncio O escritório era um santuário de silêncio. Planilhas abertas, telas piscando, luz fria refletindo nos óculos de Eva. Cada número, cada detalhe, tudo sob domínio absoluto. Ela não errava. Não hesitava. O controle era o seu escudo — e sua prisão. Quando a porta se abriu, ela nem levantou o olhar. — Se veio pedir assinatura, deixa na mesa. Tô ocupada. — Não vim pedir nada. — A voz era baixa, firme. — Vim conferir os números do fundo de investimento do grupo Solares. Ela finalmente levantou os olhos. Miguel. Novo “contador”, recém-contratado. Roupa simples, olhar frio, jeito de quem entende mais do que fala. — Achei que essa parte fosse da minha responsabilidade. — Ela disse, cruzando os braços. — É. — Ele deu de ombros. — Mas gosto de revisar as contas de quem não gosta de ser revisada. Ela arqueou uma sobrancelha, irritada. — Gosta de viver perigosamente, é isso? — Gosto de saber com quem tô lidando. Silêncio. O som dos ventiladores do computador era o único ruído. Ela o estudou, minuciosa, tentando entender qual jogo ele estava jogando. — Você fala pouco — ela comentou, seca. — E você fala demais nas entrelinhas. — respondeu ele, sem desviar o olhar. Eva sentiu o coração acelerar, mas manteve o rosto neutro. — Tá me analisando, Miguel? Ele se aproximou devagar, apoiando as mãos na mesa. — Você analisa todo mundo, Eva. Alguém precisava equilibrar o tabuleiro. Por um instante, ela ficou sem resposta. O controle escorregou um milímetro. E Miguel percebeu. Ele pegou uma pasta e virou-se pra sair, mas antes parou na porta. — O dinheiro não é o que te move, é? — perguntou sem olhar pra trás. Ela o observou em silêncio, tensa. — O controle é. — Então cuidado — ele disse, abrindo a porta. — Porque eu sou o tipo de variável que não se calcula. Quando ele saiu, Eva percebeu que estava sorrindo — um sorriso discreto, raro, perigoso. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu algo que não podia mensurar. E aquilo, pra ela, era o verdadeiro risco.
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