Luna sentou-se na extremidade da mesa, seu olhar fixo em Theo, que parecia tão calmo, como se estivesse em uma ilha de tranquilidade em meio a uma tempestade. O escritório moderno, com suas paredes de vidro e vista para a cidade, refletia a luz do sol que entrava, mas a atmosfera entre eles era tudo menos iluminada. O aroma do café forte, que ainda pairava no ar, não conseguia dissipar a tensão que crescia a cada segundo. Ela estava ali, cercada por gráficos e planilhas, mas sua mente girava em torno de algo muito mais complicado que números.
— Clareza exige reciprocidade — ela repetiu, tentando manter a voz firme, mas sentindo a frustração transbordar. Theo, com seu cabelo escuro bagunçado e um sorriso que poderia derreter o gelo, apenas arqueou uma sobrancelha. Ele não parecia se importar com a sua resistência, como se soubesse que, de alguma forma, ela acabaria cedendo. A ideia a irritava ainda mais. “Por que ele tem que ser tão insuportavelmente encantador?” pensou, enquanto cruzava os braços, um gesto involuntário de defesa.
— Concordo — disse ele, finalmente se inclinando para frente, sua expressão se tornando mais séria. — Mas reciprocidade não é apenas sobre o que você dá. É sobre o que você está disposta a aceitar. Luna revirou os olhos, sentindo a necessidade de se afastar daquela conversa. “Aceitar? Ele não sabe o que é aceitar”, pensou, lembrando-se de como Theo sempre parecia ter o controle em suas mãos, enquanto ela lutava para manter sua própria sanidade em meio ao caos que ele trazia.
O telefone dela vibrou na mesa, interrompendo o tenso duelo verbal. Era uma mensagem de Sara, sua amiga e confidente. "Você ainda está com ele? Cuidado, Luna! Ele é uma armadilha!" Uma risada involuntária escapou de seus lábios, mas logo foi abafada pela seriedade da situação. “Armadilha ou não, preciso dessa parceria”, refletiu, enquanto olhava para Theo, que agora a observava com uma expressão intrigada.
— Quem é? — perguntou ele, tentando parecer desinteressado, mas a curiosidade em seus olhos não podia ser escondida. Luna hesitou, mas decidiu que não tinha nada a perder. “Por que não deixar que ele saiba que não sou a única que o vê como um desafio?”
— Sara, minha amiga. Ela está preocupada comigo. — A resposta saiu mais rápida do que ela pretendia, e logo sentiu a necessidade de se justificar. — Ela acha que você é uma armadilha.
Theo soltou uma risada baixa, divertida e um tanto sarcástica. — Uma armadilha? Isso é novo. — Ele se recostou na cadeira, entrelaçando os dedos atrás da cabeça, como se estivesse se preparando para um jogo de paciência. — Diga a ela que não sou tão perigoso assim.
— Perigoso é uma palavra forte, Theo. Mas você é… imprevisível — Luna disse, sua voz carregando um tom desafiador. O que ela não disse era que, por mais que quisesse manter distância, havia algo nele que a atraía, uma centelha de curiosidade que não conseguia ignorar.
A conversa se desenrolou como um jogo de xadrez, cada movimento cuidadosamente calculado. A tensão entre eles era palpável, como se o ar estivesse carregado de eletricidade. Luna sentiu seu coração acelerar quando ele se inclinou mais perto, seu olhar intenso fixo no dela. — Você realmente acha que sou uma armadilha? — perguntou, a voz baixa e sedutora.
Ela desviou o olhar, tentando recobrar a compostura. — Não, eu… — começou, mas as palavras falharam. O que ela realmente pensava era que ele era uma mistura perigosa de charme e ambição, uma combinação que poderia levá-la a um abismo. Mas havia também uma parte dela que se perguntava se a queda poderia ser doce.
— Vamos lá, Luna. Você pode ser mais honesta do que isso. — A insistência dele a fez sentir uma onda de calor subir pelo rosto. Era difícil manter a postura quando ele a observava com tanta intensidade. — O que você realmente sente por mim?
A pergunta a pegou de surpresa, e ela se viu sem palavras. O que ela realmente sentia? Um turbilhão de emoções a invadiu: raiva, atração, confusão. “Ele não pode estar falando sério”, pensou. No entanto, em um impulso, decidiu que era hora de se arriscar. — Eu sinto que você é uma distração. Uma distração perigosa — respondeu, com um olhar desafiador.
Theo sorriu, um sorriso que iluminou seu rosto e fez o coração de Luna disparar ainda mais. — Então, você admite que sou uma distração? Isso é um começo. — Ele se levantou, caminhando lentamente ao redor da mesa, como um predador que se aproxima de sua presa. A presença dele era avassaladora, e Luna se viu presa em um jogo que não sabia se queria ganhar ou perder.
— O que você quer, Theo? — perguntou, sua voz quase um sussurro. Ele parou na sua frente, a distância entre eles agora quase inexistente. O cheiro dele, uma mistura de colônia e algo mais terroso, a envolveu, e ela lutou para não se deixar levar.
— Quero que você veja além do que está na superfície. Quero que você confie em mim, mesmo que isso signifique ir contra tudo o que você acredita — respondeu, a sinceridade em sua voz a surpreendendo. Luna sentiu o coração disparar. “Confiar? É pedir demais”, pensou, mas, ao mesmo tempo, havia uma parte dela que queria acreditar nele, que queria se entregar a essa sensação avassaladora.
Ela respirou fundo, tentando reunir as palavras certas. — Não sei se posso fazer isso, Theo. — A vulnerabilidade em sua voz era palpável, e ele a observou com uma intensidade que a fez sentir-se exposta. O que estava em jogo era mais do que apenas negócios; era uma dança delicada entre o desejo e o medo, e Luna sabia que, se não tivesse cuidado, podia acabar se perdendo completamente.
Quando Clara entrou na sala sem bater, sorrindo de forma casual demais, algo no rosto de Luna se fechou instantaneamente. Não foi consciente. Não foi estratégico. Foi físico. O olhar de Theo se desviou por um segundo — apenas um — e foi o suficiente.
— Desculpa interromper — Clara disse, apoiando-se na lateral da mesa. — Só vim confirmar se vocês vão precisar de mim nos ajustes finais.
Theo respondeu com naturalidade, mas Luna já não ouvia direito. Sentiu a necessidade súbita de recolher tudo o que estava exposto demais. Endureceu a postura. Cruzou os braços. Criou distância.
— A gente resolve isso depois — disse, fria, recolhendo os papéis. — Sozinha.
Theo a olhou, surpreso pela mudança abrupta, mas não insistiu. Clara percebeu. Sempre percebia.
Quando Luna passou por ele, não houve toque, nem palavra. Apenas um silêncio calculado. Um recuo claro demais para ser acaso.
Não era raiva.
Era ciúme — e a consciência incômoda de que sentir aquilo a colocava em perigo.