O Primeiro Atrito

589 Words
Algumas histórias não começam com acontecimentos. Começam com pessoas.Luna sempre carregou mais do que devia. Não porque nunca houve quem quisesse ajudar — mas porque aprendera cedo que depender machuca. Dentro dela coexistiam força e cansaço, como em alguém que já caiu muitas vezes, mas nunca ficou tempo suficiente no chão para ser visto. Ela não buscava amor. Buscava silêncio. E era justamente isso que a colocava em perigo.Theo era feito de contenção. Tudo nele parecia controlado: o gesto, a fala, o olhar. Ele não se entregava porque sabia o estrago que vinha depois. Observava mais do que falava, sentia mais do que deixava transparecer. Não acreditava em encontros por acaso — mas também nunca soube explicar por que certas pessoas apareciam como se o destino estivesse atrasado.Clara era o tipo que quase não se notava — até ser impossível ignorar. Discreta, atenta, as palavras certas sempre na ponta da língua. Às vezes, um simples gesto seu bastava para acender uma faísca onde ninguém esperava fogo.Eles ainda não sabiam, mas suas histórias já estavam entrelaçadas. Por escolhas antigas. Por silêncios sustentados. Por sentimentos que ainda não tinham nome. Porque algumas conexões não nascem do amor — nascem da necessidade de ser visto. E quando isso acontece… ninguém sai ileso.Luna odiava atrasos. Não pelo tempo, mas pelo que dizia sobre quem o desperdiçava. E caos emocional era tudo o que ela já tinha em excesso.O café estava insuportavelmente cheio para uma quarta-feira. Vozes demais, risadas erradas, o som agudo das xícaras batendo no balcão. Ela escolheu a mesa mais afastada, abriu o notebook e tentou se concentrar. Tentou — e falhou.— Desculpa — disse uma voz masculina, firme, às suas costas. — Essa mesa está ocupada?Luna nem levantou os olhos. — Está — respondeu, seca. — Por mim.Quando finalmente olhou, viu um homem alto, de postura tranquila demais para quem acabara de ser recusado. Ele não sorriu, não desviou, apenas observou — como se medisse as fissuras invisíveis do instante.— Interessante — murmurou. — O quê? — Luna fechou o notebook com mais força do que pretendia. — Alguém ocupar uma mesa inteira num lugar lotado e ainda parecer ofendido por ser abordado.Ela ergueu o queixo. — Interessante é alguém achar que educação é salvo-conduto pra invadir o espaço alheio.O silêncio que se seguiu teve peso. Teve forma.— Theo — ele disse, estendendo a mão, como se o nome resolvesse alguma coisa. — Não pedi seu nome. — Eu sei. Mas achei justo me apresentar antes que você me chamasse de inconveniente em voz alta.Luna riu — um som breve, sem humor. — Não costumo falar em voz alta. Prefiro pensar… e agir depois.Theo inclinou levemente a cabeça, reconhecendo um desafio à altura. — Então estamos em igualdade — disse, com um meio sorriso. — Eu observo antes de decidir se vale a pena insistir.Ela se levantou de repente, um movimento firme demais pra não significar despedida. — Fique com a mesa. Você claramente precisa mais dela do que eu. — Não preciso — Theo respondeu, calmo — mas agora fiquei curioso.Luna parou. Virou-se lentamente. — Curiosidade também é uma forma de invasão, sabia? — Às vezes — ele disse — é só o começo do que a gente não planejou.Os olhos deles se encontraram. Demais para dois estranhos. Longo o bastante para nenhum dos dois gostar do que sentiu.Luna saiu. Theo ficou. Mas entre eles, algo havia ficado — invisível, denso, inevitável. A sensação de que, por mais que tentassem, aquele encontro ainda não tinha terminado.
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